A marca
10 Um novo nível
Notas iniciais
— Não me faça matar você, irmão — Ai, no corpo de Helena, falava
— O dia em que você sequer me arranhar vai demorar para chegar, pequena — "Jasper" ria de leve, visivelmente era o próprio Igna
Ai estendeu a mão para seu adversário, puxando o ar, e Igna veio arrastado para perto da garota, imediatamente levando um soco que o deixou no chão e isso não foi o pior, a onda de impacto causada pelo golpe foi tamanha que forçou quem estava próximo a recuar alguns passos. As pessoas, agora notando a proporção que isso havia tomado, começaram a ir para próximo de onde era a casa de madeira, agora destruída.
Igna se levantou, rindo de leve ainda:
— Você ousa… — Ele retribuiu o soco, fazendo Ai voar alguns metros para longe, caindo de joelhos — Mas nossos níveis são completamente diferentes!
Ai desapareceu, com um estrondo supersônico, aparecendo na frente de Igna abaixada, desferindo um golpe bem no estômago fazendo ele cuspir, não sangue, mas brasa e chamas, ela então agarrou os cabelos dele e puxou-o com força até o chão, enfiando a cara de Igna na terra e pisando logo após.
— Você fala demais
As chamas nos céus aumentaram, e de baixo dele uma torre de fogo subiu, cobrindo os dois por poucos segundos, quando a torre finalmente desapareceu, Will e seus colegas puderam ver que Ai havia sido arremessada dez metros pelos ares e Igna ainda estava no chão agora em pé, ele então juntou forças nas pernas e deu um salto, facilmente chegando até Ai e dando desferindo um soco certeiro no rosto dela, que rodopiou com o impacto.
Diminuindo a velocidade, eles começaram a cair, Igna amorteceu a queda com as pernas enquanto Ai, ainda abalada pelo golpe, caiu sem jeito em um baque surdo.
Igna andou lentamente para onde Ai estava, sua mão brilhava indicando que chamas irromperiam absurdamente fortes em questão de segundos, ele apontou a mão para Ai:
— É seu fim.
E exatamente nesse momento Igna foi surpreendido por um soco no peito, ainda maior que o que recebeu de Ai, Will havia vindo com toda a velocidade que conseguiu empregar, atravessando o peito de Igna, e consequentemente de Jester.
Os outros alunos olharam em um misto de horror e descrença para a situação, sem saber o que fazer.
— Você realmente fala demais — Will removeu a mão dele do peito do garoto, seu braço estava quebrado em diversas partes, com queimaduras de 3º grau por conta dos poderes do espírito flamejante.
Ai se levantou com calma, o corpo de Helena estava bastante debilitado, com roxos espalhados por ele, ela encarou Will, se virou para os alunos ainda chocados e então olhou o céu. As chamas lentamente desaparecendo.
— Parece que você baniu ele — Ai falou baixo — Parabéns, não é uma tarefa simples, embora eu estivesse querendo matá-lo.
Will controlava a dor enquanto tentava se sentir agradecido pela parabenização:
— Tentei apenas ajudar, você parecia em apuros.
Ai o olhou, dessa vez com gratidão:
— Você me ajudou? — Ela olhava o rapaz com uma mescla de surpresa em seus olhos.
Nisso ela caiu no chão como se estivesse sendo sufocada, indo com as mãos no pescoço para desvencilhar o que a apertava, que não estava lá. O céu não apresentava nem as chamas, nem a fumaça, agora era tomado de nuvens negras, como se fosse chover a qualquer momento.
Um trovão percorreu a planície, falando:
— Vocês não devem ir à Terra, eu já havia relevado suas ações Ai… Mas agora, agora não há desculpas.
Ai lutava inutilmente contra essa força que a estrangulava, a fumaça negra começou a sair de Helena, mas antes de sair totalmente, Ai apontou para Laura.
— Use isso… Crie coisas, arrume coisas… Você precisa e precisará ainda mais — Os olhos de Helena foram voltando ao normal e Laura sentiu suas energias revigoradas.
Helena caiu no chão, respirando ofegante devido às diversas lacerações e queimaduras vindas do combate com Igna, afinal o corpo dela era que tinha sofrido maior parte dos estragos. Laura se aproximou, colocando as mãos em Helena e sussurrando:
— Esses ferimentos nunca aconteceram… Nunca aconteceram — Ela dizia quase que como um mantra, repetindo constantemente.
Lentamente os ferimentos de Helena foram sumindo, Laura fez um movimento circular com as mãos e então afastou-as para longe de si, respirando fundo.
— Está feito — A garota, levemente ofegante, sorriu para seus colegas.
— Você curou ela? — Yuri estava surpreso — Como assim? Seu poder é mudar a realidade!
— Eu mudei, para uma que ela nunca se feriu — Laura respondeu — É difícil explicar, quando Ai falou comigo, senti que poderia fazer isso — A garota, agora ruiva, percebeu o estado do braço do Will — MEU DEUS — ficando confusa com a expressão, já que "deus" era uma coisa estranha de falar após ter visto Ai.
Ela se aproximou de Will, fazendo o mesmo procedimento, porém dessa vez a concentração exigida foi muito maior e após quase um minuto os ferimentos sumiram, Laura parecia exausta mas não só isso, seus cabelos que antes eram totalmente laranja por conta de seus poderes agora apresentava uma mecha do mais puro branco, da raiz até a ponta.
— Vocês parecem próximos de seu espírito — Morgana, que estava quieta até agora, constatou
Yuri deu um pulo, olhando a garota que não estava mais com seus poderes ativados, falando:
— Igna não é assim?
Ela cerrou os olhos, encarando ele por um instante:
— O que acha? Ele preferiu usar Jester para matar vocês… Eu vi Igna dentro dele, e não foi nada bonito.
— Viu? — Will perguntou, curioso — Como assim?
— Eu posso… — Ela procurou as palavras — Controlar as pessoas, como fantoches, mas quando faço isso coloco elas em um tipo de transe.
— Isso é bem legal — Yuri disse, um pouco animado
— Até que sim, mas quando faço isso, posso ver a pessoa presa no sonho que à coloco — Ela fitou o nada — Quando tentei controlar Jester, Igna estava lá… Aquilo não era um sonho.
O tom de voz da garota completou o resto, certamente a experiência que ela teve foi digna de um fronte de batalha de Guerra Mundial.
— Pelo menos isso tudo acabou — Will disse
— Não acho que seja o caso — Os olhos de Yuri estavam como os de felino — Tem aura…
— Onde? — Will olhava em volta — Que cor?
— Em tudo, mais cores que eu imaginei existir… — O garoto estava extremamente surpreso — Tem algo acontecendo
— Vamos entrar — Laura andava na direção da cabana, estranhamente reconstruída
— O que? — Yuri desativou os poderes — Quando?
— Vocês se distraem demais — Ela respondeu — Consegui inclusive fazer algumas alterações — Disse ela satisfeita.
Ao entrarem, a primeira coisa que notaram foram móveis, a casa estava completamente mobiliada de uma maneira os móveis novos combinavam perfeitamente com o estilo da casa, estava bem iluminada com velas que pareciam não desgastar nunca e o ar era bastante aconchegante.
Quando a última pessoa entrou o barulho de madeira retorcendo pôde ser ouvido nos cômodos fazendo todos, exceto Laura, para de andar.
— É uma propriedade da casa, se adaptar a quantidade de pessoas que precisam de descanso.
— Espera aí, você fez isso tudo? — Will, que carregava Helena ainda abatida pelo ombro, perguntou.
— Presente da Ai, não acho que eu consiga sozinha…
Um telefone tocou, Yuri olhou em seu bolso, vendo quem estava ligando para ele:
— Caramba, tô ferrado, minha mãe — O desespero era perceptível
— Deixe comigo — Morgana estendeu a mão, oferecendo para pegar o telefone
Todos se entreolharam, por fim Yuri entregou o aparelho para ela, que prontamente atendeu, seus olhos ficando em chamas novamente:
— Alô — Houve uma pausa maior do que o esperado e então Morgana desligou — Ela sabe que você vai dormir fora
— ELA O QUE? — Yuri estava assustado — Ela vai me matar
— E ela está de boa com isso — Morgana completou
— Oi? — Yuri disse, extremamente confuso
— Faz parte do kit Igna de poderes especiais — Morgana piscou
Após isso o grupo ficou mais descontraído, Will levou Helena para um dos quartos e deixou-a dormindo, voltando para conversar com seus colegas. Aparentemente Laura tinha alterado a realidade novamente e seus pais não viam problema na garota dormir fora de casa
— E essa mecha branca aí? — Yuri chamou a atenção para o cabelo de Laura — Novo estilo?
— O que? — A garota claramente não havia entendido a pergunta
— Aqui ó — Yuri se aproximou de Laura, pegando calmamente a mecha branca — Vê? Branca.
— Não era para estar assim — Laura se focou na mecha, mas nada aconteceu — Por que não funciona?
— Talvez tenha se desgastado demais — Will falou
— Talvez esteja morrendo — Morgana sorriu com a própria piada mórbida
Laura encarou com desprezo a garota, encarando depois a mecha, constatando:
— Não ficou tão ruim assim
Os jovens após isso se reuniram na sala, ligando a TV para tentar se distrair e voltar a um clima minimamente normal de vida, mas esse simples ato teve o efeito exatamente oposto, um repórter em um helicóptero falava alto por conta do barulho.
— E essa destruição toda parece vir dessa criatura semelhante à um cão selvagem de tamanho surpreendentemente avantajado, é realmente inacreditável. A área foi isolada, e a contagem de vítimas chega em 79 feridos, 31 mortos e 10 desaparecidos…
As imagens mostravam a criatura sendo contida por um tiroteio concentrado que parecia não fazer tanto estrago quanto deveria, o monstro estava recuado em meio aos escombros do que parecia ser antigamente um prédio de dois ou três andares, na legenda da reportagem dizia "Criaturas surgem ao redor do mundo causando perigo generalizado" e o local mostrado atualmente era Londres.
O local mudou, era uma mulher asiática em um estúdio falando rapidamente enquanto imagens eram mostradas, uma criatura semelhante a uma serpente se enrolava em um prédio, tentando alcançar pessoas dentro deles até que finalmente agarrava uma com a boca e a engolia sem dificuldades, já procurando outra presa.
Os locais eram os mais diversos e pareciam ser em cidades populosas e capitais, eles se encararam por um segundo, sabendo que isso certamente tinha algo haver com os poderes deles.
Uma batida na porta tirou eles do 'transe' que haviam entrado pelo terror que presenciaram na televisão, Will foi desconfiado até a porta enquanto os outros iam logo atrás para atacar o possível intruso. Ao abrir a porta uma baixa garota de cabelos platinados e olhos azuis e um garoto alto de cabelos castanho escuro arrepiados e olhos na mesma cor estavam parados na frente da porta.
— Olár — Disse a garota
Os olhos de Yuri mudaram por um instante para felino, observando se eles tinham aura, e de fato eles tinham.
— Galera — Yuri chamou a atenção — Aizados.
— Você REALMENTE tem que melhorar esse nome — Laura encarou o garoto
Will encarou os dois na porta, observando mais ao longe para ver o clima, o céu havia voltado ao normal, logo nenhuma nuvem estava no céu. Observando melhor os dois, eles pareciam estar perdidos na floresta e acabaram por encontrar a cabana, pois suas roupas estavam sujas e um pouco rasgadas.
— Como encontraram esse lugar? — Laura perguntou
— Sorte, eu acho — A garota platinada respondeu, sorrindo de leve
Laura a encarou com suspeita, após alguns segundos Will convidou ambos para entrar, já que eram do mesmo grupo de Ai, sentaram-se nos sofás enquanto o ranger de madeira era ouvido ao longe pelo fato da casa estar se ajustando novamente.
— Então, o que vocês fazem? — Yuri perguntou entusiasmado — Quais seus poderes?
— Ele quis perguntar, como se chamam? — Will corrigiu — Mas saber seus poderes seria legal também.
— Me chamo Maru — A garota começou — Não sei disso de poder, vocês tem poder? Eu tenho estado numa maré de sorte ultimamente, tipo achar esse lugar — Ela sorriu despreocupada.
— Podem me chamar de Jake — O garoto alto falou, sem animação — Eu consigo… controlar as emoções, das pessoas.
Laura pareceu intrigada com o rapaz, logo após isso eles explicaram o que haviam conseguido coletar de informação até agora, a respeito das entidades poderosas, os monstros e uma possível guerra se formando.
— Então era isso aquela marca de corpo queimada lá fora… — Jake constatou
— Marca? — Will estava confuso — Jester… Esquecemos do corpo dele
— Não tem mais corpo, apenas brasas no formato de um corpo — O garoto alto repetiu
— Bom, parece que as coisas estão se encaminhando — Will respirou fundo — novamente, para um novo nível.
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