A lenda do Imperador e o Rouxinol
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Na manhã seguinte, foi despertado por batidas suaves na porta. Um serviçal, de voz cautelosa, desculpava-se por acordá-lo e informava que o café da manhã estava pronto. Ele havia perdido a hora. Era raro isso acontecer, pois sempre despertava com o primeiro raio de sol que atravessava sua janela.
Ao abrir os olhos, observou o quarto ainda bagunçado. Pergaminhos espalhados pelo chão e a gaiola vazia. Um frio percorreu sua espinha. Seu coração acelerou. A janela estava aberta. Como pôde se esquecer de fechá-la? Levantou-se num sobressalto e olhou ao redor. Ao lado de sua cama, ninguém. Ele fugiu? Não, não podia ser.
Segurando a respiração, retirou o lençol branco de cima de si e, para sua surpresa, notou um pequeno movimento sob o tecido. Com delicadeza, afastou o pano e lá estava o passarinho púrpura, aninhado entre os vincos do tecido. Um alívio o preencheu, mas a estranheza daquela cena não diminuiu.
Tinha certeza de que tudo fora um sonho. E, ainda assim, ali estava ele, deitado ao lado da ave. Sentou-se lentamente na cama, pegou-a com suavidade e a colocou de volta na gaiola.
— Eu devo estar enlouquecendo — murmurou, passando a mão pelos cabelos dourados. — Tive um sonho muito estranho.
O pássaro o fitou, piscando lentamente, como se demonstrasse insatisfação por ter sido despertado de maneira abrupta.
— Você se transformou em um menino, igual a mim — continuou o loiro, observando a pequena criatura. — Mas era mais bonito... Sua pele era clara como porcelana... Uma beleza indescritível.
A porta do quarto se abriu, e o serviçal mascarado entrou carregando uma bandeja. Sobre ela, biscoitos, frutas e chá fumegante. Além disso, havia uma pequena cesta contendo grãos e sementes, claramente destinada ao rouxinol.
Com delicadeza, colocou a ave dentro da gaiola, mas ela sequer se moveu. Seus pequenos olhos apenas acompanhavam os movimentos da mão do jovem, como se compreendesse algo além do que um simples pássaro deveria compreender.
...
O sol nascente tingia o céu com tons dourados e alaranjados, enquanto os primeiros raios atravessavam as janelas do grande salão. No interior da residência, um jovem nobre já havia iniciado sua rotina matinal, imerso em estudos sobre política, história e caligrafia. Também dedicava parte de seu tempo à prática da esgrima, uma habilidade essencial para alguém de sua posição. No entanto, naquela manhã, sua mente estava distante, vagando entre as sombras de um sonho que parecia mais real do que qualquer ensinamento que recebera até então.
Cada detalhe daquela visão noturna permanecia vívido em sua memória. Os sons, as cores, até mesmo as sensações... Tudo era tão intenso que se perguntava se aquilo fora realmente apenas um sonho. Ele não conseguia afastar a inquietação que se instalara em seu peito desde o instante em que despertara. Sentia que havia um significado oculto por trás daquelas imagens e precisava descobrir o que era.
Movido por essa inquietação, ergueu-se de sua escrivaninha e chamou por seu servo mais fiel. O homem, já acostumado às excentricidades de seu senhor, se apresentou prontamente, esperando por suas ordens.
— Encontre para mim pergaminhos sobre pássaros — ordenou o jovem, sem desviar o olhar da paisagem do lado de fora da janela. — Contos, lendas, qualquer relato que envolva essas criaturas. Quero saber tudo o que puder encontrar.
O servo não questionou. Apenas fez uma reverência e saiu em busca do que lhe foi solicitado. Enquanto isso, o jovem voltou a se sentar, tamborilando os dedos sobre a mesa de madeira maciça. Por que aqueles pássaros apareciam tão claramente em seu sonho? Qual mensagem traziam consigo? Algo lhe dizia que, entre os antigos pergaminhos, poderia haver uma pista que revelaria a verdade.
Mal sabia ele que aquela busca o levaria a um caminho muito além dos livros e dos relatos escritos. O que parecia ser apenas um capricho logo se transformaria em uma jornada que desafiaria tudo o que conhecia sobre o mundo e sobre si mesmo.
...
Ao entardecer, retornou aos seus aposentos, trancado e resguardado pela guarda real do lado de fora.
Correu como uma criança travessa para o interior do quarto e lá estava a gigante gaiola de ouro, desproporcional ao pequeno pássaro roxo que repousava dentro dela.
Colocou a mão para dentro até alcançar o balanço de ferro e se espantou quando o pássaro pulou em seu dedo, como se já soubesse que era para sair dali.
— Como eu queria que você cantasse para mim... — sussurrou, levando o rosto para perto da ave.
O pequeno ser virou a cabeça algumas vezes antes de soltar um pio delicado.
Iria cantar? Ele realmente iria cantar agora? Era como se compreendesse o que o príncipe dizia.
Mas antes de entoar qualquer melodia, alçou voo pelo quarto, rodopiando diversas vezes no ambiente, deixando o loiro maravilhado. Então, pousou sobre a luxuosa e espaçosa cama.
O pio começou de leve, tornando-se cada vez mais intenso. Ele não parecia apenas imitar um pássaro, mas sim executar uma melodia, como se sua voz carregasse um som etéreo e encantador.
Era belo. Continuou assim até que o sol desaparecesse por trás da montanha e a noite tomasse o céu por completo.
Shaka observava, seus olhos azulados fixos no brilho que emanava da ave. A luz crescia gradativamente, até que seu corpo começou a mudar de forma. O brilho se intensificou, aumentando de tamanho e intensidade, até que, diante dele, surgiu um ser humano nu.
Não era possível. Não era um sonho.
Tudo o que acontecera na noite passada era real.
— Por que está surpreso se já me viu antes assim? – cruzou os braços.
Shaka correu para o vestiário e sacou do baú de madeira um robe de dormir, dessa vez amarelo feito de lã de carneiro. Ofereceu ao mais velho para se cobrir. Por sorte os dois tinham o mesmo tamanho.
— Eu ... não estava esperando isso.
— Eu disse que cantaria para você uma vez ao dia, em troca eu ficaria longe da gaiola
— Sim, sim. É verdade. – Mentiu. Esquecera completamente disso.
Com todas as velas acesas no quarto, conseguia ver claramente mais detalhes sobre o mais velho.
Madeixas púrpuras iguais as suas penas. Os olhos eram mais claros do que quando era um pássaro purpurino e olhando mais de perto. Parecia o rosto de uma mulher com corpo de homem.
— És tão lindo quanto a ave carmesim sagrada Suzaku.
Mu apenas o olhou de lado.
— Você tem certeza que não é nenhuma criatura mitológica na terra? Eu nunca ouvi falar de nenhuma criatura que virava homem e pássaro ao mesmo tempo
— “Criatura?” Você também não é muito diferente do que de mim. Você tem cabelo amarelo e olhos azuis.
— Perdoe-me. Não era minha intenção falar assim. -coçou sua cabeça. Mu estava certo, onde no país o preto era predominante nos cabelos e olhos. — Mas eu nasci assim. Com cabelos claros.
— Eu também nasci assim.
Ao longo da noite passavam o restante do tempo conversando sobre o dia do príncipe. E assim se estendeu por semanas.
No fim da tarde, ele cantava em forma de rouxinol e virava homem em seguida. E então ambos dormiam juntos, separados em um canto do enorme colchão, mas unidos.
Shaka passou a fazer suas refeições em seu aposento para ficar mais tempo com a ave antropomórfica e descobriu que ele não comia carne. Passou então a rejeitar carne em sua alimentação para acompanhar o companheiro.
Passavam o restante da noite lendo pergaminhos de histórias, brincadeira de espadas e conversando. Mu não sabia ler. Então Shaka lia em voz alta a ele.
— Mu...? -disse quando já estavam deitados, não havia mais nenhuma luz acesa no quarto. Foi respondido com um simples “hm?” – como foi sua história com o homem anterior que o vendeu?
— Por que você quer saber sobre meu angustiante passado?
— Não é isso... eu só queria saber se o seu captor sabia de seu segredo.
Mu ficará em silêncio por momentos e se virou para ficar de costas ao outro, shaka se sentiu mal por ter feito uma pergunta tão sensível.
— Apenas o pai dele sabia... E só foi poucas vezes.
— Como assim só o pai do ancião sabia?
— Eu devia ter 8 anos de idade terrena quando fui capturado por uma criança. Ele deveria ter sua idade. Fui acertado por uma pedra enquanto voava e me machuquei na queda. Impossibilitado de voar, ele me acolheu em seu humilde casebre que morava sozinho.
A dor era tão agonizante que quando chegou de noite eu me transformei em humano em sua frente... ele cuidou de mim até sarar. Sem gaiolas até então. Eu virava pássaro de dia e uma criança a noite.
Antes eu morava numa floresta, apenas eu e a liberdade de voar no céu azul. E então eu passei a morar com o jovem que eu nem consigo mais lembrar de seu nome.
No começo fui bem tratado. Era mantido solto e podia voar para onde eu quisesse e retornava ao entardecer para o casebre de quem quebrou meu braço... e asa. – falou enquanto gesticulava seu braço esquerdo para cima e para baixo.
Mas quando ele completou 16 anos, ele ficou mais agressivo comigo. Não lembro ao certo, se foi um desentendimento ou uma briga. Então ele me pegou em forma de pássaro e me trancafiou numa gaiola, me fazendo assim uma herança de família. Já que ele casou, teve filhos e eu fui dado de presente em seu testamento.
Shaka continuava deitado olhando para as costas do outro. Era uma trágica história. Se sentiu na pele o que seu parceiro passou. Embora nunca soube como era a dor de quebrar algo.
— Mas agora não importa mais. Ele morreu, seu filho me “vendeu” e eu estou aqui agora.
— Você se sente melhor agora? Diferente do passado?
— Está brincando comigo? Essa vida é melhor do que qualquer outra coisa. — se ajeitou na cama. – Qualquer coisa é melhor do que ficar aprisionado por quase 100 anos. Mesmo que seja uma liberdade limitada. – E então olhou para o príncipe De olhos azuis.
Mesmo estando escuro, conseguiam enxergar um a outro.
E foi assim que adormeceram.
Shaka fez uma promessa a si mesmo que nunca trataria Mu como um objeto ou um animal de estimação.
Seus dias estavam cada vez mais felizes na companhia do outro. Até mesmo com o mau humor e deboche pela parte do pássaro.
...
— Acompanhar você durante sua rotina? – ficou surpreso enquanto devorava um pão seco.
— Sim! Assim você não precisa ficar o tempo inteiro dentro da gaiola sozinho no quarto. — Falou animado.
— É uma boa ideia até... mas é se eu fugir? Quando estou em forma de rouxinol eu não consigo controlar meu instinto de sair voando.
— Não tem problema. Eu sempre fico num salão fechado e mando trancar todas as janelas. Assim você pode voar livremente pelo ambiente.
O mais velho suspirou decepcionado. Mesmo que pudesse, não conseguia fugir ou retornar ao seu lar. Já tinha calculado tantas rotas de fuga em sua cabeça que sempre chegava à conclusão. Morreria antes mesmo de conseguir chegar a sua terra Natal.
Não sabia se virar sozinho, não sabia ler e toda vez que se transformava sempre estava desnudo. O que piorava a situação para ele.
E em forma de rouxinol não era diferente. Sua pelagem se destacava entre outras tonalidades na natureza, tornando-o assim uma presa fácil. Fora que tinha um segredo que não revelara a ninguém.
Possuía um medo que chegava a ser bem anormal de gaviões.
— Então. Amanhã vamos começar com calma. Quero lhe apresentar primeiro ao meu professor. Ele é o único que não precisa usar máscara na minha presença- e continuou falando sobre todos os serviçais, servos e comandantes que se lembrava animadamente.
— Escuta... Por que os outros que lhe servem não podem ver sua imagem?
— Eu não sei dizer o porquê. Mas sempre foi assim desde que eu cheguei aqui. O Grande Mestre Imperador antes de morrer falava que eu era e reencarnação de um Deus, por isso nasci com cabelo cor de ouro e olhos azuis. Enquanto eu não assumisse o trono, eu deveria me manter escondido tanto da população quanto dos serviçais. Isso vai continuar até eu alcançar a maioridade.
— Entendo. Se você está aqui. Quem está no controle agora? No lugar do antigo Imperador.
— Ele se chama Saga. Ele é um homem bom, mas eu nunca o vi pessoalmente. Ele está no comando agora, mas só até eu assumir.
— E ele vai aceitar assim de mão beijada entregar o título de imperador regente a você?
— Ele deve entregar o que é meu por direito. Estou estudando para ser um imperador cordial e forte de espírito.
A vasilha de pães que era compartilhada aos dois chegou ao fim. Mu não entendia muito sobre política, e gostava de ouvir o loiro falar.
Shaka deitou-se na cama espalhando seu cabelo pelo colchão. Mu o imitou.
— Sabe... Deve ser incrível voar. — Puxou assunto.
— Sim, é libertador...
— Libertador... Desejo um dia aprender a voar, mesmo que seja impossível para um homem. — Estendeu seu braço ao alto tentando alcançar o teto sem se levantar.
Mu nada disse. Não tinha palavras para confortar o loiro. Eram diferentes e iguais ao mesmo tempo.
Ao amanhecer seria diferente do que as últimas semanas. Não sabia como iria reagir fora do quarto. Sua vontade era de voar para longe... Mas algo o prendia a aquele palácio. Ou seria o Príncipe?
Ou seria sua própria vida em risco?
Fechou os olhos encerrando suas preocupações e se preparando para dormir.
Shaka o observava sem falar nada.
Foi tanta ansiedade que quase nem pregou os olhos.
...
O Príncipe foi o primeiro a acordar, antes mesmo que os raios dourados do sol se infiltrassem pela janela do quarto. Seu olhar recaiu sobre a figura adormecida ao seu lado: Mu, ainda em sua forma humana, respirava suavemente, envolto em um sono tranquilo.
— Deuses, como ele é lindo até mesmo dormindo — pensou, sentindo o calor subir-lhe às faces.
O sol despontava timidamente por trás das montanhas, banhando o quarto com uma luz difusa, uma mistura de penumbra e alvorada. O Príncipe havia desenvolvido o hábito de dormir tarde e acordar cedo, pois queria aproveitar ao máximo cada instante ao lado de Mu enquanto ele permanecia em sua forma humana. Cada momento valia a pena.
Guardava o segredo do jovem a sete chaves: ao nascer do sol, Mu se transformava em um pequeno pássaro. Era a segunda vez que testemunhava essa metamorfose mágica. Primeiro, uma luz branca envolvia o corpo adormecido, que aos poucos diminuía de tamanho, até que, ao cessar o brilho, um delicado rouxinol de penas lilases surgia no lugar do jovem. Na maioria das vezes, o Príncipe dormia até depois dessa transformação e já despertava com a ave repousando em sua cama. Mas não hoje.
Com todo o cuidado, levantou os lençóis e envolveu o pequeno animal entre as mãos, sorrindo ao saudá-lo:
— Bom dia!
O passarinho apenas piou baixinho, sonolento, enterrando a cabecinha sob as asas. O Príncipe riu. Hoje era um dia especial, pois Mu o acompanharia em sua rotina de estudos. No entanto, a pequena ave não parecia compartilhar de sua animação e se aconchegou ainda mais no travesseiro de penas de ganso, relutante em acordar.
Sem querer perturbá-lo, o jovem se levantou e começou a se preparar. Aproximou-se da bacia de cobre e lavou o rosto com a água fresca. Atrás do biombo de madeira, escolheu sua vestimenta: um quimono preto adornado com bordados intrincados que misturavam tons de verde, vermelho e dourado, formando um dragão que se estendia do joelho até o peito. Vestiu uma calça larga preta e atou uma faixa vermelha na cintura. Por fim, calçou os sapatos e ajeitou os cabelos antes que o desjejum fosse servido.
Hoje, a primeira refeição consistia em pão de centeio com frutas secas e um chá aromático. O Príncipe desejava que Mu estivesse ali para partilhar do momento com ele, mas sabia que, naquela forma, ele não poderia se alimentar como um humano. Para contornar isso, pedira discretamente que servissem porções extras no jantar, alegando estar em fase de crescimento e sentir mais fome à noite. Era um pequeno segredo, mas tudo estava perfeitamente calculado.
Restava menos de uma hora antes da primeira aula, que seria sobre história política. Colocou um véu branco sobre a cabeça e pegou o rouxinol adormecido, pousando-o delicadamente sobre seu ombro.
— Vamos lá, Mu.
Ordenou que as portas fossem abertas e os ferrolhos retirados. Havia dado instruções para que todas as janelas do palácio permanecessem fechadas enquanto estivesse com o pássaro, garantindo sua segurança. Ao se dirigir à torre da biblioteca, sentiu a brisa matinal tocando sua pele, enquanto seus olhos atentos analisavam tudo ao seu redor, ainda que o véu cobrisse parte de sua visão.
A primeira aula do dia abordava literatura, história e caligrafia. Mu, porém, parecia mais interessado no próprio ambiente do que na aula. O pequeno pássaro explorava cada canto, fascinado pela vastidão de pergaminhos e rolos de papel que preenchiam as prateleiras imponentes da biblioteca. Apesar de já estar acostumado a ouvir o Príncipe ler para ele, nunca havia estado em um lugar repleto de tanto conhecimento. Sua curiosidade transbordava, e ele não parava de piar entusiasmado em direção ao jovem, exigindo sua atenção.
O mentor, já exasperado, suspirou profundamente antes de repreendê-lo:
— Por favor, jovem mestre, suplico-lhe um pouco de disciplina no estudo.
Mu, alheio à advertência, pousou na mesa e saltitou em direção ao pergaminho sépia onde o Príncipe praticava sua escrita. Num instante, mergulhou as patinhas na tinta fresca, deixando pequenas marcas pelo papel. O professor arregalou os olhos, desesperado com o estrago.
O Príncipe conteve uma risada, observando a bagunça que seu pequeno companheiro fizera. Apesar das aulas rigorosas, a presença de Mu tornava seus dias infinitamente mais divertidos, preenchendo cada momento com alegria e encanto.
...
— Será que algum dia você vai ficar em forma de homem o dia inteiro? — se alimentou de uma amêndoa.
— Não sei te responder. – Comeu uma metade de noz.
— E se você tentasse? Não se transformar ao amanhecer? -agora era uma uva. Discretamente retirou as sementes e pôs na bandeja
— Não é bem assim que funciona. É um instinto natural, é como respirar. Eu apenas faço, não controlo à vontade.
— Sempre foi assim? De dia pássaro, de noite homem. — Comeu a última castanha do pote.
— Sempre. Assim como existe a fase bebê, jovem, adultos e velho para vocês humanos. Para mim é apenas ave e homem. Embora eu não seja nenhum dos dois. – Bebeu um pouco de chá amargo que ainda estava quente. E assim ambos terminaram a refeição da noite.
Deitados na cama enquanto o sono não vinha era o momento que o jovem Príncipe mais gostava. Tinham pouco tempo juntos porque logo vinha a vontade de dormir.
— Você já cantou antes na sua forma humana?
— Nunca cantei antes. Só como um rouxinol.
— Por que não tenta? -se ajeitou na cama para ficar apoiado em seus cotovelos.
— Eu não sou cantor. Não invente moda.
— Eu também não sei cantar.
— Então por que pede para eu cantar se você mesmo não sabe? Eu já não canto uma vez ao dia para você?
— Não é a mesma coisa... É como se eu quisesse ouvir na sua voz, de verdade.
O pássaro ficou em silêncio por um momento, pensando num argumento para rebater o loiro.
“Durma, Shaka. Pensarei no seu caso.”
Se viraram ficando na posição oposta, de costas.
Estender seu horário de sono virou rotina. Embora ruim seja, estava feliz pois passou dia, tarde e noite com seu companheiro misterioso. E assim permaneceu por anos.
...
Longe da cidade, uma conspiração estava tomando forma.
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