A marca
5 Divergência e novos conhecidos
Notas iniciais
A manhã de Will e de Helena estava bastante comum, ainda mais se considerasse todas as coisas que aconteceram no dia anterior. Helena agora se perguntava "será que todas aquelas ocorrências que meus pais reclamaram era por conta daquela garota? A Ai". Will por sua vez estava mais preocupado com o fato da luz estranha mais cedo que jurava haver visto e os acontecimentos estranhos de mais tarde, não poderia ser apenas coincidência tudo isso no mesmo dia.
Ambos tomaram seus cafés da manhã normalmente antes de ir para aula, o dia hoje parecia tender para a chuva, com diversas nuvens escuras no céu, mas o sol ainda se mostrava persistente com uma leve sensação de calor confortável. Por coincidência, ou nem tanto, ao pegar o caminho para a escola hoje Helena se encontrou com Will, também em seu trajeto.
— Mudança de hábito? — Disse ela, já que não encontrava ele nessa hora
— Hm? Ah, oi — Respondeu o garoto agora vendo Helena se aproximar — Na verdade não, sempre saio nesse horário.
— Estranho, também saio sempre nesse horário — A garota retrucou confusa, fazendo uma breve pausa para pensar — Escuta, você por acaso não viu ou sentiu nada diferente ontem? Digo, fora o fato de estar inteiro depois do caminhão — Ela deu uma leve risada nervosa.
— Sim, estava pensando nisso, mas nada faz sentido. Você viu algo diferente?
— Ontem eu estava observando o projétil e eu pude rever o que aconteceu, só que, eu me via na loja atendendo o assaltante.
— Tipo em terceira pessoa? — Will agora parou, surpreso.
— Isso! Eu tentei me alertar sobre o perigo mas "eu" não ouvi. Aconteceu algo semelhante contigo?
— Estranho? Sim, mas não presenciei novamente o que já aconteceu, mas uma mulher falou comigo, uma voz jovem.
— Ai — Helena respondeu automaticamente — Esse é o nome dela.
— Ela falou contigo? — Will agora estava mais surpreso e confuso
— Hm? Quem? — Ela respondeu confusa
— A tal "Ai", oras. Você acabou de falar o nome dela
Helena refletiu por um instante, notando que realmente havia dito isso:
— Estranho, por um momento foi como se não tivesse falado, algo não está certo.
— Como se estivesse certa de algo e depois que chamaram sua atenção, você percebeu que estava errada? — Will encarava ela, desconfiado.
— Exatamente.
— Aconteceu com seu nome, eu podia jurar que começava com S.
— Samara?
— Não, era tipo, japonês… Shi alguma coisa
— Eu… tive uma ideia, mas pode ser estranho — Helena começou — Antes, com o projétil, eu me concentrei bastante nele e pude ver o que aconteceu. Talvez…
— Você possa ver meu passado… — Will constatou — Ok, assim, isso tudo parece loucura, mas… Eu parei um caminhão, então vamos ver o que da.
Helena encarou Will por um tempo, mas nada aconteceu. O garoto apenas fez uma expressão confusa esperando algo e ela por sua vez apenas acenou a cabeça em negação.
— Tinha algo que fez além de ver o projétil? Deve haver alguma "regra" para ativar isso — Will tentava instigar sua amiga
A primeira coisa que Helena recordava era de que estava em trajes bem mais reduzidos que sua roupa escolar, o calor em seu rosto foi inevitável, então ela apenas respondeu rapidamente a segunda coisa que havia se lembrado.
— Eu estava segurando o projétil na mão, então… contato?
Ele estendeu o braço até ela, indicando para que segurasse para tentarem novamente, e dessa vez quando Helena se concentrou uma espécie de tinta preta tomou conta de seus olhos e os arredores dos dois foi tomado por uma névoa escura que aos poucos tomava a forma da sala de aula, ambos conseguiam ver aquela cena ocorrendo no passado, viam Will com clareza na sala de aula, então uma garota se aproximou mas estava de costas para os dois que observavam a cena. O cabelo inegavelmente era muito parecido com de Helena, mas algo no corpo dela não era igual, apenas não dava para se dizer o que.
Helena soltou o braço de Will e toda a cena se desfez imediatamente, a fumaça perdeu forma e em questão de um segundo o mundo voltou ao normal, assim como os olhos da garota, que perderam a tintura negra.
— Não era você — Disse Will — Mas porque parece?
— Não acho que vamos descobrir isso agora, mas algo está muito errado — Helena encarou ele, depois tentando ficar descontraída — Aula?
— Acho que é o jeito. Hoje é física nos primeiros, né?
— Sim, Posso sentar perto de você? Para tentar conversar sobre essas… coisas.
Will afirmou com a cabeça e os dois prosseguiram para a aula, logo após se sentarem o sinal tocou, mas havia um clima diferente hoje que os dois não notaram. Havia mais pessoas que misteriosamente mudaram naquela sala, além disso. Muitos olhos estavam sob Helena, afinal ela havia chegado com um garoto e foi sentar perto dele, o que poderia significar apenas uma coisa, romance, ao menos era o que essas pessoas pensavam porque Will e Helena estavam focados em tentar descobrir o mistério que rondava suas vidas.
O professor chegou, interrompendo os olhares, sem nem mesmo notar o clima diferente na sala, e sem muito espaço entre entrar na sala e deixar suas coisas na mesa ele já começou a explicar o conteúdo com bastante alegria e empolgação.
— A energia cinética é a energia do movimento, é a força que sentem quando algo acerta vocês, como uma bola de futebol por exemplo! — Ele falava
Helena nem prestava atenção na aula, ainda tentando entender os acontecimentos, enquanto Will ficava entre a aula, que roubava sua atenção, e a própria sala que parecia diferente de alguma forma.
A aula até o intervalo passou rápido, com alguns conteúdos novos e nenhuma ocorrência fora do comum, até agora.
— Oi, tudo bem? — Era uma voz masculina falando atrás dos dois
Quando Helena e Will se viraram notaram um garoto com um cabelo entre o cacheado e afro, era bastante volumoso, ele era um pouco mais alto que Helena, regulando de altura com William.
—Você é novo na classe? — Helena perguntou — Não vi você sendo apresentado hoje.
— Então, eu ia perguntar o mesmo — Ele segurou um riso — Mas isso deve ter algo haver com o lance de ontem
Dessa vez Will que falou:
— Lance de ontem? — "Um acidente" pensou ele
Helena pareceu pensar o mesmo, sua mão foi de encontro ao garoto, segurando seu pulso e a névoa negra tomou conta dela e do garoto, deixando Will para trás (onde quer que isso fosse). Ela e o garoto novo estavam em uma sala, podiam ver o garoto sentado no sofá lentamente adormecendo com seu gato no colo, um gato preto relativamente grande.
Foi quando o garoto deu um pequeno pulo, como se acordando de uma queda no sonho, assustando o gato que correu para longe.
— Desculpa Kuro — falou ele olhando o gato com pena de tê-lo assustado, depois percebendo que algo estava errado, algum cheiro ruim no ar.
O garoto foi até o cozinha e acendeu a luz, e nesse pequeno instante que notou seu erro, o cheiro estranho era de gás de cozinha e quando ele ligou a luz uma pequena faísca fez com que chamas consumissem todo o apartamento em menos de um segundo, levando tudo pelos ares.
No segundo seguinte, Helena e o rapaz que ela havia levado junto para a visão estavam novamente na sala, o garoto agora estava ficando mais confuso ao rever tudo, mas a curiosidade de ver até onde a extensão dos poderes dela ia era maior. Aparentemente eles voltaram no tempo, como em um loop daquele momento antes da explosão, o garoto do sofá deu um pulo novamente se desculpando com o gato, porém agora os olhos dele estavam diferentes, amarelos e apresentavam vincos na pupila, como os de um felino.
O garoto do passado olhou para os dois e então a visão tremulou, mostrando que tudo não se passava de uma ilusão formada de névoa, até finalmente se desfazer.
Will encostou nos dois, dando uma leve chacoalhada, falando:
— Ei! Estão me ouvindo?!
Helena assentiu com a cabeça, perguntando ao garoto novo:
— Como disse que era seu nome mesmo?
— Não disse, é Yuri. Então… o que foi isso que eu vi agora a pouco? Foi bem legal.
Helena trocou rapidamente olhares com Will, como em afirmação ao questionamento silencioso que ele fez e então ela explicou para Yuri sobre os acontecimentos e como ele parecia se encaixar nisso.
— Quer dizer que pessoas se acidentaram ontem, mas escaparam da morte certa, e ainda conseguiram poderes — Yuri constatou
— É o que parece — Era Will apoiando a tese — E você? O que faz?
— Eu ainda não entendi bem, só aconteceu uma vez, com o Kuro.
— Kuro? — Will repetiu
— Kuro, meu gato. Eu assustei ele sem querer, eu tinha tido um pesadelo e…
— Você lembra do pesadelo? — Helena parecia ter captado algo que eles não tinham — Com o que sonhou.
Os olhos do garoto mudaram de novo, para os mesmos olhos felinos, percebendo isso Will e Helena tentaram de alguma maneira fazer com que os, poucos, outros alunos em sala percebessem essa mudança. Yuri observou os arredores e sua expressão mudava.
— Isso é muito doido, você era a luz roxa ontem, e o sonho… tinha uma garota.
— Luz roxa? — Will encarou Helena
Enquanto isso Helena se focava na segunda parte da frase:
— Ai, de novo.
Yuri encarou os dois, falando:
— Essa luz, que está em vocês. É a mesma de ontem, antes da explosão, e quando eu… "morri" — Ele fez sinal de aspas com os dedos — Eu acabei voltando pra quando acordava, porém antes disso eu vi a garota, ela disse que uma das minhas vidas tinha sido gasta.
— Qual luz? — Will parecia fixado nisso — Eu vi uma ontem, mas depois disso não vi mais
— Vocês dois parecem ter um véu roxo, uma luz dançando ao redor de vocês — Yuri olhou para outra pessoa, apontando discreto — Ele não tem.
— Provavelmente algo haver com nossas habilidades — Helena constatou, mas Yuri, seus olhos… você sabe que estão diferentes, né?
O garoto pegou seu celular e viu na câmera frontal, soltando um "O QUE?!", bastante alto, os poucos colegas de classe olharam na direção do garoto, tentando ver o que tinha acontecido, mas como Will e Helena tinham feito ele ficar de costas para os outros, ninguém percebeu.
— Começou quando tu viu as auras — Helena finalizou
— Deve estar relacionado, eu acho — Yuri falou, confuso — Uma vez eu vi que gatos podiam ver espíritos e outras dimensões, e meus olhos parecem de felino, iguais os de Kuro…
— Você estava com ele na primeira vez que os poderes se manifestaram, talvez ele tenha algum tipo de ligação contigo — A garota disse.
O sinal tocou, interrompendo a conversa dos jovens, Yuri estava indo para seu lugar mais afastado dos dois quando ouviu Will falando uma última coisa.
— Tente usar isso para identificar outras pessoas, devem haver mais.
Yuri podia apenas pensar "Como que eu vou usar esse 'trem'?", mas acenou afirmativamente com a cabeça. Os três jovens tinham certeza que poderiam controlar eventualmente essas habilidades, afinal todas as histórias de super heróis, de quadrinhos ou filmes e séries, o herói sempre aprendia como controlar. Uma hora ou outra.
Quando os alunos chegavam na sala podia se notar uma pequena comoção entre algumas garotas falando de um cachorrinho preto e branco e peludo, husky talvez, fora isso os alunos estavam no humor habitual, desmotivados de ter que voltar pra segunda parte da aula.
A aula em si seguiu seu curso normal, o fato de Helena ter mudado de lugar na classe acabou atraindo a atenção do professor de Matemática, matéria que ela era a melhor da turma, o que fez o professor direcionar um maior número de questões para Helena talvez para evitar que ela perdesse seu gosto pela matéria e ficasse distraída por uma má influência de Will, ao menos foi esse o raciocínio do professor. Quando todos menos esperavam o sinal da liberdade, do fim da aula, tocou e todos os alunos se encaminharam para suas casas. Na saída os três alunos se encontraram brevemente e Yuri se antecipou:
— Então, se liga nisso — Os olhos dele mudaram por um segundo — Eu consigo fazer bem rápido só.
Will e Helena se entreolharam, logo em seguida ela perguntou:
— Você treinou isso durante a aula?
— Sim — respondeu o garoto, orgulhoso — Bora dar uma olhada rápida nessa gente.
Nisso Yuri se virou para a aglomeração que saía do portão frontal da escola e novamente utilizou de sua habilidade, mas a luz que ele viu dessa vez não era roxa, mas vermelha.
Fale com o autor