A história de nós dois
37 Mentira e consequência
Notas iniciais
— Atenção todos os alunos. Voltem para as suas respectivas salas imediatamente. As atividades do festival cultural estão temporariamente suspensas.
Izuku chegou na sala primeiro e ficou ouvindo o anúncio se repetir mais algumas vezes até que todos os colegas que estavam no teatro chegassem juntos, com semblantes igualmente confusos. Aglomerados em um canto, Izuku informou-os do que tinha visto mais cedo até que Aizawa entrou na sala emburrado e chamou a atenção de todos.
— Eu vou direto ao assunto — o professor começou em um tom de voz sóbrio. — Quem daqui sumiu?
Por um momento, os alunos se entreolharam assustados. O homem não tinha perguntado se alguém tinha sumido, mas quem. A situação parecia mais preocupante ainda dessa forma, por isso, depois de informar sobre Koda e Mineta, era óbvio que eles questionassem o que estava acontecendo. O professor respirou fundo e respondeu em uma voz seca:
— Até agora não temos muitas informações, mas todas as turmas reportaram o sumiço de pelo menos dois alunos. O mesmo vale para os professores.
— Algum professor sumiu? — Iida levantou a voz, seu olhar expressando a surpresa que todos sentiam.
— Nós reparamos que alguma coisa estava errada quando demos falta do Hizashi e do Toshinori, então…
— O All Might sumiu?!
Dessa vez foi Kacchan que interrompeu o professor, apressado, enquanto se levantava da cadeira em um pulo. Um silêncio pesado tomou conta da sala, antes de Aizawa esfregar a própria testa em um suspiro e gesticular para que o deixassem terminar de falar.
— Nós estamos tentando entender como isso foi feito para chegar aonde eles estão — Aizawa continuou. — Se vocês tiverem visto qualquer pessoa ou atividade suspeita durante o festival, essa é a hora de colocar para fora.
Outra vez, um silêncio caiu sobre a turma. Izuku sentiu a garganta apertada, com o coração acelerando no peito, ao mesmo tempo que mal podia acreditar no que estava acontecendo. Em menos de uma hora tinham acabado de almoçar e se preparavam para a peça para a qual haviam treinado tanto no último mês, mas agora isso tinha caído completamente por terra. Ninguém sabia o que dizer. Com a negação não-verbal dos alunos, Aizawa mandou que todos ficassem juntos e não saíssem da sala sozinhos, enquanto ele iria para outras turmas.
Assim que o professor saiu, uma explosão de murmúrios começou consideravelmente alta. Izuku, no entanto, ainda estava imóvel na carteira, se perguntando milhares de coisas que passavam por sua cabeça. Um toque no ombro interrompeu seus pensamentos, contudo, e o rapaz se virou para a figura de Yuga, sentado em uma cadeira próxima
— Você disse que viu o Kigi-kun mais cedo, mas ele não chegou ao teatro… — O garoto torcia os dedos enquanto sussurrava — E se ele também foi sequestrado?
— Nós precisamos falar com os professores! — Izuku murmurou de volta, mas sua convicção foi restringida pela mão que segurou seu pulso. Aoyama molhou os lábios.
— Não, eu… eu não posso falar com os professores que meu namorado sabe entrar e sair livremente da U.A. assim… e-eu posso ser expulso por isso. — Izuku encarou-o, um tanto quanto boquiaberto, mas depois se recompôs para uma expressão pensativa. Ele estava certo, considerando o último castigo que eles dois e Shoto haviam tomado por se esgueirar. Certamente ensinar um estranho como fazê-lo era bem mais grave. Yuga suspirou, e o outro reparou que ele estava tremendo enquanto o fazia, como se fosse começar a chorar a qualquer momento. — Por favor, você precisa me ajudar a encontrá-lo. Ele pode ainda estar escondido por aí. E se for pego por algum professor?
Izuku não disse nada, mas concordou com a cabeça, imaginando um jeito de sair da sala. Mecanicamente, ele levantou e apoiou as palmas das mãos na mesa, chamando atenção de quem estava próximo.
— Eu preciso ir ao banheiro! — Mentiu com a maior convicção que conseguiu.
— Isso é hora de precisar mijar, nerd? — Kacchan brigou de volta. Estava também visivelmente abalado pelo sumiço de All Might daquela forma. — Não ouviu que nos mandaram não sair sozinhos?
— Eu vou junto.
Shoto respondeu, olhando para Izuku. Em sua expressão, o rapaz entendeu que ele sabia que algo estava errado e queria acompanhá-lo por isso. No entanto, ainda vestido de príncipe, o garoto chamaria atenção demais por onde quer que fosse. Izuku se apressou para levantar os braços em um gesto de acalmar.
— O Yuga-kun vai comigo, na verdade… Ele também quer ir ao banheiro, certo?
— Isso! Nós estávamos falando disso agora pouco, e que seria melhor se duas pessoas fossem ao mesmo tempo. — Yuga respondeu com uma cara de pau maior que Izuku conseguiria reunir em toda a vida. — Então nós voltamos já, não se preocupem.
Sob olhares preocupados, os dois garotos saíram da sala juntos e seguiram por um tempo pelo corredor que dava no banheiro, mas assim que chegaram na escada de emergência, se viraram para descer. Por motivos não ortodoxos, Izuku conhecia alguns corredores mais vazios e conseguiu guiar os dois até o lado de fora. O primeiro lugar para onde iriam era o jardim de trás.
Procuraram por um tempo, sem nenhum sinal de Kigi, quando escutaram passos no caminho mais próximo. Se esconderam apertados atrás de um banco, mas os passos pareciam vir na direção exata dos dois. Izuku estava se preparando para pegar o colega e fugir usando o One For All, quando ouviu seu nome ser dito baixinho. Levantou, então, a cabeça e encontrou a figura de Shoto em pé no meio das árvores. Suspirou de alívio.
— Como você saiu?
— Eu disse que alcançaria vocês para o banheiro, mas vocês não estavam no banheiro... — Shoto olhou para Yuga, que agora se apoiava no banco. — O que aconteceu?
— Kigi veio vê-lo hoje. — Izuku respondeu. — Eu o encontrei no caminho para o teatro quando fui buscar o caderno na hora do almoço, mas ele não chegou a ser visto depois.
— E você falou com algum professor sobre isso?
— Não. — Yuga interveio. — Eu não posso falar com professores que ensinei um cara a pular o muro da escola só pra vir me beijar às vezes. De jeito nenhum.
Shoto fez um gesto pequeno e silencioso de concordar com a cabeça, como se estivesse pensando por um instante, e então encarou Izuku com semblante sério.
— Você encontrou uma pessoa que não deveria estar aqui e que sabe como entrar e sair da U.A. logo antes dos desaparecimentos começarem a acontecer. Não acha que uma coisa pode estar relacionada à outra?
— O que está insinuando? — Yuga tinha os punhos cerrados enquanto falou em um tom um pouco mais alto do que deveria para a situação, então deu dois passos na direção de Shoto, como se quisesse começar uma briga. Izuku ficou igualmente surpreso e alarmado, considerando que não era do feitio do amigo fazer isso. Antes que pudesse dizer alguma coisa para apaziguar a situação, porém, o rapaz se virou na direção do teatro e continuou com a voz tremida. — Enquanto estamos discutindo essa besteira, ele pode estar correndo perigo… O último lugar que Deku-kun disse que o tinha enviado foi o teatro, então, vamos até lá.
O rapaz seguiu sorrateiramente até o prédio, e restou para os outros dois o seguirem de perto. Izuku sabia que o que seu namorado disse sobre aquilo tudo fazia sentido, mas era difícil querer acreditar que o mesmo homem de quem Yuga passava horas falando sobre nos dormitórios era alguém que sequestraria pessoas. Seria um desfecho trágico demais para o amigo, não seria?
Encontraram a porta lateral indicada mais cedo para Kigi chegar ao camarim e entraram sem dificuldades. A partir dali, teriam que seguir para a esquerda e então à direita, até onde estiveram se preparando para a peça começar. Enquanto caminhava, Izuku começou a se sentir um pouco triste ao lembrar de todo o esforço à toa, quando Shoto chamou sua atenção. Antes da segunda curva havia uma porta que ficava sempre fechada, mas agora estava entreaberta, com sinais de ter sido forçada. Os três se olharam antes de verificar. Um outro corredor pequeno precedia uma porta corta-fogo, era uma escada de emergência. Contudo, ao invés de levar ao segundo piso, a escada descia até o que parecia ser um depósito grande e empoeirado, sem iluminação.
Shoto acendeu uma chama pequena e os três colegas precisaram segurar os suspiros. Deitadas no chão, as pessoas desaparecidas estavam enfileiradas lado a lado, seus rostos extremamente pálidos.
— Estão vivos? — Foi a primeira pergunta que Izuku ouviu de Yuga.
— N-não sei… — Respondeu sinceramente antes de verificar a respiração da primeira. Era Mai, que mais cedo estivera ganhando todas as batalhas de robôs. Izuku apertou os dentes quando não sentiu o ar em seus dedos. — P-parece que não…
— Ki-Kigi-kun…?
Primeiro, Izuku achou que a pergunta de Yuga tinha sido por tentar encontrar o namorado no meio dos corpos, mas então Shoto se afastou um passo, alarmado, fazendo-o levantar os olhos para o outro lado do salão. A chama um pouco mais forte agora iluminava todo o ambiente, revelando uma pessoa ajoelhada bem do lado de All Might. Uma sombra comprida se projetava até a parede dos fundos.
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