A lenda dos amantes do Tempo

10 A promessa e a maldição da mulher que renasceu das cinzas


Notas iniciais
Em algum lugar, acima do arco-íris, bem no alto Há uma terra que eu ouvi uma vez em uma canção de ninar. Em algum lugar, acima do arco-íris, os céus são azuis E os sonhos que você se atreve a sonhar, realmente tornam-se realidade Judy Garland

_ Regina, você está bem? — perguntou Amy, preocupada.

_Sim. – limitou-se a rainha, sentindo o peso do colar sob seu vestido, em seu pescoço.

Na manhã seguinte ao pesadelo vivido de olhos bem abertos, Regina estava mais calada que o normal. Vagava pela loja com um aspecto abatido, a mente longe. Como não podia ser diferente, Abigail estava em seu canto, abarrotada de serviço cuidando dos chapéus. Se a prefeita tivesse um minuto com ela, tiraria a limpo aquela história bizarra que já durava demais. Estava cansada de joguinhos, do silêncio enervante de Abi. Precisava se livrar do aperto que não a abandonavada sensação de que todas suas células estavam alertas, tensas, de que um desastre aconteceria a qualquer momento. Com uma alta frequência, ela fulminava a colega, fazendo até mesmo as outras meninas perceberem que algo não ia muito bem entre elas.

Ninguém nunca faria a rainha de tola. Não novamente.

Odiava sentir-se aflita, ter a Regina jovenzinha de novo debaixo de sua pele, vulnerável, a mercê de terceiros. Não somente alguém naquele mundo sabia sobre sua verdadeira identidade, como também sobre seu maior e mais dolorido segredo.

Daniel.

O colar estava com Abigail. E por isso, Regina fora ultrajada, invadida, desrespeitada. O pedacinho dele que restara, que resistira a morte, com uma desconhecida. Não podia aceitar.

Prometeu a si mesma que nunca mais tiraria a joia. Daniel estaria sempre com ela, literalmente em seu peito.

Regina logo percebeu que viveria longos e povoados dias na loja. Se La duchess não estivesse lotada, com funcionárias a todo vapor, algo estava errado.

Foi num desses momentos comuns de muito trabalho, que mais um da série de acontecimentos estranhos que vinham ocorrendo, aconteceu.

De seu departamento, Abigail arregalou seus olhos cinzentos, iluminados como os de um lobo caçando no escuro da noite. Atônita, ela apoiou as palmas das mãos no balcão. Focalizava algo na rua. Regina seguiu seu olhar. Para além das vitrines, em meio a inúmeras cabeças indo e vindo, um chapéu alaranjado e pontudo sobressaía-se. Abigail, fixa no estranho acessório, começou a movimentar-se, esticando o pescoço, desviando da massa de mulheres em seu caminho. Fora parar na calçada, e lá ficara, tentando encontrar o chamativo objeto na bagunça orquestrada de Londres, acreditava a rainha. Não havia como saber o que a moça pretendia, ao certo.

Ela bufou e voltou para a loja. Ligeira, levantou os olhos e cruzou com Regina. Uma vez mais, Abi lhe gelava os ossos com sua presença, sempre a lhe informar que notava cada gesto seu, cada mísero pensamento.

_ Hoje. As dez em ponto. – leu a rainha em seus lábios mudos.

Aquele era um lembrete, um aviso.

Regina tocou o pingente do colar, tirando-o debaixo da roupa. A encarou de volta, duramente. Tinham ainda, muito a dizer uma a outra.

As colegas de trabalho ao redor se entreolharam.

Um vidrinho de perfume caiu no tapete. Por sorte, não quebrara. Regina se abaixou para pegá-lo e então viu por baixo da mesa, uma senhora rechonchuda se aproximar a passos afobados, parando imperialmente a sua frente.

Maise. A insuportável Ms Davis que mal lhe dera tempo de levantar-se dignamente, agarrou seu braço, fazendo-o formigar, trazendo-a para perto, deixando seu rosto a centímetros do de Regina.

_ Fique longe dos Bell. — A prefeita pode sentir seu hálito. Pela feição da velha, ela temeu que mais um pouco e Maise vomitaria sobre seu vestido.

_ Você não sabe nada sobre eles. NADA! — o ódio gratuito da governanta sentia voava livre, sem máscaras, com os pingos de sua saliva, até Regina. Certamente ficaria uma marca vermelha em sua pele, onde a mulher apertava. Porque tudo aquilo?

Maise a soltou e como se nada houvesse acontecido, ajeitou uma mecha desarrumada de cabelo.

Depois, abriu a bolsinha que trazia e praticamente bateu na mesa, revelando um pequeno envelope, todo amassado.

_ Desapareça. – disse sadicamente. E deu-lhe as costas. A prefeita a observou ir embora, tão apressada quanto chegara. Algo perturbava aquela criatura, a ponto de afetar sua sanidade. Só não entendia porque Bernard ainda a mantinha com a família.

Mais uma carta. Regina rasgou o papel e ansiosa, leu o conteúdo:

“ Miss Mills, parece que o destino está a agir para que nos encontremos. Tem certeza de que não estava em seus planos vir para a cidade e topar com um viúvo e uma garotinha de cabelos dourados? Peço que não se afastes. Sua presença inesperada encheu nossos dias de luz. Eliza está encantada com seu novo livro, e por isso, resolvi leva-la ao teatro, para a estreia de uma nova ópera sobre a Branca de Neve. Ela está ansiosíssima. Será a primeira ópera que assistirá em seus cinco anos de idade. Convido a senhorita a acompanhar-nos. Um pouco de faz de conta sempre nos faz bem. A vida já é por demais dura sozinha, não é nenhum pecado vesti-la com ares de contos de fadas vez ou outra. Estou certo de que será uma mágica noite. Pego-a às nove, amanhã. Não aceitamos recusas.

Bernard Bell. “

Regina sorriu, deliciada com a carta.

Sim. Aquela seria uma mágica e inesquecível noite. Os próximos dias seriam igualmente incríveis e assustadores. Ela apenas ainda não sabia disso.

O relógio na parede dizia, faltava pouco, muito pouco para as dez. Regina suava frio. Sentada na cama em meio ao silêncio absoluto, aguardava Abigail e também, se preparava mentalmente para o que viesse, para o inimaginável.

Estava sedenta por respostas. As teria a qualquer custo.

Os ponteiros deslizaram e a moça entrou no quarto, no mesmo instante.

Chegara na hora exata.

Regina levantou-se e antes que pudesse pronunciar palavra alguma, Abi ergueu o dedo no ar.

_ Nenhuma pergunta. No momento certo tudo se esclarecerá. Breve. – se adiantou.

_ Vamos! — A rainha então percebeu seu sotaque, carregado.

Abigail não nascera naquela terra de lordes e duquesas.

Regina nem ao menos pensou que podia se complicar com Madame Duchamp quando a seguiu porta a fora. Apenas se lançou ao desconhecido, e juntas, atravessaram ruas vazias, foram por distritos desertos. Abi andava com confiança, como se soubesse o que fazia, como se houvesse feito aquele caminho diversas vezes. Caminharam por mais de meia hora, não dizendo nada uma a outra durante todo o trajeto.

Sem ao menos falar com o cocheiro, automaticamente, Abigail entrou numa carruagem negra parada numa esquina, sendo seguida por Regina. Mais infindáveis minutos se passaram dentro do veículo. Pela janela, a prefeita assistiu uma Londres adormecida, livre de moradores, de vozes e agito pelo que pareceu a eternidade. Quando avistou o rio Tâmisa e seu espelho dágua prateado, um calafrio percorreu seu corpo. Já fizera aquela rota, no dia em que fora atacada. Reconhecia o lugar. Ele a perseguia.

East End.

Abigail desceu da carruagem e hesitante, Regina fez o mesmo. No momento em que pisou naquele chão imundo, quis correr dali, mas contrariando sua intuição, continuou acompanhando a colega.

Nada mudara. Prostitutas infantis que deviam ser no máximo quatro anos mais velhas que Eliza estavam escoradas nas paredes. Portas estavam abertas para quem quisesse um bocado de perdição. Músicas pornográficas se misturavam a choro e gritos. Logo seus pés doíam, de tanto andar por aquelas ruelas esquecidas por Deus e pelos homens. Provavelmente, pensou Regina, já estavam quase nos limites do bairro e nunca chegavam ao seu destino.

Felinos rondavam, velando a noite. Alguns rolavam no solo, ronronando estridentemente. Um deles passou próximo a seus pés com um rato na boca ensanguentada. Outro, um gato preto, arisco, de olhos turquesa, as observava. Quando elas se aproximaram, exibiu suas presas, assustando Regina, deixando-a no ápice da agonia.

_ Não! Não! — exclamou ela, interrompendo seus passos – não vou a lugar algum enquanto não me disser onde estamos indo! Até que me explique isso! — disse mostrando o colar, com o olhar cheio de dor.

Abigail agarrou sua cabeça com as duas mãos.

_ Não falhe agora! Terás todas as respostas! Venha! – gritou, feroz, reiniciando sua caminhada.

E Regina foi.

Adiante, cruzaram com um homem a berrar erguendo os braços de modo apocalíptico, empunhando uma Bíblia.

_ Arrependam-se! Renunciem ao pecado! Salvem sua alma!

Entraram num beco, onde era impossível enxergar qualquer coisa um palmo a frente. No final dele havia uma porta. Abi bateu e com um rangido ela se abriu, revelando um recinto escuro, coberto por uma fumaça verde. Indivíduos de aparência macabra estavam espalhados. Uma melodia estranha, numa língua não identificável soava. Uma pessoa andrógena, de cabelos raspados, e o corpo todo pintado, dançava. Duas mulheres pareciam prestes a se beijar. A rainha e a colega passaram por elas, atravessaram outra porta e desceram uma estreita escada em espiral, acabando numa espécie de túnel. Mais alguns passos e Abi girou uma maçaneta, enquanto saudava a prefeita com um horripilante sorriso.

_ Seja bem vinda.

Estavam agora em um cômodo circular. Uma lareira crepitava, iluminando o espaço, todas as seis mulheres sentadas no chão.

_ Georgina? — disse Abigail, obediente. Falava com um vulto virado para o fogo, que nem se mexeu.

_ Georgina? — repetiu.

Ela virou-se. Por baixo do capuz vermelho havia um fantasma que desde a infância, assombrava a rainha.

Cora.

Regina sentiu seu coração disparar, ameaçando romper sua carne e saltar do peito. Deu um passo para trás, sem folego.

_ Mãe?

Cora a encarou, nada surpresa.

_ Regina! Eu sabia que me encontraria. – respondeu, abrindo os braços.

Não se enganara. A mulher do livro era ela o tempo todo, a lhe chamar.

Pensara que nunca mais a veria, que estava morta a seu próprio modo. Por anos, repetira que sua mãe era um capítulo infeliz e encerrado de sua história. E lá estava, com seus olhos frios sobre ela, seu sorriso maquiavélico congelado no rosto, os cabelos soltos.

Regina fraquejou. Correu e a abraçou, sentindo uma inexplicável sensação de conforto.

Tinha alguém, alguma família no mundo. Ainda que fosse Cora. Não estava sozinha. A rainha deixou escapar uma lágrima.

_ Mas... mas... – disse, se desvencilhando do abraço. – Mãe! — ela segurou o colar, aflita.

_ Ah, isso. – falou a bruxa, com desdém.

_ Quando matei o garoto do estábulo...

_ O nome dele era Daniel. – cuspiu Regina, furiosa. O choro rolou livre por sua bochecha.

_ Que seja, Daniel. — Cora revirou os olhos. – O matei, e soube que nada mais seria igual, entendi que precisaria de algo que a fizesse cooperar quando precisasse, necessitava ter algo que a trouxesse até a mim. Por isso peguei essa coisa barata e veja só, funcionou.

_ O que? O que significa tudo isso? — a prefeita balançou a cabeça, atordoada.

Cora virou-se novamente para a lareira, e depois de segundos em silêncio, respondeu:

_ Ah Regina... – soltou uma risadinha malvada, voltando a olhá-la — ... você livrou-se de mim, mandou-me para o País das Maravilhas, achando que aquele lugarzinho medíocre me bastaria. Logo me cansei daquelas criaturas inúteis, e dos problemas que não tardaram a surgirem. – Cora fez uma careta, como se fosse atravessada por uma má lembrança.

_ Ainda não sei do que está falando... o que faz aqui? Porque EU estou aqui? — Regina estava dividida entre o choque e a emoção. Começava a se enfurecer.

_ Eu queria mais, eu sempre quis mais. Todas nós queremos mais. – a bruxa apontou as mulheres, no chão.

Ela balançou os braços e algo parecido com um pilar surgiu a sua frente. Sobre ele, havia um livro.

_ As bruxas, desde o início dos tempos, são amaldiçoadas, condenadas a desgraça. No nosso mundo, e nesse, principalmente. Elas foram ao longo dos séculos, perseguidas, queimadas vivas, mortas com uma estaca cravada no peito. E assim continuam, se escondendo dos caçadores em buracos deploráveis.

As folhas do livro voavam, descontroladamente.

_ Mas há um lugar... — seus olhos brilhavam, diabolicamente — Oz... – completou, com extremo deleite.

De uma página, magicamente saltava uma imagem, uma estrada, feita com tijolos amarelos, um castelo verde, ao fundo, a iluminar o rosto de Cora.

_ Eis a nossa libertação...

A cabeça de Regina doía, com sua mãe bradando, doentiamente, aquela história maluca. Era demais, além do que podia processar.

_ Um lugar, dimensões distante dos gatos que tanto temem os ratos que caçam por no fundo temerem acabar como baratas insignificantes, pisoteadas. Em Oz poderemos reinar — continuou ela, em êxtase — ... seremos livres, livres dos heróis.

_ Não faz sentido. – argumentou a rainha, para si mesma, e Cora deu de ombros, muda, fugindo de seu olhar.

Regina não podia entender, alguma peça do quebra cabeças não se encaixava.. Os motivos de sua mãe para querer embarcar naquela loucura eram mais antigos, doídos e profundos do que sua filha podia supor, antecediam seu nascimento.

O motivo, na verdade. O segredo de sua alma, a tanto sufocado.

Zelena.

_ Consegui feijões, acreditava que com eles desembarcaria na Cidade das Esmeraldas. Ao invés disso, vim parar nesse reino. Não faz mal, acabei encontrando outras, com o mesmo objetivo. E ele está aqui! Enfiando em um canto qualquer.

Ele?

Regina olhou ao redor, percebendo as bruxas. Eram todas excêntricas. Entre elas havia uma negra, outra de traços orientais e também Abigail, com sua pele acobreada, seus olhos sem iguais, suas feições ciganas.

_ Tentei localizá-lo no Pais das Maravilhas, o Chapeleiro. Em vão. Havia partido, atrás de uma tal Alice. Não importa, logo o acharemos. Cobrimos toda Londres. Estamos em Chapelarias, casas de chá e todos os pontos em que ele possa aparecer...

_ Mãe! — interrompeu a filha — você tem que me ajudar! — confessava Regina, trêmula, entre lágrimas. Falha, sua voz foi morrendo, antes do fim da frase.

Cora era sua única esperança. Essa fora a verdade que a impulsionara a ir até aquele tempo, para além de Bernard. Viajara para pedir socorro, para salvar-se da dor que a consumia, e ela mesma provocara.

A poção.

_ Não! Você tem que me ajudar! A encontra-lo... – foi a vez de um homem enchapelado surgir do livro, vagando em meio a uma multidão — ... e então, tendo seu chapéu, teremos o portal que nos levará até Oz!

Cora agarrou as mãos da filha.

_ Juntas, nessa nova terra, seremos finalmente felizes. – disse ela, ternamente, sincera.

Regina retirou seus dedos, destruindo o cálido momento de fé e união. Exalava descrença.

Ela lembrou-se dos olhos doces de Bernard, de Eliza a lhe abraçar, beijando sua bochecha.

Não queria partir, de novo. Não via como aquele plano dar certo. Certamente cometia um erro, uma vez mais, mas enfim enxergava algo bom surgir em sua vida, algo valioso e raro, e estava disposta a pagar o preço que fosse, para protege-lo.

Talvez, amar não fosse uma fraqueza.

Balançou a cabeça, negando.

_ Garota tola! Sempre tomando decisões estúpidas! Quando entenderá que não terá sua paz enquanto estiver contra mim?

Aquilo feria, tanto que era difícil respirar. Regina sentia o ar chegar queimando em seus pulmões. As lágrimas se acumulavam, no canto de seus olhos.

_ Mentira!

Cora gargalhou, maquiavelicamente. Sua expressão se endureceu.

_ Você NUNCA terá sua maldita felicidade. Nunca! Se estiver longe de sua querida mamãe.

Regina quis mata-la, limitou-se a fugir.

As palavras de Cora ecoavam em sua mente. Elas a perseguiria, por dias sem fins.

E se fosse verdade? Se sofrer fosse sua sina, seu destino?

Se nunca fosse feliz?

Notas finais
Prequel de Once Upon a Time. Tudo acontece antes de Regina adotar seu filho Henry e a série começar. Fanfic de minha autoria, protegida contra plágio. A fic se conecta com a terceira temporada da série, mas é possível lê-la perfeitamente sem ter visto a temporada.