A história de nós dois
11 O incidente do hospital
Notas iniciais
O característico cheiro de hospital fez Shoto franzir o rosto antes mesmo de registrar o lugar no qual estava. Durante os últimos dias, apenas lampejos de consciência lhe indicaram que havia passado por alguma cirurgia no tornozelo, agora imobilizado. Enquanto se punha sentado, tateou as próprias costas para encontrar uma pequena cicatriz onde a bala o havia perfurado e a súbita lembrança de Izuku estirado no chão sobre uma enorme poça de sangue fez seu peito doer de preocupação.
Assim que começou a levantar, foi impedido por uma enfermeira cuja expressão se iluminou ao vê-lo acordado no momento em que passou pela porta. Minutos depois, Recovery Girl, Kuroko e o professor Aizawa entraram no quarto e Shoto soube que os dois últimos haviam vindo pela investigação. Esticou um pouco o pescoço na direção da médica enquanto cerrava os punhos, ignorando quaisquer cumprimentos.
— Como ele está?
— Ele vai ficar bem. — Compreendendo do que se tratava, a senhora respondeu em um tom sóbrio, que de certa forma o tranquilizou. — Ainda está se recuperando. O maior problema foi a perda de sangue. Não é a maneira mais recomendada de fazer isso, mas se você não tivesse dificultado o sangramento, ele provavelmente estaria morto agora. Mesmo tendo sido um estrago relativamente grande, graças à minha individualidade conseguimos recuperar boa parte e o resto vai se curar sozinho. — Ela respirou fundo antes de continuar. — Eu nunca havia visto uma ferida como aquela...
— Esse é um dos pontos que precisamos conversar. — O professor Aizawa acrescentou. — Eu entendo que esteja preocupado agora, mas muitas coisas ainda precisam ser explicadas. Apesar dos ferimentos de ambos e dos claros resquícios de sua luta, nenhum sinal de vilão foi encontrado durante a inspeção policial na estação abandonada. Sendo assim, seus relatos são de extrema importância nesse momento.
Uma brisa noturna levantou uma parte da cortina através de uma fresta da janela enquanto o rapaz informou tudo o que se lembrava para os adultos, desde o desabamento do prédio até o primeiro encontro com o homem misterioso que fazia as coisas desaparecerem em bolhas. A menção do nome Head Hunter fez Kuroko levar a mão à boca com o semblante misturando surpresa e preocupação. Shoto contou sobre a forma como se precipitou na batalha, sentindo o amargor de ter posto a vida do colega em risco, e como conseguiu escapar carregando-o pela linha de trem.
Quando terminou, um silêncio se estendeu por alguns segundos.
— Eu percebi tarde demais que aquilo era uma armadilha — Kuroko disse com certo pesar. — Então o objetivo do vilão era mesmo pegar vocês. E pensar que ele quase conseguiu… Eu não tenho ideia de como Raindrop ficaria se algum dos nossos estagiários morresse.
— O objetivo dele era o Izuku. — Shoto admitiu, juntando as mãos entre as pernas. A ideia de alguém ter armado todo aquele lugar só para capturar o outro rapaz finalmente o atingiu. Não conseguiu conter o tom frustrado ao prosseguir — Eu estava lá por acaso...
— Eu entendo que você esteja se sentindo parcialmente responsável pelo que aconteceu lá em baixo. — Escutou a voz do professor sem levantar a cabeça. — Não é sempre que os heróis vencem batalhas ou realizam grandes atos. Existem situações em que é preciso saber como agir para contornar o perigo e minimizar as perdas. Faz parte do amadurecimento de vocês entender isso também, já que se tornarão profissionais em breve.
— Não importa por onde eu olhe, só o fato de vocês dois terem saído vivos de um encontro com esse homem já é um grande feito. — Kuroko ajeitou algumas flores do buquê de cima da mesa de cabeceira enquanto coçava a testa. — A existência dele é praticamente um mito no mundo inteiro e seu relato coloca essa investigação como uma das top prioridades do Japão.
— Disse que Head Hunter estava agindo sozinho, certo? — Aizawa continuou e Shoto confirmou com a cabeça. — Ainda assim não dá para descartar o envolvimento da liga dos vilões com o fato dele ter vindo para cá nesse momento. De qualquer forma, é perigoso manter os alunos frequentando os estágios até a situação ficar mais estável.
— Eu compreendo. — A mulher respondeu prontamente. — Por mais que a presença dos meninos esteja sendo de grande ajuda, o melhor lugar para eles agora é na U.A.. — Então ela se curvou com as mãos nos joelhos na direção do garoto sentado na cama. — Obrigada por tudo até aqui, Shoto-kun. Espero que voltemos a trabalhar juntos em breve, quando você for meu colega.
Desconcertado, Shoto repetiu o gesto da melhor maneira que pôde de onde estava e observou os adultos deixarem o quarto após os cumprimentos. Recostou-se no travesseiro fino enquanto recapitulava a cena que tinha acabado de acontecer. Suspirou. Por mais sensatas que tivessem sido as palavras do professor, ainda se sentia incomodado consigo mesmo.
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O calor do raio de sol iluminando-o da cintura para baixo acordou o rapaz das poucas horas de sono que conseguira ter. Aquele seria o dia de sua alta. Esticou os braços, avaliando que a bala permanentemente alojada em seu ombro não incomodava tanto quanto os médicos fizeram parecer quando lhe explicaram sobre isso no dia anterior.
Esperou paciente pela enfermeira, já acostumado com sua figura esguia de olheiras profundas. Desta vez, contudo, a mulher chegou com um sorriso sincero no rosto. Shoto imaginou que fosse pela notícia de que estaria liberado, antes dela começar a falar:
— Seu amigo acordou essa madrugada e já pode receber visita. Achei que fosse se animar ao saber, já que sempre pergunta…
Antes de ouvir o final da frase, Shoto escapuliu para fora do quarto, ignorando os chamados da enfermeira, que ficaram para trás conforme ele se apressava pelo corredor da melhor maneira que podia devido ao pé engessado. Chegou ao cômodo do outro no andar de cima, mas deteve-se antes de abrir a porta para respirar fundo. Seu coração subitamente parecendo mais pesado.
Encostado na cabeceira, a figura do rapaz escrevendo algo em um pedaço de papel enquanto falava baixinho consigo mesmo foi o bastante para alegrá-lo de uma forma inesperada. Estava planejando se desculpar pelos ferimentos e depois discutir sobre tudo o que aconteceu, mas o sorriso de Izuku ao notá-lo paralisou completamente seus pensamentos. Encararam-se por um instante antes que o outro fizesse sinal para que se sentasse na beirada da cama.
Durante um tempo, tudo o que se podia ouvir eram os pássaros do lado de fora.
— No fim das contas — Izuku quebrou o silêncio, fazendo com que o outro levantasse o rosto, curioso. — Não conseguimos levar o bolo para Eri no final de semana…
— Vai ter outras oportunidades. Assim que todo esse alarde passar, nós podemos comprar algo e levar para ela, o que acha?
Shoto percebeu que os olhos do outro se iluminaram conforme balançava a cabeça positivamente. Observando-o de perto, estava mais pálido e um pouco mais magro do que o de costume e os funcionários do hospital haviam cortado seu cabelo durante a internação, removendo os cachos de trás da orelha.
— Como está? — A pergunta do garoto o tirou de seus pensamentos. — Eu não lembro de muita coisa depois de ter sido atingido, mas ouvi dizer que levou dois tiros enquanto enfrentava o vilão.
— Não foi nada. — Shoto não conseguiu admitir que na verdade estava fugindo em vez de lutar contra o vilão. No lugar disso, preferiu perguntar aquilo que tinha vindo saber desde o princípio — E você, como está se sentindo?
— Normal, eu acho. — Izuku coçou a cabeça com um ar tímido. — Não é como se eu já não estivesse acostumado a me machucar em batalhas, mas segundo os médicos, eu tive bastante sorte em relação ao lugar do ferimento, porque poderia ter sido bem grave dessa vez... No final, eu vou acabar só ganhando mais uma cicatriz. Quer ver?
Inseguro, Shoto confirmou, fazendo com que o outro levantasse a camisa para exibir uma série de pontos feitos em pele repuxada, fechando o que antes havia sido um buraco. A lembrança súbita das pedras atrás do corpo ensanguentado de Izuku provocou-lhe uma espécie de tontura, obrigando-o a desviar o olhar e levar a mão à boca, ofegante.
Izuku imediatamente abaixou a roupa e inclinou-se na direção do colega, perguntando o que tinha acontecido enquanto tocava em seu braço. Shoto fechou os olhos com força, evitando as lágrimas que lhe vieram. Sentia o corpo tão quente quanto se estivesse em chamas.
— Achei que você fosse morrer — admitiu com um tom de voz mais agudo. — Eu estava com tanto medo… Quer dizer, deveria ser normal para nós passar por essas coisas, mas eu não sei porque não consigo parar de pensar nisso... E nem como me desculpar...
— Shoto-kun! — Izuku o interrompeu alto o suficiente para que se calasse com o susto. Aquela era a primeira vez que o via com uma expressão irritada, os olhos redondos semicerrados e a boca contraída. De certa forma era bonito. — O que acha que teria acontecido se eu estivesse sozinho naquele túnel com Head Hunter me perseguindo? Foi você que tirou a gente de lá, da melhor maneira que pôde e ainda por cima com o pé machucado. — Viu-o apoiar casualmente uma das mãos sobre a cama ao completar. — Você salvou minha vida. É meu herói.
Rugas se formaram em cima das bochechas de Izuku quando abriu um pequeno e sincero sorriso, fazendo com que a cabeça de Shoto ficasse completamente vazia de possíveis respostas para o que tinha acabado de ouvir. Ele era incrível. Era tudo o que conseguia dizer para si mesmo enquanto seu coração acelerava como se tentasse sair do peito. Incrível…
Antes ele próprio percebesse o que estava fazendo, lançou-se na direção do garoto à frente, segurou-o pelos ombros e pressionou os lábios nos dele por um instante que não conseguiu mensurar, até sua garganta começar a arder pela falta de respiração.
Encontrou grandes olhos assustados assim que se separaram, incapazes de formular alguma frase. Não muito tempo se passou, ouviram uma batida na porta e em um segundo a turma 3-A inteira preenchia o pequeno quarto. Escaneou cada rosto, com a sensação de os estar vendo desde outra dimensão.
— Que bom que Todoroki-kun chegou antes da nossa surpresa. — Escutou a voz da Ashido vinda de algum lugar no meio dos colegas.
— Eu já estou de saída.
Respondeu quase automaticamente e pulou para fora, dando-se conta de si apenas quando já estava em qualquer outro corredor aleatório do hospital. Encostou ofegante na parede azul-clara e levou a ponta dos dedos à boca, quase como se ainda pudesse sentir a presença do outro ali. Não fazia ideia do que havia acabado de acontecer.
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