Notas iniciais
Olá meus queridos leitores. Queria agradecer cada um que se disponibilizou em ler o primeiro capítulo de minha história e meu maior orgulho. Quero dedicar este capítulo ao meu amigo Kripton que reclamou que tinha poucos diálogos, e agora fiz questão reescrever e adicionar mais diálogos neste capítulo. Boa leitura <3

O Palácio seria trancado e higienizado após o último vendedor de pássaros sair do salão.

Várias aves foram libertadas de onde estavam engaioladas e outros não sobreviveram a outro longo período de transporte. Porém a história que o jovem sucessor do trono quis um tão cobiçado rouxinol se espalhou por toda China.

Vários exemplares da espécie foram vendidas por preços exorbitantes por conta na nova moda que o imperador lançou

Muitas crianças passaram a caçar os poucos rouxinóis que sobraram na natureza. E assim quase todas as casas possuíam uma gaiola com o passarinho aprisionado em sua residência. Diziam que o canto dele curava os doentes e esse boato perdurou por tempos.

Nos aposentos reais era um quarto espaçoso com muita decoração com predominância de ouro, prataria e porcelana espalhados e milimetricamente posicionados e obedecendo cada detalhe feng shui do cômodo. A abadia do quarto era rodeada por janelas, e em seu centro uma cama luxuosa feita de seda, linho e pura tapeçaria de luxo. Havia espalhado tanto na cama quanto na mesa de mogno vermelho, vários pergaminhos de papiro, tanto abertos quanto lacrados.

Perto de sua cama fora posicionados uma grande gaiola espaçosa feita de ouro. Não fora ele que escolhera o modelo e material, e sim seus serviçais.

Era digna de um imperador. Mas Shaka ainda não era imperador.

Não agora.

Tratou de fechar as janelas do ambiente e desfazer a grade de finos galhos de árvore da gaiolinha. Pegou com cuidado a ave e introduziu-a com a mão fechada dentro da gaiola maior, jogando a anterior no chão como um lixo.

A ave tratou de se empoleirar no grande balanço do centro da gaiola observando sem cantar ou piar.

O loiro fixou seu olhar ao passarinho púrpuro por um longo tempo de todos os ângulos, sempre rodeando a gaiola, descobrindo assim que o pássaro tinha olhos esverdeados. Era um belo exemplar de espécie. Já lera tantos pergaminhos sobre animais e pássaros, mas nunca encontrara algo sobre uma ave tão linda dessa. Mal podia esperar pela noite para ouvir seu canto. Embora a curiosidade sobre como era um canto de um rouxinol se acabara algumas horas atrás, queria saber justamente desse a sua frente.

Afinal, porque pássaros não voavam e nem cantavam a noite? Apenas corujas desafiaram essa lei entre as aves.

A noite veio e seu desejo ansiava por um único piu do passarinho. Mas ele não veio.

As estrelas brilhavam mais que as lanternas e velas de cera de abelha perfumadas janela a fora. E nada do canto.

Alguma coisa deveria estar errada.

Pegou um castiçal de cobre e uma vela acesa, desenrolara o pergaminho e procurou até a parte onde o vendedor da história explicava sobre o pássaro.

“Numa noite de lua cheia”. “o pássaro adoecera e não cantava”

Ainda não sabia ler as fases da lua, mas provavelmente não teria uma lua cheia tão perto da data que estava agora, se passou somente uma semana desde a última. Será que deveria esperar por ela aparecer? Pensou. Será que está doente como a história? Ou stress por conta do percurso da viagem? Ele estava numa gaiola que cabia nas duas mãos.

Não sabia nada sobre os cuidados de aves de pequeno porte. Embora a descrição batesse, talvez devesse ser o mesmo pássaro do vendedor do conto.

Ao amanhecer iria ordenar a um de seu fiel serviçal solicitando um criador de aves experiente para vir ao Palácio.

O animal animalzinho engaiolado permanecia imóvel no poleiro, alternando entre piscar devagar e rápido.

Deveria estar com sono, e a claridade das velas iluminando o quarto o incomodava.

Shaka ficou até metade da noite acordado aguardando um único som, mas a ave parecia apenas ignora-lo.

Talvez não funcionasse assim, deveria esperar até a lua cheia seguinte. Mas também queria saber mais sobre aquele senhor de idade corcunda e estranho. Deveria ter perguntado mais coisas a ele ao invés de sair depressa do salão.

Se arrependendo de suas escolhas, Shaka se preparou para dormir, rendido de que não conseguirá tirar um único som do pássaro naquele dia.

...

No dia seguinte Shaka acordou pulando da cama e indo em direção gaiola assuntando a ave que deu um pulinho. Será mesmo que se tratava do rouxinol da história? Será que era muda mesmo ou só cantava durante a lua cheia? E se por acaso aquele homem vendeu uma ave pintada para ele?

Muitas perguntas para poucas respostas. Um sino tocou fora do quarto avisando que o desjejum do príncipe estava pronto para ser servido, e logo em seguida, mais aulas de disciplinas, caligrafia, e entre outros estudos.

Um servo encapuzado entrou com uma bandeja de bronze com prato de alimento e colocou na mesa de centro próximo a gaiola.

Tinha pão, geleia de frutas, chá e alguns biscoitos para o café da manhã.

Shaka sorriu para o passarinho

— Bom dia!

...

Logo após todos seus afazeres reais, o príncipe retornou aos seus aposentos ao pôr do sol. Estava virando uma obsessão o canto do rouxinol, e um imperador não podia ter vícios.

No interior da gaiola agora tinha uma pequena piscina de água e um potinho de porcelana com grãos.

O ornitólogo especialista chegaria ao amanhecer no Palácio, os veterinários ao alcance da corte real não sabiam nada sobre pássaros, somente cavalos e cães de caça, tornando meio inútil procurar na cidade, o Profissional que estava sendo convocado era de outra cidade e demoraria 1 dia inteiro para sua chegada.

O homem misterioso? Seus soldados ainda estavam procurando por ele. Precisava encontrar aquele homem o mais rápido possível, tinha que saber mais sobre esse pássaro. E tudo que sabia sobre ele era que deveria ter mais idade do que aparenta ter, que só cantava a noite.

Se tudo fosse uma mentira, não pouparia esforço para mandar o sujeito a força por passar a perna no sucessor do Imperador.

Embora tivesse alguém no lugar regendo o reino da China enquanto não tomava sua maioridade, bastava só alguns anos para isso.

Um segredo de estado guardado a sete chaves. Shaka não era o filho do antigo imperador. Fora escolhido pela sua beleza exótica e olhos da cor do céu quando o sol estava no topo.

Por conta de rumores de tirania, para não ser assassinado pelos opositores, tivera sua identidade escondida, fazendo breves ou até mesmo nenhuma aparição em público.

Sua comida sempre fora testada para que não houvesse suspeita de envenenamento.

Mesmo sendo apenas uma criança, já demonstrava bastante inteligência. Porém, não tinha tempo e nem ninguém para brincar. Não podia desvencilhar-se de seu destino. Faltavam apenas 8 anos para sua coroação.

Sabia que aquela ave não era um brinquedo, muito menos seu servo ou escravo.

Se quisesse música, bastava pedir que seus serviçais traziam todos os músicos e orquestravam uma opera de Pequim ali mesmo em sua frente. Mas não queria uma orquestra, e sim um único pássaro cantando.

Mania essa que Shaka desaprovava de que para ser imperador precisava ter tudo digno de um Deus. Que a comida deveria ser cara e luxuosa. As vestes deveriam ter fios de ouro bordado nos quimonos.

...

Dia seguinte o especialista em aves que fora convocado chegara ao Palácio.

O loiro não gostou da forma que ele fez quando tentou pegar o passarinho e dentro da gigante gaiola, que esperneava e voava para longe da mão, até que conseguiu e retirou-o.

Examinou olhos, bico, patas, espichou suas asas e assoprou a barriga do pequenino para ver a coloração da pele sem penas.

As vezes no fundo da gaiola de ouro estavam brancas e normais. Não estava doente, poderia apenas ser um mal estado da viagem e transporte mal feito. Essas aves são muito frágeis e não vivem mais de 8 anos, mesmo a bem cuidadas.

Shaka estremeceu, fora enganado por aquele homem corcunda, mas recobrou a pose quando o ornitólogo voltou a falar sobre a coloração das penas. Não havia sinal de que foram tingidas, e mesmo se fossem, o animal não sobreviveria assim.

Conhecia várias espécies de aves, e aquele era um exemplar raro que nunca tinha visto antes. As cores não batiam com o tom seria de um rouxinol. Já havia catalogado aves brancas de olhos rubi como sangue. Mas não purpuro.

...

Shaka cobrou novamente a seu fiel serviçal atualização sobre o homem estranho que o vendeu, mas nenhuma caravana ou soldado havia visto nos últimos dois dias.

Um homem de meia idade, corcunda não seria tão difícil de localiza-lo.

Até mesmo cartazes de procurado foram espalhados a procura dele. Mas sem nenhuma pista.

. ..

De volta a seu aposento Shaka conversava com o passarinho, na esperança de que ele cantasse.

— Não sei quando chegará a lua cheia. Mas também não sei se você cantará. Algo dentro de mim fala que você não vai cantar tão cedo para mim. Será mesmo que eu deveria solta-lo?

O pequenino piscou algumas vezes.

— Você é como a mim. Pequeno, frágil, mas importante demais para estar fora de uma gaiola de ouro. Sei que é uma loucura, mas espero que entenda o que quero fazer.

O loiro abriu a gaiola e com duas mãos dentro da grade buscou pelo pássaro. Diferente do especialista, dessa vez não houve resistência. Era como se ele estivesse cooperando com o príncipe.

Era tão pequeno, cabia numa única mão.

Manuseou como se fosse uma pepita de pedra preciosa para não o machucar.

Por um descuido ou sem aviso algum, ele tomou voo e começou a rodopiar o quarto. As janelas estavam fechadas e então explorou todo cômodo, cama, biombos, vasos, mesa, tudo. O voo da ave era gracioso, mas uma hora cansou e pousou no biombo de madeira e papel de seda.

— Sabe, eu prefiro você assim do que preso. – Sorriu.

...

Dormira sem abrir as janelas para o passarinho não fugir.

Seu sono sempre fora tranquilo, mas naquela noite algo estranho atrapalhou seus sonhos com um barulho de algo sendo derrubado.

Não tinha nenhuma vela acesa no momento, mas a pouca claridade de fora conseguia ver a silhueta de tudo que estava dentro do aposento. Não era um breu definitivo.

Alguém entrará no quarto? Mas n ouvirá a porta, os soldados acordá-lo-iam se fosse caso de uma invasão. Mas não era, estava muito calmo.

Pôs um pé descalço para fora da cama. Pegaria uma vela e uma pedra e riscaria perto da janela, o barulho veio próximo a ela.

Com fogo, iluminou o quarto afugentando a escuridão.

Haviam pergaminhos espalhados pelo chão, a gaiola estava vazia, por momento esqueceu de colocar a ave roxa lá. Mas mesmo que procurasse pelo cômodo, não o encontrava.

— Onde você está? – preocupou-se.

Teria que estar ali, não tinha como ter desaparecido. Ao procurar perto do biombo que servia como divisória notou um movimento nas sombras.

Não estava sozinho.

Tinha mais alguém ali, como conseguira entrar? A luz da velha falhou por momentos iluminando a presença do outro ser.

Shaka iria gritar pedindo socorro, mas fora interrompido por um empurrão que o jogou no chão.

O ser desconhecido estava em cima de si, o candelabro caiu no chão e se apagou, forçando uma mão em sua boca e outra nos seus braços.

— Não grite. Eu quero viver tanto quanto você, então não grite.

A voz era de uma criança? Adolescente ou adulto? Era como se várias pessoas falassem ao mesmo tempo. Estava assustado. Iria ser assassinado ali mesmo?

Forçou a visão no escuro em vão. Não enxergava nada a sua frente. Mas sentia fios de cabelo caindo sobre si.

— Não grite. Eu não vou fazer nada contra você.

Não ia gritar, prometia mentalmente, só queria que ele saísse de cima de si. Estava machucando-o.

Depois de minutos a pressão em sua boca estava diminuindo a medida que o outro ser ia repetindo o pedido que não gritasse bem baixinho.

Fora feito de refém no escuro, iria ser morto sem nem mesmo ver a face de seu algoz que pedia para não gritar.

— Eu cantarei para você se me deixar ir.

Hã? Cantar? Quem era aquela pessoa? E que história de cantar era essa?

A força cessara que prendia seus braços e tapava sua boca. Com a visão acostumada a baixa iluminação percebera que era um jovem como ele.

Shaka começou a se ajeitar sentado no chão, o outro saíra de cima de si e estava sem vestes alguma.

— Quem é você? Perguntou.

— Tsc. Não tem importância agora.

— Como assim não tem? Você entrou aqui mesmo com vários guardas à espreita.

— Eu não entrei aqui. Eu já estava aqui desde o início.

As vozes diminuíram e agora dava para identificar que era mesmo de um jovem masculino.

Era calma.

O desconhecido se levantou e caminhou até a janela. Abrindo-a e a brisa invadiu o ambiente. Olhou para fora observando a paisagem e altura que estava.

— Não funciona assim... – disse em tom triste.

— Não funciona o que? Do que está falando.

— Você me aprisionou naquela gaiola, e agora sou obrigado a ficar aqui. Não importa quantas janelas eu abra. Eu nunca conseguiria sair dessas grades.

— Gaiola? Sair pela janela? Impossível, você vai morrer se pular daqui.

— É claro que eu sei acha mesmo que vou sair daqui me jogando?

O tom debochado é raivoso do outro enfurecia o príncipe.

Se levantou e procurou pela vela que caiu no chão. A pedra de riscar faísca estava na janela onde o outro estava. Então próximo ficaram até o loiro acender o pavio.

O outro desconhecido era um jovem que deveria ter 15 anos pra menos. Tinha cabelos platinados e duas pintas no meio da sobrancelha.

Parecia uma mulher de primeira vista, mas seu corpo era magro e denunciava suas genitais masculinas

Enrubesceu com aquilo alterando a posição que olhava para ele.

Era dono de uma beleza exótica e não parecia ser da China. Assim o próprio príncipe.

Algo dentro de si não alertava que ele seria uma ameaça. Não parecia perigoso.

— Quem é você? E como conseguiu entrar aqui?

— Eu já disse. Isso não importa... quer dizer, não importava até momentos atrás.

O jovem loiro saiu de lá e buscou em um baú no canto uma veste branca oferecendo para o desconhecido. Não achava que seria uma boa ideia deixando-o nu na sua presença.

O mesmo vestiu o roupão de seda bem fina cobrindo seu corpo sem dizer nada e muito menos agradecer a realeza.

— Você tem nome?

— Mu.

— Hã?

— Meu nome. Apenas Mu. -Soltou um longo suspiro ao olhar através do loiro a gaiola de ouro que reluzia a luz da vela.

Shaka olhou para trás e a viu. Olhando de novo o desconhecido, que agora se chama Mu.

— Você sabe algo sobre o pássaro roxo que estava aqui nesse quarto?

— Como não saberia. Eu era ele.

A boca de Shaka se abriu surpresa. Era uma mentira só pode.

— Você está mentindo para o futuro Imperador.

— Por que eu mentiria para alguém que tem poder suficiente para me matar? Eu posso provar que era eu horas atrás naquela gaiola. — Apontou ao objeto metálico.

— Então prove. Quero saber antes que eu chame os guardas

— Você ronca enquanto dorme, e passa o dia e tarde fora só retornando à noite. — Shaka prosseguiu ouvindo o outro, ofendido com a parte de roncar- E além do mais. Você disse que se sentia preso numa gaiola de ouro como eu estava.

Surpreso, era mesmo o pássaro? Só dissera aquelas palavras enquanto estava sozinho com ele.

— Então... Como você virou humano? Ou foi você virou um pássaro?

— Não sou humano.

— Que?

— Eu disse. Não sou humano e nem pássaro. Não sei por que devo me explicar...

— Se você não é nenhum dos dois. Então porque estava em forma de pássaro roxo?

— Roxo é a cor de meus cabelos. Quando estou em forma de ave, as penas ficam da mesma tonalidade

Shaka não conseguia ver direito por conta da luz amarela da vela. Pensava que seus cabelos eram cinzas. Se enganara.

Olhou para a escrivaninha com vários rolos de pergaminhos espalhados.

Mu fora desastrado ao tentar abrir a janela sozinho sem fazer barulho, e correu para trás do biombo depois de pisar e se desequilibrar num pergaminho que estava no chão, causando a desastrosa imagem que Shaka olhava.

— Você é como na história!

— Que história?

— O vendedor de pássaros que é curado com o canto do rouxinol. – Animado, correu para a mesa procurando pelo rolo.

Abriu vários, não os enrolou de volta até achar o dito cujo pergaminho da história que ansiava.

— Aqui! – voltou para a janela. — Aqui está! Neste pergaminho fala sobre a história do rouxinol com canto milagroso que salvou o homem da morte. Você é o pássaro da história!

— Eu nunca salvei ninguém da morte antes.

— O homem que eu comprei você disse que o tinha há gerações. Você deve ser um ser místico.

— Sim... aquele miserável me manteve preso por mais de 80 anos naquela gaiola imunda.

-Oitenta anos!? Quantos anos você tem? Você parece até ter minha idade.

-Tenho 88 anos...

Boquiaberto. Era como presenciar algo divino pessoalmente. Se sentiu inferior por ter apenas 10 anos. Pensava que ele teria sua idade, um pouco mais velho... Mas não tão velho como ele era.

Era um sonho, estava sonhando com seu pássaro se transformou em humano e agora estava conversando com ele. Iria pôr a mão no fogo para provar a sim mesmo que era um sonho, mas fora interrompido pelo mais velho.

— O que pensa que está fazendo?

— Provando que não é verdade. Eu estou dormindo e você não existe.

— Deixe de falar besteiras.

— Não é. Eu vou acordar com a dor e, — Tivera o castiçal tomado por Mu. – Me devolve! Ei! — E o mais velho apagou a vela com um assopro — Por que fez isso!?

— Você iria gritar quando se queimasse, os guardas iriam entrar e me matar.

— Os guardas só entrariam aqui caso eu ordenasse. -disse enraivecido

— Vai sonhando que tudo funciona conforme você ordena. — Pôs o candelabro no apoio da janela.

— Se você é mesmo o pássaro, por que não se transforma de volta?

— Fora da gaiola eu sou eu. Não consigo me transformar de volta quando não estou aprisionado

— E como funcionaria isso?

— Eu não sei, passei poucos momentos em minha forma humana que não me desenvolvi direito. Tanto tempo trancafiado numa gaiola... mal me lembro de minha infância, de meus parentes.

— Você tem família!?

— Tinha. Provavelmente todos mortos ou trancafiados em gaiolas. – disse cabisbaixo.

— ...Mu. sinto muito.

— E porque sentiria? Somos de mundos diferentes. Você está em sua gaiola de ouro e tem de tudo que precisar quando quiser. Eu estou na minha, aprisionado e não possuo nada. Nem mesmo controle de minha própria vida.

O loiro ficara sem reação. Não sabia que podia existir um ser como ele na terra, e estava ali em sua frente.

A luz que adentrava o quarto era pouca, mas o suficiente para ver sua silhueta. Queria vê-lo mais uma vez. Se permitindo então pegar o castiçal de volta junto com a pedra e riscar o pavio até ascender.

Pós a vela entre eles, iluminando seu rosto. Era fino, olhos verdes como jade. Seu cabelo era liso e comprido, quase o mesmo tom de lavanda.

Era como se redescobrisse o pássaro purpuro pela primeira segunda vez. Uma beleza exótica digna de um imperador.

Mas Mu não era imperador. Não era servo e também se perguntava do que podia ser.

Seus pensamentos foram interrompidos por um breve bocejo escondido pela mão. Já passava da madrugada e não sabia quantas horas faltavam para o amanhecer.

— Onde você vai ficar? Você volta a ser pássaro na gaiola... Mas se descobrirem que existe outra pessoa aqui, eles podem te prender e até te matar. E eu não estarei aqui pela manhã e tarde.

— Ponha-me na gaiola antes do amanhecer que eu viraria um rouxinol, assim eles não descobririam minha existência.

— Sim, claro. Mas... como lhe colocarei de volta? – perguntou alternando o olhar entre as grades e o rapaz. A entrada só cabia um braço, não uma pessoa inteira.

— Faça como você fez quando me colocou pela primeira vez.

Shaka engoliu seco. Acontece que dá primeira vez, um era um passarinho, não uma criatura mítica adolescente

Seus olhos foram pesando, estava cansado de permanecer acordado, mesmo com muitas dúvidas na sua cabeça.

— Você disse que iria cantar para mim se eu deixasse você ir. É mesmo, por que você não cantava antes?

— Quem em sã consciência de ser vivo cantaria se estivesse aprisionada?

— Mas outros pássaros cantam.

— Eu já disse, eu não sou um pássaro, eu me transformo num, consigo alternar minhas duas formas de noite e de dia, portanto que eu me mantenha fora das grades, mas eu não sou um pássaro. Não sou um escravizado.

“Mas eu comprei você “pensou.

O outro estava correto. Ele era diferente de outros escravos. Estava mais para um animal de estimação, até antes descobrir que era um rapaz o tempo inteiro.

Quando te soltei no quarto, pensei que você teria um pouco mais de liberdade do que eu. Eu mal posso andar pelo Palácio sem permissão, e várias vezes ela não era concebida. Eu estava preso nessa gigante gaiola de ouro. Assim como você estava.

Eu prometo, dou a minha honra que você não será machucado e enjaulado novamente. Mas eu peço uma coisa em troca.

O outro ficou tenso.

Cante para mim todos os dias. É a única coisa que eu peço.

O dono das madeixas lilás recuou. Aquilo era um contrato de alma para um novo encarceramento? Possuía pontos positivos, mas já sabia que não série livre tão cedo.

— Você está pedindo minha vida em troca de canto? É isso? A única coisa que tenho a oferecer. – O jeito seria então aceitar, porém com algumas condições que não sabia se o Príncipe iria acatar.

— Sim- Sorriu.

Seu sorriso era lindo como o nascer do sol. Mas não fora apreciado pelo pássaro.

— Mas com condições. — Seu sorriso se desfez- ninguém poderá me ver na forma humana. Apenas na forma de ave. Eu cantarei para você uma vez ao dia ao anoitecer e eu não passarei mais tempo dentro daquela Gaiola. Só permanecerei só dentro dela durante sua ausência.

— Eu concordo. Dou a minha palavra como futuro grande Imperador dessas terras.

O acordo foi feito com o consenso de ambas as partes. O que confortou o mais velho, dessa vez tinha livre arbítrio de voar, e não ficar aprisionado por quase um século.

Porém, como dito. Mu virava humano durante a noite, e a noite sentia sono e dormia. Não tinha o direito de andar por onde bem entendia, que não entendia quase nada das leis dos homens. Devia ficar apenas nos aposentos de Shaka. Era um avanço

Seu plano estava dando certo.

Logo logo, conquistaria o voo no céu aberto.

Mas, ficar ali significava sua paz e segurança. O príncipe não tinha índole de escraviza-lo ou aprisiona-lo como foi o homem que privou sua liberdade anteriormente.

Não demonstrou, afinal, era só uma criança- pensou. Uma criança crescida em berço de ouro e prata.

A cama era grande o suficiente para abrigar duas pessoas e ainda deixar espaço. O sono vencia os dois que se cobriram no enorme lençol de seda.

Shaka dormiu sorrindo no restante daquela noite. Não estava mais sozinho.

...

Um soldado conseguiu a informação sobre o paradeiro do tal homem de idade corcunda. Fora encontrado morto com a barriga atravessada por um punhal há dois dias.

Certamente os seus descendentes não lembrarão dele como prometeu a realeza.

...

..

.


Notas finais
Capítulo revelador ou previsível? Estarei atualizando os capítulos de 1 ou 2 semanas de tempo. Do fundo do meu coração, obrigada por ler <3