Notas iniciais
Prequel de Once Upon a Time. Tudo acontece antes de Regina adotar seu filho Henry e a série começar. Fanfic de minha autoria, protegida contra plágio.

Regina estava decidida a não sair do quarto, a ficar na cama fingindo que não existia, permitindo que as horas corressem. O dia estava ensolarado, limpo e convidativo. Dentro dela tudo era trevas, dor e saudade. Aquela data chegara mais uma vez, vinda para tortura-la, deixando-a doente de angústia.

O aniversário de morte de seu pai. A morte que veio por suas mãos.

Regina olhou seus dedos. Eles haviam arrancado o coração do único que esteve sempre ao seu lado.

De súbito, mão e fechou os olhos, dolorosamente.

Tinha valido a pena?

Nunca se perdoaria. Onde quer que Henry estivesse, sabia, havia a perdoada. Mas ela não, conviveria até o fim com a culpa.

Regina estava ainda de camisola, debaixo das cobertas. Ela pensou no que seu pai diria. Sentou-se na cama, fitando a paisagem pela janela.

Ele a quereria lá fora, em meio às pessoas, sorrindo.

Henry amava estar ao ar livre. Fora ele que a ensinara a montar, quando Regina não era mais que uma criança. A filha já era rainha e continuavam dando longas caminhadas pelos jardins, cavalgando pelos campos. Era quando sentia-se livre e jovem de novo, cheia de fé no futuro.

Ela encarou-se no espelho enquanto arrumava o cabelo.

Sairia, por ele. Apenas por ele. Henry.

Casais passeavam de braços dados. Mulheres e filhos estavam sentadas no chão, sobre toalhas de piquenique. Crianças brincavam na grama. Londrinos enchiam o lugar, seus rostos alegres refletindo o agradável dia no parque que estavam tendo.

Regina sentou-se longe da felicidade generalizada. Não fazia parte dela.

Ela viu um homem junto a um menino, o olhar terno entre eles. Sem perceber, a rainha abaixou a cabeça e olhou para suas mãos unidas, pousadas sobre o vestido, olhou para o passado.

_ Sinto muito, papai...

Fora um erro ter sacrificado seu pai.

_ Com licença...

Regina ergueu os olhos.

Bernard Bell estava sentado ao seu lado.

_ Espero que não se importe que eu sente aqui, miss...? – disse ele, sorrindo, aguardando que ela revelasse seu nome.

Ela observou todos os detalhes de seu belo rosto por instantes, boquiaberta, depois piscou repetidas vezes, saindo de seu transe.

_ Mills. Regina Mills.

_ Prazer em conhece-la, Miss Mills. Eu sou Bernard. Bernard Bell.

Bernard.

Regina o olhava encantada.

O destino era mesmo uma caixinha de surpresas.

_ Desculpe, sou péssimo de memória, mas... seu rosto não me é estranho. – falou ele, com as pestanas semi cerradas.

Ela balançou o queixo, negando.

_ Acabo de chegar a cidade. Eu venho de longe, muito longe. – respondeu, desanimada.

_ Compreendo. E o que a trás a Londres?

Regina fitou-o por segundos, a resposta tão clara em seu rosto.

Era incapaz de admitir para si mesma que o motivo estava diante dela.

_ Vim reencontrar minha mãe. A anos não a vejo. — contou ela, timidamente.

_ Boa sorte.

Fez-se silêncio.

Os olhos de Bernard foram até a garotinha ao longe, ora a bailar com o ar, ora a rodopiar de braços abertos. Seu sorriso morreu um pouco em seus lábios.

Eliza.

_ Como queria que Annabeth estivesse aqui para vê-la tão crescida. – confessou ele, fixo na garota, como se falasse sozinho.

Seu olhar era a personificação do pesar.

_ Miss Mills, já amou alguém mais que a si próprio?

Regina pensou em Daniel, no pai.

_Sim.

_Eu também. Eu daria a vida por minha Liz, para não vê-la sofrer.

Quão solitário seria Bernard para que se abrisse daquele jeito a uma estranha? Aquele era um homem maltratado pelo sofrimento.

_ Perdoe-me por todas essas tolices. – desculpou-se, se dando conta do que dissera, envergonhado.

_Não! — exclamou Regina, pegando com ânsia a mão de Bernard, que estava sobre o banco. Sua voz saíra mais alta que ela imaginara.

_O que você disse foi muito bonito. – disse ela, verdadeiramente.

Bernard mais uma vez conseguira comover a rainha que não sabia amar.

Ambos fitaram suas mãos unidas.

Eliza acenou e o pai sorriu de volta, retirando a mão da de Regina.

_ Papai! Olhe! — Eliza se divertia agora com um cãozinho.

Memórias envolveram Regina num abraço sufocante.

Ela fechou os olhos e viu uma outra menininha, radiante sobre um cavalo, chamando a atenção do pai, querendo que ele visse quão boa cavaleira era ela. Henry assistia a filha, repleto de orgulho, jurando que moveria céus e terras por sua princesinha.

Bernard levantou sua face, suavemente.

_ O que houve?

Os olhos de Regina estavam marejados.

_ Não chore. – sussurrou.

Propositalmente, ele começou a comentar a cena cômica de uma senhora que andava de um lado para o outro fazendo caretas, tremendo de medo do amigo canino de Eliza que ameaçava ataca-la.

Bernard conseguiu fazê-la rir, arrancando gargalhadas onde antes havia lágrimas.

Porque fazia aquilo? Porque estava ali com a filha, quando homens de sua época só se importavam com negócios e amantes? Porque conversava com ela? Sem reservas, sem flertes e segundas intenções? Era tão diferentes dos outros, fissurados pelo seu poder, sua beleza, pensava Regina, ainda rindo com ele.

Eliza correu até o pai.

_ Quem é sua amiga? — perguntou, encarando a prefeita.

_ É linda... – disse a menina, tocando os cabelos negros de Regina, olhando-a com fascínio.

A rainha não esperava um abraço. Não soube como reagir aos bracinhos em volta dela. Sem nada poder fazer, se permitiu ficar, sentindo o calor do corpinho infantil, o perfume do cabelo louro.

Na vida de Regina não havia abraços. Nem amor.

_ Posso usar seu chapéu? — questionou a pequena, pendurada em seu pescoço, sentada em seu colo.

Regina colocou o chapéu em sua cabeça.

_ Pronto.

_ Vamos, Liz. Hora de ir. – avisou Bernard, levantando.

_ Mas papai — Eliza choramingou – ela tem que ver minha nova casa de bonecas!

_ Parece que você tem um compromisso, Miss Mills.

O sorriso de Bernard exibia um convite.

Regina recusou. Aquilo não fazia parte dos seus planos. Nada daquilo fazia.

Por fim acabou indo com a família Bell. Eliza ia a frente, saltitando, a rainha e Bernard atrás. Chegando frente a uma bela mansão, a garotinha agarrou a mão da moça.

_ Vamos!

O pai agachou-se na altura da criança.

_ Fica para outro dia, Liz. Vá para dentro. Ms Davis está te esperando.

Regina percebeu o rosto grave de uma mulher, na mais alta janela da casa. Ela tentou uma falha despedida:

_ Deixe-me acompanha-la. As ruas da cidade estão cheias de demônios, assassinos... – brincou Bell.

Regina empalideceu.

Enquanto caminhavam até a pensão, Regina esqueceu-se da tristeza que a parasitava antes de ir a praça. Só sabia sorrir, com o coração leve e despreocupado.

_ Foi um prazer conhece-la, Miss Mills. – disse Bernard, tímido, inclinando a cabeça levemente.

_ Adeus... disse Regina. Seus olhos brilhavam.

Quando ela entrou em seu quarto, sem jeito e com as bochechas coradas, algo havia mudado nela. Para melhor.