A história de nós dois

9 Labirinto de túneis


Notas iniciais
Olar! Tavam ansiosos por esse capítulo? :B

Shoto abriu os olhos, atordoado, mas não conseguiu perceber onde estava. Sua perna parecia ter ficado presa embaixo de alguma coisa e a simples menção de mexê-la causava uma dor excruciante. A tosse seca de Izuku ao seu lado o fez lembrar-se de que tinham acabado de despencar desde um buraco e agora se encontravam sob toneladas de escombros de um edifício. Podiam ouvir ainda alguns rangidos, parecendo vir de lugares diferentes.

— O que aconteceu? — Ouviu a voz rouca ecoar várias vezes, ainda que baixa, rompendo o silêncio — Kuroko ia dizer alguma coisa e então nós caímos… E o prédio…

— Estamos em algum lugar abaixo daquelas fundações — respondeu sem conseguir enxergá-lo. Era difícil respirar e sua garganta parecia seca e dolorida. — Acho que quebrei o pé. Vamos ter que decidir entre achar uma saída ou esperar que venham nos buscar.

— S-sim. — Izuku respirou fundo antes de continuar com a voz falhada. — Não é seguro usar chamas aqui, pois pode haver alguma tubulação de gás estourada, e acredito que a minha individualidade também nos colocaria em perigo de vida. Mas eu gostaria de procurar primeiro algum lugar mais seguro, talvez.

— Tenho uma lanterna na mochila, acha que consegue alcançar?

Sentiu as mãos do outro tateando-o desde o braço até suas costas, ouviu o zíper da bolsa abrir e fechar, antes que uma luz se acendesse para cima. Demorou um tempo até seus olhos se acostumarem e conseguirem enxergar uma possível passagem por baixo de uma coluna diagonal de concreto, pela qual poderiam se agachar. Estavam machucados e sujos. Tudo parecia instável demais de modo que qualquer coisa retirada do lugar talvez colocasse em risco a segurança da câmara.

— Espera um pouco. — Izuku rasgou um pedaço da manga da sua roupa para amarrar um corte no braço do outro, cujo sangramento era notável, mesmo que ainda não estivesse doendo tanto devido à adrenalina. No entanto, Shoto não conseguiu conter o grito quando puxou a própria perna de baixo do pedaço de rocha que o colega levantou com facilidade. Enfaixaram e imobilizaram-no da melhor forma que puderam sem saber a extensão do ferimento. — Parece melhor assim, mas precisamos encontrar logo um jeito de subir ou isso vai ficar feio.

Não conseguia nem mesmo dizer a própria profundidade e o intrigava o fato de não terem sido completamente esmagados. Não havia dúvidas de que alguém estava por trás disso, só desconheciam ainda o porquê.

Finalizados os cuidados e mediante atestado de que ambos estavam bem o suficiente para prosseguir, se arrastaram por entre os caminhos que escolhiam, tomando o máximo de cuidado para não se cortarem com os vergalhões e pedras expostos ou remexerem demais os escombros ao pisarem. Encontraram algo que parecia ser um encanamento abandonado, grande o suficiente para caminharem por dentro. Era o lugar mais seguro naquela situação e também uma possível saída para o exterior, a qual valia a pena explorar.

Shoto apoiou-se nos ombros do outro para se estabilizar enquanto andavam. O percurso, porém, era confuso e os rapazes precisaram tomar algumas decisões em momentos nos quais os canos se dividiam. Quando perceberam que estavam passando pelo mesmo lugar uma terceira vez, Izuku começou a anotar no caderno que tirou de dentro do macacão, desenhando uma espécie de mapa com linhas simples.

— Nós já passamos por essa encruzilhada, eu acho, então devemos pegar o caminho da esquerda, se formos por aqui, assim que virmos os fios pendurados. — Viu-o coçar a cabeça e olhar em volta. O cansaço já era visível em seus rostos. Havia perdido a noção do tempo em que estiveram andando. — Já era para termos encontrado alguma coisa diferente nesse ponto. O que são esses canos, afinal?

— Não sei — respondeu, seguindo a rota sugerida pelo outro — mas deve haver alguma entrada de ar, se não nós já teríamos sufocado.

— Tem razão. — Izuku encarou o próprio mapa. — Nós passamos por um túnel com um pouco de vento uma vez. Acredito que consigo nos levar até lá de novo, mas não lembro de termos achado uma saída que não retornasse para algum lugar conhecido. Os únicos caminhos que de certeza de não termos escolhido são esse e o daquela coisa verde no chão, que prefiro me manter longe. O que acha de irmos por aqui primeiro e depois procurarmos perto de onde vem o vento por alguma possível passagem que a gente tenha perdido?

Shoto concordou com um aceno simples e o acompanhou mancando. O cheiro do suor do outro rapaz era a única coisa em que conseguia se concentrar no momento e, por algum motivo, se sentia bem inseguro sobre o toque em suas costelas, pela forma como estava sendo carregado.

Foram levados à outra bifurcação e escolheram aleatoriamente um lado. Iluminou uma grade de metal bloqueando a passagem à frente para o que parecia ser um encanamento vertical para baixo. Tomaram a decisão de voltar e tentar chegar lá pelo outro caminho. Shoto observava o rapaz anotar a nova posição quando um assobio distante quebrou o silêncio.

Levantaram a cabeça, em alerta, incapazes de identificar a procedência do som.

Tendo cuidado para não serem ouvidos, voltaram devagar até a última encruzilhada onde os túneis já estavam mapeados, para não serem encurralados caso fossem pegos de surpresa. Os rapazes encostaram na parede curva e iluminaram os possíveis caminhos pelos quais alguém poderia aparecer. Por um instante, tudo o que se podia ouvir eram suas respirações na escuridão, antes que novamente as três notas estendidas ecoassem sonoras por todo o local. Dessa vez, contudo, perceberam de onde vinha.

— Quem quer que esteja com a gente aqui embaixo, com certeza tem total controle da situação no momento. — Izuku sussurrou próximo ao seu ouvido, enquanto Shoto apontava a lanterna. — Precisamos encontrar uma forma de resolver isso e sair daqui.

— Eu diria que o melhor a fazer é encará-lo. — Shoto levantou a perna dolorida do chão. Sabia não estar propondo algo simples, mas a ideia de fugir sem rumo na escuridão quando claramente algum vilão os tinha na mira não lhe parecia adequada. — Ele chegou aqui de alguma forma. Se formos na direção do assobio, podemos encontrá-lo e imobilizá-lo para fazê-lo nos levar à saída.

Não precisou de muita reflexão para que o outro aceitasse seu plano. Seguiram pelo caminho de onde o barulho mais uma vez se repetia com volume cada vez maior, até um túnel mais amplo, conhecido por terminar em uma parede de concreto sem ter mais nenhuma saída além do lugar pelo qual vieram. Izuku parou. Indistinguível pela distância, avistaram uma figura encarando-os. Se prepararam para batalha quando ele deu dois passos à frente, ficando ao alcance da lanterna. Era um homem bem alto de cabelos grisalhos e fisionomia de estrangeiro, usando algo que parecia ser um óculos de visão noturna.

— Que surpresa! — O sotaque carregado marcava uma voz rouca, tão macabra quanto o sorriso em seu rosto. — Estava esperando apenas um, mas acabei sendo premiado com dois. O menino do All Might e também o menino do Endeavor, o quão sortudo se pode sonhar em ser?

— Head hunter. — Izuku tinha uma expressão pálida. O silêncio confuso do colega o fez continuar — O assassino russo que coleciona cabeças de heróis, dono de um dos maiores mercados de tráfico de pessoas da Ásia. Sua existência é considerada uma lenda...

— Alguém fez o dever de casa — O homem bateu palmas enquanto falava, depois ajeitou a gola da camisa. — Eu estava dando uma volta pelo Japão e escutei que o grande símbolo da paz teria um sucessor! Normalmente eu não empalho adolescentes, mas sabe quando você não consegue tirar os pensamentos de algo? Parece que eu também sei fazer o dever de casa.

— Você armou tudo isso para nos prender nesse lugar?! — Shoto gritou de volta, compreendendo o que aquelas palavras significavam. — Toda essa história dos buracos era uma armadilha para nos atrair até aqui?

— Não você. — Viu o sorriso no rosto do homem se desfazer por um curto período de tempo, antes dele apontar na direção do rapaz ao lado. — Tem noção do quanto a cabeça dele vale no mercado? Só de pensar em tê-la na minha sala de visitas... já me deixa tão animado! Mas não me leve a mal, é maravilhoso você estar aqui também. Talvez eu consiga um bom dinheiro se te vender ainda vivo hehehe.

— Eu não posso deixar isso acontecer! — Izuku se meteu entre os dois com os braços abertos em um gesto que surpreendeu e, de certa maneira, incomodou o outro herói. — nós vamos capturar você e sair desse lugar!

— Tem certeza?

A mão que ainda estava estendida em sua direção se fechou em um punho. Imediatamente, parte do teto foi envolvida por uma bolha alaranjada pouco antes de desaparecer, fazendo com que pedaços grandes de concreto e rochas despencassem em sua direção. Izuku puxou-o rapidamente, apenas para que outras partes do local começassem a se desfazer, tornando quase impossível a tarefa de se desviarem de escombros e bolhas que surgiam entre eles. As paredes tremiam instáveis.

Shoto usou o gelo para equilibrá-los quando o chão cedeu sob seus pés. Era a única individualidade que parecia segura para aquela situação. Virou-se no intuito de atacá-lo, lançando uma coluna de gelo, que foi desfeita pouco antes de atingir o vilão. Tentou uma segunda vez e então uma terceira. As bolhas estavam ficando cada vez menores, e o rapaz percebeu que era devido a uma necessidade de tempo para criá-las, por isso decidiu chegar mais perto e imobilizá-lo completamente antes que pudesse reagir.

Mesmo com o tornozelo quebrado, se jogou para frente e correu na direção do homem, ignorando o chamado preocupado de Izuku para que saíssem dali. Aquela era a oportunidade de provar para si mesmo que podia estar no mesmo patamar que o colega e resolver a situação, ainda que só com um lado de seu corpo.

Definitivamente ele não iria perder.

Jogou o corpo para o lado e segurou uma parte do teto com gelo, apoiando-se sobre uma das mãos para continuar avançando. Uma fumaça branca saia de sua respiração quando criou estalactites que circularam toda a extensão do túnel para se fecharem diagonalmente e capturá-lo. Mais alguns centímetros para frente e estaria acabado...

Um gemido agudo veio de trás, seguido por um grito.

Como se estivesse vendo as coisas em câmera lenta, assim que o golpe atingiu o vilão, Shoto se virou no mesmo instante em que a lanterna caia no chão. Tudo o que conseguiu enxergar foi Izuku com uma das mãos na barriga, se contorcendo no esforço de levantar.

Notas finais
Olar! Tão ansiosos pelo próximo capítulo? Comenta aí que eu posto o próximo.