A história de nós dois
12 Memória e mentira
Notas iniciais
Izuku esfregou os olhos no meio da aula de história, em um esforço para prestar atenção no que o professor falava. Já fazia quase uma semana desde que tinha saído do hospital, mas o único contato que podia dizer ter tido com Shoto era a vista de sua silhueta algumas cadeiras à frente durante o período letivo. Não que o estivesse evitando de propósito, mas parecia que sua cabeça não funcionava direito quando estavam no mesmo ambiente.
Por outro lado, o outro rapaz calmamente copiava o conteúdo do quadro para o caderno. Izuku apoiou os cotovelos na mesa. Daquele ângulo, não conseguia dizer o que ele poderia estar pensando quando ajeitou alguns fios brancos para trás da orelha.
Até esse ponto, já tinha começado a duvidar da própria memória, porque quase não conseguia mais se lembrar do momento em que tinha acontecido aquele... Bem, ele podia chamar aquilo de beijo, certo? Não que a ideia de um mal entendido não lhe tivesse passado pela cabeça, mas para todos os efeitos, a situação estava sendo o suficiente para dar trabalho constante aos seus neurônios.
— Midoriya-san — A voz do professor preencheu a sala. Imediatamente o rapaz deu um salto, soltando um grunhido que mal podia considerar como resposta. Por quanto tempo estivera perdido nos próprios pensamentos? A voz que continuou foi dura: — Se não está se sentindo bem, pode passar na enfermaria, mas por enquanto é melhor se esforçar para acompanhar a aula.
Concordou com a cabeça, envergonhado, antes de se desculpar. Um olhar em volta e toda a sala, que havia se virado para encará-lo, agora sussurrava alguns comentários divertidos aqui e ali. Todos menos ele. Shoto continuou casualmente escrevendo alguma coisa no caderno, como a cena anterior se não fosse de seu interesse. Izuku suspirou por um momento em que ponderou se essa não era a melhor coisa a se fazer, afinal. Pelo menos até suas cabeças esfriarem.
Depois que a aula acabou, enfim era o horário de almoço. Juntou-se à Iida e Uraraka no corredor, como fazia costumeiramente, e encontraram com Asui perto da entrada do refeitório, onde pararam um segundo para conversar.
— O que aconteceu com você esses dias? — Ouviu Iida indagar quase como se fosse o próprio professor. — Já é a terceira chamada em aula que recebe e quase se deixou ser capturado de forma boba no último exercício. Eu sei que as provas intermediárias estão chegando, mas você realmente deveria dar uma pausa, caso algo o esteja afetando.
— É verdade. — A voz preocupada de Uraraka soava bem mais séria do que o usual. — Deku-kun parece um pouco cansado e distraído esses dias. Tem se sentindo mal?
— A-ah, não, t-t-tudo bem. — Respondeu os colegas com certo receio, antes de forçar um sorriso e coçar a cabeça, admitindo. — É que eu não tenho dormido direito desde que voltei para o alojamento. Acho que aquele vilão me afetou mais do que eu podia imaginar...
Não era de todo mentira que o incidente da semana anterior o estivesse preocupando, principalmente porque a investigação não parecia chegar a lugar nenhum, mas preferiu omitir a parte do hospital. Por agora, o melhor que deveria fazer era se esforçar e parar de incomodar os amigos. Reafirmou que estava bem algumas vezes enquanto compravam o lanche até sentarem na ponta de uma mesa comprida, onde outras pessoas da turma já estavam comendo.
Jogar conversa fora era relaxante, de certa forma. Jirou revirou os olhos quando Kacchan começou a se irritar com Kirishima sobre o jeito certo de acender uma fogueira com ferramentas e quando Izuku se meteu para contar sobre a viagem escolar para a montanha que fizeram com a escola primária, a bronca se voltou contra ele.
— Ah Todoroki-kun! — Yaoyorozu fez um movimento pequeno com a mão e todos se viraram na direção do rapaz que agora estava em pé próximo à mesa, segurando uma sacola — Não quer sentar com a gente?
Izuku sentiu as costas gelarem assim que escutou o nome do garoto e engoliu seco quando seus olhos se encontraram. Os apelos dos colegas para que ele se sentasse na única cadeira próxima disponível, bem na sua frente, pareciam vir de algum lugar distante. O que faria se ele aceitasse o convite? Seria capaz de ao menos levantar a cabeça? Com certeza não conseguiria mais conversar direito com ninguém.
Shoto se virou na direção da saída e apertou a alça da sacola.
— Eu estou com um pouco de pressa.
— Ah sim! — Iida exclamou animado. — Essa semana você está ajudando na sala dos professores, certo? Eu nunca tinha ouvido falar desse tipo de coisa. Tem certeza que não precisa de ajuda do presidente da turma?
— São só algumas coisas que o professor pediu que podem adiantar na investigação da semana passada. — respondeu em um tom frio. Izuku não conseguia tirar os olhos de sua silhueta, mesmo que o coração perdesse uma batida a cada vez que ele falava. — Nada em que vocês possam ser de grande ajuda.
Sem delongas, Shoto se apressou para fora do refeitório, sendo observado por uma mesa de boquiabertos até dobrar o corredor na direção da sala da parte administrativa da escola.
Izuku tapou a boca para que ninguém o visse suspirar aliviado.
— O que há com ele? — Kirishima pôs apoiou os cotovelos na mesa para dar uma mordida em seu pão recheado e continuou enquanto mastigava. — Parece até que voltamos ao primeiro ano.
— Talvez o vilão sinistro tenha afetado ele também? — Uraraka sugeriu quase sussurrando, como se estivessem fazendo fofoca.
— Aquele idiota meio a meio se deixa afetar demais pelas coisas. — Kacchan cruzou os braços carrancudo. Fazia tempo que Izuku não tinha escutado esse apelido. — Se estivesse no lugar dele, eu teria aproveitado qualquer vantagem para explodir logo aquele babaca metido a caçador.
— Tenho certeza que teria.
A voz do Kirishima soou irônica suficiente para que a briga entre os dois voltasse a acontecer e envolver Izuku mais uma vez. Com sorte, porém, o sinal os interrompeu, anunciando o período da tarde. Levantaram todos juntos, mas seguiram em grupos menores na direção da sala de aula.
No meio do caminho, Izuku decidiu que precisava lavar o rosto para se refrescar da tensão anterior. Enquanto coçava os cabelos verdes raspados na nuca, tomou um rumo diferente dos outros, seguindo na direção do banheiro mais próximo. Sentiu a água tocar nas bochechas antes de se olhar no grande espelho que ocupava toda a parede de pias. Sentia-se confuso, cansado e agitado ao mesmo tempo.
Na volta, admirou-se com o silêncio daquele corredor em específico, considerando o horário, e olhou pela janela para as poucas nuvens no céu de um típico dia quente. Parou devido à surpresa. Sentado sozinho próximo a um canteiro, Shoto terminava de embalar uma pequena marmita. Observou-o enquanto colocava a embalagem de volta no saco e então na lixeira, antes de seguir o caminho de volta ao interior do prédio.
Izuku entrou na sala em silêncio, tentando decidir sobre o que pensar. Sua agonia não durou muito tempo, porém, pois os alunos foram encaminhados para mais um exercício na arena industrial da U.A., onde foram divididos em dois grandes grupos: “vilões” contra “heróis”. Por ter ficado no segundo, precisou pegar uma boneca do tamanho médio de uma criança, que fazia alguns barulhos eventuais. Recebeu instruções para se esconder em até cinco minutos com o objetivo de conseguir sair pelos portões sem ser capturado por nenhum dos colegas do outro grupo e sem perder a “criança”.
Ouviu Kacchan e Ashido reclamarem sobre os sons aleatórios aos quais estavam presos até o momento em que os três se separaram. Havia poucos lugares para um bom esconderijo, já que a arena tinha certa amplitude visual, apesar dos canos e plataformas por toda parte. Decidiu se enfiar em um túnel que fazia curva para dentro de uma parede e esperar que aquilo abafasse os gemidos da boneca.
Se sentou na superfície curva e ficou pensando no quanto a escuridão era parecida com a situação em que estivera recentemente. Tentando afastar esse tipo de pensamento, resolveu se focar no significado da imagem que havia presenciado no jardim mais cedo. Era mais do que óbvio que Shoto havia mentido sobre ajudar os professores, provavelmente para evitá-lo da mesma forma que Izuku esteve fazendo durante toda a semana. Mas o fato de ele ter se isolado dos colegas por sua causa o fez sentir um grande peso na consciência.
Quer dizer, por todos aqueles anos, preocupou-se em tornar o ambiente agradável para que o garoto se sentisse bem ao redor dos amigos e junto dele próprio. Mais do que tudo, gostava muito de sua companhia. Por que agora seria diferente? A imagem mental do rosto cada vez mais próximo ao seu inundou-lhe cabeça no mesmo instante. Não sabia nem ao menos dizer o que era aquela sensação de bochechas queimando enquanto o peito parecia querer explodir. Como poderia reagir a isso? O que deveria fazer agora?
— Te achei!!
Uma voz grave ecoou pelo túnel. Com o susto, Izuku olhou para a silhueta bloqueando parte da luz na saída. A figura de Head Hunter lhe veio à mente como um vulto e o rapaz subitamente se agachou agarrado à boneca, enquanto um grito lhe escapou os lábios. Todos os instintos de seu corpo o diziam para fugir, mas não conseguiu se mover além dos espasmos assustados.
Uma mão lhe alcançou as costas, trazendo-o de volta para a realidade.
— Cara, tudo bem com você? — A voz de Sero o fez levantar a cabeça. Encarou-o até que sua respiração voltasse ao normal e o permitisse formular uma frase.
— Não sei. E-eu não tenho dormido direito…
— Vamos sair daqui então.
O colega o ajudou a se levantar e o acompanhou de volta aos professores. Assistiu-o explicar o que tinha acontecido, enquanto se sentia ainda meio espacialmente perdido.
Foi recomendado que voltasse aos dormitórios e assim o fez. Se jogou na cama no momento em que a porta se fechou atrás de si e virou para o lado da parede, chateado consigo mesmo por ter deixado a situação chegar àquele ponto.
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