Notas iniciais
Prequel de Once Upon a time. Tudo acontece antes de Regina adotar seu filho Henry, e a série começar. Fanfic de minha autoria, protegida contra plágio.

A rainha olhou para trás, ofegante. Nenhum sinal de Bernard. Ela segurou a testa, atordoada, ajeitando uma mecha de cabelo que lhe caia sobre os olhos. Fora tola ao espiar. Ficara tempo demais observando. Porém, era irresistível, estava vendo a cena de uma fotografia achada cem anos mais tarde. Não conseguira sair dali antes de ser pega.

Enquanto se afastava do cemitério, Regina reprisava tudo em sua mente, ainda com as bochechas vermelhas de nervoso.

Bernard...

O sol se punha, logo escureceria. Precisava dar um jeito em sua vida, arrumar uma hospedagem. Rapidamente encontrou a pensão de uma viúva escocesa que hospedava em sua maioria, moças pobres que vinham da Escócia, da Irlanda e do interior do país para trabalhar.

Parada na soleira da porta, Ms MacGregor a encarava dos pés a cabeça, mais do que cismada, horrorizada.

Regina era bonita demais para ser uma de suas meninas pobretonas. Chegara ali sem malas, dizendo apenas que vinha de longe, muito longe. Sua situação era pra lá de estranha. Relutante, a velha rechonchuda a encaminhou até um quarto, avisando que ela devia todos os dias estar na pensão invariavelmente, as oito da noite. Os candelabros deviam estar apagados as oito e meia, em ponto.

Antes de abrir a porta, estendeu a mão gorda e exigiu pagamento adiantado. Seu preço era caro, abusivo, talvez porque temesse a presença de Regina ali. Sem outra opção, de cara fechada ela pagou, e a mulher desapareceu, sorrindo, contando o dinheiro. Ao entrar no quartinho incrivelmente desprovido de atrativos, Regina sentiu-se grata por mais ninguém estar ocupando-o. Desconfortável, deu uma volta pelo quarto, querendo sua mansão em Storybrookes. Porém estava distante, muito distante, anos distante...

Não demorou, ela soltou o cabelo, e deitou na cama, sentindo-se uma idiota, vestida com um dos ridículos pijamas do armário. O sono veio rápido, certeiro. Atravessara um século, o cansaço a consumia. Dormiu como uma pedra, sonhando com anjos de cimento, olhos verdes e mulheres encapuzadas.

Acordou tarde no dia seguinte. Saiu para tomar café e logo retornou, sem animo para perambular. Foi quando descobriu o relógio de pulso que a trouxera até Londres, preso em seu vestido. Mal o descobrira, Regina meteu-o de novo no tecido. Não queria nem imaginar o que aconteceria se ficasse longe dele.

Já entediada de ficar ali, no momento que decidira ir para a rua, uma densa chuva começou a cair, se estendendo pela tarde toda. Mau humorada, ela tentou parar o inconveniente diversas vezes com seu poder, esticando a mão para a janela, falhando. A prefeita se assustou. Estaria sem mágica naquele reino? Fez uma última tentativa. Funcionou. O tempo ficou firme. Mas havia um efeito colateral. O céu pintou-se de um mágico verde.

Regina xingava, enquanto lá fora, pessoas corriam gritando, assustadas.

As cinco, ela deixou a pensão. Ao sair, podia sentir os olhos de Ms MacGregor reparando nela, cheios de julgamento.

A primeira coisa a fazer era comprar um vestido mais discreto. Para vestir só possuía o que tinha no corpo. Conseguir outro era tarefa urgente. Regina passou por diversos armazéns, caros demais para sua atual condição financeira. E então foi atraída por uma loja com uma dezena de chapéus na vitrine. Ela deu uma olhada dentro do estabelecimento. Era o que procurava. Pediu que uma vendedora pegasse um dos modelos, e depois colocou-o na cabeça, apreciando a si mesma frente ao espelho. Regina perguntou por vestidos. Funcionárias a rodearam com centenas de opções, de várias cores e estilos, falando todas quase que ao mesmo tempo, feito baratas tontas, incomodando muito a rainha. Se pudesse, as transformaria em formigas, pensava. Ela foi rejeitando os vestidos um a um. Chegou a vestir alguns, para logo após os recusar, com desdém. Vendo o seu martírio, uma das vendedoras, que até aquele instante observava tudo calada, disse:

_ Senhorita, acho que sei exatamente o que deseja. — E sumiu, voltando em um minuto com um vestido que fez Regina sorrir.

Ela se enfiou dentro dele e resplandeceu. Era inegavelmente simples, porém lindo, em sua cor favorita. Preto. Favorecia sua silhueta, seu busto. Não expunha seu corpo mas o sugeria, num convite tentador. Combinava perfeitamente com o chapéu. Regina admirava seu reflexo, sentindo-se de fato uma rainha, vendo Evil Queen em toda sua glória. Ainda sem despregar os olhos de si, ela pediu outro vestido, uma variação mais clara do que vestia. Levaria os dois.

Foi quando viu pelo canto do espelho, uma mulher passar pela calçada. Alguém que não encontrava a anos, alguém que lhe desgraçara a vida, que decretara a morte da sua inocência e esperança.

Cora.

Regina virou-se como um raio, assustando as moças ao redor. Correu até a porta, a respiração descompassada, procurando-a com o olhar, entre tantas cabeças.

Havia desaparecido na multidão.

Perturbada, em um segundo ela pagou suas compras e cheia de caixas, ganhou a rua novamente. Não tirara o vestido. Nem se dava conta que estava com ele. Pensava apenas em sua mãe a solta em Londres. Preocupava-se somente em acha-la.

Regina não sabia se podia alugar uma carruagem, como um taxi, tentando ainda assim. Por sorte, conseguiu uma. O cocheiro perguntou para onde ia. A resposta estava na ponta da língua.

_ East End.

O lugar da fotografia. Por alguma razão, Cora estaria lá.

Durante a pequena viagem, a noite caiu como um manto negro sobre o mundo.

Regina olhou pela janela. Haviam deixado os belos prédios e casarões para trás.

O cocheiro parou a carruagem.

_ Senhorita, tem certeza que ficará aqui? — perguntou ele, abrindo a portinhola.

_ Sim.

_ Posso leva-la de volta, já está escuro.

Ela limitou-se a depositar moedas em sua mão. O velho não pensou duas vezes antes de sumir dali. Uma breve olhada pelo local e Regina compreendeu seus motivos.

O East End era um antro de miséria e doença. Crianças imundas que deviam estar em casa, limpas e bem alimentadas, estavam jogadas na sarjeta. Uma delas agarrou sua saia. Regina se desvencilhou com dificuldade. Cortiços com vidraças quebradas e panos encardidos pendurados se amontoavam, formando o cenário. Ratos, baratas e cachorros sarnentos vagavam pelo chão, repleto de lixo em busca de comida. Tudo fedia a urina e excrementos. Os moradores tinham um aspecto anêmico, sujo e doentio. Em seus rostos, nenhuma expressão. Pareciam todos mendigos, esquecidos pela vida e por Deus. Choro estridente de bebê ecoava, se misturando a gritos e xingamentos. Num canto, um moleque era espancado. Homens e mulheres exaustos retornavam do trabalho, caminhando num passo lento e faminto. Pescadores voltavam das docas, indo beber nos prostíbulos, tantos deles, espalhados aqui e ali, fazendo a alegria de velhas cortesãs e mocinhas mal saídas da infância, a exibirem seus ossos na rua .

Assombrada, Regina percorria o bairro.

Como Cora fora parar ali?

Enojada, ela a buscava em meio aquela cena deprimente. Circulou, circulou, acabando enfiada em uma ruela estreita e deserta. Ouviu passos. Cessou os seus próprios. Desconfiada, checou atrás de si. A rua permanecia vazia. Continuou a andar e os passos alheios recomeçaram. De novo, Regina interrompeu seu caminhar. Espremeu os olhos. Alguém a seguia. Fechou os dedos na palma das mãos, enfurecida. Ninguém seguia a rainha. Ela quis liquidar quem quer que fosse que a estivesse perseguindo naquele exato momento, mas não podia usar mágica ou corria o risco de ser descoberta. Uma vez mais Regina inspecionou às suas costas. Apesar da completa escuridão, ela conseguiu perceber um vulto a metros de distância, e junto dele, o brilho metálico de uma faca. O alarme soou. Ela se pôs a correr, escapando por ruazinhas que surgiam a sua frente. Estava tão desesperada que tropeçou, deixando cair as caixas que trazia coladas no corpo. Ágil, começou a catá-las do pavimento. Sentiu um toque frio no braço. O vulgo a havia alcançado. A mataria ali mesmo, longe de qualquer aglomeração.

Não haveria testemunhas do crime.

Numa última tentativa, Regina disparou, descabelada, seu rosto ardendo de ódio, chegando enfim a rua apinhada de gente, onde a carruagem a deixara. Regina olhou de relance para o beco que entrara para zarpar.

A faca estava lá. O assassino se escondia detrás de caixotes de feira, ainda de olho nela.

Porque queriam mata-la?

Estava a dois dias em Londres e tudo que havia feito fora fugir. Fugindo de quem? Do que?