Andaram lado a lado, o cavaleiro e o saci por aproximadamente duas horas, as nuvens ficaram ainda mais escuras, o número de corvos começou a diminuir, mas um ou outro grasnava por ali, Wesley viu corpos no chão, todos com partes do corpo devoradas ferozmente, “corvos não fizeram isso”, os corpos por ali haviam perdido braços, pernas e alguns estavam pela metade, mesmo os ossos haviam sido destruídos, Havia algum monstro por ali e Wesley temia que tivesse que combatê-lo.

“Por que diabos esses mortos não estão em pé?” o pensamento o deixou perturbado, mesmo os mortos sem partes do corpo deveriam levantar-se ali, por um lado era bom que estivessem todos caídos, porém algo havia os despedaçado recentemente e o que quer que tenha feito isso poderia estar por ali devorando mais corpos. O saci percebeu que algo estava errado:

-Não deviam estar em pé como os outros? Eles parecem ser soldados. – alguns deles usavam placas de aço para proteger o corpo e mesmo assim a criatura que fez aquilo conseguiu arrancar partes de seus corpos.

-Deviam...

-Mas não estão, por quê?

-não sei, mas fique atento se ver alguma coisa.

Ao passo que avançavam os murmúrios dos mortos passaram a ser ouvidos novamente, mas Wesley não viu morto algum a vagar, levou a mão ao cabo da espada e a desembainhou. Os murmúrios passaram então a se tornar gritos, mas não gritos comuns, gritos macabros de alguma criatura.

Wesley continuou pela trilha e os gritos ficavam mais altos e mais altos até que...”cessou...o que diabos foi isso?” Wesley seguiu em frente com o saci ao seu lado até que os gritos recomeçaram e o cavaleiro encontrou a criatura.

Em meio as árvores mortas um monstro combatia dos mortos vivos que o cercavam com espadas, o monstro tinha uma cabeça deformada, com orelhas desproporcionalmente grandes, sua língua era extremamente longa, seus dentes eram grandes e afiados e sua boca era em um formato arredondado, Suas mãos possuíam enormes garras e possuía asas como as de um morcego.

Um dos mortos atacou o monstro com a espada, mas este se esquivou e contra-atacou rasgando a carne podre do morto vivo com as garras. O outro cavaleiro morto também foi derrubado quando o monstro lançou-se sobre ele rasgando sua carne em um frenesi violento, deixando-o em pedaços.

Wesley desceu do cavalo e observou o monstro, o saci pôs-se ao lado dele, o monstro não notou a presença deles, estava entretido com a carne do morto.

-O que diabos é aquilo? – o saci sussurrou. Wesley se agachou e ficou apoiado sobre o joelho esquerdo.

-Aquilo é um Bal-bal – sussurrou respondendo o saci – é um tipo de necrófago, não é muito comum por aqui, mas o excesso de mortos deve tê-lo atraído – monstro se alimentava ferozmente usado as garras para quebrar os ossos – não vamos lutar contra ele, não é necessário, deixe que ele coma a vontade.

Era de fato uma boa ideia, mas o plano de Wesley foi por água abaixo: o cavalo relinchou, um morto vivo vinha até eles, armado com um machado, trajando um gibão amarelo e manoplas de ferro, Wesley levantou-se, aparou o golpe do machado e movimento-contínuo fez a espada cair sobre o ombro do morto. O barulho chamou a atenção do bal-bal que se levantou de um salto, o morto vivo que devorava já estava em pedaços e o monstro estava banhado em tripas e carne podre...mas sua fome é insaciável.

-Afaste-se! – gritou o cavaleiro ao saci.

O monstro saltou sobre Wesley golpeando com suas enormes garras mais de uma vez e o cavaleiro esquivou de todos os golpes e contra-atacou mas a lâmina de sua espada longa parou nas garras duras como ferro do monstro, Wesley atacou novamente com um golpe rápido no flanco esquerdo, mas o bal-bal aparou o golpe novamente.

O cavaleiro afastou-se, segurando a espada de modo a criar ameaça com a ponta, o inimigo se afastou da lâmina, mas sua língua enrolou-se sobre o metal e com um puxão Wesley foi ao chão. O monstro saltou em direção ao cavaleiro para golpeá-lo enquanto estava vulnerável no chão, Wesley defendeu-se com a espada mas as garras atravessaram o metal chegando a perfurar seu rosto, mas mesmo assim a espada o salvou. O monstro retirou suas garras do metal e Wesley levantou-se rapidamente afastando-se. A língua do monstro moveu-se de um lado para o outro, como uma serpente prestes a dar o bote e o “bote” veio de fato, desta vez em direção ao braço de Sir Wesley, quando a língua pegajosa se enrolou no braço do cavaleiro ele soltou a espada e com a mão esquerda que estava livre cortou a língua com o punhal que trazia ao cinto.

O monstro cambaleou para trás, levando suas enormes mãos até o que restou de sua língua, Wesley pegou a espada e investiu contra o bal-bal que estava vulnerável, o monstro percebeu o movimento do cavaleiro e tentou defender-se com a enorme mão esquerda, mas a espada a trespassou como papel e o monstro gritou de dor, Wesley puxou a espada, rasgando a mão do bal-bal e com outro golpe partiu sua crânio deformado em dois fazendo o monstro parar de gritar subitamente e cair no chão, quando o cavaleiro desprendeu a espada do crânio devastado do monstro sangue jorrou.

O saci saiu de trás da árvore de aonde se escondera enojado com a cena do monstro caído.

-Aonde está meu cavalo?

-ele saiu correndo para lá – o saci apontou para a direção de onde tinham vindo.

Wesley foi encontrá-lo sozinho parado entre as árvores, “graças a Deus não se perdeu” o cavaleiro pensou. “que merda, isso podia ter sido evitado.”

-Melhor seguirmos em frente, Deus ajude que nenhum desses apareça novamente. – disse o cavaleiro. – maldição...mais tempo perdido.

Quando passaram pelo corpo do bal-bal novamente Wesley desceu do cavalo.

-O que ta fazendo? – perguntou o saci.

-Não perdi meu tempo à toa, vou querer uma recompensa a mais por ter matado esse bicho.

*

A cabeça do bal-bal balançava conforme os movimentos do cavalo, estava presa por cordas e um gancho ao dorso do animal, com sua língua encurtada balançando, “é bom ele me dar umas 100 moedas a mais no mínimo” o cavaleiro pensou.

O número de corvos passou a aumentar, já que não tinham o bal-bal para competir pela carne. Wesley cavalgou por três horas com o saci a tagarelar ao seu lado, já estava ficando cansado de cavalgar, o ferimento no rosto doía, teve de cobrir com o linho que trouxera, as pontadas de dor passaram a se tornar um incomodo grande, mas teve de aguentar.

Passadas três horas o céu escureceu um pouco mais, logo a noite chegaria e Wesley esperava que pudesse matar as bruxas antes disso acontecer pois a noite poderia piorar a situação. Chegaram a casa das bruxas antes do anoitecer. A cabana ficava no centro de uma vitória-régia gigante, era de madeira pintada de branco, não era possível ver o que se passava através das janelas redondas pois a casa parecia estar tomada por uma fumaça esverdeada da qual escapava pela chaminé. A bruxa monstruosa chamada de Rita se banhava no lago em que a cabana flutuava, o saci ficou ainda mais horrorizado com ela do que com o bal-bal:

-Que coisa horrorosa – mas seu horror se transformou numa risada abafada – acho que ela não entra na casa, é gorda demais para passar na porta.

-Fique quieto – falou o cavaleiro baixinho. Wesley desceu do cavalo, ele e o saci estavam um pouco longe, longe o suficiente para Rita não vê-los – sabe conduzir um cavalo?

-Já vi muitos cavaleiros conduzi-los.

-Ótimo, afaste-se daqui com ele – Wesley pegou o saci pelas ancas como uma criança e o colocou sobre o dorso do cavalo – salte do cavalo se o bal-bal acordar.

-O que? – o saci arregalou os olhos.

-Estou brincando – o cavaleiro sorriu.

-Porque quer que eu o leve daqui?

-Não quero que ele se assuste, não posso perdê-lo, fique longe e mantenha-o parado. Pode fazer isso?

-Posso.

O cavaleiro tirou o manto e entregou ao saci, seria mais fácil se esgueirar sem o manto esvoaçando, apesar de que estava esfriando muito.

-vá – o cavaleiro ordenou.

O cavaleiro se virou e começou a se esgueirar entre as arvores, “preciso saber o que estão fazendo na cabana”. Esgueirou-se ao redor do lago, entre as árvores, a névoa o ajudou a andar sem ser visto. A porta de madeira da cabana abriu-se repentinamente e a fumaça esverdeada escapou por ela. Marya saiu pela porta segurando algo embalado entre os braços, “uma criança, talvez?”, a moça começou a atravessar uma ponte que ligava a planta que sustentava a casa e a terra firme, Wesley continuou a rodear o lago esgueirando-se, “se eu for rápido posso chegar até ela”

Sir Wesley continuou seu caminho passando por árvores e raízes mortas, Marya passou pela ponte e adentrou a floresta sozinha, “agora é à hora, ela está sozinha” pensou o cavaleiro, mas antes de segui-la algo o fez hesitar, “aonde está Rita?” a coisa enorme sumiu do lago sem que ele percebesse. Um corvo começou a crocitar ruidosamente e em ritmo veloz, quase como...”uma risada?” ao se virar o cavaleiro se deparou com a bruxa monstruosa parada com o bastão na enorme e monstruosa mão direita, com o corvo a rir sobre seu ombro. O golpe o fez estatelar-se no chão e veio antes de ele ter tempo de desembainhar a espada.

-Acha que pode se esgueirar pela minha floresta assim? – a bruxa se uniu ao corvo com sua medonha risada – você é um homenzinho insistente, mas não tão esperto, eu tenho olhos por todo esse lugar. – a bruxa mais nova apareceu, vestia um vestido azul.

-Você de novo senhor cavaleiro? Vimos de longe sua luta contra o necrófago.

Rita o pegou com as enormes mãos pela cabeça segurando-o com os dedos.

-Ruth, vá com a Marya, eu cuido dele – a outra bruxa obedeceu – você é um homenzinho impertinente – aproximou o rosto dele e deu uma fungada – vou cozinhá-lo vivo, vai implorar para morrer. – “hoje não...” o cavaleiro pensou.

Wesley pegou seu punhal e cravou no olho esquerdo da bruxa que soltou um grito horroroso e o soltou. O cavaleiro levou a mão ao cabo da espada e desembainhou, a bruxa pegou seu cajado e golpeou cegamente de um lado para o outro com a mão cobrindo o olho destruído e gritando de dor.

O cavaleiro esquivou dos golpes desajeitados e contra-atacou com um golpe em diagonal de baixo para cima, a espada parou na madeira do cajado da bruxa, mas Wesley atacou novamente abrindo a barriga do monstro que cambaleou para trás com as tripas jorrando para fora. Rita manteve a mão sobre o ferimento gemendo de dor, seu cajado brilhou com uma cor alaranjada e um movimento fez chamas rugirem sobre ele, a bruxa passou a cambalear para trás enquanto as chamas rugiam, Wesley se esquivava e avançava o quanto podia, até que a bruxa não teve mais forças para segurar o cajado e o deixou cair. Rita se ajoelhou e levantou as mãos, Wesley se aproximou.

-Por...favor... – disse ela, sua boca estava trêmula – me poupe.

-você matou muitos homens – disse o cavaleiro – seus corpos deviam estar enterrados, mas você e a outra bruxa os amaldiçoou e depois que eu acabar com você, vou levar a cabeça dela também.

A Antes que a bruxa tivesse tempo de suplicar a espada adentrou sua pele avermelhada e enrugada, afundando-se em sua barriga, fazendo jorrar sangue e tripas. Quando a bruxa caiu e Wesley tirou sua espada de dentro dela, o cavaleiro estava banhado em no sangue rubro do monstro. “Deus do céu...” parou um tempo para respirar, chegou a se dobrar para vomitar, mas conseguiu segurar o estômago.

Estava escurecendo, a noite se aproximava. Wesley foi até o rio, lavou a espada e o rosto, depois os braços e as mãos. Ainda estava sujo, com manchas vermelhas de sangue no gibão acolchoado por baixo da armadura, porém não havia tempo para tomar banho, estava escurecendo, os vaga-lumes começavam a aparecer, a noite espreitava e os perigos espreitavam junto dela.

O saci apareceu em cima do cavalo, coberto com o manto arroxeado de Wesley, estava ficando frio Wesley começou a sentir. O saci tapou o nariz ao chegar perto, a bruxa monstruosa exalava um odor igualmente monstruoso.

-Não acredito que conseguiu matar essa porca – o saci se dobrou para o lado, parecia querer vomitar, mas se segurou – ela teve o que merecia.

-Dê-me o meu manto – ordenou o cavaleiro.

-Está frio.

-Eu sei, por isso me de o manto. – o saci obedeceu e Wesley vestiu seu manto roxo. – fique aqui com meu cavalo, vou entrar na casa. – o saci não pareceu gostar da ideia mas nada disse.

Wesley atravessou a ponte de madeira até chegar a grande vitória-régia, insetos variados se rastejavam e saltitavam sobre a enorme planta, lesmas, grilos, baratas e louva-a-deus. A porta da pequena cabana era feita de um carvalho escuro e ao lado da cabana uma árvore cheia de buracos se erguia, mais alta do que qualquer outra árvore na floresta e além disso estava viva e suas folhas lançavam uma longa sombra sobre a cabana de madeira.

Wesley abriu a porta de carvalho e entrou na pequena cabana, lá dentro havia um caldeirão com um líquido esverdeado até a metade em cima de um fogão à lenha agora apagado. Em uma mesinha iluminada por três velas de sebo jazia um livro de capa de couro, quando Wesley o tocou sentiu que a textura da capa era diferente do couro usada para encapar livros no geral, “pele humana talvez?...” se perguntou, talvez fosse, talvez não, a página em que havia sido deixado aberto o livro mostrava um desenho de um feto monstruoso, cujas mãos eram grandes demais para um feto e tinha garras enormes. Ao lado do livro, havia três frascos de poções abertos e com apenas resquícios do conteúdo dentro deles, Wesley se virou para o caldeirão, “talvez a mistura dos três frascos tenha resultado nisso”.

O cavaleiro decidiu que devia ler o livro na mesa, este que dizia: “As poções devem ser misturadas aquecidas no fogo, assim como dois corações, de preferência infantis. Assim que ferverem, o feitiço deve ser jogado enquanto o corpo da criança é banhado na mistura. Como o espírito da criança será puxado de qualquer que seja o plano que tenha sido jogado, ele ficara marcado como fugitivo, então para não ser caçado, o ideal é que o proteja com algum feitiço alternativo” uma nota de rodapé dizia: “O feto será pacifico, a não ser que seja tirado de perto da mãe.”

“Toda essa bagunça não foi feita para reanimar uma pessoa qualquer.” Wesley saiu da cabana e atravessou a ponte novamente. O saci desceu do cavalo de maneira desajeitada quando o viu atravessar a ponte.

-O que elas estavam fazendo na casa? – perguntou o homenzinho. Wesley subiu no cavalo.

-Reanimaram o filho da menina. Tenho que seguir a trilha, com sorte encontrarei elas.

Deixaram o corpo fedorento de Rita para trás, porém sem a cabeça, Wesley a prendeu em outro gancho sobre o dorso do cavalo

*

A noite caíra de vez, a névoa ficou mais densa, não se enxergava um palmo a frente, mas entre a névoa e a escuridão milhares de olhos vermelhos brilhavam observando o cavaleiro e seu companheirinho perneta. A noite ali não tinha lua, nem estrelas, então o cavaleiro segurava um archote para ajudar a enxergar, não ajudava muito mas era o suficiente para ter certeza de que ainda permanecia na trilha.

O corvos grasnavam, o numero de aves aumentou consideravelmente com o cair da noite e as árvores mortas pareciam se encher de folhas negras, tamanho era o numero de pássaros amontoados entre os galhos, com seus olhos vermelhos chorosos e seus grasnares que se assemelhavam a risos, “riem de mim, me querem morto.” O cavaleiro sabia de seu desejo, era carne, se morresse, os corvos se alimentariam de sua carne, comeriam seus olhos, o pensamento lhe deu uma sensação terrível no estômago.

O saci não tagarelava, estava assustado demais para isso. Novamente Wesley passou a ouvir os sussurros dos mortos, assim como seus grunhidos de dor, pareciam ser muitos, mas o cavaleiro não os via, assim como eles provavelmente não o viam também e era melhor assim. Ouvia sons de cascos também, cavaleiros e cavalos mortos vagando pela floresta, sem rumo algum, seus cavalos não faziam outros sons sem ser os sons de seus cascos, já o cavalo de Wesley parecia assustado, mas era um animal obediente e apesar de seu pavor, continuava a andar pela trilha, com olhos atentos e assustados, assim como o saci ao seu lado.

Passaram por arvores mortas e caídas e corpos tão mortos quanto as arvores. Em um momento um coelho assustou o cavaleiro ao surgir repentinamente, Wesley puxou as rédeas do cavalo e o deixou passar, “esse não é um coelho qualquer” o cavaleiro observou, o bicho não tinha muita pelagem e o pouco de pelo que tinha estava sujo com sangue seco, tinha apenas um olho e este não tinha vida alguma, estava morto, mas vagava por ai, uma coisa grotesca de se ver. O coelho passou pela trilha e seguiu seu caminho, qualquer que fosse esse caminho.

Viu também silhuetas e sombras de monstros grandes, ogros e trolls talvez, mas não conseguiu reconhecer a maioria, apenas um deles o cavaleiro reconheceu, um monstro com cabeça de águia e grandes asas brancas, teve certeza quando o monstro levantou voo e rasgou os céus negros como as asas dos corvos que se empoleiravam sobre os galhos, “grifo...” o cavaleiro reconheceu, “Que voe para longe”, de fato o grifo voou para longe e Wesley sentiu um alivio.

No meio da escuridão, luzes ao longe surgiram, entre as árvores o saci e o cavaleiro trocaram um olhar.

-Vamos nos aproximar mais – Wesley disse. O saci assentiu.

Se aproximaram mais um pouco, “tem alguém lá”. Wesley desceu do cavalo e entregou as rédeas ao homenzinho.

-Fique aqui. – disse o cavaleiro.

-Não me deixe sozinho – disse o saci.

-não se preocupe, vou voltar logo, preciso ver isso, talvez seja alguém vivo. Tome – deu o archote para o saci – assim não ficará no escuro, me chame se alguma coisa acontecer.

Wesley andou em direção a luz, com a mão no cabo da espada, dando passos incertos e inseguros, esmagando folhas e galhos. O cavaleiro viu um homem em meio as luzes, os mortos o evitavam, passando longe dele.

O cavaleiro pode reconhecer o símbolo no manto negro do homem, que mostrava duas espadas curtas de prata que emanavam luz, era um caçador da igreja, provavelmente um dos homens que estavam em missão. O caçador estava de costas, cortando algo com sua espada curta, em seu corpo vários guizos prateados tilintavam e era isso que afastava as criaturas dele, trajava uma cota de malha negra e calções negros.

-Senhor! – Wesley chamou. O caçador brandiu sua espada e golpeou algo no chão, puxando a lâmina e rasgando, o som era de carne e pele. – Senhor, meu nome é Wesley, sou um cavaleiro – o caçador não respondeu. Suas luvas negras estavam empapadas de sangue.

Não era um animal que ele esfolava com a espada, Sir Wesley desembainhou sua própria lâmina assim que percebeu. Três corpos humanos com vestimentas negras estavam caídos ao redor do caçador, com buracos em seus peitos. O homem arrancou de um quarto corpo seu coração que já não batia e colocou em um grande saco ao seu lado, o tecido estava empapado de sangue.

O caçador olhou para ele, era um homem velho, enrugado e de cabelos grisalhos, mas de corpo forte, seu olho esquerdo tinha um tapa-olho e o direito estava avermelhado, “está possuído” o cavaleiro compreendeu. O caçador se levantou, com sua espada curta e prateada na mão direita, pegou uma arma que estava encostada em uma arvore ao seu lado, era prateada assim como sua espada, mas não era uma outra espada nem um machado, era alongada, seu cabo era feito de madeira. O homem apontou a arma a Wesley e o cavaleiro compreendeu do que se tratava, então escondeu-se atrás de uma árvore, o som do tiro fez com que as centenas de corvos levantassem voo de uma vez.

O cavaleiro ouviu o som do recarregar e saiu de sua cobertura e investiu contra o caçador, que largou sua arma e segurou sua espada com ambas as mãos, aço e prata cantaram dando sons à noite muda. O caçador era rápido, “rápido demais para um humano” o cavaleiro pensou quando o caçador esquivou de uma série de golpes e desferiu em contra-ataque seus próprios golpes do qual Sir Wesley teve dificuldades de aparar, um deles atingiu seu braço esquerdo, um corte profundo um pouco abaixo das ombreiras.

O cavaleiro se lançou ao ataque novamente, tentando se manter mais afastado, já que sua espada era mais longa do que a do inimigo, o caçador por sua vez se afastava e se esquivava com facilidade. Em uma das esquivas, o caçador se aproximou de Sir Wesley pelo flanco esquerdo lançando um golpe em direção á têmpora do cavaleiro, Sir Wesley se esquivou de maneira desajeitada para trás evitando a lâmina e contra-atacando com um golpe rápido, o caçador esquivou e rapidamente pegou duas pistolas guardadas em dois coldres pendurados em seu peito, o cavaleiro jogou-se atrás de uma arvore, um dos disparos pegou de raspão em sua obreira, o outro não o tocou, então saiu ileso.

O caçador jogou as pistolas no chão e desembainhou a espada novamente, os sons estavam atraindo os mortos-vivos, mas eles não ousavam chegar perto, apenas observavam de longe.

O caçador se aproximou do cavaleiro com espada em mãos e guizos de prata a tilintar, murmurando palavras incompreensíveis e lançando golpes rápidos, Wesley os aparava e esquivava de maneira desengonçada. Em meio aos golpes Wesley chutou o caçador e se afastou por um pouco, tomando três segundos para respirar antes de uma nova saraivada de golpes cair sobre ele.

O caçador rangia os dentes, seus guizos tilintavam e vibravam e a prata nua da espada refletia nas chamas, “espada de prata...espada de prata...” o pensamento surgiu na mente do cavaleiro enquanto aparava os golpes rápidos e violentos do caçador “para caçar monstros e demônios...”.

Wesley se afastou e lançou um golpe que se chocou com a espada do oponente, as espadas lamentaram, Sir Wesley golpeou com o botão de sua espada o pomo-de-adão do caçador que se afastou agarrando a garganta. Wesley golpeou a mão do inimigo cortando a fora, a espada de prata caiu no chão de terra, o cavaleiro lançou sua espada ao chão e pegou a lâmina prateada por seu cabo envolto em tiras de couro.

O caçador começou a se afastar, a visão da prata o assustou, os guizos não o feriam pois estavam por cima das roupas, mas a espada podia feri-lo, então o temível caçador se tornou a presa, afastando e grunhindo de pavor. Wesley brandiu a espada e cortou do ombro direito até a cintura, rasgando a cota de malha, pele e carne.

O caçador caiu de joelhos, gritando de dor, sua pele e carne queimava graças a prata e o cheiro de carne podre e queimada pesou o ar, o caçador permaneceu imóvel no chão, estava morto.

Wesley pegou sua espada e deixou a espada de prata no cão, pegou também alguns dos guizos de prata do caçador e os prendeu em seu gibão apenas três deles, “vou chegar até elas mais rápido se não precisar enfrentar mais monstro algum”. Olhou os homens mortos com seus corações arrancados, “caçadores, todos eles. só este aqui estava possuído e os matou ou todos foram afetados e mataram uns aos outros? Bem, acho que não importa, já estão mortos mesmo”.

*

O cavaleiro se viu cercado pelos mortos, mas os guizos de prata de fato faziam efeito, todos o espreitavam com medo de avançar. Sir Wesley caminhou até o cavalo, aonde o saci esperava com olhos atentos e assustados.

-Ouvi barulhos altos e...está sangrando senhor. – disse o saci. – quem estava lá?

-Ninguém especial. – o cavaleiro pegou linho em seu alforje e amarrou sobre o corte no braço. “Preciso de um curativo bem feito, com cataplasma, mas não há tempo, isso deve dar por enquanto”. Sir Wesley montou sobre o dorso do cavalo. – melhor continuarmos.

Wesley esporeou o cavalo, mais seguro com os guizos agora que viu que eles de fato afastavam os monstros e os demônios, mesmo os corvos mantinham-se afastados dele agora.

-Eu ouvi um som muito alto vindo de Lá, os pássaros levantaram voo na hora, o que aconteceu? – o saci não estava tão seguro.

-foi um tiro. – o saci pareceu não compreender, mas nada disse. – você parece mais assustado do que antes, o que foi?

-É que...a noite eu me escondia sempre, tenho medo de escuro. – o cavaleiro não pode evitar rir. – pare de rir! Os outros sacis sempre riram de mim por ter medo de escuro, “somos escuros, não há motivo para ter medo de escuro” eles diziam. – o cavaleiro sorriu.

-Eu tinha medo de escuro quando criança – o cavaleiro mentiu – mas perdi o medo quando aprendia a usar espada, passei a me sentir mais corajoso. Não se preocupe, nada vai acontecer – tocou um dos guizos de prata.

-O que é isso?

-Guizos de prata, para afastar os mortos.

-Todos os cavaleiros de lorde Alex tinham uma espada de prata, eles diziam que usariam elas se um lobisomem aparecesse.

-Prata é eficaz contra monstros.

-Por que?

-Eu sei lá, só sei que ficam com medo, e quando tocam a prata, ela lhes corroia a pele e a carne. E apenas uma espada de prata pode ferir um espírito. – “Deve haver motivos para isso ocorrer, mas eu não faço ideia de quais são”.

-Porque você não tem uma espada de prata então?

-Eu sou um cavaleiro andante, não um caçador de monstros, espadas de prata não são a melhor opção para matar um cavaleiro inimigo.

O caminho dali em diante ficou mais tranquilo, os mortos ainda espreitavam, dava para ouvir seus sons, mas Wesley cavalgou tranquilamente, sem medo de ser atacado. Os grasnares dos corvos não mais se assemelhavam a risadas, mas sim a gritos raivosos e alguns pareciam até estar assustados, “não são os corvos que têm medo, mas os demônios dentro deles”.

-Será que elas estão longe? – perguntou o saci.

-Não sei, talvez estejam, eu perdi muito tempo. Para onde elas estão indo?

-Essa trilha leva ao maior esconderijo delas, uma clareira enorme próxima à um lago. Nós já estamos bem ao norte, vamos chegar lá logo, mas não sei se chegaremos antes delas.

-O quanto antes chegarmos, mais cedo poderei voltar. – “e pegar minha recompensa”. O saci assentiu, saltitando com sua única perna.

-Se sair vivo não é?

-Eu vou sair vivo.

-Espero que sim, por que se não terei de esperar outro tolo metido a herói como você dar as caras por aqui, até lá vou ter que ficar me esgueirando pela minha própria floresta. – “Sim, pois os caçadores não virão tão cedo”.

-SUA floresta?

-Sim, no meu país sempre diziam que o leão é o rei da floresta...

-... Dizem isso aqui também.

-Pois é, mas não é verdade, o saci é o rei da floresta.

-Ah é?

-Claro que sim.

-Então porque não expulsou os invasores de sua floresta vossa graça?

-Bem, porque não tinha cavaleiros a meu dispor, mas agora tenho.

-Tem?

-Sim Sir, tenho você. – o cavaleiro riu, “bicho esperto”.

*

Andaram por mais uma hora, mas Wesley não encontrou nenhuma das feiticeiras, talvez já tivesse passado da meia noite, não sabia muito bem. Wesley Pôs o saci sobre o lombo do cavalo.

-Não quero sentar ai, não quero chegar perto da cabeça desses monstros, muito menos sentar perto deles. – o saci objetou, fazendo uma careta.

-Vamos logo, tenho que ir rápido, pode fingir que não estão aí.

O saci obedeceu, ainda meio relutante. Wesley entendia a relutância do rapazinho, a cabeça do bal-bal e da bruxa Rita não eram bonitas de se ver nem de chegar perto, mas precisava cavalgar mais rápido e o sacizinho não acompanharia com uma perna só.

A rapidez veio a calhar. Passados um hora encontraram o lago, estava transbordando de corpos. Wesley passou ao largo da margem, enquanto o saci fechava os olhos e tapava o nariz, uma tentativa vã de não vomitar, pois acabou fazendo-o no percurso da margem do lago.

-Vire para a esquerda, vai nos levar até enorme clareira. – Disse o homenzinho.

Wesley incitou o cavalo e seguiu por onde o saci apontou. Os corvos ali já não eram numerosos, na verdade seu numero era ínfimo, pois estavam ocupados com o banquete no lago. A névoa também diminuiu drasticamente, mostrando que estavam próximos do covil das bruxas.

A dissipação da névoa revelou que não só o numero de corvos haviam diminuído, mas o de mortos vivos também, Wesley não via mais os mortos vagarem por ali. Mas sentia que algo pior rondava a região, ouviu sons e sussurros estranhos e a partir de certo ponto, olhos o vigiavam através da escuridão, olhos esverdeados e brilhantes, como esmeraldas que pairavam no ar, mas que não ousavam ir adiante, os guizos tilintavam e a prata brilhava a luz do archote.

Wesley viu também uma enorme silhueta, um monstro andando entre as árvores. Graças a dissipação da névoa Wesley via claramente as formas do monstro, que tinha quatro patas e três enormes garras em cada uma, sua pele era esbranquiçada com manchas marrons e tanto suas costas como parte das patas era cobertas por uma pelagem marrom. Sua cabeça se assemelhava a cabeça de um alce, com uma enorme galhada e dentes pontudos, porém sem pelos como nas costas. Seu corpo era enorme e maciço, assim como seus braços musculosos.

Wesley nunca havia visto nada como aquilo, não era um monstro qualquer, talvez fosse um demônio. Independente disso, Wesley esperava que pudesse passar por ele sem ter que lutar, rezava para que o monstro tivesse medo dos guizos, porém...

...Wesley sempre foi um homem devoto e já viu muitas de suas preces serem atendidas, mas aparentemente não daquela vez. O monstro virou-se para ele e encarou, depois rugiu, os olhos na floresta passaram a se mexer ainda mais rápidos, porém ainda relutantes. Já o monstro não parecia nada relutante e investiu contra o cavaleiro que esporeou o cavalo e desembainhou a espada.

O monstro saltou sobre eles, mas suas garras não os atingiram, Wesley soltou um suspiro de alívio, enquanto seu cavalo corria pela trilha. Porém, o alivio do cavaleiro não durou muito, o monstro enfiou suas garras no chão e as raízes das árvores saltaram como veias da terra, afiadas como adagas enterrando-se na barriga e nas pernas do cavalo fazendo o pobre animal soltar um grito de dor e desespero quase humano enquanto Wesley e o saci se estatelavam no chão.

Quando Wesley pensou em mandar o saci se esconder, o rapazinho já escapulia, sua perna se tornara como um pequeno tufão. Já o cavaleiro não tinha tanta facilidade em fugir e se vira cercado por monstros, todos altos e magros, seus olhos eram esmeraldas e seus corpos eram feitos de madeira, eram chamados de Spriggans.

Os spriggans estavam relutantes, Wesley ainda tinha os guizos a tilintar consigo, mas o monstro maior não pareceu se importar e atacou, enquanto os spriggans recuaram. Wesley se esquivou das enormes garras do monstro e golpeou, fazendo a lâmina cortar o braço esquerdo do monstro que gritou de dor.

Um dos spriggans se aproximou do cavaleiro pelas costas, Wesley golpeou com o botão de prata de sua espada, fazendo o corpo de madeira do monstro se ascender e segundos depois o temível spriggan se tornou uma tocha viva que gritava e gemia de dor, o que serviu de lição aos outros que se afastaram, menos o grande monstro com a galhada que avançava novamente.

Dessa vez o monstro não saltou, mas atacou com as garras, obrigando Wesley a se afastar. O cavaleiro se esquivou para a esquerda e depois para a direita e então contra atacou com uma meia pirueta e um golpe, o monstro se mostrou confuso com as esquivas frequentes e rugiu de dor ao receber o golpe.

Wesley esquivou para trás, afastando-se do contra-ataque do monstro. Os spriggans observavam o duelo de longe, seus olhos esmeralda brilhavam na escuridão, olhando com apreensão os golpes desferidos pelo cavaleiro.

O monstro se mostrou então menos agressivo e mais defensivo, rodeando o cavaleiro e golpeando de maneira mais tímida. “Já chega, hora de mandá-lo de volta para o inferno”, aquele não era um ser deste mundo, era mais provável que fosse de fato um demônio do que um monstro selvagem qualquer.

Wesley pela primeira vez fez sua própria investida contra o oponente, seu golpe foi aparado pelas resistentes garras do monstro. Então o cavaleiro esquivou para a direita, evitando o contra-ataque e enterrou a espada no peito do monstro, fazendo o sangue jorrar sobre si.

O monstro Pôs suas patas peludas sobre a lâmina e quando Wesley a puxou o sangue escorreu rubro pelo peito e pelas patas do monstro, que soltou um grito e caiu morto no chão de areia.

Wesley olhou ao redor, os spriggans continuavam relutantes, apenas observando de longe, o cavaleiro sabia que não seria mais incomodado. Se dirigiu até seu cavalo morto, as raízes haviam entrado profundamente em suas entranhas, na sua garganta e na sua cabeça, perfurando ambos os olhos do animal. a cabeça de Rita e do bal-bal ficaram “intactas”(intactas entre aspas, já que eram cabeças decepadas). Wesley embainhou sua espada e ajoelhou ao lado do cavalo, então rezou por ele. O cavaleiro nunca dava nome aos seus cavalos, para não tornar o momento de suas mortes muito doloroso, mas não ajudava muito, sempre era ruim perder um cavalo.

Pensou por um momento em levar as cabeças com ele, mas lá deixou. O saci apareceu alguns momentos depois, aliviado e sorridente ao ver que o cavaleiro ainda estava vivo.

-Você é um cavaleiro e tanto – disse o homenzinho. – estou começando a achar que vai sair mesmo vivo da floresta no fim. – O cavaleiro nada disse. – está chateado por causa dele? Eu lamento...

-... Tudo bem, é só um cavalo – pôs a mão sobre o pescoço do animal e afagou. Então se levantou – vamos, estamos perto agora.

O saci assentiu sorrindo e pôs-se ao lado do cavaleiro, enquanto os guizos continuavam a tilintar e os spriggans continuavam a observar de longe. Chegaram até um ponto em que a trilha se dividia em dois caminhos, um reto e outro para a direita, viraram para a direita e por fim chegaram ao covil das bruxas.

*

Um fator surpreendeu o cavaleiro: lua e estrelas no céu, que diferente do resto da floresta brilhavam ali. O covil das bruxas era rodeado por árvores, uma casa enorme e sem cor, branca como osso, inclusive os telhados.

O jardim era enorme e coberto por um manto roxo de orquídeas, algo muito belo se comparado com o casarão branco e velho. Wesley observou o covil escondido entre as árvores mortas. No telhado da casa, Marya observava a lua e as estrelas que iluminavam o covil, segurando algo enrolado em um manto, o que Wesley acreditava ser o bebê. Ao lado de Marya, havia um homem sentado, vestido com cota de malha e tabardo e armado com espada e escudo, era um cavaleiro da igreja, Wesley sabia por causa do símbolo em seu tabardo e manto, o homem conversava com a mulher e a beijava também.

No jardim das orquídeas, cinco cavaleiros patrulhavam sobre seus cavalos, “estão mortos?” o cavaleiro se perguntou, não dava para saber muito bem, seus cavalos não pareciam mortos e todos protegidos por armaduras, então se estivessem com feridas não era possível vê-las, assim como os cavaleiros, cujos olhos não estavam totalmente sem vida, mas eram frios. Esses não eram cavaleiros da igreja, alguns eram da guarda da cidade, outros usavam mantos de famílias distintas, mas todos estavam unidos no seu pequeno dever de patrulhar o jardim. Poderiam estar possuídos, ou então presos por algum tipo de feitiço de ilusão. Independente disso, Wesley sabia que eles o atacariam, era um intruso ali.

Além dos cavaleiros, a bruxa que havia seguido Marya, chamada de Ruth também estava no jardim, observando os cavaleiros. Em um momento a bruxa olhou para Wesley, diretamente em seus olhos e sorriu, um sorriso belo e maldoso.

Wesley captou um som de cascos batendo rápidos contra o chão, vindo de trás, o saci se sobressaltou com o susto e se jogou no mato. Sir Wesley olhou para trás, um cavaleiro que não havia visto cavalgava em sua direção com a lança levantada. Wesley levou a mão ao cabo da espada, mas apenas teve tempo de se esquivar rapidamente. A lança do inimigo acertou a arvore que Wesley usava para se esconder ficando presa. Tanto Wesley quanto seu oponente desembainharam suas espadas, mas o cavaleiro montado foi mais rápido e Wesley apenas teve tempo de aparar alguns dos golpes e sentir um deles fazer um corte profundo no braço esquerdo.

Sir Wesley se afastou dois passos para trás, estava perto demais para atacar com sua espada longa, mas não houve tempo para atacar. O cavaleiro inimigo esporeou seu cavalo e avançou em direção ao jardim, foi quando Wesley reparou que os outros cavaleiros já estavam com suas espadas em mãos e a bruxa vigiava de longe, ainda sorrindo da maneira detestável que só ela sabia sorrir.

Os cavaleiros incitaram seus cavalos a avançar e sua investida esmagou as orquídeas por onde passaram, levantando pó atrás de si, um dos cavaleiros passou próximo de Wesley golpeando com sua lança, Wesley esquivou para a esquerda, deparando-se com o golpe de outro homem, este que não foi possível se esquivar apenas aparar o golpe de maneira desajeitada.

Wesley não avançou para o jardim, estava a pé, se fosse ao campo aberto estaria acabado. Os cavaleiros viraram seus cavalos em direção à Wesley e investiram novamente passando pelas árvores mortas. Novamente Wesley esquivou de um golpe de lança de um dos cavaleiros, enquanto os outros passavam por ele sem espaço para golpear, com exceção de um deles, o que havia perdido a lança e avançava com espada em mãos, Wesley esquivou-se facilmente e deu uma estocada na placa de aço que protegia o cavaleiro inimigo, o golpe não o matou, mas foi o suficiente para lançá-lo de cima do cavalo. Wesley deu o golpe final no homem que jazia caído no chão, perfurando sua garganta com a ponta de sua espada longa.

Os cavaleiros ficaram parados, estavam no jardim novamente, encarando Wesley que estava ofegante:

-avance covarde! – um dos cavaleiros gritou para ele. Estava vestindo a armadura negra dos cavaleiros a serviço da família real. “ele sabe o que faz, sabe que é arriscado investir sobre o cavalo entre as árvores, se um desses cavalos tropeçar em uma raiz alta é o fim do cavaleiro que o montar”.

-Vocês estão em maior numero, venham vocês! – gritou Wesley de volta.

-Desmontem e matem-no – o cavaleiro de armadura negra ordenou aos outros. Os outros cavaleiros obedeceram, largando suas lanças e pegando suas espadas.

Os primeiros golpes partiram de um cavaleiro da guarda da cidade, que tinha em mãos uma espada longa como a de Sir Wesley, seus golpes eram rápidos, mas desajeitados, o homem se atrapalhava com as árvores em seu caminho. Sir Wesley aparou um dos golpes que tinham como alvo sua têmpora, em seguida afastou a lâmina do inimigo e golpeou em direção à barriga, mas o cavaleiro se esquivou.

Wesley sentiu que estava prestes a ser cercado, então atacou o cavaleiro à sua esquerda, este que usava espada bastarda e um escudo de madeira pintada de verde e mostrava o brasão da família Arch, um cavalo marrom.

O primeiro golpe de Sir Wesley atingiu o escudo, fazendo voar lascas de madeira e fazendo um corte no imponente cavalo marrom de Arch. O inimigo contra-atacou com sua espada bastarda, mas o golpe não foi efetivo. Outro oponente se aproximou de Wesley pelas costas, com um machado de guerra em mãos. Sir Wesley se esquivou do golpe, o machado do homem se prendeu em uma árvore e Wesley agiu rápido, o homem não usava manoplas e o golpe em vertical, de baixo para cima decepou ambos os braços do cavaleiro.

Enquanto o cavaleiro cujos braços haviam sido decepados berrava no chão, o cavaleiro de armadura negra observava o combate em cima de seu cavalo. O cavaleiro que usava o escudo aproximou-se pela esquerda e o cavaleiro que usava espada longa aproximou-se pela direita, ambos atacaram ao mesmo tempo, Wesley esquivou e contra-atacou de maneira tímida o cavaleiro sem escudo, fazendo-o recuar um passo para trás. O cavaleiro de escudo verde por sua vez avançou e golpeou diversas vezes e Wesley contra-atacou apenas uma, mas seu ataque explodiu no escudo novamente. O oponente de Sir Wesley lançou uma estocada em direção ao seu peito, mas Wesley se esquivou e agarrou seu braço, O cavaleiro levantou o escudo de maneira desesperada, mas o golpe de Wesley afastou a madeira que o protegia e o golpe final atravessou sua garganta, fazendo sangue jorrar sobre o aço da espada de Wesley.

O cavaleiro de armadura negra ergueu seu visor, Sir Wesley pode ver que estava perplexo. O cavaleiro da guarda da cidade estava tão perplexo quanto, de espada na mão olhava o cavaleiro de Arch engasgar com o sangue. Wesley golpeou o oponente que como se acordasse repentinamente de um sonho levantou a espada num ultimo instante e se defendeu. Sir Wesley lançou seguidos ataques contra o oponente, que se defendia de maneira lenta, até que ousou atacar uma única vez, Wesley esquivou com um giro, posicionando-se atrás do inimigo, colocando a espada em sua garganta e girando, cortando tão profundamente que a cabeça do cavaleiro quase foi decepada.

Ao olhar para trás Wesley viu que o guarda da família real já havia descido do cavalo e desembainhado sua espada e o aguardava em meio ao campo de orquídeas, aguardando com olhos perplexos, diferente da frieza que os marcava quando Wesley os vira pela primeira vez.

Desta vez, Sir Wesley não esperou o cavaleiro vir, mas avançou ele mesmo, o gibão branco estava ensopado de sangue no braço esquerdo aonde havia sido golpeado. Ambos os mantos, negro e roxo esvoaçavam ao vento, o cavaleiro da família real abaixou sua viseira e avançou.

Ambas as espadas se chocaram e o aço cantou, Sir Wesley mais defendia do que atacava, seu braço doía muito e cada golpe que aparava com a espada era mais uma pontada de dor.

Um dos golpes do cavaleiro de armadura negra foi lento e Wesley conseguiu esquivar, “preciso esquivar mais, não vou aguentar mais golpes, se meu braço falhar é meu fim”. O cavaleiro inimigo avançou novamente lançando estocadas e Wesley passou a esquivar de quase todos os golpes. Houve um momento em que o jovem cavaleiro encontrou uma oportunidade de atacar e assim o fez, mas a espada resvalou inutilmente no aço polido da placa de aço que cobria o peito do inimigo, o contra ataque do inimigo foi apenas um soco, mas o aço frio das manoplas arrebentou os lábios de Wesley.

Novamente voltaram a trocar golpes, o cavaleiro inimigo estava confiante, dava para ver em seus olhos que já não eram mais frios, atacava ainda mais, com mais velocidade e mais força, um de seus golpes cortou levemente o braço direito de Wesley, porém a estocada foi muito longa e o deixou vulnerável, Wesley afastou a espada do inimigo para baixo usando sua própria lâmina, fazendo-o ficar vulnerável, então pegou seu punhal e o enfiou entre o espaço vazio da viseira. O cavaleiro da guarda real caiu no chão, sem fazer um som além da pancada do aço da armadura no chão de terra entre as flores.

Wesley fincou sua espada no chão e segurou o braço que doía. O cavaleiro que usava a armadura e o tabardo da igreja já não estava no telhado da estranha casa branca, assim como Marya. Wesley olhou para trás, em direção à floresta, o saci espreitava entre as árvores, “ele é bem lento para saltitar, mas para fugir é bem diferente”.

O cavaleiro e a jovem feiticeira surgiram na porta da casa, a garota parecia aflita, mas o cavaleiro estava claramente confiante. O cavaleiro de tabardo branco montou em seu cavalo que estava do lado de fora da casa, diferente dos outros cavalos, dos outros cavaleiros, este não estava coberto por armadura e era branco, assim como o tabardo do cavaleiro que o montava.

O cavaleiro da igreja seguiu calmamente, Wesley observou sem fazer nenhum movimento em direção à espada, pontadas de dor o torturavam e sangue pingava de seu braço esquerdo. Sir Wesley percebeu que este havia voltado dos mortos, mas estava diferente dos mortos que vagavam pela floresta, seus olhos não tinham vida, mas sua pele estava intacta, não tinha vermes comendo seu corpo. Mesmo estando intacto, o homem era extremamente pálido e seus lábios estavam roxos e o cavaleiro parecia ter consciência, diferente dos mortos que Sir Wesley havia visto antes.

-Sua jornada chegou ao fim senhor – disse o cavaleiro que trajava o uniforme da igreja.

-Bem, ainda não, mas logo chegará – Wesley respondeu. – logo quebrarei essa maldição e sua alma vai voltar para o lugar que devia estar. Vou pegar minha recompensa e então poderei continuar a andar por ai, como o cavaleiro andante que sou.

O cavaleiro sobre o dorso do cavalo sorriu e antes que pudesse dizer algo a jovem Marya, que segurava o que possivelmente seria seu bebe nos braços interrompeu:

-Esperem! Senhor... – falou para Sir Wesley –... não precisa fazer isso, está ferido, vai morrer, volte para a cidade, deixe-me em paz, eu fiz isso por amor, por amor ao meu cavaleiro e por amor ao meu filho. Deixe-me viver com eles – a garota virou para o cavaleiro de branco – Roger, vamos entrar, vamos deixá-lo ir. – “Roger... este é o homem que Reginald havia mencionado, Marya o trouxe dos mortos.”

-Me desculpe senhora – disse Sir Wesley – mas não vou embora enquanto não quebrar esta maldição. O que você fez foi um erro, os homens que estão vagando por essa floresta tinham família também, você fez por amor, mas também fez por egoísmo. O que você fez é antinatural e vou por um fim nisso. – virou-se para Sir Roger – senhor, sua alma não pertence mais a este mundo, isso foi um erro, saia do caminho, Marya me ajudara a por um fim na maldição – olhou para a bruxa sorridente que olhava para os três e continuava a sorrir desde que Wesley chegara ali – não precisa morrer diante dela mais uma vez.

-É uma pena Sir Wesley – disse Sir Roger – você é um grande cavaleiro, gostaria de tê-lo conhecido antes e sobre melhores condições... seu fim chegou Senhor. – o cavaleiro ergueu sua lança e olhou para sua amada – Afaste-se meu amor.

Wesley pegou sua espada do chão. Sir Roger avançou, mas seu primeiro golpe não atingiu Sir Wesley, então tentou novamente. Desta vez o golpe passou perto, Wesley se esquivou e afastou a lança com um golpe de sua espada. Da terceira vez, Sir Roger vacilou e sua estocada foi alta demais e Wesley apenas precisou abaixar um pouco a cabeça, rapidamente o jovem cavaleiro do norte se viu livre para golpear e um golpe varreu ambas as patas traseiras do cavalo que caiu gritando no chão, Sir Roger foi lançado ao chão também, perdendo sua lança.

Enquanto Sir Roger se levantava com dificuldade, Wesley poupou a dor do pobre animal e cortou sua garganta. Roger ficou em pé depois de alguns instantes, o cavaleiro já não estava assim tão confiante, pôs a mão sobre o cinturão de sua espada e o desafivelou, depois desembainhou sua espada longa e jogou cinturão e bainha no chão.

Ambos avançaram e as espadas cantaram, Wesley sentia as dores no braço, mas a luta não estava desigual, pois Roger se machucara bastante na queda. Mesmo que ambos estivessem feridos os golpes eram rápidos. Os ferimentos os afetaram, pareciam sentir mais os golpes sempre que aparavam um o golpe do outro.

Houve então um momento em que Sir Roger baixou a guarda e o golpe final se aproximava, mas a bruxa impediu que a lâmina de Wesley abrisse a barriga de Sir Roger, o golpe parou em um campo de força criado por ela.

A bruxa de olhos amarelados como ouro se aproximou rindo e Sir Roger disse:

-Ruth, não se intrometa! – a bruxa riu ainda mais alto:

-o que? Você devia estar morto agora, eu achei que você fosse um grande cavaleiro Sir Roger, mas você é patético. – A bruxa não fez o mínimo esforço para se esquivar ou então se defender do soco que levou do cavaleiro por seu insulto. Depois do golpe ela sorriu, com seus lábios ensanguentados, por incrível que pareça, seu sorriso ainda era estranhamente belo, o sangue umedeceu e realçou seus lábios – patético Sir Roger. – um sinal com a mão e o cavaleiro foi lançado em direção a casa como se fosse um boneco. – lamento por essa vergonha senhor cavaleiro, você lutara com alguém mais apto agora... eu.

Sir Wesley nada disse, apenas manteve sua espada erguida, mas a incerteza bateu em seu coração, estava ferido e lutar com uma feiticeira naquelas condições provavelmente não acabaria bem, porém não havia nada que pudesse fazer agora a não ser lutar.

A bruxa abriu sua mão direita e seu cajado de ferro se materializou sobre ela. Sua não esquerda iluminou-se com um brilho esverdeado e Sir Wesley se moveu em direção a ela, devia se mantiver o mais próximo possível, dependendo da distância a magia podia ser perigosa ao próprio feiticeiro. Wesley desferiu um golpe antes que a bruxa lançasse qualquer magia, seus golpes pararam no ferro frio do cajado da bruxa, até que ela contra atacou golpeando seu rosto com o cajado. Wesley recuou e tentou atacar novamente, mas seu golpe cortou o ar quando a bruxa porto para trás.

A bruxa levantou sua mão esquerda em um movimento rápido, com todos os dedos para cima, a mão continuava a brilhar e Wesley percebeu que ela lançava um feitiço. As raízes da terra levantaram-se acima e ao redor do cavaleiro, eram finas como dedos de mulher e afiadas como adagas, Wesley se esquivou para trás e as raízes tentaram empalá-lo, mas nenhuma delas o alcançou e lá ficaram fincadas no chão de terra.

A bruxa havia se afastado ainda mais e movia sua mão, lançaria outro feitiço. Sir Wesley investiu em direção a ela, mas não conseguiu se aproximar muito, novas raízes surgiram, várias desta vez, tentando golpeá-lo enquanto corria, mas Wesley se esquivou de todas e mesmo que de uma maneira desengonçada, conseguiu se salvar e continuar sua investida. A bela bruxa levantou sua mão novamente e como um fantoche, outra mão surgiu das entranhas da terra, mas era muito maior do que a mão de uma mulher, era um emaranhado de raízes que terminavam em seus cinco dedos. Wesley hesitou por um momento, até que a bruxa fez o movimento de atacar com sua mão esquerda e a sua mão de raízes imitou o movimento, investindo contra o cavaleiro como que para atravessá-lo com os dedos longos e afiados, Wesley esquivou para a esquerda e escapou do golpe, a grande mão de raízes chocou-se contra o chão fincando seus dedos na terra.

Sir Wesley lançou ataques contra a bruxa e o aço da espada se chocou contra o cajado frio novamente, Wesley sentia pontadas de dor em seu braço esquerdo, mas não recuava, “se me afastar eu morrerei”. A bruxa se afastou após uma chuva de golpes e bateu com seu cajado no chão fazendo chamas rugirem da ponta, Sir Wesley se esquivou mas o fogo lambeu seu braço, o cavaleiro não recuou e seu golpe fez a bruxa perder seu cajado, Wesley golpeou novamente e a bruxa se esquivou e então saltou sobre ele, suas mãos brilhavam em um tom de vermelho sangue e garras avermelhadas surgiram aonde antes haviam unhas pintadas. A bruxa enterrou suas garras sobre as ombreiras do cavaleiro, perfurando a placa de aço e chegando até a carne, Wesley gritou de dor e soltou sua espada, as garras rasgaram seus ombros e suas ombreiras foram arrancadas quando a mulher retirou suas garras.

O ataque seguinte foi em direção à garganta do cavaleiro, mas Sir Wesley segurou com dificuldade as mãos da mulher que estavam mais fortes do que o normal, os braços do cavaleiro estremeciam por causa da dor, seu braço esquerdo doía ainda mais, por causa das queimaduras. A bruxa ria histericamente, seu riso era tão doce quanto cruel e ela suspirava entre os risos, como uma mulher suspiraria na cama.

Sir Wesley abriu os braços da mulher para evitar que as garras o perfurasse, rapidamente a largou e saltou para trás. O cavaleiro encontrou novamente sua espada, mas já não aguentava segurá-la muito bem, então manteve a lâmina abaixada enquanto se esforçava para segurar com ambas as mãos, já não tinha mais forças, aquele seria o último golpe que daria, se errasse seria seu fim.

A bruxa estava em um frenesi de sangue, ele sabia, ela poderia pegar seu cajado e acabar com ele com qualquer magia que fosse, mas o cavaleiro via a crueldade nos belíssimos olhos da mulher, ela queria rasgá-lo com as próprias mãos.

A bruxa saltou sobre ele, seus olhos dourados brilhavam, Wesley se esquivou dos golpes dela, até que a bruxa enlouquecida se precipitou, golpeando com a mão direita, seu golpe foi longo, porém lento demais, Wesley esquivou-se rapidamente e levantou sua espada usando as forças que lhe restavam e um instante depois a bruxa gritava e agarrava seu braço ensanguentado, enquanto sua mão e antebraço jaziam ensanguentados no chão. Sir Wesley jogou sua espada no chão e puxou seu punhal a bruxa pôs suas garras da mão esquerda entre eles, esperando defender-se com elas, mas a dor a tornou mais fraca, assim como tornou Wesley mais fraco. O cavaleiro afastou a mão esquerda da bruxa e abriu sua garganta, fazendo seu sangue jorrar para fora.

Depois daquilo, o cavaleiro se deu conta que já não lhe restava forças, “estou acabado...” O cavaleiro se ajoelhou incapacitado e então as forças se esvaíram de vez e ele desmaiou, esperando que nunca mais acordasse.

*

Apesar de tudo o cavaleiro acordou, o saci o vigiava com olhos atentos e esperançosos e sorriu alegremente quando o cavaleiro acordou.

-Ele acordou! – o rapazinho exclamou.

Sir Wesley sentou-se na cama com dificuldade, olhou ao redor e percebeu que estava em uma casa.

-Onde estamos? – o cavaleiro perguntou.

-Na casa da bruxa – o saci respondeu – a garota ruiva cuidou de você. – não havia archote ou lamparina no quarto, mas estava claro, já era dia e a luz do sol da manhã se esgueirava pela janela.

O cavaleiro sentiu que algo se enrolava em seus braços e ombros, quando olhou viu que era tiras de linho, a moça ruiva havia feito curativos, “já não sinto dores, pela graça de Deus. Mas... porque ela cuidou de mim?”.

-Aonde esta marya? – perguntou o cavaleiro.

-No quarto ao lado.

-Fique aqui, vou conversar com ela.

O cavaleiro se levantou e se dirigiu a porta e saiu do quarto para o corredor. A casa era bem charmosa para um “covil de bruxa”, Sir Wesley nunca tinha visto um na verdade e era mais arrumado do que ele imaginava.

Sir Wesley abriu a porta do quarto ao lado lentamente e encontrou a moça sentada em uma cadeira entre duas camas, em uma Sir Roger estava deitado e na outra quem estava deitada era a bruxa que Wesley matara. Antes de dizer qualquer coisa, Sir Wesley examinou rapidamente o corpo da mulher deitada, Seu corpo estava pálido e sua garganta estava uma ruína. As garras continuavam enormes e seus dentes estavam pontudos. “não era uma bruxa comum, era uma vampira, ela não criou garras de maneira mágica... eu poderia ter me tornado um vampiro também”.

-Precisamos conversar menina – era uma ordem, não um pedido.

-Diga o que quer, porque não vai embora? Eu cuidei de você, o mínimo que devia fazer é me deixar em paz.

-Eu agradeço por ter cuidado de mim.

-Eu não queria mais matança...

-Já ouve matança demais não é? Eu vi os mortos vagando pela floresta, confrontei alguns também. Por que fez isso?

-Eu queria meu cavaleiro e meu bebe de volta – os olhos dela se encheu de lágrimas. Estava bela, vestida com um vestido curto de uma cor vermelha assim como o cabelo. – as bruxas me ajudariam se eu as ajudasse.

-E de que ajudas necessitavam?

-Pediram alguns livros e... – ela hesitou – elas pediram que eu trouxesse corpos de pessoas, para que elas arrancassem-lhes os corações.

-E em troca, elas ressuscitaram seu homem e seu filho? – a garota nada disse, apenas balançou a cabeça positivamente – Onde está seu filho?

-Por que quer saber?

-Ele ainda está vivo? Aonde o deixou? Mostre-me.

-O que vai fazer?

-Mostre-me! – o tom do cavaleiro era um tom que não permitia mais discussão, a garota obedeceu, mas estava hesitante.

A garota e o cavaleiro deixaram o quarto e foram para outro quarto ao lado daquele, aonde o bebe estava colocado em um berço, enrolado em peles. Wesley poderia ter se assustado ao ver o garoto, mas não o fez, pois já esperava aquilo. O bebe tinha uma pele de um tom vermelho forte, era mal formado, tinha olhos enormes e não tinha nariz. Suas pernas eram atrofiadas e seus pés ainda não tinham sido formados, era um feto, mas ainda mais deformado, com garras e olhos de animal. Havia também uma marca no pescoço da criança, para afastar caçadores.

-Ele não pertence a esse mundo. – disse o cavaleiro. Marya começou a soluçar e a chorar.

-O que fará com ele? Não pode matá-lo!

-Ele já está morto, vou mandar a alma dele para onde ela pertence.

-Como pode?! Eu salvei sua vida!

Apesar do desespero da moça, Sir Wesley falou em tom brando:

-Eu agradeço e para retribuir, não vou matá-la, mas não posso deixar que vá embora com essa... coisa, ele não merece isso Marya, ele não crescerá mais, ele viverá como uma aberração, quando poderia estar em uma situação melhor do que estar nesse mundo.

-Mas...

-... Sem mas! Você passou dos limites, você já foi egoísta o suficiente, muita gente já morreu por sua causa! – o cavaleiro parou por um pouco e depois voltou a falar de maneira mais branda – você ira embora daqui, buscará sua redenção, buscará o perdão de Deus e eu também buscarei, pois acho que não devia deixá-la sair impune dessa.

A moça abaixou a cabeça e disse bem baixinho:

-esta bem...

-O feitiço já foi quebrado?

-sim. – “ótimo, agora só preciso voltar para a cidade” o cavaleiro pensou.

-Me espere lá fora, vou por um fim nisso. Leve o saci também.

O cavaleiro fez o que devia fazer quando a moça saiu. O golpe foi rápido e o bebe não soltou um som, já dormia quando aconteceu, o que tornou a tarefa menos difícil.

-Já do lado de fora Sir Wesley se despediu da moça:

-Vá para o Norte, pinte o cabelo e comece de novo, eu te dei uma chance menina, não desperdice – a garota assentiu e então se virou e foi-se embora.

-Problema resolvido. – disse o saci – agora posso ficar em paz. – o rapazinho perneta sorriu.

-E eu posso voltar e pegar minha recompensa, apesar de que vou ter que gastar uma boa parte dela para comprar outro cavalo. – o cavaleiro tinha em mãos a cabeça da bruxa que havia matado, havia decapitado-a antes de sair da casa. – vamos agora, há um longo caminho.

*

-Obrigado pela ajuda Sir... – disse o saci ao chegarem na estrada que levava à cidade, haviam demorado quase o dia inteiro para voltar pelo fato de estarem a pé. – sentirei sua falta senhor...

-Você ficará na floresta sozinho?

-Claro que não, um saci não fica na floresta sozinho, agora que estou em paz poderei sair por ai para praticar minhas travessuras... – o saci sorriu.

O cavaleiro estendeu a mão e o rapazinho perneta fez o mesmo:

-Boas travessuras então rapaz.

-E boa sorte nas próximas viagens... e tome cuidado com a mula sem cabeça

O cavaleiro sorriu e disse:

-tomarei.

Dali em diante a caminhada foi solitária mas não durou muito, logo o cavaleiro chegou à cidade. Já era quase noite, o céu tinha a mesma coloração arroxeada que tingia o céu quando o cavaleiro chegara à cidade pela primeira vez.

Passou pela mesma taverna em que conversara com Sir Rickard. Havia um certo tumulto na cidade, a família real estava para sair com sua comitiva de cavaleiros e a população os observava, alguns sorrindo, outros carrancudos. Sir Wesley não parou para ver, apenas seguiu em frente. As pessoas se afastavam e olhavam com nojo ao vê-lo passar segurando a cabeça da bruxa. Os cavaleiro e guardas não interferiram em seu caminho, provavelmente já estavam cientes do que a cabeça se tratava, a maldição havia sido quebrada há um dia, provavelmente os guardas e as pessoas já haviam percebido o que havia ocorrido.

Sir Wesley chegou ao forte, um dos cavaleiros de guarda estava sem seu elmo de topo achatado e arregalou os olhos ao ver Sir Wesley com a cabeça da bruxa.

-O que significa isso?

-Eis a sua bruxa, preciso falar com o seu comandante.

Wesley foi conduzido ao pátio do forte, o comandante aguardava de braços cruzados, enquanto jovens recrutas treinavam atrás dele.

-Sir Wesley... Meus homens relataram a normalidade na área da floresta, foi quando eu soube que teve sucesso – Sir Wesley jogou a cabeça da bruxa no chão – essa não é Marya.

-Eu não encontrei a garota que procura – Sir Wesley mentiu – mas o senhor não me prometeu recompensa por encontrar essa tal de marya e sim para matar uma bruxa e ai está ela.

-A palavra de um homem é sagrada, tome – o cavaleiro entregou o dinheiro a Sir Wesley – tome cuidado com seu dinheiro.

-Não se preocupe com isso, sei resguardar minhas posses. Até mais ver senhor comandante – o cavaleiro se virou para ir embora, mas então parou e se voltou para o comandante novamente – mais uma coisa senhor... eu lamento, mas seus caçadores não retornarão, eu os encontrei, estavam mortos na floresta.

-Como? A floresta não estava no caminho de volta deles.

-Há muitos monstros na floresta senhor, talvez eles tivessem sido atraídos de alguma forma.

-Há ou havia?

-Há, quebrar o feitiço fez com que os corpos permanecessem no chão e afastaram os demônios, mas os monstros são seres desse mundo, eles não estavam lá por causa da maldição, mas foram conjurados ou atraídos, recomendo que mande uma carta para a santa Sé, precisarão de mais caçadores.

-Obrigado por tudo senhor. – o cavaleiro estava atônito, aparentemente não acreditava que Wesley pudesse ter entrado lá sozinho e sair vivo. Ainda por cima seus caçadores estavam mortos. – tenho muito trabalho a fazer.

Sir Wesley acenou com a cabeça positivamente. Antes de ir embora, o cavaleiro voltou para a estalagem para passar a noite. A noite chegou e a lua ascendeu ao céu assim como as milhares de estrelas. Wesley sentou-se sobre a cama, estava feliz por estar vivo, por isso rezou a Deus rapidamente para agradecer. A porta se abriu lentamente, uma jovem morena entrou, Sir Wesley havia pedido que ela lhe mandasse queijo e cerveja quando a noite chegasse e lá estava ela segurando um bandeja.

-Boa noite Sir – a morena colocou a bandeja sobre uma mesinha. – você é o cavaleiro que foi até a floresta, as pessoas andam falando sobre você, estão dizendo que é um grande lutador, que trouxe a cabeça da bruxa.

O cavaleiro sorriu e disse:

-As palavras se espalham como ratos – a moça sorriu. Era bela, seus cabelos cacheados caíam sobre seus ombros e seus olhos eram grandes lascas de ébano.

-Você se feriu?

-Sim.

-Você tem que trocar o linho, está há quanto tempo com esses curativos?

-Desde hoje de manhã. – os curativos estavam sujos e avermelhados de sangue.

A moça fez uma careta.

-Eu trocarei seus curativos, como forma de agradecimento por ter ajudado as pessoas da cidade, mas não agora, preciso cuidar desta bodega, coma. – a moça sorriu.

-Obrigado.

Passadas algumas horas a moça voltou e fez o que disse que faria, trocou o linho, aplicou uma cataplasma e uma pomada sobre os cortes e as queimaduras e então se sentou ao lado do cavaleiro ao terminar.

-Pronto. – disse ela.

O cavaleiro sorriu.

-Obrigado.

-você deve estar com sono – disse a moça – quer que eu o deixe só para dormir?

O cavaleiro despiu-se do gibão, deixando o peito nu, então se deitou e disse:

-Na verdade, se quiser me fazer companhia esta noite, por mim tudo bem.

O cavaleiro falou brincando, mas a moça gostou da ideia e deitou-se com ele.

Ficaram acordados até tarde da noite. Wesley descobriu um pouco da historia da moça:

-Eu vim do sul, de Mallagard, minha família sempre teve uma estalagem lá, mas a perdemos para bandidos, papai foi morto protegendo-a e minha mãe morreu um mês depois. Eu já era crescidinha, consegui um pouco de dinheiro através de... – a moça hesitou – ah, você não vai querer saber, então comprei uma passagem de navio e comecei trabalhar para Steven, o antigo dono do lugar, até que ele morreu e deixou a estalagem para mim.

-Uma historia e tanto – Disse Wesley afagando os seios da moça.

-Aposto que você tem muitas historias.

-Sim, mas não estou a fim de contar

-Ah, por quê?

-Quero fazer outra coisa. – o cavaleiro abriu as pernas da mulher e ela soltou um risinho.

Sir Wesley acordou bem cedo, se levantou com cuidado, sem acordar a moça nua que dormia calmamente ao seu lado. O cavaleiro vestiu seu gibão, prendeu sua placa de aço, vestiu os calções e as botas. Wesley pegou sua espada embainhada e passou o cinturão pelo torso e então envergou seu manto roxo.

Antes de partir, deu um beijo na testa da moça que nada fez, apenas continuou a dormir. Wesley pagou por um novo cavalo, assim como por alforjes e uma cela. Comprou também comida para a viagem, incluindo dois barris do excelente vinho que havia bebido com Sir Reginald, no fim duzentas das suas moedas recém recebidas foram gastas e o cavaleiro por fim partiu na aurora.

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Notas finais
Este é o último capitulo desta historia, mas Sir Wesley voltará, se os leitores gostarem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!