A lenda dos amantes do Tempo
4 Dois olhares se cruzam na cidade dos mortos
Notas iniciais

Regina levantou-se e deu uma ajeitada em si mesma, observando a saia do vestido rosado a cobrir suas pernas. Era um dos seus, da Floresta Encantada, de quando ainda não havia se casado. Ainda atordoada, deu um passo cuidadoso, como se querendo averiguar que tudo era real, que não estava sonhando. Nada aconteceu, não voou pelos ares. Ela respirou fundo. Agora era a hora. E saiu do beco em que chegara da viagem, juntando-se a multidão a ir e vir.
Pessoas apareciam de todos os lados, apressadas, num vai e vem infinito. Homens sérios, de bengala, maridos e esposas de braços dados, mocinhas trocando risadinhas, senhoras e suas filhas, preceptoras de rosto fechado e seus pupilos e vários outros tipos estavam aqui e ali, passando e trombando a ela. Regina olhou para o alto. Prédios cercavam a aglomeração, enormes e intimidadores. Carroças e carruagens dominavam as ruas. Estava em meio a uma confusão organizada e tudo era absolutamente estranho e familiar. Já não era a rainha, temida e respeitada, nem mesmo a prefeita, que tinha a situação sempre em controle. Era apenas mais uma estranha na massa andante.
Um molequinho gritava, anunciando seu produto. Regina se espichou para pegar um dos jornais que ele trazia colado debaixo do braço magro. No topo da página ela leu:
“ Londres, 11 de novembro de 1888 “
A poção havia a levado ao destino exato. Ela sorriu, realizada.
A manchete berrava da página.
“ Assassino em série faz mais uma vítima no East End “
Não importava o reino, o mal estava sempre a espreita.
Sinos badalaram de algum lugar, tirando-a de seu desvaneio. Estava interrompendo o fluxo. Ela continuou a caminhar, sem rumo, sem pressa de descobrir aquele mundo, intimamente, um pouco amedrontada. Encontrou sapatarias e bancos. Passou por vitrines repletas de vestidos, chapéus, bonecas de porcelana e perfumes franceses. Numa delas, demorou-se um instante, contemplando seu próprio reflexo, o de uma mulher estonteantemente bela e enigmática, com o corpo perfeito ajustado ao vestido, o cabelo cheio para o alto com uma única mexa solta pelas costas. Uma dama que recebia olhares, discretos e nem por isso menos obscenos dos homens, curiosos, de velada inveja, de mulheres.
Regina seguiu adiante, deparando-se com uma requintada casa de chá. Sentadas em mesinhas, mulheres comiam biscoitos acompanhados com xícaras da bebida favorita da nação. O cheiro de pão recém saído do forno impregnava o ar. A rainha fez uma careta. Tinha fome, precisava de dinheiro. Ela tocou a joia que usava no pescoço. Iria vende-la. Uma mulher sozinha em Londres já chamava muita atenção sem um colar de esmeraldas, cintilando em plena luz do dia. Ela deixou a casa de chá para trás. Pôs-se a vasculhar ao redor, atenta, buscando algum lugar que pudesse trocar o colar. Respirou aliviada quando viu a achada de uma joalheria.
Regina adentrou na Mr Hoffman Jewelry. Não sabia como agir, dinheiro nunca lhe havia sido um problema. Um velho senhor veio em seu socorro, um judeu grisalho, de olhos perspicazes. Ela lhe mostrou a jóia e o homem pareceu alarmado. Ele analisou o colar por um longo tempo, deixando Regina inquieta.
_ Nunca vi esmeraldas assim — disse o joalheiro, ainda fixo na jóia.
As esmeraldas reluziram, magicamente.
Mr Hoffman arregalou os olhos, pasmo.
_ Podia jurar que vira as pedras iluminarem-se, como que por mágica. Devo estar caducando... – disse ele, nervosamente, mexendo nos óculos.
Apesar do espanto do homem, Regina conseguiu bem menos do que esperava com a venda. Com algumas libras guardadas, e já sem fome, uma vez mais começou a perambular. Estava, num dado momento, tão ocupada a buscar Cora na multidão, ansiando e temendo topar com seu olhar maquiavélico que não notara um livro exposto na vitrine de uma livraria, nem o sujeito dentro da loja, a expiando.
Era uma vez.
O livro que continha a sua história, e a de todos que havia amaldiçoado. Ela não sabia, mas procuraria o autor, o homem a bisbilhotá-la, anos depois, desesperadamente.
Ela virou uma esquina. Uma fila de garotinhas angelicais, supervisionadas por uma freira cruzou seu caminho. Uma delas lhe deu um sorriso. A prefeita nem esboçar um sorriso de volta. A tempos esquecera-se de como sorrir.
Regina sentou-se num banco de praça, deixando as horas correrem, observando as pessoas. Como era estranho não ter nenhuma influência, nenhum poder ali. Farta de não fazer nada, uma eternidade depois de sentar-se, ela continuou a movimentar-se. Andou até cansar-se. Até avistar um nome que a fez estremecer.
Cemitério Highgate.
Seu pensamento voou até Bernard Bell.
E se...?
A rainha má foi consumida pelo terror. E se não encontrasse Cora? Se tudo não passasse de fantasia de sua cabeça? No fundo, conhecia o motivo que a levara até ali, além de sua mãe. O homem da fotografia.
Hesitante, ela entrou no cemitério, e foi como abrir novamente, os portões de um outro mundo.
Regina vagava em meio a um mar de cruzes, bustos, mausoléus e tumbas, velada pelas árvores, arbustos, pela imensidão verde sobre sua cabeça, a tomar tudo que a vista alcançava. Caminhava, lendo lápides, sentindo-se de volta a Floresta Encantada, diante de todos aquele que matara. Anjos grotescos e as mais variadas criaturas de concreto a encaravam, com seus olhos petrificados. O vento soprava, varrendo folhas. Um corvo cortou o céu cinza, piando, sonoramente. O cemitério estava vazio. Era ela um fantasma, a percorrer a cidade dos mortos, ferindo o silêncio agoniante com seus passos.
Ao longe, Regina viu um homem, curvado sobre um túmulo.
Um calafrio percorreu sua espinha.
Mal podia crer no que presenciava. Já havia visto aquela mesma cena.
A estátua de uma jovem mulher, sentada sobre a tumba, olhava diretamente para o homem, como se o alentasse. Ao lado dele, havia uma garotinha, muda, com uma flor em sua pequena mão.
De onde estava, Regina só podia ver a cabeleira negra do desconhecido. Ela foi rodeando os túmulos, escondida pelos monumentos até conseguir visualizar o rosto do rapaz.
Era lindo, exatamente igual a fotografia. De uma tristeza muito mais real, dolorida.
Bernard Bell.
Seus olhos verdes estavam baixos, marejados.
_ Annabeth... – repetia Bernard.
Regina sentiu algo mudar dentro dela, como se nascesse em si uma centelha de compaixão, como se pudesse amar, como se tivesse um coração. Ela permaneceu lá, assistindo o homem e sua filha loira, assombrosamente semelhante a estátua sobre o túmulo
Sem querer, a rainha pisou em um galho solto. O barulho a denunciou.
Ela prendeu a respiração, tensa.
Os dois olhares se encontraram por um instante.
Regina correu, perdendo-se em meio aquele labirinto fúnebre, fugindo daquilo que fora encontrar.
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