A lenda dos amantes do Tempo
6 O reencontro
Notas iniciais
Regina estava decidida a não sair do quarto, a ficar na cama fingindo que não existia, permitindo que as horas corressem. O dia estava ensolarado, limpo e convidativo. Dentro dela tudo era trevas, dor e saudade. Aquela data chegara mais uma vez, vinda para tortura-la, deixando-a doente de angústia.
O aniversário de morte de seu pai. A morte que veio por suas mãos.
Regina olhou seus dedos. Eles haviam arrancado o coração do único que esteve sempre ao seu lado.
De súbito, mão e fechou os olhos, dolorosamente.
Tinha valido a pena?
Nunca se perdoaria. Onde quer que Henry estivesse, sabia, havia a perdoada. Mas ela não, conviveria até o fim com a culpa.
Regina estava ainda de camisola, debaixo das cobertas. Ela pensou no que seu pai diria. Sentou-se na cama, fitando a paisagem pela janela.
Ele a quereria lá fora, em meio às pessoas, sorrindo.
Henry amava estar ao ar livre. Fora ele que a ensinara a montar, quando Regina não era mais que uma criança. A filha já era rainha e continuavam dando longas caminhadas pelos jardins, cavalgando pelos campos. Era quando sentia-se livre e jovem de novo, cheia de fé no futuro.
Ela encarou-se no espelho enquanto arrumava o cabelo.
Sairia, por ele. Apenas por ele. Henry.
Casais passeavam de braços dados. Mulheres e filhos estavam sentadas no chão, sobre toalhas de piquenique. Crianças brincavam na grama. Londrinos enchiam o lugar, seus rostos alegres refletindo o agradável dia no parque que estavam tendo.
Regina sentou-se longe da felicidade generalizada. Não fazia parte dela.
Ela viu um homem junto a um menino, o olhar terno entre eles. Sem perceber, a rainha abaixou a cabeça e olhou para suas mãos unidas, pousadas sobre o vestido, olhou para o passado.
_ Sinto muito, papai...
Fora um erro ter sacrificado seu pai.
_ Com licença...
Regina ergueu os olhos.
Bernard Bell estava sentado ao seu lado.
_ Espero que não se importe que eu sente aqui, miss...? – disse ele, sorrindo, aguardando que ela revelasse seu nome.
Ela observou todos os detalhes de seu belo rosto por instantes, boquiaberta, depois piscou repetidas vezes, saindo de seu transe.
_ Mills. Regina Mills.
_ Prazer em conhece-la, Miss Mills. Eu sou Bernard. Bernard Bell.
Bernard.
Regina o olhava encantada.
O destino era mesmo uma caixinha de surpresas.
_ Desculpe, sou péssimo de memória, mas... seu rosto não me é estranho. – falou ele, com as pestanas semi cerradas.
Ela balançou o queixo, negando.
_ Acabo de chegar a cidade. Eu venho de longe, muito longe. – respondeu, desanimada.
_ Compreendo. E o que a trás a Londres?
Regina fitou-o por segundos, a resposta tão clara em seu rosto.
Era incapaz de admitir para si mesma que o motivo estava diante dela.
_ Vim reencontrar minha mãe. A anos não a vejo. — contou ela, timidamente.
_ Boa sorte.
Fez-se silêncio.
Os olhos de Bernard foram até a garotinha ao longe, ora a bailar com o ar, ora a rodopiar de braços abertos. Seu sorriso morreu um pouco em seus lábios.
Eliza.
_ Como queria que Annabeth estivesse aqui para vê-la tão crescida. – confessou ele, fixo na garota, como se falasse sozinho.
Seu olhar era a personificação do pesar.
_ Miss Mills, já amou alguém mais que a si próprio?
Regina pensou em Daniel, no pai.
_Sim.
_Eu também. Eu daria a vida por minha Liz, para não vê-la sofrer.
Quão solitário seria Bernard para que se abrisse daquele jeito a uma estranha? Aquele era um homem maltratado pelo sofrimento.
_ Perdoe-me por todas essas tolices. – desculpou-se, se dando conta do que dissera, envergonhado.
_Não! — exclamou Regina, pegando com ânsia a mão de Bernard, que estava sobre o banco. Sua voz saíra mais alta que ela imaginara.
_O que você disse foi muito bonito. – disse ela, verdadeiramente.
Bernard mais uma vez conseguira comover a rainha que não sabia amar.
Ambos fitaram suas mãos unidas.
Eliza acenou e o pai sorriu de volta, retirando a mão da de Regina.
_ Papai! Olhe! — Eliza se divertia agora com um cãozinho.
Memórias envolveram Regina num abraço sufocante.
Ela fechou os olhos e viu uma outra menininha, radiante sobre um cavalo, chamando a atenção do pai, querendo que ele visse quão boa cavaleira era ela. Henry assistia a filha, repleto de orgulho, jurando que moveria céus e terras por sua princesinha.
Bernard levantou sua face, suavemente.
_ O que houve?
Os olhos de Regina estavam marejados.
_ Não chore. – sussurrou.
Propositalmente, ele começou a comentar a cena cômica de uma senhora que andava de um lado para o outro fazendo caretas, tremendo de medo do amigo canino de Eliza que ameaçava ataca-la.
Bernard conseguiu fazê-la rir, arrancando gargalhadas onde antes havia lágrimas.
Porque fazia aquilo? Porque estava ali com a filha, quando homens de sua época só se importavam com negócios e amantes? Porque conversava com ela? Sem reservas, sem flertes e segundas intenções? Era tão diferentes dos outros, fissurados pelo seu poder, sua beleza, pensava Regina, ainda rindo com ele.
Eliza correu até o pai.
_ Quem é sua amiga? — perguntou, encarando a prefeita.
_ É linda... – disse a menina, tocando os cabelos negros de Regina, olhando-a com fascínio.
A rainha não esperava um abraço. Não soube como reagir aos bracinhos em volta dela. Sem nada poder fazer, se permitiu ficar, sentindo o calor do corpinho infantil, o perfume do cabelo louro.
Na vida de Regina não havia abraços. Nem amor.
_ Posso usar seu chapéu? — questionou a pequena, pendurada em seu pescoço, sentada em seu colo.
Regina colocou o chapéu em sua cabeça.
_ Pronto.
_ Vamos, Liz. Hora de ir. – avisou Bernard, levantando.
_ Mas papai — Eliza choramingou – ela tem que ver minha nova casa de bonecas!
_ Parece que você tem um compromisso, Miss Mills.
O sorriso de Bernard exibia um convite.
Regina recusou. Aquilo não fazia parte dos seus planos. Nada daquilo fazia.
Por fim acabou indo com a família Bell. Eliza ia a frente, saltitando, a rainha e Bernard atrás. Chegando frente a uma bela mansão, a garotinha agarrou a mão da moça.
_ Vamos!
O pai agachou-se na altura da criança.
_ Fica para outro dia, Liz. Vá para dentro. Ms Davis está te esperando.
Regina percebeu o rosto grave de uma mulher, na mais alta janela da casa. Ela tentou uma falha despedida:
_ Deixe-me acompanha-la. As ruas da cidade estão cheias de demônios, assassinos... – brincou Bell.
Regina empalideceu.
Enquanto caminhavam até a pensão, Regina esqueceu-se da tristeza que a parasitava antes de ir a praça. Só sabia sorrir, com o coração leve e despreocupado.
_ Foi um prazer conhece-la, Miss Mills. – disse Bernard, tímido, inclinando a cabeça levemente.
_ Adeus... disse Regina. Seus olhos brilhavam.
Quando ela entrou em seu quarto, sem jeito e com as bochechas coradas, algo havia mudado nela. Para melhor.
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