A história de nós dois
36 Festival cultural
Notas iniciais
Duas semanas atrás, quando aceitou o trabalho de dirigir a turma na peça de teatro, Izuku não tinha ideia do que estava se metendo. Foi o que pensou quando bocejou na manhã tão esperada, coçando as olheiras que tinham se formado devido à carga extra de uma função com a qual não estava acostumado. Aprender a lidar com gente daquela forma era algo que precisava se lembrar de anotar no diário como uma necessidade futura para ser um bom herói.
Agora, no entanto, era hora de aproveitar a manhã do festival junto com os amigos.
Se vestiu com roupas casuais e encontrou com Iida e Uraraka, igualmente cansados, o esperando no hall. Shoto chegou um pouco depois e então Asui completou o grupo. Seguiram para a escola conversando sobre a peça, que aconteceria no meio da tarde, mas eles já teriam que começar a se preparar um pouco depois do almoço.
A primeira atração que viram foi o começo da batalha de mini robôs feitos pelas turmas do departamento de suporte e uma turma do segundo ano do departamento geral. Mesmo que não passassem de 20cm de altura, de alguma forma era bastante divertido vêr os robôs se degladiando sob o controle dos alunos, mas como as finais demorariam algumas horas pra acontecer ainda, o grupo resolveu dar uma olhada nas outras atrações por enquanto.
Ao todo, três outras turmas da escola tiveram a ideia de maid café, fazendo-os concordar que tinha sido uma coisa boa não investir nessa opção. A turma B de heróis do primeiro ano, no entanto, estava fazendo uma casa mal assombrada e, pelas individualidades dos alunos daquela sala, parecia que tinha potencial para ser bastante assustadora. Uraraka sugeriu que dessem uma olhada, mas Asui questionou se deveriam voltar ali depois da peça, já que à noite seria mais divertido. Izuku não tinha certeza se estava animado para uma casa assombrada, porém. Coçou o nariz e começou já a pensar em uma desculpa para não entrar ali com os colegas, quando Shoto se aproximou de seu ouvido e sussurrou:
— A noite, quando estiver escuro, a gente pode dar as mãos ali dentro...
Izuku olhou-o, sentindo o ânimo subir um pouco. Fazia um tempo que eles não tinham um momento legal juntos só para os dois, já que os preparativos para a peça estavam tomando a atenção de todo mundo. Parando para pensar, o festival cultural seria uma boa desculpa para estar realmente perto do garoto, afinal, mas ainda tinha que tomar cuidado para não grudar demais nele em público. Por fim, terminou concordando com os colegas sobre fazer uma visita àquele lugar durante o começo da noite.
Para o almoço escolheram um dos cafés improvisados com um tema fofo para o qual Uraraka os arrastou depois de saber que poderiam usar chapéus divertidos enquanto estivessem ali. Sem pensar muito, Izuku escolheu um chapéu de pirata e, ao seu lado, Shoto colocou um arco com orelhinhas de coelho. Iida tentou um gorro com um pompom enorme em cima, mas não coube em sua cabeça e ele o entregou para Asui e pegou outro gorro com orelhas de gatinho pretas para si. Por fim, Uraraka escolheu um chapéu rosa com penas coloridas e os cinco foram se sentar perto da janela se sentindo engraçados. A comida não era muito boa, no fim das contas, mas pelo menos tiraram algumas fotos.
A seguir, teriam que rumar direto para os bastidores do teatro. No entanto, quando Izuku foi pegar o dinheiro na mochila para pagar pelo almoço, percebeu que estava faltando o caderno com as instruções de coordenação da peça. Como ele poderia ter esquecido algo tão importante? Talvez fosse o cansaço, enfim. Decidiu então fazer uma corrida até os dormitórios para pegar o que precisava e encontrar os outros já no teatro.
— Eu vou com você. — Shoto atestou de súbito.
— Nem pensar! — Quem respondeu o que Izuku queria dizer foi Uraraka. Ela levantou um dedo no ar na direção do garoto, como uma mãe argumentando com o filho. — Você é o ator principal e tem que chegar o mais cedo possível para se arrumar.
— É só um pequeno desvio. — Izuku argumentou também, em favor da menina, enquanto coçava o pescoço. — É mais rápido se eu for sozinho, de verdade.
Isso dito, o garoto deixou o chapéu junto com o pagamento e correu para os dormitórios. Na entrada, porém, precisou parar quando avistou a figura de Kigi rondando pelo jardim. Não era para ele poder estar ali, certo? Provavelmente tinha vindo procurar por Yuga, do jeito que eles se esgueiravam para dentro e para fora pelo jardim de trás, mas acabou se perdendo ali dentro. Izuku fez um pequeno aceno de mão para que o outro o visse e recebeu de volta uma expressão surpresa, que logo se transformou em uma espécie de sorriso.
— Yuga-kun já deve estar no teatro. — Izuku se antecipou à pergunta que o Homem parecia querer fazer. Em seguida apontou na direção da escola. — seguindo em frente por esse caminho, você chega no jardim de trás, então vai conseguir ver o prédio, no lado leste tem uma porta pequena que ninguém usa e da direto nos bastidores. Não deixa os professores te verem.
— Certo. Obrigado.
Com um aceno de cabeça, os dois se despediram, e o garoto entrou correndo pelo elevador até o próprio quarto, sem pensar muito no evento anterior. Pegou o caderno de dentro da gaveta e saiu apressado de volta pelo mesmo caminho que havia indicado antes, chegando nos bastidores praticamente em cima da hora limite. Alguns atores, inclusive, já estavam vestidos e colocando a maquiagem.
— Fica quieto, porra!
— Calma aí, ta machucando!
— Vou te machucar de verdade se não parar de se mexer!
A discussão entre Kacchan e Kirishima tomava conta do lugar, enquanto o pessoal carregava o primeiro cenário para perto da entrada do palco. Tudo parecia estar fluindo bem, na medida do possível, então Izuku se aproximou de Yuga e Mina, que estavam ajeitando as roupas dos atores.
— Você viu o Koda-kun? — Yuga perguntou casualmente enquanto trançava o cabelo de Uraraka. A maquiagem no rosto dela deveria parecer malvada, mas de alguma forma era fofo de se olhar. Quando Izuku negou, o outro garoto continuou. — Pensando bem, o Mineta também está faltando…
— Que péssima hora para se atrasar!
Mina atestou, em um tom de voz que transparecia ansiedade, e então saiu para ajudar Kacchan a passar o lápis no olho do menino vestido de dragão. Izuku aproveitou essa oportunidade para sussurrar para Yuga:
— Kigi-kun conseguiu te achar?
— Kigi? Ele está aqui?
O rapaz não teve tempo para pensar no que responder, quando Shoto saiu do camarim ajustando a manga da roupa. Por um momento, a turma toda pareceu ficar em silêncio e Izuku quase deixou escapar um suspiro. O cabelo na altura do queixo estava preso de lado, estrategicamente cobrindo a cicatriz, e um lápis de olho suave e a boca arroxeada davam um tom misterioso à forma inexpressiva como ele o encarou brevemente. Izuku concordou consigo mesmo que maquiagem era algo assustador. Shoto parecia um príncipe de gelo de verdade, como se pudesse congelar e derreter seu coração a qualquer momento. Era até um pouco difícil controlar a respiração e não deixar óbvia a vontade de pular nele ali mesmo. Izuku mordeu os lábios com força, até sentir um pouco de dor. Tem que ter um limite para o quanto uma pessoa pode ser bonita, certo?
— Eu detesto interromper sua admiração, — Yuga murmurou baixinho enquanto pegava na camisa de Izuku para chamar a atenção. Quando o rapaz finalmente conseguiu desgrudar os olhos do namorado, o outro prosseguiu, — mas você realmente precisa ir buscar o Koda, ou alguém vai ter que substituir um dos anões e isso vai ser um problema.
— C-certo! — Izuku voltou à realidade subitamente.
Não havia tempo a perder, de verdade, já que o anão malvado mais importante para a história tinha sumido. Ainda um pouco atordoado, o rapaz caminhou em velocidade mais rápida pelos corredores da escola, esticando o pescoço eventualmente em busca da figura do colega. Uma certa agitação aqui e ali parecia estar acontecendo em algumas salas, mas Izuku não tinha tempo para isso, olhando de porta em porta até finalmente chegar na arena de robôs, onde uma multidão considerável se aglomeravam pelas oitavas de final. Era o último lugar para se procurar.
Não demorou muito para que percebesse que algo estava errado, porém. Aparentemente dois colegas que iriam participar da disputa estavam faltando. Izuku pôs a mão no queixo, dando-se conta da sua jornada até ali, quantas pessoas estavam gritando nomes pelos corredores, levantando os olhos por aí, como se estivessem procurando alguém? Definitivamente muitas. Antes que pudesse pensar a respeito, ouviu a voz do professor Hizashi no auto-falante oficial, o que fez todos ao redor ficarem em silêncio de súbito.
— Atenção todos os alunos. Voltem para as suas respectivas salas imediatamente. As atividades do festival cultural estão temporariamente suspensas.
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