A história de nós dois

13 Conselho amoroso


Notas iniciais
E estamos de volta depois de um mês sem fic! Sentiram saudade? Eu senti bastante. Tanto que to postando no dia primeiro logo de vez hehe. Que venha Novembro!

O terceiro golpe arrancou uma série de árvores do jardim da U.A. com a intensidade da energia projetada. Izuku cerrou os punhos e suspirou. Os músculos de seu corpo latejavam pela quantidade liberada sem querer da individualidade que ele já deveria conseguir chamar de sua. Resistiu à tentação de apoiar as mãos nos joelhos e concentrou-se em acertar apenas o alvo com a devida força dessa vez. Sentiu o One for All percorrer suas pernas para saltar…

— Já chega. — A voz de All Might soava desapontada o suficiente para que mesmo o garoto perdesse o pouco ânimo que vinha conseguindo juntar. — Nós vamos para o treino por hoje.

— M-mas eu ainda não consegui…

— E provavelmente nem vai. Não enquanto estiver usando a individualidade como forma de descarregar os sentimentos.

Izuku abriu a boca para protestar, mas não produziu nenhum som. Ele tinha razão no fim das contas. Suspirou e se deixou sentar do lado do herói enquanto o sol da manhã ainda não tinha aparecido inteiro no céu. Ouviu-o de cabeça baixa.

— Você não tem estado bem desde o incidente na estação abandonada e os outros professores já perceberam... Olha, é normal que alguns vilões te afetem mais que outros durante a vida. Até mesmo eu tenho algumas marcas que me assombram até hoje, mas o importante é usar esse medo para canalizar…

— Você já namorou alguém antes?

A pergunta inesperada fez o herói tossir as próprias palavras enquanto o garoto ao seu lado prestava atenção na cor amarela de alguns cogumelos que cresciam ao lado do banco, perto de seus pés. Tinha as bochechas coradas enquanto se perguntava o quão indiscreto e invasivo havia acabado de soar, mas apesar de ser uma curiosidade genuína, estava acima de tudo em busca de um conselho. Encarou-o com olhos redondos pelo silêncio que se estendeu por uns segundos.

— Ah… Então é esse tipo de aflição... adolescente… O suspiro do amor! — All Might disse a última frase com ânimo e manteve a postura musculosa com as mãos na cintura e um sorriso, até que um pouco de sangue jorrasse de sua boca e o fizesse engasgar. Izuku observou-o apreensivo. Finalmente o herói suspirou e pôs as mãos em cima dos joelhos, admitindo. — Não, eu nunca namorei ninguém…

— Entendi. — Izuku abaixou novamente os olhos, um tanto quanto desapontado. — Eu sempre me perguntei se existe algo como uma regra. Quer dizer, com o propósito do One for All, eu preciso dedicar minha vida apenas a ser um grande herói como você fez…

— Não me entenda mal, garoto. — All Might o interrompeu levantando as mãos em um gesto de acalmá-lo. — Não é que eu tenha simplesmente escolhido isso apenas por uma questão de prioridade. É mais como se a paixão nunca tivesse despertado para mim…

Izuku encarou-o boquiaberto. Não podia acreditar que estava tendo aquele tipo de conversa com seu grande herói. De repente, sentiu o coração palpitar de maneira eufórica com a vontade de pegar o caderno na mochila e anotar as exatas palavras que tinha acabado de ouvir. Avaliou que seria muito rude, portanto precisaria memorizá-las até a hora da aula.

Antes que se desse conta, estava fazendo outra pergunta.

— Nem quando tinha a minha idade você pensou nesse tipo de coisa? Nem quando foi aos Estados Unidos?

— Bom… — All Might levou a mão ao queixo e olhou para cima, talvez buscando alguma lembrança. — Não, nem nesse tempo… Sabe, eu costumava me perguntar bastante se havia algo errado em relação a mim quando era mais jovem, mas depois aceitei que cada pessoa tem seu ritmo. Talvez eu ainda vá encontrar alguém que me faça suspirar, mas provavelmente não é o caso. Enfim, as pessoas são diferentes as vezes, e o importante é salvar todas elas.

“Salvar todas elas”. Izuku repetiu mentalmente para gravar. Era um tipo de ensinamento que nunca tinha esperado receber do homem à sua frente e estava bastante contente por ser próximo dele o suficiente para isso. Acima de tudo, sentia-se uma pessoa de muita sorte por tê-lo conhecido.

— Sobre seu caso, — A voz do herói fez um calafrio percorrer a espinha do garoto ao se lembrar do propósito inicial da conversa. — Acredito que é normal querer ter relacionamentos e família. Obviamente o dever sempre deve estar em primeiro lugar, mas certamente você não vai ser o primeiro usuário do One for All a seguir esse caminho, caso o faça.

— Não vou?

— Nem de longe.

O calor da manhã já quase anunciava a hora de ir para a sala de aula. Izuku lembrou-se da conversa que havia tido com Yuga há pouco tempo e enterrou o rosto nas mãos para que o adulto não visse suas bochechas corarem ao imaginar-se nessa situação com Shoto. Era estranho demais afinal, mas não de um jeito desagradável? Não sabia o que fazer com isso, de qualquer forma. Suspirou desapontado.

— Enfim, — All Might continuou em uma voz calma. — Que quer que o esteja tirando do sério, tem certeza que não é uma questão que pode se resolver naturalmente?

— Naturalmente? — O rapaz se surpreendeu com a ideia.

— Você tende a agonizar demais sobre seus próprios pensamentos. Pelo que eu sei, para o bem ou para o mal, é bem comum esse tipo de coisa se resolver sozinha. O melhor a se fazer é agir de forma normal e tirar o peso inteiro das costas.

O rapaz acenou com a cabeça devagar. Ainda não tinha exata certeza sobre o rumo a se tomar, mas se sentia bem mais confiante depois daquelas palavras. Ouviu o barulho do sinal e se levantou prontamente, colocando a mochila nas costas. Despediu-se de All Might e começou a andar apressado na direção da escola, pois sua primeira aula era química e ele não podia se dar ao luxo de atrasar nem um pouco. Alguns passos depois, porém, escutou seu nome sendo chamado pelo herói e deu meia volta, pensando se tinha esquecido alguma coisa.

— Você sabe que deve usar preservativos, certo?

O tom de voz foi alto suficiente para ecoar pelas árvores derrubadas. Izuku sentiu o rosto inteiro queimar até as orelhas enquanto engoliu em seco. Mecanicamente, virou-se exatos 180º e prosseguiu a caminhada como se nada tivesse acontecido. Para ESSE tipo de conversa, com certeza ele não estava preparado.

.

Esbarrou em Uraraka correndo assim que entrou pelo portão da U.A. Ela tinha ido buscar o estojo que esqueceu no alojamento e agora voltava com apenas o objeto na mão e suor na testa. Cumprimentaram-se sem jeito, ambos felizes por ainda terem algum tempo antes da aula começar, e foram juntos pelo corredor.

— Você e Todoroki-kun brigaram, não foi?

A menina carregava a mesma expressão preocupada que vinha mostrando a semana toda. Izuku lembrou-se das palavras de All Might para agir naturalmente, então suspirou e decidiu mudar todo aquele clima estranho que ele próprio estava criando entre os colegas. Ainda que não pudesse de forma alguma falar para ela o que tinha acontecido, resolveu desabafar um pouco.

— N-nós tivemos um… u-um incidente… aquele dia no hospital…

— Eu sabia! — Ela exclamou com certa confiança. — Vocês dois deveriam conversar… Digo, ele também me parece bastante triste ultimamente… E todo esse seu estresse… Seria bom se pudessem se entender e voltarem a ser amigos.

Izuku assentiu antes de abrir a porta da sala para que os dois entrassem. A turma inteira já estava sentada em seus lugares, mas o professor ainda não tinha chegado. “Voltarem a ser amigos” repetiu mentalmente. Será que tinham chegado ao ponto de não serem mais amigos? A vista do rapaz sentado na cadeira, olhando para fora da janela inexpressivo ainda fazia seu coração querer sair do peito, mas precisava ser corajoso. Foi até lá, parando praticamente ao seu lado.

— Sh-Todoroki-kun… — Os olhos dos dois se encontraram e, por um momento, Izuku imaginou se conseguiria ao menos falar. Estava na frente de toda a sala de aula, mesmo que ninguém realmente estivesse prestando atenção. No canto de sua visão, Uraraka mostrava os polegares em incentivo. Apertou os punhos e respirou fundo. Precisava fazer isso pelo bem de tudo que eles tinham conquistado como colegas até então. — A investigação! Quer dizer, e-eu ouvi dizer que a i-investigação está t-t-tomando rumo… Então, bem… Q-quer almoçar com a gente hoje?

Era até mesmo difícil respirar. O outro rapaz ficou parado por um tempo, com uma expressão que Izuku não conseguia dizer o significado. Naquele ponto, estava lutando contra a vontade de colocar os braços na frente do rosto, o que fazia seu corpo inteiro tremer, principalmente porque já tinha atraído a atenção de alguns colegas com o pedido fora de hora.

— Sim.

Todoroki respondeu de forma sólida e Izuku precisou piscar algumas vezes para entender o que tinha acabado de ouvir. Naquele momento, o professor entrou na sala e mandou todos se sentarem e abrirem o livro. Quando despencou sobre a cadeira, de certa forma se sentia feliz. Era verdade que tirar o peso das costas o estava ajudando, pois prestou atenção em todas as aulas que se seguiram pela manhã, usando as horas vagas para anotar o que tinha aprendido sobre All Might no caderno especial.

O horário do almoço o assustava e o impolgava ao mesmo tempo. saiu da sala junto com Tsuyu, que havia sido sua dupla na aula anterior, e ficaram esperando pelos outros no corredor. Iida e Uraraka vinham conversando alguma coisa com Shinso quando pararam junto aos dois. Finalmente, a imagem de Todoroki foi ficando cada vez mais próxima até que ele cumprimentasse todos com um pequeno aceno. Izuku molhou os lábios, tentando convencer a si mesmo que aquela tinha sido a melhor decisão.

A conversa normal que tanto queria começou a fluir de forma consideravelmente inesperada, mesmo que ainda não conseguisse olhar na direção do outro garoto sem que seu coração disparasse. Contudo, aquilo era bem mais agradável do que a situação anterior na qual haviam se colocado. Precisava entender aquele sentimento o quanto antes para que tudo voltasse aos conformes.

Quando ia passar pela porta do refeitório, porém, sentiu o peso de uma mão no seu ombro e se virou ligeiramente para ver o rosto de Todoroki bem próximo ao seu, mas antes que pudesse ao menos se desviar devido ao susto, ouviu-o sussurrar em uma voz grave:

— Posso conversar contigo um minuto? A sós.

Notas finais
O conselho amoroso do título no caso é o preservativo. Use camisinha. E deixa um comentário pra mim pra eu saber que você ainda existe. Qualquer coisa serve, só me da um sinal :)