A maldição de Oxter

Com a aproximação do ocaso o céu tomou um tom vermelho arroxeado, similar ao manto de Sir Wesley, o sol já se punha a se esconder entre os altos pinheiros da floresta próxima à grande cidade de Oxter. A bela luz que cobriam os céus criava sombras na cidade graças aos altos muros e os mantos de neve branca como a barba de um velho que cobriam os longínquos montes ao norte dali tomavam uma coloração rosada como a pele de um bebe, ou de uma donzela. Da colina Sir Wesley observava os moradores irem à missa como formiguinhas, enquanto os cavaleiros e guardas da cidade zanzavam de um lado a outro cumprindo seus deveres. “uma cidade grande, há oportunidades por aqui, assim espero” pensou o cavaleiro andante com seu manto cor de vinho com cinco estrelas brancas no ombro direito a esvoaçar graças ao vento agradável.

Um comboio se aproximava dos portões, escoltado por mercenários e cavaleiros trajando os mais diversos tipos de armaduras e mantos, “alguns são do norte, assim como eu” ele observou, os homens do norte eram barbudos e envergavam grandes mantos de pele, mas eram poucos entre os cavaleiros que aparentavam ser da região.

Sir Wesley esporeou o cavalo e o pôs a galopar, descendo a colina em direção à cidade, passando por grandes pinheiros e algumas arvores menores até chegar à estrada pela qual o comboio passava, enquanto os acompanhava um pouco mais atrás, observou o lago e a floresta que fazia companhia para a estrada de terra. Sir Wesley gostava de observar a natureza, principalmente em momentos como aquele, em que o fim da tarde tornava tudo ainda mais belo lançando suas luzes rosadas. Como cavaleiro andante já havia visto coisas ainda mais belas como aquele lago e os pinheiros altos que escondiam o sol. Mas nem tudo era beleza, viu coisas horríveis também e como um homem de fé pôs-se a combatê-las, com a expectativa de tornar o mundo um pouco melhor, mas logo percebeu que era pequeno demais para tal coisa, mas pelo menos, sabia que bons atos mantinham sua alma em bom estado, se não pudesse mudar o mundo, que pelo menos conservasse sua alma e ajudasse os outros a fazer o mesmo.

Ao chegar ao portão aberto da cidade, a sombra dos muros altos o cobriu e os sons e cheiros o contagiaram, fazendo com que deixasse os pensamentos de lado. Oxter era a maior cidade da região, com altos muros e comercio movimentado. Adorava as cidades, principalmente cidades grandes como aquela, porém, não costumava ficar em cidades por muito tempo, até porque um cavaleiro andante precisa andar. Certa vez ouviu um homem nobre do qual não recordava o nome dizer que gostava de visitar os bosques e os campos para fugir das cidades, até que os afazeres o chamavam à vida real. Wesley pensava de maneira diferente, a vida real para ele era na verdade a vida fora das cidades, tudo aquilo que estava dentro dos muros era na verdade as emulações do mundo criadas pelos homens, aonde não se caçava para comer e não se construía abrigos, os sons da natureza criada por Deus eram substituídos pelos sons dos comerciantes e do falatório das pessoas, assim como o tilintar das cotas de malha dos guardas e cavaleiros e não se sentia os cheiros puros dos bosques e das florestas, mas sim os cheiros de carne assada das estalagens, ou da carne crua dos açougues ou então os odores fétidos das partes mais pobres das cidades. Ao invés de se construir abrigos ou acampar pagava-se a uma estalagem para ficar por um ou mais dias; Apesar disso, era bem cômodo, se tivesse dinheiro era melhor pagar pela carne de um javali do que caçar um.

Já dentro dos portões da cidade, cavalgou observando as lojas que se fechavam e os bordeis e tabernas que começavam a encher. Os cavaleiros andavam pela cidade com belas placas de metal protegendo seus corpos, segurando com as mãos enluvadas ou protegidas por manoplas lanças e alabardas.

A armadura de Wesley era mais simples. Usava duas placas de metal arredondadas que protegiam a barriga, a parte inferior das costas e as costelas por cimas de um gibão branco, as ombreiras eram longas e era a parte mais sofisticada de sua proteção, tinha três camadas de metal que se estendiam pelo ombro. Usava manoplas de ferro brancas e não usava elmo, apesar de que com o passar do tempo a necessidade de utilizar um havia se tornado um incomodo para Wesley. Por baixo do manto se escondia sua espada longa dentro de uma bainha de couro, cujo cabo espreitava pelo ombro protegido pelo ferro das ombreiras. Seus cabelos eram longos e apesar de jovem, brancos, o que era comum nos países ao norte do continente de Vaarstag, seus olhos eram grandes e expressivos, verdes como esmeraldas e uma barba fina cobria seu rosto.

Trotou pela cidade até uma taverna que se chamava “o dragão embriagado” e lá entrou. Viu um rato ou outro assim que entrou na taverna, alguns homens jogavam dados em uma das mesas, outros riam alto em outra, alguns cavaleiros bebiam e conversavam entre si em mesas próximas ao balcão, o ar estava pesado com o vapor das cozinhas e o cheiro de carne e especiarias pairava no ar. As moças que pareciam ser donas do estabelecimento andavam de um lado a outro servindo aos clientes, uma delas era jovem e bela, a outra mais velha e enrugada. Em uma das mesas um cavaleiro bebia ao lado de um jovem que parecia ser seu escudeiro, o cavaleiro usava uma placa de metal preta com o brasão da família real pintado no peito, o brasão mostrava um escudo com símbolos da família Dakhar e Cetigar, um cavalo branco sobre fundo azul e uma quimera sobre fundo vermelho, do lado esquerdo do escudo a quimera se erguia sobre as patas de trás com o leão a rugir e do lado direito o cavalo se erguia da mesma forma. Acima do escudo jazia uma coroa dourada.

Aproximou-se do cavaleiro e de seu escudeiro, o homem era velho e os cabelos brancos a muito haviam começado a aparecer, assim como as rugas, porém tinha braços fortes, e mãos firmes, a velhice aparentemente não havia lhe abatido. O escudeiro por sua vez não parecia ter mais de 18 anos e não trajava armadura e sim um gibão preto.

-Posso me sentar em sua mesa Sir? – Perguntou Sir Wesley.

-Ora, é claro, sente-se Sir...

-... Wesley – disse o cavaleiro jovem ao mais velho, sentando-se ao seu lado. – o senhor é?

-Sir Rickard e este aqui é meu escudeiro Jon.

-prazer em conhecê-lo Senhor– disse o garoto.

-não reconheço esse símbolo em seu manto. – disse Sir Rickard. Bebeu um gole de cerveja.

-Não estou a serviço de ninguém, pelo menos por enquanto, estive a serviço de lorde Steward há alguns meses atrás mas deixei meu serviço. As estrelas do manto não representam nenhum Lorde em específico

-É um cavaleiro andante? – o rapaz escudeiro perguntou animado

-Sim – Wesley sorriu.

O cavaleiro Sir Rickard riu e disse:

-O rapaz pensa em ser um cavaleiro andante como você Sir Wesley – Rickard acenou a uma das moças e pediu para que servisse uma cerveja a Wesley.

-É uma vida de aventuras se dúvidas rapaz. Mas há seus momentos de glória e de dificuldade, é muito mais fácil permanecer a serviço de alguém do que se tornar um cavaleiro mercenário. – Wesley bebeu um gole de cerveja, a bebida era muito boa, uma das melhores que já havia experimentado.

-Bem, não vou querer ficar num lugar só a vida toda, o mundo é grande demais – o escudeiro respondeu de maneira obstinada. Sir Rickard sorriu.

-O que um cavaleiro da família real faz aqui? – perguntou Wesley após tomar um longo gole de cerveja.

-A família imperial está na cidade. Estão conversando com lorde Souxen sobre a aceitação de refugiados do oriente nas suas terras – pela expressão do cavaleiro, ele não aprovava a ação da família imperial. Wesley compartilhava tal sentimento

-Como se os que já estão aqui não estivessem causando confusão o suficiente. – completou o menino.

-Ouvi dizer que houve um incidente nas terras de lorde Wyman – disse Wesley.

-Enforcaram um padre – Rickard bebeu um gole de cerveja – são aceitos e protegidos a todo custo e ainda por cima saem impunes dos crimes. Eu entendo que devemos ajudar as pessoas Sir, mas... Não devemos nos deixar ser feitos de tolos e tolerar a morte dos nossos irmãos.

-Não há oposição a essas políticas no parlamento? – perguntou Sir Wesley.

-Há, mas os parlamentares não conseguiram fazer muita coisa dessa vez. – o cavaleiro da família real encarou a cerveja em sua caneca por um tempo – eu sempre quis ser um cavaleiro da família real, eu nasci durante o reinado do rei Stannis, um homem de coragem, justo e principalmente um monarca inteligente, o que parece estar em falta ultimamente. Eu amo aquela família, todos eles, mas parecem se acovardar com o passar do tempo. Um monarca não devia ceder a chavões, ameaças e a caras feias, mas sim devia fazer o que é certo, independente dos maus olhares. Eles sabem o que é certo, mas temem a reprovação de certas pessoas.

-Que tipo de pessoas?

-Pessoas de influencia, parlamentares, artistas, acadêmicos, o tipo de pessoa que molda a mentalidade popular. Um líder não devia ter medo dessa gente, mas eles têm, e quem se fode somos nós.

Wesley entendia o que ele queria dizer. As guerras na qual os orientais haviam se enfiado fez com que uma horda de gente se dirigisse a países do ocidente como fugitivos. A aceitação dos orientais foi possível até certo ponto, quando os conflitos começaram a eclodir. Conflitos esses que Wesley já previra bem antes. O cavaleiro decidiu que esse tipo de noticia não traria dinheiro a seu bolso, que era o que procurava na verdade.

-Que outras novas há para mim? – perguntou Wesley. O cavaleiro Sir Rickard pediu mais cerveja.

-Bem, a estrada que leva à direção norte está interditada. – “interessante, talvez seja por causa de bandidos, isso pode me render uns trocados” Wesley pensou.

-Interditada? Por quê?

-Monstros na floresta, demônios na verdade, mortos se levantando.

-Mortos não se levantam sem motivos.

-pois é, andam dizendo que uma bruxa está na floresta, matou muitas pessoas, invocou demônios. Alguns cavaleiros se voluntariaram para ir até lá, mercenários do norte e do sul também, em busca da recompensa, claro. Nenhum voltou. – “recompensa... a palavra que eu queria ouvir” o cavaleiro pensou.

-Quanto é essa recompensa?

-Quatrocentas moedas de prata, o que é muito pouco pra se enfiar naquela floresta. Não é certeza de que isso seja culpa de alguma bruxa, alguma outra coisa pode ter desencadeado essa maldição, eu sei lá, não entendo dessas coisas. Mas quatrocentas moedas pra se enfiar lá é muito pouco. – disse Sir Rickard.

Wesley levou a mão à bolsa de couro que trazia presa ao cinto e a sentiu quase vazia, apenas dez moedas de prata. “Preciso de dinheiro” o cavaleiro pensou.

-Com quem eu falo por essa recompensa? – Sir Rickard o encarou por um momento.

-Não está falando serio.

-Estou, diga, com quem eu devo falar?

-Fale com Sir Reginald... É... é o comandante do forte próximo à igreja

O cavaleiro e o escudeiro trocaram um olhar. Então Wesley disse

-Obrigado, que Deus os acompanhem. – Wesley se levantou.

-Amém – disse Sir Rickard. – Ei, espere, não precisa jogar a vida fora assim.

-não estou jogando a vida fora – Wesley sorriu – um homem precisa de dinheiro para viver não é? – “talvez seja idiotice, bem, ser um cavaleiro andante é idiotice, então tudo bem” – até mais meus amigos, obrigado pela cerveja.

Tomou seu cavalo pelas rédeas e iniciou sua caminhada pela cidade, passando por estabelecimentos que se fechavam e bordeis que se enchiam. As pessoas saíam de suas casas, com seus filhos e parentes, o sino da igreja badalava e os fiéis se dirigiam a ela.

A praça era rodeada por estabelecimentos, estes que estavam todos fechados, os comerciantes começavam a dispersar com suas carroças de mercadorias e desarmavam suas barracas. No centro da praça havia uma estátua de mármore e alguns detalhes de ouro de são Arnold, o cavaleiro benevolente brandindo sua espada chamada “graça”. Os cavaleiros da igreja perambulavam pela praça aguardando o inicio da missa e saudando os fiéis, Sir Wesley foi até um deles.

-Saudações Sir – Wesley o saudou.

-Saudações – o cavaleiro respondeu após retirar o elmo. Era um homem jovem que não tinha mais de 23 anos, com o rosto marcado por cicatrizes, cabelo curto e loiro e olhos azulados.

-Meu nome é Wesley, procuro o seu comandante. Disseram que o nome é Reginald.

-Sir Reginald? Se me permite a curiosidade, o que deseja com o comandante?

-Ouvi dizer que os militares da igreja estão oferecendo recompensa por um serviço em específico. Ouvi dizer que a estrada para o norte está bloqueada, que a floresta está infestada com monstros e demônios.

-Sim, nós estamos Sir Wesley, mas não vejo mais ninguém com você, seria mais apropriado se mais pessoas do seu grupo se apresentassem a ele.

-Na verdade irei sozinho.

O cavaleiro o encarou por um momento, depois riu e disse:

-Sir Wesley, Deus nos deu livre arbítrio, mas a vida é sagrada, não recomendo que jogue ela fora assim.

-Não se preocupe comigo Sir, apenas me indique o caminho. – “não é da sua conta o que faço da minha vida senhor”, essa parte ele não expressou em palavras.

-Bem, continue seguindo em frente – indicou o cavaleiro, apontando para o leste – encontrará o forte da guarnição, informe suas intenções aos guardas e poderá conversar pessoalmente com o comandante.

-Obrigado Sir, fique com Deus.

-Amém.

O cavaleiro colocou o elmo sobre a cabeça e se virou em direção à igreja, a missa começava. Sir Wesley continuou seu caminho para o leste da cidade. Passou por ruazinhas apertadas, gatos passavam pela rua e alguns se assustavam com o cavalo do cavaleiro. Passou por um bordel, aonde uma prostituta observava a rua pela janela do segundo andar, com os seios nus e sorrisos fáceis aos homens que passavam pela rua. Duas crianças brincavam de espadachim, com pedaços de madeira, batendo uma na outra, usavam roupas meio esfarrapadas e pedaços de pano coloridos amarrados no pescoço que se alongavam até os pés como mantos, pararam de brincar quando viram Wesley, mesmo que o jovem cavaleiro não trajasse a mais bela das armaduras, os olhos das crianças se tornaram como estrelas com sua admiração.

A noite viera por fim, os cavaleiros e guardas passavam a utilizar archotes dali em diante, nas casas eram acesas velas para afastar a escuridão, assim como nos bordéis e tavernas. Sons de musica ressoavam aqui e ali, gatos miavam e cães ladravam, ouvia-se também sons das mulheres gemendo de prazer.

Por fim chegara ao pequenino forte dos cavaleiros da igreja, estandartes mostravam duas mãos abertas protegidas por manoplas que seguravam uma pequena fonte de luz, o símbolo remetia à ordem dos cavaleiros benevolentes e dois dos homens da ordem guardavam o portão de madeira do forte enquanto outros andavam pelo muro observando através das ameias.

-Saudações Sir – disse um dos guardas que trajava o uniforme padrão dos cavaleiros, cota de malha negra, tabardo e manto branco com o símbolo de sua ordem. – Identifique-se, por favor. – sua voz era meio abafada graças ao seu elmo de topo achatado.

-Saudações, meu nome é Wesley, vim para falar com o seu comandante.

-quais são suas intenções?

-gostaria de falar sobre a ameaça na floresta próxima à estrada norte Sir, ouvi dizer que estão oferecendo recompensa para resolver esta questão.

-Mais um – disse o cavaleiro ao lado que parecia mais jovem pela voz. – eu sugeri ao comandante proibir essas excursões à floresta e aguardar o retorno dos nossos caçadores, isso teria inibido loucos como você de se matar naquela floresta maldita, mas ele não me ouviu.

-Deixe o homem Charles – disse o outro cavaleiro.

-quem mais foi até lá? – perguntou Sir Wesley “talvez seja mais perigoso do que imagino ser” pensou ele.

-um bando de mercenários metidos a besta, depois alguns cavaleiros foram para lá, todos buscando fama e nenhum voltou. E eu sei o porquê, eram todos infiéis, os mercenários eram pagãos do norte e os cavaleiros viviam em bordéis. Aquilo lá é coisa do demônio Sir, só um homem realmente fiel pode ir lá. – respondeu o cavaleiro mais jovem

-E por que não vai? – perguntou Sir Wesley.

-Ora, eu não sou tolo – disse o cavaleiro. – não treinei para isso, minha vida vale muito, Deus não a deu a mim para que eu ficasse me enfiando na floresta sabendo que vou morrer. Quando os bons caçadores voltarem lidarão com isso. Sou um homem de fé por isso sou humilde.

Sir Wesley riu e o cavaleiro mais velho disse:

-Ta bem, já chega dessa bobagem, venha Sir Wesley, eu o levarei até Sir Reginald, se esse é o seu desejo.

Entraram no pátio exterior, aonde archotes e tochas ardiam fazendo com que as luzes lambessem as paredes das torres, do estábulo e do muro que protegia o pequeno forte. Os homens da guarnição trocavam de turno, então enquanto uns subiam ao muro, outros desciam.

-Wilian! – o cavaleiro chamou um garoto que andava por ali – cuide do cavalo de Sir Wesley, sim?

-Sim senhor – menino respondeu. Tomou o cavalo de Wesley pelas rédeas e o levou aos estábulos.

-Há quanto tempo está na cidade Sir? – perguntou o cavaleiro da igreja enquanto adentravam o forte.

-Cheguei a algumas horas, procurava oportunidades de ganhar dinheiro, tive a sorte de ouvir sobre o problema atual da cidade de um cavaleiro a serviço da família real.

-As palavras voam como vento, as pessoas parecem pensar apenas nisso ultimamente. Mas os temores dos cavaleiros e dos plebeus não são infundados. – entraram em um salão que aprecia ser o salão de refeições dos cavaleiros benevolentes. – pessoas andam morrendo, crianças estão desaparecendo

-Há quanto tempo isso está acontecendo?

-Uma semana mais ou menos, o grupo de mercenários que se voluntariou não retornou, morreram todos provavelmente. Os cavaleiros que foram estavam a serviço de lorde Carlos de Tarhann, foram enviados pelo próprio Lorde Carlos e diziam que eram os melhores cavaleiros de sua senhoria, todos morreram provavelmente.

-Houve cavaleiros da cidade que se voluntariaram? – entraram em um corredor em que ficavam alguns quartos, das janelas, Wesley observou alguns dos cavaleiros que treinavam e faziam as espadas cantarem.

-Sim, inclusive o melhor deles, Sir Adrian que era conhecido nessas bandas, era um cavaleiro experiente a serviço do lorde Souxen. Foi sozinho até lá, mas não voltou até agora como todos que foram até lá assim como ele.

“Se eu conheço alguma coisa sobre necromantes, essa mulher deve tê-los sobre seu comando” pensou Wesley “se a floresta estiver infestada de mortos, isso pode se tornar uma bagunça” o pensamento era perturbador.

Chegaram ao aposento privado de Sir Reginald, o cavaleiro da ordem abriu a porta lentamente.

-Sir Reginald, saudações – saudou, retirando o elmo.

-saudações Sir Jaime. – o comandante era um homem de maxilar largo, com rugas que começavam a surgir, os olhos eram negros como a noite. A placa de peito de Reginald era branca como o seu manto e tinha o símbolo da ordem pintado, seus ombros eram protegidos por ombreiras que se alongavam até o cotovelo, suas mãos estavam nuas, mas as manoplas brancas com detalhes em dourado estavam depositadas sobre a mesa de carvalho ao lado do livro que aparentemente estava lendo antes de Wesley e o irmão da ordem dos benevolentes entrarem no aposento – o que deseja?

-Perdoe-me o incomodo Sir, mas o cavaleiro aqui veio até nós o procurando.

O comandante estudou Sir Wesley por um instante e disse:

-Mais um homem vem até nós buscando recompensa – Sir Reginald soltou um risinho – Sir Adrian trajava uma excelente e caríssima armadura, teria que matar dez bruxas para comprar aquelas grevas e você vem até mim com essas proteções esfarrapadas Sir...

-... Wesley – respondeu o próprio Sir Wesley – quando se enfrenta demônios e magos não importa se tem a mais cara das armaduras Sir Reginald.

-Deixe-nos Jaime – disse o comandante. O cavaleiro obedeceu – sente-se Sir Wesley – o comandante indicou uma cadeira – o que você disse está certo, nossos caçadores não usam armaduras sabia disso?

-sei, já os vi em ação. – certa vez viu o que chamavam de “mulher corvo” uma caçadora que caçava no norte matar um lobisomem na sua terra natal, a mulher usava um elmo com penas negras que parecia uma cabeça de corvo e seu manto era cheio de penas também, sua mão direita estava enfiada numa luva com longas garras de prata e na mão esquerda um artefato estranho que chamavam de “pistola” que disparava esferas de prata. Wesley lembrava-se dos berros da fera quando a “mulher corvo” disparou a arma contra o rosto do lobisomem, fazendo seu rosto derreter, a fera gritou até que a caçadora rasgou sua garganta com suas garras de prata. – seus caçadores são combatentes que dispõem de meios esquisitos, mas eficazes.

-e não usam armadura – era verdade, os caçadores geralmente utilizavam casacos longos e negros, chapéus redondos e artefatos prateados que os protegiam de maldições. Sir Reginald pegou uma jarra de vinho e duas canecas e serviu Sir Wesley e a si mesmo.

-bem, eu uso, não é a mais bela das armaduras, mas foi o que consegui comprar, até porque boa parte do meu dinheiro gastei na espada que trago comigo. – Wesley bebeu um gole de vinho, tinha um gosto muito bom, um dos melhores vinhos que já provara. – quem faz esse vinho?

-Um grupo de sacerdotes da cidade, são cervejeiros também. É o melhor vinho que já provou não é senhor? Se não um dos melhores. A família real nos agraciou com uma visita dois anos atrás e levaram quinze barris desses vinhos, ficaram maravilhados com o sabor.

-É realmente muito bom. Mas vamos falar de negócios, qual o valor da recompensa senhor comandante?

-Quatrocentas moedas de prata.

-Só isso? – “puta merda, velho sovina”.

-Sim, foi o que ofereci aos outros, Sir Wesley.

“Posso tirar mais dinheiro do que isso” Wesley pensou e disse:

-Já ganhei mais para ficar parado Sir Reginald.

-Bem, se eu esperar um pouco mais, os caçadores virão e acabarão com isso sem que eu precise gastar dinheiro.

-Sim, porém mais pessoas morrerão até lá, sem falar que a estrada em direção ao norte é uma rota importante e precisa ser liberada o quanto antes creio eu. Eu irei até lá sozinho, sabe que pode me oferecer algo melhor.

-Tudo bem, ofereço mais duzentas e é o Máximo que vai conseguir.

-Feito – “é o suficiente” – um cavaleiro me disse que a tal bruxa pertencia à academia da igreja, o que pode ter levado ela a ter se inclinado a bruxaria?

-A menina passou por coisas traumáticas, perdeu um bebe e entrou em depressão.

-Perdeu um bebê? Mas os feiticeiros e feiticeiras tem a castidade como regra, assim como os cavaleiros até aonde eu saiba, como isso aconteceu?

— Marya era o nome dela, se apaixonou por um cavaleiro da nossa ordem, Sir Roger. Eles quebraram as regras e ela ficou grávida, Roger perdeu o manto e se matou de beber, a criança morreu no ventre, Marya ficou depressiva e tentou trazer a criança de volta a vida com um ritual necromântico.

-como ela fez o ritual?

-sacrificou dois de seus colegas, talvez ela tivesse conseguido, mas foi impedida pelos cavaleiros os homens foram mortos e ela fugiu com o feto morto. Depois de uns dias descobrimos que o túmulo de Roger foi aberto, ela deve ter roubado o corpo do ex cavaleiro também.

-mas como sabem que ela está na floresta?

-A maldição começou não muito tempo depois de toda essa bagunça, por incrível que pareça, Sir Roger tratou de se matar na bebida bem rapidamente. Não temos certeza se é ela, mas alguma bruxa ou bruxo está lá e está atraindo seres demoníacos para cá...

-... E levantando os mortos também?

-É o que dizem.

-Onde está a família da menina?

-Está sobre nossa proteção, os cidadãos queriam queimá-los, tivemos que tirá-los da cidade, estão longe daqui. – “ignorantes idiotas” Wesley pensou.

-É tudo que preciso saber, obrigado. – Wesley se levantou. Antes de sair dos aposentos disse: — guarde meu dinheiro, virei coletá-lo logo.

-você é bem confiante, Adrian também era e não voltou mesmo assim.

Wesley não respondeu, apenas sorriu. O jovem cavaleiro de manto arroxeado saiu do forte e levou seu cavalo pelas rédeas através das ruas, a luz da lua beijava toda a cidade, dos mais belos monumentos às mais feias vielas. Wesley entrou na primeira estalagem que encontrou, chamada “casa da donzela”, um lugar charmoso, não muito cheio e limpo, sentou-se em uma mesa sozinho, pediu bebida e pão. Depois de encher a barriga gastou suas ultimas duas moedas em um quarto e dormiu.

*

Acordou pouco antes do amanhecer, o sol ainda não havia chegado, mas logo chegaria, levantou-se da cama e começou a se vestir, vestiu o gibão branco, os calções e botas de cavalgada. Pôs então a armadura, quando era mais jovem, sempre se atrapalhava pois não tinha escudeiro. “Não quero nenhum moleque me enchendo o saco” era o que sempre dizia, mas com o tempo foi se acostumando e aprendendo a vestir a armadura sozinho.

Desceu até a área de refeições da estalagem, aonde a jovem morena que cuidava do estabelecimento já estava em pé, a moça lançou-lhe um sorriso e Sir Wesley lançou outro a ela.

O cavaleiro saiu da estalagem e a luz da manhã deu lhe um beijo de bom dia no rosto, tomou o cavalo pelas rédeas e andou pelas ruas, passando por crianças esfarrapadas que saíam para brincar, velhas idosas e jovens cavaleiros.

No caminho em direção ao portão, Sir Wesley passou por uma comoção de pessoas, gritaria e xingamentos tomavam uma pequena praça.

-Nós, homens e mulheres de Deus devemos ser humanitários! – um homem gordo dizia as pessoas ao redor que se dividiam entre mercenários, cavaleiros, vendedores e trabalhadores, todos unidos em sua indignação – vocês são falsos fiéis se não querem ceder espaço para pessoas necessitadas! – O homem estava cercado por três guardas, parecia ser algum homem do parlamento. “Se não houvesse esses guardas, ele estaria morto”.

-Um deles estuprou minha sobrinha seu filho da puta! Eu cedi abrigo a ele e essa foi sua retribuição! – gritou um homem de volta, o que fez com que as pessoas se indignassem ainda mais.

O homem gordo que Wesley presumia ser um parlamentar gritou de volta:

-Eu sei que ouve incidentes, eu lamento, mas... mas... – “não tem resposta pra isso não é seu filho da puta?” o cavaleiro pensou -... Há crianças entre eles, eles não tem casa...Nós aprendemos na igreja que devemos ser solidários...

-... Solidários sim, idiotas não. Quer saber senhor? Eu sou um homem muito humanitário, eu preocupo com as pessoas ao meu redor, por isso não quero um bando de selvagens estrangeiros matando nossos padres e estuprando nossas filhas! Não é a toa que adoram seres malignos como dragões!

O senhor gordo rodeado de guardas nada disse, já não havia respostas, então saiu o mais rápido possível em sua carruagem, sendo bombardeado de pedras e vaias “o show acabou” pensou Sir Wesley. O cavaleiro retomou seu caminho, tudo aquilo o fez refletir “parece que nascer neste país não importa mais pra essa gente, um estrangeiro vale mais do que um residente do país, talvez eu não devesse me importar, mas me importo, usar a fé em Deus como pretexto para levar as pessoas a entregar seu país é muita canalhice”.

O que ocorria ali era que, certos países do oriente viviam em guerra, as pessoas fugiam para o ocidente e eventualmente as diferenças culturais apareciam, o que geravam conflitos. Os orientais eram rigorosos quando se tratavam de suas religiões e apesar de serem refugiados em outros países, queriam que os residentes naturais mudassem suas práticas habituais por causa deles. Parece loucura, não? Pois é, o mundo é louco mesmo.

Ao chegar ao portão, Wesley deixou de lado os pensamentos sobre a política. Tomou a estrada para o norte, passando ao chão de terra pelo flanco da muralha da grande cidade. Alguns dos mercenários estavam cavalgando pela estrada, alguns estavam ao lado dos cavalos que bebiam água do lago, “É melhor dar água ao meu também”. Wesley levou seu cavalo para beber e encher seu odre de água, ao seu lado um dos mercenários enchia seu odre também, era um homem de meia idade, com cabelos longos e negros e uma barba que chegava até o peito.

-salve senhor – saudou o mercenário.

-Salve! – respondeu o cavaleiro.

-para onde pretende ir senhor cavaleiro?– o mercenário tampou o odre e pegou as rédeas do cavalo. Sir Wesley fez o mesmo. – Se for para Oeste pode se juntar a nós, mais espadas significam mais segurança, mas não espere que paguemos por sua “proteção – o mercenário riu, tinha alguns dentes faltando.

-Vou para o norte.

-Ótimo, nós também vamos, se quiser venha conosco, quanto mais espadas mais seguro.

Wesley sorriu e disse:

-Eu lhe agradeço senhor, mas não entendeu, a estrada que vou adentrar é a estrada que todos estão evitando

O mercenário soltou uma gargalhada:

-Vocês cavaleiros têm todos um desejo de morrer não é? E ainda dizem que essa igreja do sul prega o amor a vida.

-Eu amo a vida – respondeu Wesley. Ambos montaram nos cavalos e começaram a trotar lado a lado – mas sou um cavaleiro, devo proteger as pessoas, não?

-Se você diz...mas pra falar a verdade, creio que você, assim como eu façamos parte do grupo dos indefesos nesse caso em específico. Alguns cavaleiros e mercenários foram para a floresta, mas não voltaram, isso por que para combater esse tipo de forças malignas há combatentes em específico que devem ser usados para tal.

-Se refere aos caçadores da igreja.

-Não só eles, existem guildas de caçadores, cavaleiros de prata e outras ordens, homens como nós não deveriam se envolver nisso.

-Talvez esteja certo – chegaram até o entroncamento aonde se encontravam as estradas para o norte, oeste e sul. Os mercenários pegariam a estrada a oeste e então pegariam rotas alternativas para o norte, então Wesley se despediria ali.

-Que os deuses o acompanhem Sir – disse o homem do norte – és um tolo, sabia?

-Eu sei, sou um bom tolo, adeus senhor mercenário.

*

O bando dos mercenários seguiu seu caminho a oeste e Wesley seguiu para o norte. Na estrada ou únicos sons que se ouvia era deu um animal ou outro no mato e os cascos do cavalo.

Wesley percorreu a estrada pelo flanco de um pequeno monte e ao passar dele parou repentinamente. Dali em diante a estrada era flanqueada por ambos os lados de floresta densa.

“tudo parece normal” o cavaleiro pensou. Wesley sempre foi estudioso e leu todo tipo de literatura, inclusive a literatura sobre maldições, o conhecimento viria a calhar naquele momento. “maldições são jogadas em locais específicos, pequenos ou grandes, por motivos diferentes. As vezes, o demônio ou o bruxo que lança maldições pode ter por objetivo capturar corpos, se esse for o caso, o mais comum é que mascarem através de feitiços as mudanças visuais do local amaldiçoado.” A passagem de “tratado sobre necromancias e outros feitiços proibidos” veio a mente de Sir Wesley. “Se for assim, a floresta pode mudar daqui para frente” o cavaleiro pensou, mas ali estava tudo normal aparentemente.

Ao invés de seguir a estrada, Sir Wesley entrou em uma trilha no matagal, passando entre as árvores em lentidão sobre o cavalo, observando os arredores, tudo estava quieto demais, mesmo para uma floresta. As vezes chegava a ouvir um som ou outro e até ver alguns animais, viu um coelho e dois veados, chegou a ouvir o balido de um bode, mas não chegou a vê-lo.

Ao passo que adentrava mais o núcleo da floresta, os arredores mudavam, o sol começou a desaparecer e as nuvens passaram a tomar seu lugar, “seria o feitiço da camuflagem se dissipando, ou o tempo está mesmo se fechando?”, percebeu que a primeira opção era a correta, pois as nuvens eram excessivamente escuras, uma névoa começou a encher o ar da floresta. As árvores perderam as folhas, a partir de um certo ponto estavam todas mortas. “Está de fato amaldiçoada e os perigos logo aparecerão”.

A cavalgada o levou até uma cabana de madeira pequena. Desmontou do cavalo e o levou até a cabana pelas rédeas e o amarrou em um tronco. A cabana estava inabitada, mas não estava vazia, possuía fogão a lenha, uma mesa de madeira de carvalho, uma cama e um armário de madeira. “quem quer que tenha vivido aqui, deve ter fugido, não é provável que retorne, devem ter ido embora por causa da maldição, ou foram mortos pelo que quer que seja que esteja perambulando pela floresta”.

Um som fora da cabana captou-lhe a atenção, um som de passos lentos e um doce raspar de aço em couro, “há alguém aqui” pensou. Ouviu sons estranhos, como murmúrios. O cavaleiro olhou pela janela e viu que um homem se aproximava, estava armado e vestia um gibão amarelado desbotado, Wesley percebeu que o gibão trazia o símbolo da guarda da cidade de Oxter, era um dos cavaleiros que viera até a floresta para caçar a bruxa. Wesley saiu da cabana.

-senhor, está bem? Meu nome é Wesley, eu... – “santo Deus...”

A pele do homem estava em um tom pálido como leite, as veias saltavam, suas bochechas haviam sido comidas por corvos, assim como seu olho esquerdo. No olho que lhe restava não havia vida, apenas um branco vazio, quando o morto lançou a Wesley seu olhar morto, seus dentes rangeram e Wesley libertou seu aço da bainha.

A longa espada do cavaleiro possuía um escuro tom de fumo, faixas de couro enrolavam-se no cabo e o botão era feito de pura prata.

Wesley manteve a ponta em direção ao inimigo, fazendo da longa lâmina um longo obstáculo. O cavaleiro morto lançou-se ao ataque tentando afastar a ponta da espada de Wesley com seu escudo, Wesley recuou dois passos e lançou uma estocada em direção à testa do inimigo, que se defendeu com o escudo e contra atacou, mas seu ataque parou no aço que Wesley trazia a mão, ambos se afastaram. O homem morto avançou e lançou um ataque em direção à têmpora de Wesley que ergueu a espada e se defendeu, contra-atacando em seguida, acertando a testa do inimigo com o botão de prata. O cavaleiro morto guinchou de dor e largou a espada, a pele de sua testa se corroia, Wesley aproveitou o momento e lançou-lhe um golpe final, fazendo a sua pesada lâmina se afundar na pele e carne apodrecida do ombro do cavaleiro morto.

“Santo Deus...” o cavaleiro pensou, a cabeça do homem continuava a se corroer. “Preciso continuar, antes que ele volte a se levantar”. Subiu em seu cavalo e começou a trotar pela floresta, “merda, preciso achar essa puta o quanto antes”. Wesley ouvia mais sons de murmúrios pela floresta, havia mais mortos andando por ali, mas o cavaleiro não parou para ver quantos eram.

Corvos crocitavam nas arvores, voavam quando o cavaleiro passava, batendo suas azas negras contra o vento frio, Wesley lançou o olhar a um deles, percebeu que tinha os olhos fechados e crocitava para o ar, repentinamente o corvo abriu seus olhos, que eram vermelhos e sangravam, olhou ao redor, todos os corvos tinham os mesmo olhos, que choravam sangue.

O crocitar dos corvos encheu o ar enevoado enquanto Sir Wesley continuava a cavalgar pela floresta, sombras murmuravam lamentos aqui e ali e as vezes ouvia-se um ou outro animal além dos corvos.

Depois de cavalgar por um tempo, um som diferente ecoou na floresta, um grito de um rapaz jovem. “há mais alguém além de mim”. Esporeou o cavalo na direção dos gritos passando por arvores mortas e corvos chorosos, as palavras da pessoa que gritava ficavam mais claras:

-Sai de perto desgraçado!

Sir Wesley viu um rapaz moreno ao lado de um lago de águas escuras, um homem armado cambaleava em sua direção murmurando palavras que não conseguia entender. O homem armado tentou golpear o rapaz, este que esquivou do golpe mas caiu no chão. Sir Wesley esporeou o cavalo e desembainhou a espada cavalgando em direção ao agressor do menino, quando o alvo de Sir Wesley se virou, o cavaleiro percebeu que ele era mais um morto vivo, com a garganta aberta. A espada caiu sobre o morto, terminando de abrir sua goela e decapitando-o, rasgando sua carne podre e fazendo seu sangue negro jorrar, o corpo caiu sem forças.

Sir Wesley desceu do cavalo e antes de embainhar a espada limpou a lâmina ensangüentada na capa do morto. Parou para observar o rapazinho, e percebeu que não era um rapazinho comum.

-O que diabos é você? – perguntou o cavaleiro. O “rapazinho” era baixo, de pele negra como ébano, usava um capuz estranho de cor vermelha, assim como a roupa que usava para cobrir as partes intimas, que eram como calças, porém curtas e essa era a única roupa que usava, além disso, era perneta. – o que faz nesse lugar?

-Porra, todos vocês idiotas sempre perguntam a mesma coisa. Eu sou um saci, eu vivo aqui, ora. – “saci?” o cavaleiro pensou.

-Saci... e eu achando que já via visto de tudo. Gente como você não são muito comuns por aqui, ainda bem porque você é bem feio.

-Você já viu uma mula sem cabeça? É bem mais feio que eu...

-Nunca vi e não quero ver.

-Você fala assim, mas nesse continente tem coisa muito pior do que lá no meu, já viu um grifo?

O cavaleiro sorriu, depois disse:

-Já matei um grifo. – havia matado um dos monstros anos antes, se decepcionou ao perceber que os ovos do bicho não eram de ouro como se dizia, mas pelos menos a cabeça do grifo rendeu uma boa recompensa. A memória trouxe um sorriso ao rosto de Sir Wesley. Deixou esses pensamentos de lado e deu lugar a outros. “O rapazinho pode me ajudar a encontrar Marya.” – Ei, pode me ajudar rapaz? Preciso encontrar uma moça, uma jovem ruiva.

-Ah, eu conheci muitas moças, no meu país fazia travessuras com elas, uma vez um bando de jovens nobres foram tomar banho em uma lagoa perto do palácio, estavam todas peladas. Eu roubei a roupa de todas e fiquei observando elas voltarem peladinhas para o palácio – o saci soltou uma gargalhada.

-Tudo bem, mas estou me referindo a uma garota que pode estar aqui na floresta, é uma feiticeira... na verdade, talvez seja uma bruxa nesse momento.

-E tem diferença?

-Tem – estava perdendo a paciência – agora diga, conhece-a?

-Ruiva é? Aah, conheço, ela veio pra floresta uma semana atrás, ela estava junto com aquela gorda escrota... ela é sua esposa? – Sir Wesley franziu as sobrancelhas. “gorda escrota... como assim?”

-Quem era essa pessoa que a acompanhava?

-Eu não sei bem quem ela é, sei que é feia para caralho e ela não gosta de mim, uma vez ela deixou o baú de doces dela dando sopa e eu fui pegar uns doces para mim. Aí ela pegou aquele pedaço de pau que ela vive segurando e bateu na minha cabeça, “vou enfiar meu cajado seu cu acima!” ela disse.

-Ei, sabe onde ela está? Pode me levar até ela?

-Por que eu te ajudaria?

Wesley olhou para o homem caído no chão e depois voltou a olhar para o saci, então disse:

-Essa moça ruiva e essa mulher horrível que descreveu estão levantando esses corpos, acho que eles estão atrapalhando sua paz. Ajude-me e eu porei um fim nisso. Que tal?

-Você vai matar aquela gorda?

-vou matar todas as bruxas.

-Até a ruivinha? Ela é bonita.

-Não importa a você quem eu vou matar, apenas me ajude.

-ta bem, siga-me.

*

Quanto mais andavam pela floresta, mais ela se fechava sobre eles, Wesley sobre seu cavalo ficava atento diante dos murmúrios e das sombras que lhes eram lançadas, os corvos continuavam a vigiá-los, a floresta estava cheia deles, seus crocitares eram como lamentos, seus olhos os vigiavam, olhares acusadores, chorosos de sangue.

O saci não parecia se importar, saltitava ao lado do cavalo de Wesley, tagarelando sobre sua terra natal:

-Lá temos festas o tempo todo, o lorde organizava torneios semanais, eu observava só de longe é claro, mas sempre me rendia boas travessuras.

-Ouvi dizer que seu país está em maus lençóis ultimamente. – O país ao qual se referiam era a republica de Bradânia. A Bradânia foi fundada como monarquia até um recente golpe de estado, tornando-se uma república. “Já não é nem sombra do império que foi.”

-É... as coisas já não são como antes...ah, mas tendo festa ta bom – “hum...sei”, o cavaleiro pensou.

A Bradânia teve sua era de ouro, mas cada sua sociedade tem seus pilares e os fortes pilares do país sulista ruíram de uma hora para outra. Wesley tinha vontade de viajar aos países mais ao sul do mundo, a Bradânia era um deles, mas com a era de ouro de seu império passada, decidiu que já não queria mais tanto assim.

O grasnar de um corvo que passou voando ao lado deles tirou a política de seu pensamento, então sua mente se voltou aos perigos que os rondavam. Passaram por três corpos estendidos no chão, os corvos se alimentavam de um deles. Eram todos jovens e pareciam estar desarmados quando morreram, um deles tinha a barriga aberta e o outro, um corte profundo na garganta, já o corpo do qual os corvos se alimentavam estava irreconhecível, não era possível saber exatamente a causa da sua morte, pois tinha partes do corpo carcomidas, os corvos haviam comido seus olhos, abriram um buraco enorme na garganta e comeram suas bochechas.

-Eles não deveriam estar em pé? – o saci observou.

-Acho que só homens armados estão levantando, se eles estivessem vagando por ai seriam inúteis, seus corpos não foram maculados.

Continuaram a avançar, “talvez a criatura que os tenha assassinado esteja por aqui, preciso continuar alerta.”

-Elas estão muito longe? – perguntou o cavaleiro.

-Mais ou menos, não vou mentir, há mais de um lugar aonde elas podem estar, vou te levar aos locais aonde já as vi frequentemente, mas pode ser que sua caçada demore a terminar.

-Elas não tem um lugar específico? Um covil na floresta? Nada?

-Elas já estiveram em vários locais, cada lugar elas fazem uma bruxaria diferente, em uma das cabanas a gorda guarda os doces, noutra a garota ruiva fica falando coisas sem sentido.

“falando coisas sem sentido... hum, vou ter que ver pra saber do que se trata, talvez ela conjure magias diferentes em cada lugar da floresta, talvez para atrapalhar os caçadores. Mas por que uma das bruxas guarda doces?”

-Você citou doces, pra que ela guarda esses doces?

-As crianças vêm até a florestas pelos doces, ela deixa uma trilha de doces e então deixa o baú no meio da clareira para que as crianças comam. Uma vez eu fui comer e ela me bateu.

-Você chegou a ver alguma criança voltar para casa depois de pegar os doces?

-não, será que elas são netas da gorda?...Eu duvido, uma mulher feia daquela, não tem como ela ter filhos, é feia demais, quem iria engravidar uma coisa daquela? – o saci riu.

-Qual é o lugar para o qual está me levando?

-A cabana dos doces, é o lugar próximo daqui, talvez a gente encontre as crianças lá.

“se caso estiverem vivas, talvez eu ganhe uma recompensa a mais... se estiverem vivas...”

Passaram por outro lago, as águas eram negras e espessas, corpos boiavam e corvos observavam como sempre, alguns grasnavam e bicavam um ou outro morto. Alguns dos mortos estavam na beira do lago, enquanto passavam um deles acordou, o saci caiu com o susto que levou, Wesley levou a mão ao cabo da espada, mas largou assim que percebeu que o morto vivo não tinha pernas, nem o braço direito.

-Vamos. – disse o cavaleiro. O saci se levantou de uma maneira meio desajeitada.

Do outro lado do lago, uma criatura andava entre as arvores mortas, Sir Wesley puxou as rédeas e observou. Era um leão gigante, com um bode que espreitava sobre suas costas e uma cobra que silvava para os corvos que os observavam chorando sangue, “quimera...” o cavaleiro pensou. O saci olhou para o cavaleiro e disse:

-Vamos rápido, ele não percebeu que estamos aqui.

-Vamos.

A quimera sentou-se entre as árvores, a cobra que era seu rabo deu um bote e devorou um dos corvos, fazendo os outros voarem dali. Por mais temor que pudesse causar, era uma criatura bela de certa forma, apesar da cobra grotesca que era seu rabo.

“Santo Deus, tomara que ela não nos perceba.” Deus parece ter ouvido o pedido do cavaleiro, a quimera se deitou e lá ficou. As quimeras não são demônios, o que significava que quebrar a maldição não faria ela desaparecer. “Estou sendo pago para matar a bruxa, melhor evitar tais riscos, deixo a quimera para outros.”

A quimera rugiu, por um segundo Wesley pensou que havia Sido visto, mas o monstro continuou deitado. Seguiram caminho, até que a névoa encobriu a visão e a quimera desapareceu na floresta.

-Esse bicho vai causar problemas – disse o saci. – esse seu continente é uma merda, achei que quando visse para cá ficaria longe de monstros... bem, aqui não tem mula sem cabeça, mas tem coisa pior.

-mula sem cabeça é?

-Não acredita em mim? Você acabou de passar por um leão gigante com um bode nas costas e rabo de cobra, por que é tão surreal assim achar que existem mulas que andam sem cabeça por ai? Uma vez eu encontrei até um cachorro falante, ou talvez eu estivesse muito bêbado, sei lá.

“bem, ele tem razão” o cavaleiro pensou.

-É verdade, nunca acreditaria que alguém como você existiria se... – um som o calou.

-se o que?

-esconda-se – “cavalo...” o som dos cascos estava começou a ficar mais alto.

De repente um cavaleiro saltou do meio das arvores, com lança e escudo em mãos, seu cavalo era tão morto quanto ele. Wesley desembainhou a espada e rebateu a estocada do inimigo. Mais homens apareceram, porém estavam a pé, com espadas em mãos, usavam gibões marrons, “mercenários... estão mortos também”, de cima do cavalo Wesley lançou um golpe no inimigo que vinha a direita, a lâmina penetrou na garganta. O cavalo de Wesley avançou quando ele o esporeou, “preciso desmontar, o espaço é muito pequeno.” Ao se afastar um pouco dos inimigos, Sir Wesley desmontou do cavalo, o saci havia se escondido e o cavaleiro que o atacara alinhava o cavalo para mais uma investida, enquanto outros mercenários mortos se aproximavam.

Um dos mercenários, um homem barbudo, cuja barba se enchia de vermes, assim como os buracos que tinha no rosto tentou golpeá-lo com o machado mas Wesley se esquivou para trás e contra atacou, as lâminas se cruzaram e Sir Wesley chutou o inimigo para afastá-lo. Outro morto vivo se aproximou, com uma espada em mãos, o golpe que lançou, foi em vertical, Wesley afastou a lâmina do inimigo e enterrou a ponta da espada na carne podre e pálida da garganta do morto-vivo.

O cavaleiro inimigo investia, mirando a lança em Wesley, o mercenário barbudo brandiu o machado e Wesley esquivou contra atacando de imediato decepando a mão podre do inimigo. Wesley o segurou pelo ombro, usando seu corpo como escudo, a lança atravessou o rosto, saindo pela nuca.

Wesley jogou o corpo desfigurado para o lado, o inimigo preparou para outra investida e avançou. O aço se chocou, Wesley afastou a ponta da lança com um golpe para cima e girou, o cavalo não parou, mas não escapou da espada longa do cavaleiro, que varreu suas pernas, fazendo o animal estatelar-se no chão, assim como seu cavaleiro.

O homem morto se levantou, jogando lança e escudo no chão, sua ombreira esquerda amassou, mas sua armadura continuava bela, diferente da criatura que a vestia. Uma chapa de aço esmaltada de cor azul cobalto protegia peito e barriga, suas manoplas eram azuis como a placa que protegia o corpo, porém com detalhes de cor prateada nos dedos, grevas protegiam as pernas e ombreiras cobriam os ombros, seu gorjal era alto e o elmo deixava apenas uma abertura aos olhos sem vida, mas cheios de ódio.

Um vento frio bateu, ambos os mantos esvoaçavam, o de Wesley de cor roxo avermelhada como o ocaso, e o do cavaleiro morto um belo azul cobalto, assim como a armadura.

Espadas se chocaram, Wesley, tentava manter distancia, estava em desvantagem, a armadura do inimigo era pesada, mas ele não parecia sentir seu peso, e seu corpo inteiro era protegido por metal. Os golpes do inimigo eram rápidos, Wesley lançava golpes quando lhe convinha, mas não lhe apareciam muitas aberturas. A canção perdurou por alguns segundos, longos segundos. Um dos golpes do inimigo foi lançado em direção à testa de Wesley, que se defendeu e esquivou para a direita lançando um contra ataque rápido, golpeando a axila esquerda do inimigo que cambaleou para trás, Sir Wesley aproveitou o descuidado do oponente e lançou um ataque contra a abertura do elmo, mas errou.

“Preciso aplicar golpes mais precisos...” Pensou Sir Wesley, segurou a lâmina com a mão esquerda e o cabo com a direita, rodeando o inimigo e mantendo a lâmina reta, criando ameaça e distancia ao inimigo. O morto vivo grunhia e murmurava coisas incompreensíveis, enquanto segurava sua lâmina e se afastava da lâmina de Wesley.

O cavaleiro morto-vivo lançou-se ao ataque novamente, Wesley ainda segurando a lâmina com a mão esquerda, defendeu-se e afastou a lâmina, contra atacando com o botão da espada, o inimigo recuou e o golpe seguinte Foi fatal, Wesley usando a técnica de “meia-espada” mirou nos olhos expostos do inimigo e golpeou.

O olho direito do cavaleiro morto-vivo se transformou em uma ruína negra e apodrecida, quando Wesley retirou a espada o cavaleiro tombou, sem forças. O saci saiu de onde estava escondido.

-Puta merda – disse o homenzinho ao chegar perto dos mortos.

-Melhor continuarmos – disse Wesley embainhando a espada. – Eles vão acordar logo, logo.

-ta bem.

O cavalo de Sir Wesley havia se afastado por um pouco, mas não havia fugido. “Bom garoto” O cavaleiro pensou. Montou no cavalo e seguiu o caminho, com o saci a saltitar ao seu lado e os corvos a crocitar que continuavam a vigiá-los.

-Pensei que ia morrer... – disse o Saci.

-Eu também, mas não morri, sou novo demais pra isso.

-Ninguém é novo demais para morrer... infelizmente... – o cavaleiro não respondeu.

Passaram por mais e mais árvores mortas, murmúrios aqui e ali, até chegar a um pântano.

-Temos que passar por aqui – disse o Saci – depois disso chegaremos a casa da velha gorda.

A água do pântano era como a água dos lagos por onde passaram, negra e espessa, com espumas, mas sem corpos daquela vez. Sir Wesley desceu do cavalo.

-Ei, me coloque sobre ele, não vou conseguir andar sobre esse pântano – disse o saci. Sir Wesley fez como ele sugeriu.

O cavaleiro tomou o cavalo pelas rédeas e o conduziu pela água. A névoa começou a ficar ainda mais densa, não se via muito bem o que havia em frente, mas o saci assegurara que deviam apenas seguir reto, Sir Wesley apenas seguiu em frente, buscando a casa da bruxa.

*

Estava ensopado até os joelhos quando finalmente atravessaram o pântano. Sir Wesley tirou o saci de cima do cavalo:

-Eeeei – protestou o rapazinho.

-Eu sou o cavaleiro aqui, saia. – Sir Wesley montou em seu cavalo. – vamos agora.

Ambos continuaram o caminho por uma trilha na saída do pântano, até cruzarem com outra trilha, que seguia para a direita.

-Vamos virar aqui – disse o saci – estamos perto.

O cavaleiro e o saci viraram à direita e seguiram em frente. O número de corvos começou a diminuir por ali, mas um ou outro ainda vigiava e grasnava e já não se ouvia murmúrios dos mortos, mas a névoa estava extremamente densa.

Wesley reparou que havia doces pendurados nas árvores, o saci saltitava recolhendo-os e comendo-os.

-Uma trilha de doces... – disse o cavaleiro.

-É para que as crianças saibam o caminho.

-As crianças tem de passar pelo pântano para vir?

-não, mas por aonde elas vêm é um caminho bem mais demorado.

-você tem visto crianças por aqui mesmo com a maldição?

-sim. Os monstros não as atacam, eu não sei o porquê. Certa vez eu fui pegar uns doces escondidos da velha, ela não me viu daquela vez, ouvi as bruxas conversando, disseram que as crianças nem mesmo percebem que há monstros aqui.

“querem atraí-las... jogam algum feitiço sobre as crianças, para que não sejam atacadas, elas sabem quando alguma criança entra na floresta, mesmo ela sendo enorme, mas como? o grasnar de um corvo próximo chamou sua atenção, os olhos chorosos do corvo se fixava nos olhos do cavaleiro, “os corvos...”

-Aqui! Achei! Venha! – uma voz fina e risinhos alegres foram ouvidos.

-crianças! – disse o saci.

-Isso não me parece bom, vamos.

Ao chegarem perto da cabana da bruxa, Wesley desceu do cavalo. A cabana ficava á beira da trilha, um casebre de madeira, um pouco maior do que aquele que vira antes na floresta. As crianças eram duas, um garotinho e uma garotinha, ambos loiros, remexendo em um baú de madeira e colhendo seus doces, alegres e sorridentes.

Wesley escondeu-se atrás de uma arvore, expiando-os com o saci ao seu lado.

-vamos pegar doces – disse o saci.

-fique quieto.

Uma mulher surgiu de dentro da cabana, vestia um vestido verde claro, com decote, tinha cabelos negros e olhos de um tom amarelado... como olhos de um animal, era bela, magra e ainda assim com seios fartos, suas mãos eram cobertas por luvas negras e trazia um cajado às costas.

As crianças se assustaram com a presença repentina da mulher, esbugalharam os olhos e soltaram os doces imediatamente.

-uma das bruxas – disse o saci bem baixinho. Wesley desembainhou sua espada lentamente.

-não se assustem crianças – disse a bruxa. Seu sorriso era belo, mas seus olhos eram malignos. – podem comer. – o garotinho sorriu de maneira desajeitada, ainda estava um pouco assustado, era possível ver.

-Podemos pegar mesmo os doces? – disse a garota. A bruxa balançou a cabeça positivamente, sorrindo – viu Corkus? Ela não é má. – voltou a encher a mão com os doces e o garoto fez o mesmo.

A bruxa sorriu, seu sorriso já não era mais belo, mas sim terrível como seus olhos. Ela se dirigiu até as costas das crianças e pôs a mão em seus ombros, a garotinha olhou para ela sorrindo e então voltou a pegar os doces.

A mulher levantou sua mão direita, que brilhava em um tom avermelhado, Sir Wesley levantou-se rapidamente com a espada em mãos e correu em direção a eles, a bruxa por sua vez olhou para trás sorrindo, sua mão desceu sobre as costas do garoto como o tiro de uma besta, atravessando seu pequeno e frágil corpo, fazendo jorrar sangue sobre o vestido da mulher. O garotinho não teve força para gritar, mas a menina berrou de horror, enquanto a bruxa a segurava pelos cabelos com a mão esquerda e segurava o coração do menino com a mão direita.

Wesley levantou a espada para golpear mas uma pancada o jogou para longe. “maldição... o que foi isso?” ele pensou, desnorteado. Ao levantar a cabeça uma coisa grotesca sorria em frente à jovem bruxa. Uma coisa enorme e gorda, que Wesley presumia ser uma mulher por causa dos seios cheios de buracos pegava o corpo do menino no chão, “que diabos é isso?” a coisa era bem maior do que uma pessoa comum tinha buracos por todo o corpo e uma pele enrugada e vermelha, suas pernas eram atrofiadas e seus seios eram cobertos por tiras de couro, sua cabeça tinha alguns tufos de cabelos brancos, seus olhos eram vendados e na mão direita segurava um cajado grosso, com o qual tinha golpeado Wesley.

O cavaleiro se levantou com dificuldade, com a espada em mãos, atrás da estranha coisa gorda, a garota esperneava e gritava nas mãos da bruxa mais jovem.

-Cale logo essa vadia! – gritou a criatura. Sua voz era voz de uma velha, mas parecia um pouco abafada. Seus lábios eram grotescos e rachados.

A bruxa atrás da criatura passou o dedo indicador sobre o pescoço da menina e seus gritos se tornaram um afogar em sangue e seus esperneios se tornaram mais fracos até cessarem. Mais sangue jorrou dela quando a bruxa arrancou seu coração assim como fizera com o garoto.

-Vamos Rita – disse a bruxa jovem com ambos os corações em mãos.

Wesley desferiu ataques com a espada contra a bruxa monstruosa a sua frente, que defendeu seus golpes e contra atacou, derrubando-o novamente. Outro grito de horror ecoou e a criatura virou o rosto para trás.

-o que fizeram? – a voz era de uma mulher. Wesley a viu. Ruiva, jovem, de cabelos curtos e um vestido roxo. “Marya...”

-Marya, querida, está tudo bem – disse a bruxa que matara as crianças.

-não, não está nada bem – havia lágrimas nos olhos de Marya – eu... Conheço essas crianças, eram meus vizinhos, eles...

-já chega – a bruxa tinha voz doce – você quer continuar com Roger, não quer? Temos de fazer sacrifícios. – a bruxa abraçou Marya, para consolá-la – vamos para casa. Rita pegue os corpos para você se quiser.

-Não! – gritou marya – você não vai comê-los, deixe-me enterrá-los.

-cala a boca menina chorona!

Wesley se levantou, com espada em mãos novamente, sua testa sangrava. “maldição... não posso deixá-las escapar”

-quem é você? – perguntou marya.

-Ele é um homem mau, não vê? Ele tentou matar sua mãe – disse a bruxa de vestido verde – veio nos caçar.

-Marya, está sendo controlada por elas – disse Wesley – vamos embora, eu posso te ajudar. – Wesley não sabia se poderia ajudá-la de fato, mas o fato de que ela estava sobre o controle de bruxas poderia salvá-la da fogueira.

-não o escute Marya – disse a criatura, que havia sido chamada de Rita – ele é um homem ruim, como aqueles que o separaram do seu amado. Vamos embora, ele morrerá também.

Wesley tentou atacar novamente, mas seu golpe cortou apenas o vento, em um piscar de olhos Rita se juntou a Marya e a outra bruxa.

-Não se preocupe – disse a bruxa com os corações em mãos. – ficará tudo bem, você e Roger serão felizes para sempre. – a bruxa beijou Marya na boca. A bruxa gorda levantou seu cajado e todas desapareceram.

-Merda! – o cavaleiro levou a mão à testa, que sangrava.

-ufa, ainda bem que não me viram, se não eu ia acabar como aqueles dois. – disse o saci.

-sabe para onde elas podem ter ido? – perguntou o cavaleiro com a mão sobre o ferimento.

-bem, há outros lugares, posso te levar ao mais próximo daqui.

-ta bem – O olhar de Sir Wesley se voltou para a casa de madeira – mas antes, deixe-me dar uma olhada nessa cabana.

-e eu vou olhar esses doces.

A cabana tinha armário e fogão apenas. Dentro do armário Wesley encontrou linho e usou para enfaixar a cabeça, decidiu que poderia utilizá-lo mais tarde então colocou o tecido que sobrou dentro do alforje. Pegou também uma rodela de queijo e algumas maçãs e também guardou em seu alforje. Não havia mais nada de útil na casa, então Wesley seguiu caminho.

-Não quer descansar? – o saci perguntou.

-não há tempo.

Seguiram a trilha para o norte, “se eu conseguir matar as bruxas e tirá-la daqui... não, não vai adiantar, se ela não morrer por minhas mãos, morrerá quando voltar, mesmo sobre controle de outros, ela cometeu crimes, não há quem possa salvá-la, a não ser que... eu a deixe ir...”

À medida que se afastavam da cabana, os corvos voltavam a surgir, empoleirando-se nas árvores, “elas sabem dos meus passos”, os corvos grasnavam e o encaravam. O saci saltitava sorridente, enchendo a boca com doces.

-É muito longe daqui? O lugar que vai me levar?

-Nem tanto, mas vamos adentrar ainda mais na floresta...

-O que eu vou ter que enfrentar?

-coisas piores do que as que já vimos... – “Hum... e eu pensando que não dava para ficar pior”.

*

Por um tempo, tanto o cavaleiro como o saci ficaram em silêncio, mas os corvos continuavam seus lamentos assim como as sombras na floresta. Porém não foram atacados, os mortos não o haviam visto, apenas lamentavam o que quer que fosse, Wesley não sabia se lamentavam de dor, mas lamentavam, “na verdade, não creio que sintam dor, os homens que derrubei antes, não soltaram um som sequer no golpe final.”

O saci quebrou o silencio entre ele e o cavaleiro:

-Hum, estou pensando se devo voltar pro meu país... – o cavaleiro continuou quieto por um instante. Mas depois disse:

-O que te impede de voltar? Precisa de dinheiro?

-Você me daria dinheiro?

-não.

-na verdade não preciso de um tostão para voltar, posso me esconder em qualquer navio. Mas as coisas lá já não são como antes.

“Hum...apenas a sombra de um grande império de fato.” Wesley conhecera Bradânianos antes, um deles era escritor. O que sabia era que desde o golpe de estado o país já não era mais o mesmo, a violência aumentara, passavam por problemas econômicos e corrupção. “o que foi mesmo que Olyver havia dito?” Olyver era um dos Bradânianos que Wesley conhecera, fora um grande amigo. Olyver havia escrito livros sobre a situação de seu país discorrera sobre as causas da derrocada de sua terra natal em uma de suas obras: “A Bradânia é um país cujas classes artísticas, políticas e intelectuais estão doentes. Doentes da alma, doentes da mente e alguns parecem nem mesmo ter alma. Vemos exemplos disse em figuras demagógicas que permeiam a política, com propostas imbecis, com discursos “idiotizastes” em que suas intenções são extremamente exploradas, mas as consequências não são analisadas de antemão como devem ser, mas isso não impede tais consequências de assolarem o país. A classe artística impõem seu modo de vida doente aos seus espectadores e seus intelectuais são militantes políticos, assim como os artistas também o são, são filósofos de araque, que papagueiam os sensos comuns ou apenas dizem belas palavras sem nenhuma profundidade filosófica, ou seja, não passam de professores de retórica, travestidos de filósofos e nas universidades transmite suas baboseiras com narizes empinados e poses de intelectuais, são politicamente corretos, com ar de superioridade para captar a atenção, a admiração e até um temor como se seus professores “filósofos” fossem seres divinos e que sejam proibidos de inquiri-los, de contestá-los. Além disso, as nações tem três pilares e estes devem ser fortes para a prosperidade, a religião(ou o mito fundador, eu particularmente tenho fé na religião da qual se baseia a origem de meu país, por isso para mim, não é mito coisa nenhuma), a cultura e a linguagem. Os pilares da Bradânia, um dia fortes, estão em ruínas, a religião que fundou o país esta sendo privatizada, boa cultura é marginalizada e perde espaço para a classe artística podre que dominou o país nos dias atuais e o desprezo pelo conhecimento afetou a linguagem do país.”

-Seu país é assim desde a queda do seu império. Conheci pessoas de lá, sei o que acontece por lá.

-Ah, mas eu não gostava daqueles monarcas mesmo...

-Ah é? Por que não?

-Porque eram idiotas, ficavam lá sem fazer nada e eram ricos. Ninguém nunca pediu para eles governarem.

-Mas vocês tinham parlamentares, votavam neles, inclusive havia bons homens, homens sábios e o que têm agora? Demagogos. Sem falar que mesmo um monarca tem afazeres, soube de épocas em que crises foram apaziguadas graças ao imperador que tinham. – o saci estava carrancudo, O cavaleiro sorriu. – você tem inveja não é? Os Radovianos também tinham, por isso apoiaram Ludwig, mas se foderam no fim.

-Cale a boca, não quero falar sobre esses nobres, esse papo é cansativo.

-é cansativo mesmo – Wesley sorriu para o rapazinho. "esse pais esta a beira de um colapso, o que é uma pena, pois é um belo, é realmente uma pena que um país com tanto potencial tenha sofrido uma derrocada tão grande, é incrível como as nações podem saltar da prosperidade para o fracasso com um simples movimento errado.”

Wesley não conseguia ter uma noção de tempo ali, mas já passara do meio dia talvez, sentia fome, era melhor para um pouco, dar água ao cavalo e comer. “Acho que posso descansar”. Porém, era estranho a ideia de parar ali, a floresta o dava um frio na barriga, com seus murmúrios e sombras, mas não tinha escolha, então pararam ao lado da estrada.

Comeram um pouco de queijo e uma maçã cada um. O saci comia sem preocupações, mas Wesley deixou a espada no chão fora da bainha e olhava de um lado a outro, sempre atento a qualquer ameaça.

-Sabe o que eu acho? – disse o saci repentinamente – acho que o exercito devia fazer alguma coisa lá na minha terra, tem gente que diz que isso devia acontecer.

-Ah é? Bem... quem sabe. – Wesley obrigou-se a sorrir. Olyver havia falado sobre isso também em suas obras, mas certa vez ele e Wesley conversaram sobre o assunto:

-O movimento de intervenção ganhou força no seu país. – dissera Wesley. Haviam se encontrado anos atrás, Olyver era amigo de lorde Steward e visitara o castelo dele, Sir Wesley conversava com o amigo na muralha do castelo nesta ocasião.

-Pois é, pobres tolos. – Olyver era velho, com cabelos grisalhos e olhos encovados, porém quando jovem, era loiro e forte e também lutava muito bem, porém deixou o caminho da espada antes de se tornar cavaleiro em seu país e se dedicou a vida intelectual.

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-Tolos? Por que tolos?

-A república do meu país não se sustenta muito bem, o fato de existir pessoas que apelem à força militar para governar o país é exemplo disso. Os militares já participaram da política ativamente, foram eles que derrubaram o império, porém de maneira pacífica, diferente de Radov graças ao bom Deus. – Parou um momento e encarou as estrelas. Então voltou a falar. – A figura de um imperador parece fazer falta a pessoa do meu país caro amigo, com todos os defeitos que uma monarquia possa apresentar, em tempos de crise o poder moderador pode ser útil, não há mais poder moderador no meu país, mas o exercito, com seus cavaleiros em armaduras brilhantes, seus generais, que...bem, no imaginário popular são grandes homens pareceram preencher esse vazio, isso pelo menos nas mentes desesperadas de certas pessoas...pobres tolos de fato.

Lembrar de Olyver o fez se lembrar de outros amigos, dos quais não via há muito tempo, ser cavaleiro andante podia ser uma vida excitante, mas andar por ai não era o tipo de vida perfeita, mesmo para alguém com espírito aventureiro como Sir Wesley. Certos amigos eram difíceis de deixar para trás, assim como certas mulheres. Wesley conheceu bons amigos, assim como conquistou mulheres maravilhosas e tinha convicção que conheceria muitos mais amigos e conquistaria muito mais mulheres, porém, algumas mulheres eram inesquecíveis, assim como alguns amigos. Olyver era um de seus amigos que nunca esqueceu e nunca esqueceria e Victorya era a mulher que mais doeu deixar para trás. Vyctoria foi uma paixão antiga, que conheceu assim que chegou ao sul, foi uma das raras mulheres que usavam espadas que conheceu, não existia o título “cavaleira”, mas Vyctoria era uma espécie de “cavaleira” e além disso foi a única das pouquíssimas que conheceu que caiu em seu charme. Sir Wesley tinha suas feições gravadas em sua mente, tinha uma pele branca como leite e cabelos ruivos de um tom vivo de vermelho e seus olhos eram ébano brilhante e por várias noites Wesley tomou seu corpo para si... nada no mundo o fazia se sentir mais vivo e mais em paz do que tê-la em seus braços e penetrá-la, ouvir seus gemidos e seus sussurros doces. Nunca a esquecera, foi a pessoa que quase o fez deixar o sonho de andar pelo mundo afora, mas no fim, ele a deixou, as vezes se arrependia, mas já estava feito, já nem sabia se ela ainda estava viva, talvez estivesse casada, feliz, com filhos... ”talvez nem se lembre de mim” o cavaleiro pensou.

Os pensamentos o deixaram quieto por um longo tempo, fazendo-o esquecer os monstros, os mortos-vivos, os demônios e os corvos chorosos, o saci percebeu o que o puxou para o mundo real, para fora de seus pensamentos e lembranças:

-Ei, sobre o que está pensando?

-Nada...já acabou de comer?

-já.

-Então vamos.

Wesley montou em seu cavalo, o saci se levantou e então seguiram pela trilha enquanto olhos vermelhos os observavam. Vyctoria voltou a sua mente, lembrou-se do dia em que a conheceu, “torneio pelo nascimento de lorde Julius...ela estava linda, mesmo de armadura” a lembrança o fez sorrir. Vyctoria havia derrubado todos os que a desafiaram e venceu o torneio.

-Você me olha com olhos desejos cavaleiro do norte – dissera ela depois do torneio, quando os cavaleiros a serviço de lorde Julius bebiam a saúde do recém nascido Adriam. Vyctoria e Wesley conversavam um pouco longe da festança, nas muralhas.

-Você é uma mulher diferente de tudo que já vi. – foi o que conseguiu responder a ela. Vyctoria riu.

-Eu também o desejo Sir – aquilo havia feito Wesley corar e ela riu novamente – mas se me quer vai ter que merecer. Os homens me subestimam percebe? Mas sempre se ferram no fim, acontece que eu não creio que você seja um grande lutador, mas talvez seja apenas aparência, as pessoas não acham que sou uma grande guerreira por ser mulher, eu e os outros não achamos que você seja um grande guerreiro, pois não usa uma armadura brilhante e porque acabou de entrar para o serviço ao senhor Julius, Vê? Apenas aparências – ela sorriu, seu sorriso era belo e malicioso, foi o suficiente para deixá-lo excitado. – mas talvez eu o subestime, talvez não seja apenas um rosto bonito, assim como eu não sou apenas uma bela mulher.

-Você fala muito, diga logo o que propõe – disse Sir Wesley sorrindo.

-Vamos lutar, eu te acho bonito e abrirei as pernas de bom grado...se me derrotar com a espada...a de aço quero dizer.

-vamos então – Sir Wesley sorriu.

Foi uma luta acirrada e todos os cavaleiros assistiram e viram assim como a própria Victorya que de fato, Wesley não era só um rosto bonito, mas sim um bom espadachim, bom o suficiente para derrubar a mais forte guerreira da região. Quando Wesley a derrubou no chão ela sorriu e mordeu o lábio inferior de maneira maliciosa e mais tarde naquela mesma noite fez à Wesley aquilo que disse que faria de bom grado e aquela não foi a única vez.

Notas finais
A intenção era escrever a historia em um capítulo único, mas ficou extenso demais. Postarei a segunda parte em seguida. Essa é a primeira historia que posto no site, dependendo do que os leitores acharem, Sir Wesley voltará para mais aventuras.