A lenda dos amantes do Tempo
7 Uma mágica noite
Notas iniciais


Regina tentava entender tudo o que acontecera no dia anterior. O encontro na praça, o abraço da garotinha, a conexão entre Bernard e ela. Sentia-se estranha, sem saber o que pensar. A verdade era que, a anos não tinha um dia tão marcante, em que se sentisse de fato viva, contente e por isso mesmo, tão vulnerável.
Ela olhou para o armário onde os vestidos estavam guardados.
Esquecera seu precioso chapéu com Eliza, e com ela ficaria.
A rainha não podia ir pegá-lo e ficar mais uma vez frente a Bernard. Era demais. Aqueles olhos verdes tristes mudaram alguma coisa nela. E Regina não estava disposta a descobrir o quê.
Alguém batia irritantemente na porta, a tirando de seus pensamentos.
Ela girou a maçaneta, abrindo-a.
Ms MacGregor tinha os olhos acusatórios e o chapéu na mão estendida. E havia algo mais. Uma carta.
Regina agradeceu a mulher e depois sentou na cama, colocando o chapéu ao seu lado, olhando o pequeno retângulo em seus dedos como se fosse uma bomba. Ela virou o envelope, lendo as iniciais. BB
Temia o que encontraria escrito.
Demorou minutos até que tivesse coragem de começar a ler a carta.
“ Miss Mills, lhe conhecer fora para dizer o mínimo, uma grata surpresa, a mim e a minha filha. A tempo não tínhamos uma tarde tão proveitosa. Peço perdão por Eliza, pelo seu chapéu. Espero que não tenha precisado dele. Daremos um pequeno jantar essa noite. Como pedido de desculpas, aceite ser nossa convidada. Eliza e a amiguinha apresentarão uma peça e fazem questão que a assista. Aguardamos sua presença às sete.
( No envelope há também a cartinha de Liz. Ela insistiu que eu a enviasse. ) “
Mr Bernard Bell
Regina retirou o pedaço de papel dobrado do fundo do envelope.
Em letras grandes, infantis, estava um apelo:
“ MISS MILLS POR FAVOR VENHA! GOSTAMOS MUITO DA SENHORITA! “
Regina pousou a carta na cama e encolheu os ombros. Era como segurar o peso do mundo. Lá estavam eles, prontos a serem gentis, a lhe dar um carinho que ela não merecia, que não lhe era devido.
A prefeita ficou na cama por horas, rolando, inquieta, decidida a não ir. Ela encarou o teto, cansada de tanto mover-se.
Seria melhor assim. Sim, seria.
Seu sorriso desmoronou.
A carta continuava aberta, a seu lado.
A quem queria enganar? Até quando fugiria? Lançara uma maldição, mandara todos para um mundo inteiramente desconhecido por não aguentar ver a alegria da doce e perfeita Branca de Neve. No fundo, tentou fugir de sua vida infeliz, caindo numa mais miserável ainda. Agora, estava ali, o convite estava feito, Bernard e sua filhinha a aguardava.
Archie repetia, cem anos distante:
“... há um mundo inteiro a sua espera. Pronto a abraça-la. Você só precisa se permitir. “
Bastava Regina acreditar, que também ela podia sair e ter sua dose de felicidade. E ela acreditou.
Com os nervos a flor da pele, a prefeita parou frente a mansão da família Bell. Hesitante, bateu na porta de madeira, sem imaginar que seria Bernard a lhe recepcionar, com aquele seu sorriso capaz de derreter até mesmo o gelo do coração da rainha.
_ Eu sabia que viria! — Regina corou, mesmo sem querer. _ Seja bem vinda!
_ MISS MILLS! — Uma Eliza eufórica foi descendo a imensa escada, de vestido, só de meias e um laço frouxo no cabelo louro.
_ Eliza Meredith Bell! Venha calçar seus sapatos! — uma voz brusca dizia, de algum lugar.
A garota abraçou sua cintura, afetuosamente.
_Senti sua falta. – disse com os olhinhos fechados — vamos! A casa de bonecas!
E a puxou pela mão.
Regina fitou Bernard e recebeu um olhar cúmplice.
Não havia como lutar contra a menina. Ela deixou-se levar por degraus, indo até um quarto, digno de princesa.
Era como se houvessem despejado magia no quartinho, repleto de ursos de pelúcia, bonecas e brinquedos. Fadas e flores estavam pintadas nas paredes cor de rosa. Do lustre pendiam pequenas e iluminadas borboletas. Eliza amava esses bichinhos. Para além das largas janelas, centenas de luzes, telhados e chaminés tomavam a noite londrina.
_ Oi! Falou uma garotinha, tão loura quanto Eliza, deitada na cama de ferro, com os cotovelos debruçados sobre um livro _ estávamos contando para as moradoras da casa de bonecas a história...
_ De Robin Hood. – completou Regina, arrepiada, com os olhos fixos na tatuagem de leão no braço do ladrão, desenhado no papel.
Eliza colocou seu mais novo e amado brinquedo no colo e foi apresentando uma a uma as bonecas.
_ E ah! — soltou ao terminar a apresentação – essa é minha amiga, Wendy.
_ Wendy Darling. – sorriu a amiguinha, exibindo o sorriso de dentes perfeitos.
Eliza insistiu que Regina brincasse com elas. Era impossível fugir da pequena bagunceira. Passada a resistência, ela se viu rindo, descabelada, brincando com a jovem senhorita Bell e Wendy.
Passos rangeram pelo chão de madeira.
Liz empalideceu, suspirando.
Uma mulher apareceu, fulminando Regina.
_ Providenciarei para que fique sem jantar, Eliza.
Quem ameaçava era a senhora que Regina vira na janela, no dia que conhecera os Bell. Vestia um vestido sem graça, fechado até no pescoço, o cabelo repartido, preso num coque. Trazia dois sapatos nas mãos, os olhos gélidos e uma expressão que indicava que a ela o mundo era um eterno desgosto.
_ Mas Ms Davis!
_ Sem mas!
Ela lançou novamente um olhar maligno para Regina.
_ Não hoje, Ms Davis! — disse Bernard, categórico, aparecendo na porta. Depois, o homem sorriu, divertido com a cena da prefeita brincando com a filha.
_ Vamos, o jantar está pronto.
Foram para a sala de jantar. A casa da família Bell parecia um mini palácio, cheio de dourado, candelabros, espelhos, quadros, tapetes e o que havia de mais moderno e requintado na época. Tomaram lugares em volta de uma enorme mesa. Regina foi enfim apresentada a Maise Davis, a desagradável governanta da residência e então um pequeno banquete foi servido. Comiam em silêncio, e Regina podia sentir Maise a encarando, não crendo nem um pouco na explicação de Bernard para quem era a prefeita: uma prima distante que passava uma temporada na cidade. Ela não tinha certeza, mas supunha o escândalo que seria para a sociedade uma moça aparentemente solteira ali, desacompanhada, jantando com Bernard.
A governanta estava, intimamente, lhe dando nos nervos.
Maise levou uma farta garfada de comida a boca.
Que bom seria se se engasgasse.
Carregada pelo vento, a soprar sobre velas e todos eles, uma borboleta veio batendo asas sobre a mesa de jantar, para encanto de Eliza.
Regina moveu os dedos sob a toalha e dezenas de borboletinhas de todas as cores e tamanhos adentraram pela janela, voando sobre suas cabeças. Eliza e Wendy erguiam-se em seus lugares, radiantes, tentando pegá-las. Maise se encolhia, apavorada.
Regina trocou um olhar com Bernard, sentado logo a sua frente.
Os olhos dos dois, iluminados, disseram tanto por eles.
Estavam tendo uma mágica noite.
Maise deu um gritinho de pavor, quase caindo de sua cadeira. Havia engolido uma minúscula borboleta. Acabara de fato, se engasgando.
Terminado o sem dúvidas, fantástico jantar, as meninas os arrastaram até uma sala onde haviam montado um cenário com almofadas, tecidos e bugigangas brilhosas. Eliza estufou o peito para dizer que apresentariam a peça: Uma rainha tristonha e todos bateram palmas.
_ Era uma vez uma rainha malvada, muito, muito malvada, que morava num reino muito muito distante... – contou Wendy seriamente, enquanto Eliza, com uma coroa improvisada na cabeça, dentro de um vestido grande demais para ela, encenava, fazendo caretas.
_... a diversão favorita da rainha era arrancar corações, os transformando em poeira — continuou Wendy, soprando os dedos como se jogasse pó ao público. Eliza fingiu tomar o coração de Rupert, o imenso cão da família propriamente caracterizado para o teatro que caiu morto, batendo a pança gorda no chão.
_... mas o que ninguém podia imaginar — Wendy suspirou — era que a rainha também tivesse um coração, machucado e solitário... – Eliza pôs a mão no peito, o rosto em plena sofreguidão.
_... a rainha a muitos fizera mal, e ainda assim não conseguia curar seu coração...
Regina mal piscava, imóvel em sua poltrona. Maise bocejava.
_... então ela pensou: e se enfeitiçasse o tempo? Fizesse ele voltar? Foi isso o que ela fez... — Eliza girava, girava, com braços abertos.
_... e então, a rainha tristonha foi feliz para sempre junto do bonito cavalheiro que encontrou nessa louca viagem. Fim! — Wendy colou em si um bigode falso e vestida de menino, se ajoelhou, dando a mão para Eliza.
Regina, com os olhos cheios de emoção, mirou Bernard a aplaudir as garotas.
Ela desejou do fundo da alma que a história fosse real.
Um choro agudo invadiu todos os ouvidos, destruindo a atmosfera da sala. O semblante de Bernard se fechou. Ele disparou pelas escadas, sendo seguido por Maise.
As meninas calaram. O choro prosseguia, sem trégua, mais alto que nunca, tomando toda a casa.
Regina, sem saber se fazia o certo, seguiu o som, até uma porta aberta. Ela deu alguns passos indecisos, entrando num quarto azul delicado. Não havia sinal da governanta. Bernard estava curvado, apoiado num berço. Seu rosto era a expressão viva do desalento, resignação, tristeza. Ela se aproximou, cautelosa. Invadia um momento íntimo de dor. Prendeu a respiração.
No bercinho havia uma criança.
_ Desde que nascera, todos os dias, ele chora, chora pela mãe. – as palavras de Bernard saíram doloridas, sufocadas. Regina pousou a mão no ombro dele.
_ Se Annabeth estivesse aqui, tudo seria mais fácil. – confessou num sussurro.
Regina finalmente viu Bernard, sem máscaras. Por baixo da gentileza havia um homem frágil, massacrado pelo sofrimento, o homem que Regina vira no livro prostrado diante do túmulo. O homem que a trouxera até ali.
_mas... – continuou ele — minha Annabeth precisou partir para que ele nascesse, Henry.
Regina fitou a pintura gigante na parede. Uma mulher, idêntica a Eliza, sorria sentada em um balanço, em meio a um jardim florido. Era tão bela e jovem. Tinha o brilho das pessoas realmente especiais, que adoram a vida.
Bell perdera a mulher que amava e também, a tempos, as forças.
Regina encarava o bercinho lembrando de Archie.
Uma criança poderia ser sua nova chance.
Trêmula, Regina pegou o menino e o embalou.
O choro cessou.
O bebê a olhava com admiração.
_ Henry era o nome de meu pai. – disse sorrindo, com os olhos marejados.
Bernard se iluminou.
E então Regina soube, tinha nos braços e a sua frente algo muito raro, algo porque lutar.
Sua felicidade.
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