A lenda dos amantes do Tempo
12 A profecia e a princesa que não queria ser rainha
Notas iniciais

Aquela era uma bela manhã.
E Regina, era incapaz de nota-la, de perceber suas cores, as gaivotas voando pelo céu azul limpo, o verde serpenteando os túmulos, as florezinhas que insistiam em desabrochar no cemitério, desafiando a morte. Via apenas a imensidão cinza. As centenas de tumbas, cruzes bizarras e anjos de concreto que a cercavam, a oprimiam, a encaravam, a acusando.
Ela levantou os olhos, timidamente, encontrando os dela.
Annabeth.
Estava diante da estátua da mulher que um dia Bernard amara. A mulher que no fundo, nunca deixara de amar.
O olhar dócil e petrificado estava preso no seu.
Quem fora ela? Certamente uma moça admirável, especial o bastante para conseguir o coração de Bell.
Regina estava desconcertada. Achava que não tinha o direito de estar ali. Mas algo a atraíra até Highgate, até o ponto em que Annabeth estava enterrada. Precisava estar só, com seus pensamentos, longe do mundo. E de alguma forma, pensava estar conectada a falecida senhora Bell.
A frustração a corroía. As perguntas sem resposta voavam em sua mente, num redemoinho. A rainha quis estar prostrada diante de um outro túmulo, o de seu pai. Quis confessar a ele sua sina.
Sempre que acreditava que enfim teria o controle de sua vida, ela lhe derrubava, sem piedade, zombando de sua fé.
Ela olhou para suas mãos, revivendo o pesadelo da última noite.
Sentada sobre uma toalha quadriculada, em meio a um calmo campo, Regina olhava as nuvens. Por trás de árvores, despontava um castelo. Parecia estar novamente nos piqueniques de sua infância, que fazia em dias ensolarados, com Shannon.
Ele vinha em sua direção, com o rosto tranquilo, os olhos iluminados pela luz da manhã, como se houvesse surgido com a brisa. Falava ternamente com o bebê em seus braços.
Bernard.
A cena envolveu Regina de conforto e segurança.
_ Estávamos ansiosos para vê-la, não é mesmo? — disse o homem, sentando-se sobre suas pernas, na toalha, frente a prefeita.
Bell ria, maravilhado com as caretas do garotinho. Ele olhou para Regina, partilhando sua felicidade. Depois, deu-lhe o bebê. O vento soprou no momento em que Bernard dava-lhe também, um suave beijo. Ele ajeitou uma mecha fujona de cabelo. Apanhou uma minúscula flor e a depositou em sua orelha. A rainha sorriu, diante de tanto cuidado. Foram surpreendidos com uma risadinha infantil. Radiante, ela ergueu a criança, a mexer suas perninhas, no ar.
Um segundo após, seu sorriso morreu.
Encarava agora, seus dedos ensanguentados.
Evil Queen estava dolorosamente viva, em seu rosto, suas roupas, soberana em seu castelo. A saia negra de seu vestido, salpicada por vermelho, a rodeava. Sangue escorria por seus braços.
_ Pensou mesmo que os merecia? — cuspiu o espelho, cruel.
Regina não piscava.
_ VOCÊ É UMA ASSASSINA! — o objeto mágico alternava-se entre flashes das incontáveis mortes que a rainha provocara.
_ E SEMPRE SERÁ!
Ela despertou e correu para vomitar.
Ainda não havia amanhecido. A seu lado, Abigail dormia.
Logo mais um dia de trabalho começaria e não tinha a mínima vontade de enfrenta-lo. Gostaria de continuar na cama, para todo sempre. Sua cabeça doía como se tivesse sido martelada. Mas quando Madame Duchamp entrou na loja, pensando ser a primeira a chegar, Regina já estava ali a muito tempo, organizando chapéus. Quem visse sua expressão neutra nunca cogitaria que horas antes sentira-se como uma menininha, apaixonada pela primeira vez, flutuando em terra firme, nem a confusão generalizada dentro dela, a sensação de que um desastre iminente aconteceria. Estava decidida a apenas trabalhar, não pensando em nada, sem qualquer tormento.
Quase no final do expediente Regina fora entregar uma encomenda. Sair para atender as madames já estava virando rotina. Ela sequer se importou. Não se importava com nada. Estava aérea e por isso, ao passar de uma calçada a outra, por muito pouco, não colidira com uma carruagem. Não percebeu ruas e avenidas desconhecidas, nem notou as pessoas, ou onde estava.
Até uma jovem cruzar seu caminho, arrastando um carrinho de bebê.
Regina forçou-se a apertar o passo.
Virou uma esquina. Congelou em seu lugar antes de dar meia volta.
O Banco da Inglaterra.
Não suportaria vê-lo sorrindo.
Ele alimentaria aquele sentimento a crescer em seu peito, a enchê-la de esperanças perdidas, o sentimento que por isso mesmo, lhe apavorava.
Vagava por Londres, como uma mulher desnorteada com a notícia de uma doença fatal a tomar conta de seu corpo.
O amor.
Queria render-se a ele, deixa-lo invadir suas células.
Mas temia seu efeito.
Em vão. Já não havia como fazê-lo recuar.
Regina piscou repetidas vezes, dando-se conta de que estava num lugar feio, pouco movimentado, bem diferente dos arredores de La duchess os quais estava acostumada. A sua frente havia um prédio velho, sem nome. Para além das vidraças embaçadas de sujeira, ela viu uma mulher, sob a penumbra, cercada por tecidos exóticos, objetos estranhos e toda sorte de bugigangas, tomando chá calmamente enquanto a encarava sem pudores.
Já ouvira falar delas. Videntes.
Estavam sempre longe dos grandes centros, invisíveis. Não tinham endereço certo, porém os desesperados sabiam exatamente onde encontra-las.
Regina empurrou a porta sem maçaneta. Ao entrar, sentiu-se instantaneamente ridícula por estar ali, apertada naquele cômodo atulhado, apelando para aquele tipo de magia. Ela cerrou as pálpebras, desacostumada com o escuro. Apesar de ainda ser dia, o lugar estava gelado, tomado por uma inexplicável escuridão.
A dita cuja terminou sua bebida e apoiou o cotovelo na mesa, tranquila. Aparentava ter uns quarenta anos. Seus olhos estavam marcados por maquiagem preta e os cabelos eram completamente cinzas. Usava um xale florido e observava Regina como se a desvendasse, como se tudo que escondia estivesse estampado em seu rosto .
_ Sente-se minha menina... — disse a vidente, apontando um banquinho — ... você vem de longe... deve estar cansada... confusa com essa Terra e com o que aqui encontrou. Teve uma boa noite de sono? Parece abatida... – completou sugestivamente, acariciando um gato que pulou na mesa e agora se dedicava a encarar a visitante.
Regina encolheu-se.
De modo natural, a mulher virou sua palma para cima. Então era esse o ofício. Ler em linhas, na pele, bênçãos e desgraças que estavam por vir.
_ Não temas, querida... – sussurrou, divertida com a reação atônita de sua cliente.
A unha longa e afiada da desconhecida percorreu a mão da rainha, causando calafrios. A fumaça fina de um candelabro invadiu as pestanas de Regina. A vidente entrou em um estado de mudez e concentração total. Sequer se movia. Passados uma dezena de segundos, seu semblante fechou subitamente. Algo fugia de seu controle. O inesperado acontecera. Havia perdido sua segurança nata, seu ar petulante.
A apreensão de Regina foi aumentando... aumentando... até beirar ao extremo. O silêncio a deixava mais e mais doente.
O que enxergava? Para onde a levaria aquele emaranhado de acasos? Que destino teria o amor a pouco descoberto, que sentia por Bernard? Os planos dementes de Cora?
A prefeita puxou seus dedos de volta, bruscamente.
_ E então... ? — perguntou, temendo a resposta.
Ela nada disse.
_ O QUE VIU? — gritou Regina, desesperada.
A vidente deu um sorriso louco.
_ Uma criança.... – iniciou, com o olhar arregalado e enlouquecido — uma criança será sua salvação.
_ Uma criança será minha salvação... – repetiu ela, horas depois, em Highgate, tentando fazer com que suas palavras soassem menos impossíveis. Discretamente, um garotinho parou frente a um túmulo vizinho ao de Annabeth. Ele depositou uma rosa meio murcha sobre o cimento, uniu suas mãozinhas e fechou os olhos. Compenetrado, fez uma oração.
Nele, a rainha viu a Regina menina que nunca deixara de toda semana, fugir do castelo para ir até a tumba de Shannon. Com os anos, criara ali um santuário, feito de flores de todas as cores, onde podia se refugiar de Cora, da fatigante vida de princesa. Sentava-se e por horas, ficava a confessar-se a sua antiga babá, o mais próximo de uma mãe que um dia tivera.
Quando nascera, fora Shannon que cuidara da recém nascida . Era a ela a quem Regina recorria, em noites de tempestade, pesadelos, ou quando tinha dor de barriga. Proibida de brincar com as outras crianças, restava perambular pelos jardins ou pelo palácio enorme e sombrio, com Shannon sempre ao seu lado, a consolar-lhe dos bailes chatos, das obrigações reais, a tentar convencê-la que não, ela estava errada, mamãe gostava sim dela, de que a princesinha era muito amada por Cora. Sua parte favorita das manhãs era quando a mulher escovava seu longo cabelo, enfiava seus dedos nele, o acariciando, o trançando. No final, o prendia com uma fitinha cor de rosa. A pequena a agradecia com um abraço e um beijo. Num desses seus momentos íntimos e felizes, Cora as expiou, ciumenta e decidida a por um ponto final naquilo. Com a desculpa de que a serviçal arruinara o vestido que custara uma fortuna derrubando vinho nele, arrancou sua criança à força da moça, de modo simples e prático.
Matou Shannon.
Iniciava-se aí sua mania de destruir todos aquele que a filha amava.
Ao saber da morte, Regina chorou por dias inteiros, trancada em seu quarto, e ao descobrir que a mãe havia sido a responsável pelo ato, ficou meses sem trocar palavra sequer com ela.
Shannon se foi, mas ficou na saudade doía que não se amenizou com os anos e ia com Regina aonde quer que fosse. Ela guardou-a num lugar que jamais ninguém a faria mal de novo, nas lembranças de um tempo bom que nunca voltaria.
Vendo o garoto partir cabisbaixo, a prefeita trouxe à memória aquele passeio, feito nas vésperas de completar seis anos. Junto a Shannon, foi saltitando até uma aldeia, para comprar os ingredientes de seu bolo de aniversário. Chegando lá, seu contentamento evaporou. Colou os olhos no chão e de bochechas coradas, passou a andar como uma condenada entre as barracas. Elas passavam e todos paravam. Rostos de homens, mulheres e crianças cobriam-se de seriedade e medo.
_ O que acontece princesinha? — perguntou a babá sorrindo.
_ Porque nos olham assim? — questionou a menina, dolorosamente, soltando a mão dela, sabendo bem o motivo de as tratarem daquela forma.
_ São uns bobos! — Shannon daria tudo para protege-la daquele e de tantos outros constrangimentos constantes.
_ Mamãe diz que serei rainha. Não quero ser rainha, quero ser como todo mundo, não quero isso ...
Shannon abaixou-se a sua altura.
_ Escute bem meu amor... Talvez um dia você se torne uma rainha linda! Qual o problema? Não importa, sendo rainha ou não, você poderá ter a vida que quiser. Me prometa que não deixará ninguém te dizer o contrário!
_ Prometo!
_ Muito bem! Agora vamos... temos um bolo a preparar lembra?
O brilho voltou aos olhos da pequenina Regina, e também, nos daquela outra, adulta, calejada, anos depois.
Ela encarou a estátua uma última vez, pondo a mão sobre o peito.
Estava viva. E Annabeth, por algum motivo, estava morta.
Seu coração desacreditado ainda batia. Nada estava perdido.
Naquela cidade onde não havia Branca de Neve, nem Evil Queen, nem rastros de seu antigo eu. Havia apenas um homem que pedia permissão para amá-la, um bebezinho sem mãe, uma Regina desesperada para amar e ser amada, se entregar.
Regina sorriu, quase chorando diante daquela revelação.
Prometera a Shannon. Não deixaria o passado amargo a impedir de viver a vida com qual ela sonhara, diariamente, desde quando era uma doce e desamparada princesinha. Um dia fora uma assassina. Mas o que passara estava morto e enterrado, num outro tempo.
Ela os merecia. Sim. Bernard e Henry e muito mais.
Seu contos de fadas estava apenas começando...
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