A história de nós dois
26 Distância
Notas iniciais
A antessala que precedia a direção era um lugar relativamente apertado no qual o Izuku do começo do ano nunca se imaginaria indo parar. Sentados em fileira, os três garotos esperavam em silêncio pelos pais. As coisas estavam começando a parar de girar, mas seu estômago parecia dançar em uma mistura de embriaguez e ansiedade.
A primeira a chegar, no entanto, foi sua mãe. Assistiu-a entrar para falar com o diretor, acompanhada do All Might, e sair carregando uma expressão de desaprovação que nunca tinha visto antes. Levantou-se quando foi chamado para voltar para casa, não sem antes lançar um olhar na direção de Shoto, que ainda aguardava o pai, reflexivo. Era agoniante não poder saber o que aconteceria com ele, mas no momento em que caminhava lentamente para o carro do professor Aizawa, que os daria carona, já não podia mais fazer nada.
Duas semanas inteiras foi o tempo em que sequer pôde retornar aos dormitórios da U.A.. Ao invés disso, passou os dias confinado no quarto em casa de castigo, sem celular ou computador, depois do que provavelmente havia sido uma das maiores broncas que Izuku escutou na vida. Sabia que merecia a punição, mas não conseguia tirar da cabeça a preocupação com Shoto em casa sozinho com o pai. Se ao menos pudesse ter tido algum contato com Uraraka e Iida quando eles vieram trazer a matéria perdida da escola, poderia ter checado o que tinha acontecido depois de sair da escola naquela noite...
Dessa forma, quando as férias de verão e, finalmente, a excursão de treinamento daquele ano chegaram, sentiu um aperto no estômago durante todo o caminho para a U.A. Shoto já estava entre os colegas, que se amontoavam no portão principal. Era difícil conter a vontade de correr para abraçá-lo, mas estavam em público e felizmente o segredo sobre o seu namoro ainda estava mantido, afinal. Izuku cerrou os punhos e se limitou a dar um aceno tímido de cabeça.
— Deku-kun! — A voz animada de Uraraka o tirou de seus pensamentos. — que bom que você pôde vir!
— Cara, sua mãe pegou pesado com você. — Dessa vez foi Kirishima que veio cumprimentá-lo. — Nem o Todoroki ficou duas semanas incomunicável.
— Não ficou? — Izuku perguntou de forma retórica, se sentindo bastante aliviado quando Shoto negou com a cabeça a alguns metros de distância, parecendo relaxado o bastante. Então olhou em volta. — E quanto a Yuga-kun?
— Eu fiquei em casa uma semana só! — O colega disse antes de abrir caminho entre alguns alunos da turma B para chegar na conversa. — Algo sobre não ser reincidente. Vocês estão na mira dos professores, inclusive. Me desculpem por isso.
Ao terminar a frase, Yuga apontou para o grupo docente conversando casualmente perto da porta do ônibus ligado. Izuku engoliu em seco quando Aizawa virou a cabeça em sua direção e apertou os olhos. Seria melhor que seguissem todas as regras nessa viagem ou seriam feitos em pedaços.
— Quem diria! — Ashido começou com um meio sorriso. — os melhores alunos da U.A. são mais delinquentes que os delinquentes agora. Assim não sobra nenhum posto para os reles mortais aqui!
Antes que qualquer um pudesse rir ou responder, porém, foram chamados para entrar no veículo que os levaria para o lugar surpresa ao qual foram prometidos. Ansiosos, os alunos embarcaram um a um em ordem aleatória e foram se distribuindo pelos lugares. A poltrona era um pouco desconfortável, mas Izuku deu de ombros e olhou para fora da janela até que sentiu o calor de uma presença ao lado e se virou para finalmente poder ver o rosto de seu namorado de perto. Os olhos ímpares o encaravam curiosos ao ponto de precisar desviar o rosto e morder um pouco o lábio para controlar o rubor das bochechas.
— Eu estava preocupado com você. — disse em um tom de voz mais baixo do que a conversa casual dos alunos dos bancos da frente, sem se atrever a levantar a cabeça. — Como foram essas duas semanas?
— Não tão ruins. — Ouvir a voz do rapaz fez o coração de Izuku disparar. — Na verdade ele não exatamente brigou comigo. Só não me deixou sair de casa nesse tempo.
— E-entendo…
Izuku franziu as sobrancelhas e pôs a mão na boca, estranhando a situação, mas resolveu não questionar, uma vez que tudo parecia ter corrido melhor do que o imaginado. Quando o ônibus começou a andar, os dois ficaram em silêncio. A velocidade com que as ruas e casas lá fora passavam ficava cada vez maior e Izuku suspirou ao considerar o quanto de contato humano ainda era considerado normal entre dois colegas de turma. Suspirou, por fim, e se ajeitou no banco, fazendo com que parte da sua coxa, joelho e toda a canela ficassem grudados na perna do outro, que se mexeu um pouco também para deixar o toque inesperado um pouco mais forte.
Sentindo que não conseguiria mais aguentar, tirou o celular do bolso e digitou ligeiro. Esperou o aparelho de Shoto vibrar para que ele lesse sua mensagem:
“Senti sua falta. Muito.”
Shoto levou as costas da mão à boca e Izuku mordeu o lábio para segurar um sorriso quando o viu digitar e apagar várias vezes alguma coisa. Era estranho o quanto um simples gesto podia fazê-lo tão feliz. Que bom que ele estava bem!
Enfim, o celular já apagado vibrou em sua mão, fazendo sua espinha arrepiar com a surpresa. Desbloqueou a tela em um instante leu uma frase mais sucinta do que o esperado:
“Eu também.”
Já incapaz de conter o sorriso, Izuku coçou o olho e esfregou um pouco a perna na do rapaz. Escondeu um pouco o celular da visão atenta do outro ao que escrevia, pois a vergonha fazia suas bochechas e orelhas queimarem. Antes de apertar o botão de enviar, deu uma última olhada, surpreso com o que tinha acabado de escrever:
“Queria te beijar agora.”
Shoto encarou a tela por um tempo mais longo do que antes, mas mesmo assim o outro não soube dizer o que ele estava pensando ou mesmo o que faria. A espera chegava ser dolorosa e a ideia de que ele realmente poderia fazer alguma coisa começou a lhe passar pela cabeça. Afundou o rosto nas mãos, sentindo o rubor que ia até a nuca. Queria poder se jogar nos braços dele até matar toda a saudade que havia sentido nos últimos dias, mas a presença dos colegas em volta se tornava cada vez mais evidente conforme sua imaginação ia para todos os lugares.
— Tudo bem aí? — A voz do professor Aizawa soou pouco preocupada, mas fez Izuku praticamente saltar da poltrona com um grito abafado.
— Ah! E-eu estou m-m-meio enjoado… — Mentiu ao esfregar o rosto para aliviar a queimação nas bochechas.
— Se precisar vomitar, tem sacola embaixo do banco.
— C-certo. — Izuku concordou com a cabeça antes de respirar fundo, tentando empurrar os pensamentos anteriores para algum canto afastado da mente. Era óbvio que não poderia fazer nada com Shoto até que estivessem sozinhos e, durante a viagem, isso seria muito difícil, principalmente com a forma que os professores os estavam observando de perto. Respirou fundo e continuou, tentando controlar o tom de voz. — Eu só preciso relaxar um pouco e já vai melhorar.
— Que seja. — Aizawa deu de ombros e continuou andando pelo corredor no que parecia ser uma checagem preguiçosa dos alunos.
Izuku suspirou, pronto para arranjar um assunto mais tranquilo com o garoto ao lado, quando captou, com o canto do olho, a imagem de Shoto levantando e tirando a bolsa do compartimento de cima. Então viu-o mexer em algumas coisas antes de fechar o zíper outra vez sem, aparentemente, colocar ou tirar nada do lugar. A confusão de Izuku só foi sanada quando percebeu que ao invés de guardar a bolsa, ele a colocou no colo um pouco no meio dos dois, e então buscou os dedos do namorado que rapidamente se entrelaçaram aos seus debaixo do disfarce.
Não era como se nunca tivessem feito isso, mas naquela situação e depois de tanto tempo sem se tocarem, seu coração se apertou em uma mistura de medo e felicidade. Segurou a mão de Shoto com mais força, sentindo os calos dos dedos compridos e frios. Era a resposta dele, afinal.
Conversaram em volume baixo sobre coisas mais diversas até que as horas foram passando e a paisagem da cidade desse lugar ao verde. Quando o ônibus fez uma grande curva para a direita, os alunos esticaram os pescoços, entre suspiros, na direção das janelas do outro lado. Izuku se levantou um pouco para admirar o oceano.
Não demorou muito até que o ônibus parasse na entrada de uma cidadezinha litorânea cuja real localização desconheciam. Todos desceram em sequência e se amontoaram perto de uma cerca coberta de plantas. O cheiro de maresia era trazido por uma brisa salgada. Foram então levados por uma estrada íngreme e estreita até o topo de um morro consideravelmente alto, de onde podiam ver, no final de uma praia deserta, um pequeno píer sem nenhuma embarcação ancorada. Izuku deixou escapar um suspiro pela beleza da vista.
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