A lenda dos amantes do Tempo
13 O desenho que eternizou os amantes do tempo
Notas iniciais

Em segundos, a uma hora em que Regina fitava seu relógio de bolso a tiquetaquear, sonoramente, madrugada a dentro, completaria-se. Os ponteiros do pequeno e antigo objeto que a trouxera até aquele mundo com qual jamais sonhara, até um capítulo inteiramente novo de sua história, moviam-se, gritando no silêncio. O tempo avançava, sem paradas.
Tinha de agir, com urgência.
O feitiço, que driblara os anos e lhe oferecera mais uma chance de acertar possuía prazo de validade. Lembrava-se de Gold dizer, ele duraria pouco, um piscar de olhos. Não sabia quando ia acontecer, mas algo lhe dizia que breve, muito em breve, a magia se esgotaria. E essa não era uma opção. Da noite para o dia, Bernard, Henry, Eliza e um futuro entraram na vida de Regina. Um futuro a ser vivido naquela época, no passado.
Tinha de parar o retorno, de algum modo. E então, Storybrookes e seus moradores ficariam para trás, acabariam por tornarem-se como a lembrança frágil de um sonho não tão bom.
Eram quatro da manhã. O que faria era inconveniente, mas não podia esperar nem mais um minuto sequer.
Ela ajoelhou-se frente a cama da colega de trabalho.
_ Abigail! — sussurrou a rainha, aflita.
_ Abigail! — insistiu, a sacudindo levemente.
Os olhos cinzentos da moça se abriram de uma vez. Estavam animalescos, esbranquiçados, vidrados.
_ Regina? — perguntou Abi, atordoada.
_ Sim. Escute... – apressou-se ela, sem tempo a perder — o que sabe sobre viagens do tempo? Ou de como evitar que um feitiço desses se desfaça?
Abigail pareceu confusa.
_ Pouco. Se soubesse, já teria feito algo para mudar a minha situação, a de sua mãe e das outras bruxas de nosso grupo.
Regina suspirou de frustração.
_ Mas há um lugar onde talvez possa encontrar as respostas que deseja — a rainha concordou, a incentivando a prosseguir. _ O Santuário.
_ Santuário?
_ É! No subterrâneo da Abadia de Westminster, conhece? Westminster... Regina acenou que sim — lá existe uma biblioteca onde a séculos nossa sabedoria é protegida dos humanos. Vá até ela e procure nos vários livros sobre magia. Quem sabe... — a luz do candelabro que Regina segurava iluminava o rosto de Abi.
_ Como chegarei?
_ Entre normalmente pela igreja, eles deixam aberta. Siga reto até o pavimento Cosmati, bem diante do altar principal. Vá em cada um dos quatro círculos menores, no centro do mosaico, e então, bata com o pé sete vezes sobre o círculo maior, central. Uma passagem se abrirá, desça as escadas e pronto. – Abigail estava sonolenta, e cochichava. Não podiam ser ouvidas.
_ Ande logo! O Santuário funciona da meia noite á seis, já são quatro! Cuidado! Esse é um dos nossos maiores segredos!
Bastava. Cuidadosa, Regina disparou. Mal pôs o pé na rua e notou o clima desfavorável. Com um feitiço simples conseguiu um casaco, mas, não estava com sorte. Do outro lado da esquina, um policial que rondava a vizinhança, a encarava boquiaberto e de olhar arregalado, parte furioso, parte amedrontado.
_ Droga! Westminster... Westminster... – ela cerrou as pestanas, forçando-se a concentrar-se.
E então desapareceu, envolvida por uma fumaça púrpura, deixando o homem a esfregar os olhos, perguntando a si mesmo se não estava biruta, vendo coisa.
Instantes depois, um piso quadriculado branco e preto se estendia frente a rainha, infinitamente. Sem raciocinar direito, ela pôs-se a correr. Seus passos ecoavam, agudos, pela igreja imensa, que deserta, sob a penumbra, parecia abrigar fantasmas milenares.
Enquanto corria, repassou mentalmente o que Abi havia dito. Altar, pavimento Cosmati, círculos...
_ Oh! — ela virou-se bruscamente, com uma expressão feroz na face.
Fora pega.
Uma freira estava logo atrás de si, imóvel de choque, agarrada no crucifixo que pendia de seu pescoço. No mesmo momento, a prefeita moveu os dedos e a mulher despencou.
No dia seguinte, Madre Smith seria encontrada no meio da abadia, adormecida, sem se lembrar de nada que vira.
A rainha continuou a correr, até chegar pela maior igreja da Inglaterra, ofegante, à aquele que considerou ser o mosaico que a colega lhe falara, até o lugar que não sabia, mas ao longo dos séculos servira de proteção a incontáveis perseguidos. Era sabido, aquele que estivesse sobre o solo do Santuário, estaria protegido do mal, protegido por Deus, até mesmo de reis sanguinários. Calculando seus movimentos, ela foi a cada um das pequenas bolas, e enfim se posicionou no círculo maior, batendo pé, torcendo para que desse certo.
Corria contra o tempo, literalmente. Não podia falhar.
Silenciosamente, o piso cedeu, a enviando a um metro abaixo do chão, revelando uma estreita escada espiralada.
Regina desceu por vários minutos até chegar num lugar que podia conter um bairro inteiro dentro de suas paredes. Dezenas de estantes, abarrotadas de velhos livros, do chão ao teto altíssimo, formavam, lado a lado corredores, um verdadeiro labirinto feito de todo o conhecimento bruxo existente. Dividiam espaço com imagens de santo quebradas, cobertas por pó e teias de aranha. A cena era macabra.
Não havia mais ninguém ali, a não ser uma figura curiosa, o guardião do Santuário, um ser sem sexo definido, corcunda e de rosto enrugado que a observou em silêncio, enquanto ela revirava prateleiras, fazendo diversas tentativas de achar o que precisava. Na terceira pilha de livros que vasculhava, sentada sobre uma mesa, virando páginas com ansiedade, encontrou algo sobre “ Jornadas temporais “ num volume de folhas amareladas, escrito a mão, de aparência muito antiga, cheio de desenhos estranhos que ela pouco entendeu.
Regina agarrou-o firmemente e movimentou o braço, tendo um meio sorriso de vitória nos lábios. Já podia ir embora. Sua intuição lhe dizia, aquele era seu passaporte para a liberdade.
As funcionárias de La duchess formavam um fila perfeita. A hora do pagamento era um ritual disciplinadamente cumprido. Depois de esperar que seis garotas recebessem, enfim, chegara a vez de Regina. Ela deu um passo a frente e Madame Duchamp a fuzilou com o olhar vencido de alguém não queria, mas tinha de admitir: a rainha fora a melhor empregada que contratara em anos. A francesa depositou as moedas em sua mão e Regina partiu, dando um sorriso sutilmente debochado.
_ Uau! Você ganhou um extra! Está todo mundo comentando! Viu como ela a olhou? — como de costume, Amy apareceu, fazendo mil comentários, efusiva.
A rainha sorriu de volta.
_ E então? O que fará com seu primeiro salário?
_ Gastá-lo! E muito bem! — respondeu Regina, divertida, encarando suas libras.
Sabia exatamente o que fazer com elas.
Ela saiu da pequena relojoaria exalando satisfação. Era impossível estar mais contente com sua compra. Fitava o embrulho, orgulhosa de sua escolha. Comprara o que de melhor conseguiria com o dinheiro de que dispunha.
Regina pensou nele, e em como gostaria do presente.
Desde que nascera, Londres era um formigueiro humano, com milhões de pessoas indo, vindo e vivendo suas vidas nela. Mas para eles, a cidade era como uma caixinha de fósforos onde estavam predestinados a se cruzarem.
Ela caminhou algumas quadras e então, por acaso, o viu sair do Banco.
Sorriu.
Os homens daquela época não dispensavam a carruagem, a oportunidade de se exibirem a sociedade. Esse não era o caso de Bell. Adorava caminhar a pé, como um mero pobretão, como os moradores do East End faziam.
Regina o seguiu por vários quarteirões, cada movimento de Bernard, gostando de espioná-lo. Ele tinha o rosto lívido. O que pensava? A solidão era uma necessidade sua.
_ Nem mais um passo, plebeu. — disparou ela, autoritária.
O homem gelou. Lentamente, virou-se para a rainha.
Deu um sorriso matador ao ver quem estava diante dele.
_ Seu desejo é uma ordem, Vossa Alteza.
Mesmo que por segundos, a antiga Evil Queen voltara, soberana, de queixo erguido. Ele parecia estar adorando vê-la daquele jeito, desafiadora, e veladamente, sensual.
Ela lançou seu corpo a frente e o beijou, de leve. Era uma provocação.
Bernard envolveu sua cintura fina com suas duas mãos.
_ Para você! — Regina lhe estendeu o embrulho, que era nada mais que um paninho a envolver o que comprara.
O que encontrou debaixo dele o surpreendeu.
O delicado relógio de bolso reluzia. Ao redor dos números, minúsculas pedrinhas brilhavam, e gravadas no objeto numa letra dourada, feitas com magia, estavam palavras que ele leria todos os dias, até o fim de sua vida.
“ Para aquele que a fez acreditar... “
Regina o assistiu fitar o relógio, encabulado, como se lhe fugisse o que dizer. Ele deixou apenas a emoção em seus olhos falar por si, mas logo soube que não seria o bastante, e por isso a abraçou, a beijou com paixão e entrega, não se importando se escandalizaria o mundo por amá-la ao ar livre, sob olhares alheios.
Bell finalizou depositando seus lábios na cicatriz acima de sua boca. Era sempre tão atencioso, notando cada mísero detalhe dela.
_ Bernard! — a censurou, divertida, observando ao redor.
Estavam em um pequeno parque que parecia ter sido pensado justamente para livrar pessoas do tumulto da cidade. Densas árvores os protegiam da Londres caótica, lá fora. O silêncio, o anoitecer alaranjado e a certeza de seu amor os fazia companhia. Eles caminharam de braços dados até uma pontezinha, acima de um lago. Regina debruçou-se sobre ela, em paz, de olho nos patos na água.
_ Já cogitou que magia, destino, milagres podem ser reais? — perguntou ela.
_ Sim... – disse a trazendo para ele, descendo suas mãos por seus braços. — acredito que uma força maior, mágica, me trouxe você... como se estivesse escrito... você é meu milagre.
E então, não resistiu, beijou-a novamente. Precisava de sua boca quente, de seu calor. Dominador, colou seu corpo ao dela, com fúria, arrepiando-a, quase fazendo-a perder os sentidos. Aquele era um Bell que ainda não havia conhecido: o homem, capaz de despertar o desejo adormecido dentro dela apenas com um toque, um beijo, uma simples carícia. Capaz de fazê-la desejar fundir-se a ele, ali mesmo, num lugar público. Quando soltaram-se um do outro, minutos depois, tensos e ofegantes, perceberam um rapaz, ao longe, sentado na grama a desenhar o lago.
Regina enrubesceu. Bernard não se importou muito. Estava claro que o sujeito, de boina e bigode engraçado, era um boêmio, fugido de Paris que pouco se importava com pudores e normas de decência.
Acertaram. O homem, chamado Samuel, admirou-se com a conexão dos dois amantes, os surpreendeu oferecendo-se para desenhá-los.
E eles posaram, sem caras sérias e poses duras, e sim sorrindo abertamente. Ele, abraçando a cintura de Regina por trás, com o queixo sobre seu ombro, como se ela fosse seu seu lar, e a rainha com os dedos pousados sobre as mãos masculinas que a enlaçava, que a aconchegava. Sorriam o riso dos apaixonados, dos jovens e ingênuos que acreditam que a felicidade frágil e passageira será eterna.
Ao longo dos anos, sistematicamente, eles olhariam para o desenho que resultaria daquele momento, com ternura e indescritível saudade, a transbordar do coração, a saltar pelos olhos, perguntando-se se de alguma forma, tudo não podia ter sido diferente.
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