A lenda dos amantes do Tempo
9 O homem que fez a rainha acreditar
Notas iniciais

Regina despertou.
Acordara com o burburinho vindo do corredor, com o abrir e fechar de portas, os passos. Era cedo e as meninas de Madame Duchamp já estavam bem acordadas.
Ela levantou-se, ansiosa com o dia que viria.
Vestiu o vestido uniforme deixado por Amy e iniciou uma manhã de muito trabalho.
Antes porém, ficou instantes parada diante da cama vazia de Abigail, como se esperasse que lençóis e travesseiro lhe desse respostas.
A moça e seus olhos bizarros permaneciam um mistério.
Não passava das oito e Le duches já fervilhava. A façanha de Regina atraíra mulheres dos quatro cantos de Londres, dispostas a pagarem o que fosse pela mágica que transformara a princesa numa beldade. Ainda assim, Madame enviava sinais claros a prefeita, de que estava atenta, para que não se vangloriasse muito, ela viveria tempos árduos por ali.
A primeira provação não tardou a surgir. Regina fora encarregada de levar chapéus até uma velha, decrépita demais para ir até a loja, vaidosa demais para passar sem esse capricho. A rainha pode ouvir as risadinhas abafadas quando a mulher lhe dera a missão. Ela foi para a rua, carregandoenormes caixas debaixo de um nevoeiro, por muitos e inconvenientes minutos. O vento gelado soprava desgrenhando seus cabelos, fazendo-os voar sobre seu rosto.
Durante todo o caminho, Regina desejou uma morte lenta e dolorosa a MadameDuchamp.
Mrs Lloyd cheirava a doença. Morava longe. Era um belo exemplo de como as inglesas podiam ser más educadas, e feias. Demorou mais de uma hora para decidir não comprar nenhum chapéu. Mas a viagem não fora de todo desperdiçada.
Regina voltava rapidamente. O tempo fizera o favor de piorar. Poderia tomar uma carruagem sem dificuldades, isso se a patroa não fosse tão pão dura. Aquele havia de ser um péssimo primeiro de trabalho, se não fosse odestino fazê-la cruzar com uma pessoa...
Regina passou frente ao falado Banco da Inglaterra. Dentro dele, viu homens de bigode, sérios e encartolados entrando e saindo, tratando de seus negócios, checando suas contas. E também, lá estava ele, tragado pelo tumulto, parte escondido pela aglomeração.
Bernard.
Com o semblante nulo, tão expressivo como as altas paredes de concreto, a boca sem sorrisos, seus costumeiros olhos tristes, mais tristes, baixos.
Seus movimentos eram rudes, automáticos, sem nenhuma energia.
Era como um animal enjaulado, conformado com o cárcere.
Regina não pode evitar, sorriu timidamente. Por um acaso, Bell levantou o olhar e a encontrou. E foi a sua vez de sorrir, com os lábios, os olhos, consigo todo.
Ele acenou, cúmplice.
O desagradável episódio com Mrs Lloyd foi instantaneamente apagado.
Bernard guardaria a imagem dela, atulhada de caixas, de vestido branco no meio da rua, o rosto rosado sob a neve intensa, pelo resto da tarde. Ela o aquecia.
Na calçada, uma menina imunda de pernas finas cantava uma chanson francesa, sobre um caixote. Em um outro momento, Regina nem a notaria. Mas, algo mudara seu humor. Alguém. Quando passou por ela, pegou a única moeda que possuía e a ofereceu. Depois sorriu amistosa á garotinha, e foi embora, embalada pela voz melodiosa da criança.
“ Mr Bell,
Lamento que só agora essa carta esteja sendo enviada. O dia de ontem fora cheio e veja só, não me lembrei de agradecer o jantar. Desde que cheguei a cidade, insegura e temerosa quanto ao futuro, tudo que os Bells tem feito são me acolher, sendo as pessoas mais especiais que conheci em anos. O arenque estava ótimo, sua casa é maravilhosa, a história de Eliza fez-me pensar na vida, em mim. A tempos não me sentia tão bem. Arranjei um emprego na loja de Madame Duchamp, na Regent Street, e é por isso que a carta chegará somente hoje. Torça por mim, Madame é uma megera. E sinto muito por Annabeth, mas sei que se há algo que aprendi, é que sempre temos motivos para ir em frente. Se prestar atenção, verás que tens Henry, Liz. Família. “
Miss Mills
Regina finalizou sua carta com um meio sorriso no rosto. Era espantoso, mas cada palavra escrita, por mais dócil que fosse, saíra dela, era verdadeira.
Ela releu uma frase em questão.
‘’... sempre temos motivos para ir em frente... ‘’
Bernard tinha os filhos, ela tivera sua vingança, a move-la, a dar-lhe forças.
Em troca de uma gorda fatia de bolo com leite da casa de chá da esquina, um pequeno jornaleiro aceitou levar o envelope da rainha a Bernard, no Banco da Inglaterra.
O movimento finalmente havia quietado. Regina arrumava alguns vestidos, pensando no menino a levar sua mensagem, quando ouviu as colegas de trabalho:
_ Fiquei sabendo que uma misteriosa senhorita foi vista na mansão de Bernard Bell... – disse uma delas, maliciosamente.
_ Logo será mais uma vítima da maldição. – riu uma outra mulher, maldosa.
Regina congelou em seu lugar.
Maldição?
Ela engoliu a seco.
Sabia tão pouco sobre ele.
Não houve tempo para pensar. Novas clientes apareceram, para ocupá-la.
Vez ou outra Regina fazia uma pausa, olhava ao redor em busca de Abigail.
Estava sempre distante de suas vistas, quase nunca a encontrava, senão no departamento de chapéus. A moça possuía uma estanha fixação por ele.
Na hora do almoço, a rainha tentou arrancar informações de Amy sobre Abi, mas a ruiva empalideceu e saiu da mesa imediatamente. Quando foi a vez Regina voltar ao trabalho, levantou do banco e encontrou ninguém menos que Abigail a sua frente, fazendo o que melhor sabia fazer, a encarar com seus olhos não humanos, muda.
A prefeita quis dizer alguma coisa. Vacilou.
O expediente terminou as seis. Despachada as últimas freguesas, era hora de deixar a loja impecável, do mesmíssimo jeito em que estava as oito da matina. Nem ao final da tarde Madame Duchamp baixava a guarda. Andava sem parar, inspecionando roupas, o modo com que suas meninas dobravam vestidos e guardavam perfumes. Encerrada a arrumação, as garotas começaram a ir embora. Todas já haviam ido quando Madame pediu que Regina esperasse. E ela esperou, em meio a La duchess vazia. Esperou, para depois ter que varrer a calçada com uma vassoura velha.
Regina varria e praguejava. Estava em outro lugar, mas em suas veias ainda corriam sangue real. Varrer. Ótima forma de finalizar um primeiro dia cheio de afrontas. Usaria magia para se livrar de folhas e daquela sujeira, isso se Londres toda não estivesse passando por ali. Inclusive a jovem Miss Bell.
_ Olá! – uma vozinha infantil disse, como se topasse com a oitava maravilha do mundo.
Eliza.
E Wendy, e uma desconhecida garotinha de azul, loura, de cabelos muitos lisos.
E Maise, com sua expressão de quem está vendo o próprio demônio.
Liz puxou Regina até sua altura. A prefeita sentiu os dedinhos abraçarem suas costas, o cheirinho de lavanda. Acabou ganhando um beijo na bochecha.
_ Senti sua falta! — confessou a sempre radiante menina.
_ Eliza!
_ Vamos, Eliza Meredith! — trovejou a governanta, se mostrando claramente enojada com Regina varrendo a calçada.
_ Tomamos chá no quintal de Alice, tem um buraco estranho lá! Apareceu um coelho branco, brincamos com ele– continuou Liz, gargalhando, sem se abalar — não é mesmo?
As duas garotinhas concordaram.
_ AH! Essa é Alice!
_Prazer. – cumprimentou Alice, a brindando com seus olhos azulados, intensos.
_ Nem mais um segundo! Andando! – berrou Maise, apertando com força o ombro de sua protegida, a empurrando como um general.
Regina pensou que Eliza cairia no choro ali mesmo.
_ Ora ora o que temos aqui! – disse um sujeito, saltando de uma carruagem.
Bernard.
A filha pulou no colo do pai.
_ Os modos! — repreendeu a governanta.
_ Princesinha!
Regina continuava a se surpreender com o homem que Bernard era. Desprendido, a abraçar Eliza no meio da rua, tão transparente. Não parecia se inserir naquela cidade, naquele tempo. Até o momento tudo que havia visto fora senhores de cara amarrada e mulheres cheias de pose.
_ Senhoritas... — Bell reverenciou Wendy e Alice, pousando Liz no chão.
_ Miss Mills — ele pronunciou seu nome sorrindo, como se tivesse chocolate a derreter na ponta da língua. A observou longamente.
_ Papai, papai, podemos ir ao parque? — Eliza o puxou.
_ Não hoje, Liz, já está tarde, temos de levar as meninas a casa de Wendy, e a senhorinha precisa de um bom banho. – respondeu meigamente.
_ Vamos? — ele lançou seus convidativos olhos a Regina.
Maise arregalou os seus, boquiaberta com o convite.
_Eu... a rainha não sabia como recusar. Ainda tinha a vassoura nas mãos.
Ela ouviu um barulho. Virou para trás. De dentro da loja, alguém fechara a cortina, rapidamente, temendo ser pego.
_ Vamos. – sorriu ela, dando a mão a Bernard, para entrar na carruagem.
O veículo chacoalhava, balançando a todos, apertados no assento. O clima estava perfeito, mas Maise se abanava, revirando os olhos, em pleno martírio.
Eliza abriu um livro sobre suas pernas curtas, a penderem no ar.
_ Compramos um livro, da Branca de Neve! — falou ela, com sua costumeira animação.
Regina franziu a testa.
_ Minha princesa favorita. – revelou Wendy.
_ Ela é linda! — Alice acariciou o papel, a face imaculada de Snow.
Liz virou a página. Fez uma careta, pondo a língua para folha.
_ A Rainha Má! Arrrrgh!
O desenho era preocupantemente parecido com Regina. Ela prendeu a respiração.
_ Não diga isso, Liz. Talvez a Rainha só precise de algo ou alguém que lhe dê motivos para acreditar, que lhe mostre que o bem vale a pena.
Bernard trocou um olhar de muitos significados com a prefeita. Ela sorriu, cúmplice.
Mais alguns minutos de chocalhões e muita conversa entre as meninas sobre o livro e avistaram a casa dos Darling.
_ Chegamos. – disse Eliza, tristonha.
As crianças pularam da carruagem. Wendy segurou Regina.
_ Venha, tenho que lhe apresentar meu amigo.
Miss Mills não entendia aquela consideração toda com ela. Desconfiada, desceu também do veículo.
_ Bae! — gritou a jovem Darling
_ Baefire! — insistiu, averiguando se o tal Bae estava a caminho.
_ Ele veio de outro mundo — disse ela com uma risadinha.
Um menino magro e moreno apareceu da mansão.
Regina disse olá.
_ Você veio da onde mesmo? Da Floresta Encantada! — lembrou-se Wendy.
A rainha arqueou uma sobrancelha, inclinou a cabeça para o lado. O choque estampou-lhe o rosto.
Os olhos naturalmente assustados do garoto se alarmaram. Regina se denunciava, ambos se denunciavam. Conheciam a Floresta.
O menino deu meia volta e correu, sumindo dentro da casa.
Fugindo.
_ Bae! Bae!
Aquilo era extremamente estranho.
Rumaram para o lar dos Bell.
Eliza tagarelou durante todo o trajeto, numa avalanche de palavras sobre o chá no quintal de Alice, o coelho, o buraco misterioso. Estava crente que criaturas diversas saiam de lá.
Regina só conseguia pensar no garoto.
Deixaram Liz e a governanta em casa e Bernand anunciou que levaria a prefeita de volta. Da calçada, Maise lhes lançou um olhar de pura reprovação.
Estavam agora a sós na carruagem.
Logo estariam diante de La duchess.
Regina olhava a janela. Os últimos raios de sol do dia banhavam seu rosto.
_ Tão bela... sussurrou Bell.
A mão da rainha estava pousada sobre o banco.
Bernard colocou a sua sobre a dela, a acariciando docemente.
Havia tanta intimidade naquele toque.
Regina o fitou. Franca, entregue.
Como se fosse o que devia ser feito, ela se acomodou sobre o peito dele. Bell a envolveu, seus dedos ainda nos dela.
Viveram um minuto de silêncio, paz e ternura, até a hora de se despedir.
_ Adeus... – disse ela, e era de novo a Regina inocente de outra vida.
_ Adeus...
E seus dedos se soltaram.
Ela se foi, repetindo para si mesma:
_ Alguém que a faça acreditar...
Partiu, de fato, acreditando.
Ela ficou até tarde pensando, sobre o que acontecera naquela tarde, sobre o garoto. Por horas,esteve em sua cama, fitando o teto.
Um toque suave soou. Regina foi até a porta no momento em que Abigail entrava no aposento.
_ Me encontre aqui, amanhã, as dez em ponto. –era como se a conhecesse a séculos.
Aquele era um ultimato.
A mulher colocou algo em sua mão e saiu do quarto.
Regina observou sua palma, trêmula, instantaneamente doente. Foi até a porta. O corredor estava vazio. Abigail havia sumido.
A rainha sentou-se na cama, sonsa, sem tirar os olhos do colar sobre seus dedos. Ofegava, como se tivesse levado socos no estomago, como se houvessem lhe tirado o chão.
Estava diante de um antigo colar de prata, com pingente de cavalo. No verso do pingente estava escrito:
“ Para minha princesa Regina.
Daniel “
Daniel.
Como Abigail conseguiu o colar?
Era um de seus tesouros mais bem guardados, ficara no Castelo, na Floresta.
Regina não dormiria aquela noite.
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