A marca
11 A casa segura
Notas iniciais
Laura olhou para o lado, surpresa ao ver Helena apoiada na porta que dava para o corredor dos quartos.
— Alguém falou em marca? — Ela estava visivelmente abatida
— Helena! — Will foi até ela preocupado — Você ta bem?
Laura e Yuri seguiram ele, preocupados com a colega.
— Estou sim, meu corpo ta dolorido, fora isso estou 100%, quem são estes? — Ela perguntou — E o que houve? Eu desmaiei?
— Estes são Maru e Jake, ganharam poderes de Ai também — Will falou — Quanto ao que houve
— A Ai te possuiu tipo, sei lá, um demônio e deu uma surra no outro deus, sei lá o que, Igna — Yuri falava empolgado — Foi doido demais
— Ela o que? — Helena estava ainda mais confusa
Maru e Jake se entreolharam, desconfortáveis por estar fora do assunto e em meio a desconhecidos um tanto quanto estranhos.
— Todos aqui tem poderes dessa… Ai? — Jake perguntou
— Eu não — Morgana prontamente respondeu, o tom de voz dela apresentava uma certa distância — Meus poderes vêm de Igna.
— O cara do mal — Ele constatou, Morgana apenas assentiu com a cabeça.
Após uma breve pausa Will indagou:
— Laura, porque estava tão incomodada com eles encontrarem a casa? Eles parecem legais
— A casa não pode ser encontrada a não ser que a pessoa procure expressamente por ela, não adianta ser algo como "um refúgio" ou "um lugar para dormir", ela deve ter em mente exatamente esse lugar — Ela disse de forma automática e triste.
Seus colegas a encararam por alguns momentos, quando foram interrompidos por um som de motor bastante familiar, um helicóptero, o barulho ia ficando mais alto até que chegou acima da planície que a casa de madeira estava, o helicóptero pousou e vários homens armados desceram, juntos de alguns indivíduos mais arrumados, homens e mulheres que pareciam cientistas.
Os soldados e cientistas começaram a andar pelo perímetro até encontrar as marcas de queimado no chão, conversando entre si, mas nenhum deles chegou nem perto da casa.
Yuri encarava eles pela janela:
— Tem certeza que isso funciona? — Ele perguntou
— É só não abrir a porta — A certeza na voz de Laura era perceptível
Enquanto isso Morgana e Jake conversavam descontraidamente, Helena estava sentada em uma das poltronas e Will um pouco distante dela, visivelmente preocupado.
— Gente! Encontrei lasanha na geladeira! — Maru chegou com uma lasanha de microondas ainda congelada em mãos — E tem mais algumas lá para todo mundo!
— Isso faz parte da casa? — Yuri sussurrou para Laura
— Não — Agora até Laura expressava confusão — Não era para ter nada aqui
Maru e Yuri começaram a preparar as lasanhas enquanto os outros, exceto Helena que estava na sala, esperavam ansiosamente na mesa de jantar, conversando entre si. Porém foram interrompidos novamente por um plantão de notícias, Helena aumentou o volume para que os outros ouvissem também:
"Aparentemente não são só monstros que estão surgindo ao redor do globo, algumas pessoas estão apresentando habilidades sobre humanas tão destrutivas quanto a dessas criaturas" — As imagens na TV mostravam um jovem de cabelo médio castanho claro e liso, os olhos dele estavam em um tom esbranquiçado e ele parecia falar para as pessoas se afastar dele, logo em seguida rajadas de um tipo de pulso de ar irromperam dele acertando diretamente um dos policiais que tentava se aproximar para contê-lo, facilmente destroçando o braço do homem em pedaços em uma cena brutal, a imagem foi cortada e agora mostrava o jornalista — "São imagens aterrorizantes realmente, e este não é o único indivíduo que foi presenciado com essas habilidades de destruição terrível, esperamos que as autoridades prendam logo esses criminosos"
A TV foi desligada, Helena encarava a tela agora estática, negra como seus olhos quando utilizava seus poderes, o grupo estava em choque.
— E se eles nos acharem? — Helena perguntou, sem esperança
— Temos que mostrar pra eles que não somos assassinos — Will respondeu para o grupo — Não somos igual aquele cara, controlamos nossos poderes
— É, mas não somos tão fortes para ajudar ninguém — Laura rebateu — Mal conseguimos nos ajudar
— Vamos ter que ficar — Yuri respondeu
— Acho que antes disso temos que comer — Maru falou despreocupada, colocando a lasanha na mesa — Bora?
Todos se encaminharam lentamente para a mesa, visivelmente abatidos pelo noticiário. O jantar foi silencioso, com exceção de Maru que parecia estar completamente despreocupada com o ocorrido.
Após o jantar a maior parte deles foi dormir, deixando Helena encarando a janela, observando os soldados e cientistas no perímetro, estudando o que havia sobrado da luta. Helena respirou fundo e se concentrou, tentando fazer uma ilusão que os distraísse, ao soltar o ar uma fumaça negra saiu de seus lábios, batendo diretamente no vidro e assustando um pouco ela, que mexeu na fumaça, o gás negro começou a tomar forma, virando o lobo visto na TV, flutuando a frente da garota.
— É exatamente o que imaginei para assustá-los…
— Talvez seu poder dependa disso — Laura falou atrás dela, surpreendendo Helena, o que fez o lobo perder forma e a fumaça se dissipar — Para usar meus poderes eu preciso imaginar o que quero, respirar fundo e olhar para onde quero que apareça o objeto.
Helena repetiu, agora imaginando o pequeno sol, a fumaça expelida de sua boca logo tomou formato esférico e então começou a brilhar, tomando uma tonalidade esverdeada.
— Um sol verde? — Laura estava confusa
— Tem enxofre na composição… — Helena ainda parecia abatida com o noticiário
A conversa foi interrompida por uma situação que já havia acontecido, um celular tocando, dessa vez de Helena, ela respirou fundo e atendeu. Sua mãe falava com ela, preocupada.
— Calma mãe, to bem… Eu acabei perdendo a hora e vou dormir na casa de uma amiga, essas coisas do noticiário, tenho medo que apareçam aqui também
Houve uma pausa então Helena ofereceu o celular para Laura.
— Ela quer falar contigo — Disse Helena
Laura conversou brevemente com a mãe de Helena, tentando a tranquilizar da melhor maneira possível, o que aparentemente deu certo, logo depois ela se despediu e desligou .
— Vamos resolver isso de um jeito melhor depois — Laura falou, entregando o celular para Helena que assentiu
As duas foram lentamente para seus quartos e as luzes da casa começaram a diminuir, deixando a penumbra tomar conta do local. No dia seguinte Helena acordou e foi direto para a cozinha ver se havia algo na geladeira para preparar, apenas para se surpreender com o banquete já servido e Maru terminando de colocar algumas coisas na mesa.
— Bom dia Lena — Maru sorriu
— Dia — A garota respondeu, observando o banquete — Você que fez?
— Sim sim, você não acredita… Tinha tudo isso quase pronto! A geladeira ta lotadíssima!
Helena abriu a geladeira mas nada havia lá, ela olhou de canto para Maru e mostrou a geladeira, deixando a garota confusa.
— Ué, tinha sobrado várias coisas, que azar tudo sumir assim…
— O que sumiu? — Yuri chegou bocejando, logo depois percebendo a mesa lotada — Um banquete! Caramba, que fome! — Com isso ele se sentou e começou a se servir, esquecendo completamente a pergunta que havia feito.
Elas o encararam por alguns instantes, se perguntando o quão faminto o garoto estava por esquecer a própria pergunta, os olhos do garoto estavam como de felino e ele comia com empolgação um prato cheio de donuts com muito recheio, além de pão com goiabada. Enquanto isso os outros iam chegando e sentando na mesa servindo o próprio prato, surpresos com o banquete, Laura preparou pão com mel e uma xícara de chá preto por causa da cafeína, Morgana teve uma abordagem menos preocupada servindo-se de panquecas com mel, porém a escolha do mel foi simplesmente pelo sabor. Helena serviu-se de café e pão com manteiga, Will teve o mesmo por achar mais simples, Maru foi para os doces, pão com muita geléia e achocolatado para acompanhar, por fim Jake escolheu um cappuccino.
— O que vamos fazer agora? — Will perguntou, encarando a janela, os soldados ainda estavam lá
— Vai ser difícil sair daqui sem eles nos notarem — Laura acrescentou
— E se a gente andar abaixado?! — Maru parecia realmente acreditar nesse plano, o grupo fez silêncio pensando em algo que realmente pudesse funcionar
— Posso tentar criar uma ilusão — Helena disse
— É arriscado, mas pode dar certo — Will respondeu
— Por que não ficamos aqui? — Jake falou, assustando todos, já que era o mais calado — Quer dizer, tem tudo aqui
— Não podemos ficar, temos uma vida — Laura retrucou — Acho que Helena consegue nos tirar daqui sem problemas.
Jake pareceu desconfortável, embora apenas Morgana tenha notado essa situação. Depois disso todos terminaram o café da manhã e se prepararam para a escola, Will olhou pela janela para se certificar da presença dos soldados.
— Parece que o movimento diminuiu — Ele disse, um pouco mais tranquilo, apontando para os poucos soldados do lado de fora, porém algo chamou atenção de Helena.
— Will, o que é isso? — Ela apontou para a tatuagem na mão dele
Ele encarou a marca, ficando bastante confuso:
— Eu vi uma igual, em seu pulso, mas ela tinha sumido — Ele apontou para o braço direito de Helena, agora vestindo uma blusa manga comprida.
Ela prontamente puxou a manga da blusa e lá estava novamente, a marca.
— Eu vi uma dessas, no dia que deu o acidente! — Maru falou, estranhamente animada, puxando a bainha da calça — No meu tornozelo, mas ela tinha sumido, OLHA ELA DE NOVO! — A garota parecia extremamente feliz pela pequena tatuagem ter aparecido novamente.
— Jake parece ter uma igual — Morgana apontou para o braço do garoto
— Yuri também — Agora Laura que chamou a atenção, esse nas costas da mão
Todas elas eram idênticas, um ponto e vírgula horizontalmente invertido com um traço curvo ao lado. Porém não eram como tatuagens normais, era perceptível a natureza sobrenatural da marca e apesar de tocarem na tatuagem, como assim chamaram, nada acontecia e logo o símbolo desapareceu deixando todos confusos. Após essa pequena comoção todos se voltaram para a saída da casa já que era perto do horário de aula e poderiam discutir isso depois.
— É agora ou nunca — Helena falou, respirando fundo e, ao soltar o ar, expirando uma densa fumaça negra.
A fumaça foi por debaixo da porta e se propagou pelo ar, ganhando volume rapidamente e perdendo sua cor, Helena se concentrou para que qualquer amigo seu fosse invisível às outras pessoas. Laura abriu a porta lentamente, colocando o pé para fora.
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