A história de nós dois
10 A estação abandonada
Notas iniciais
A parede de gelo que se formara logo atrás não iria durar muito tempo. Shoto ouvia o som da própria respiração acelerada enquanto buscava a lanterna pela bagunça do que tinha sido a luta que parara tão subitamente quanto seu começo. As tosses entre gemidos do colega deitado de lado em cima de escombros o estavam preocupando. Com a luz agora nas mãos, agachou-se e virou-o de barriga para cima no intuito de examinar o estrago.
A primeira coisa que notou foi a quantidade de sangue que se espalhava pelo chão, ensopando o macacão verde, que o rapaz retirou o mais rápido que pôde, a fim de exibir a ferida. Shoto levou a mão à boca. Através de uma abertura de mais ou menos quinze centímetros, podia enxergar as pedras do outro lado do corpo de Izuku.
— Shoto-k... — Ouviu-o tossir seu nome entre o sangue que saia da boca. — Está muito ruim?
— Não — mentiu sem entender o motivo. — Vai ficar tudo bem. Nós vamos sair daqui.
Era o que ele precisava, tirar Izuku dali o mais rápido possível, mas antes de tudo era necessário estancar aquele ferimento. Não sabia o que fazer. Estava tremendo quando apontou a lanterna para trás, checando a barreira onde o vilão estava preso. Já não importava mais capturá-lo se eles não sobrevivessem.
Subitamente uma ideia lhe passou pela cabeça. Pôs a mão direita sobre o torso do outro, preenchendo todo o buraco com gelo e, em resposta, ouviu um grito rouco ecoar pelo local, antes que ele começasse a se contorcer de uma maneira que forçou Shoto a segurá-lo com certa força até que se acalmasse.
Teria que carregá-lo daquele momento em diante. Como se fosse uma criança, pegou-o com as pernas lhe envolvendo o quadril de um modo que poderia manter a mão gelada sobre a ferida nas costas e segurar a lanterna com a outra. Izuku apoiou a cabeça em seu ombro em uma espécie de abraço para se equilibrar. Desta forma, mancou por caminhos que mais ou menos se lembrava de ter percorrido, procurando o túnel com vento sobre o qual haviam conversado mais cedo.
Repetiu para si mesmo em voz alta que ia ficaria tudo bem durante todo o percurso, mesmo com os espasmos e a tosse esporádica em seus ouvidos. Havia esquecido que direção tomar à frente e não podia dizer se as batidas aceleradas de coração eram suas ou do rapaz em seu colo. Soltou-o por um segundo para pegar o caderno e escutou uma reclamação de dor que parecia ser mais reflexo do que consciente. Demorou um tempo para que conseguisse parar de tremer para ver o mapa.
— Depois dos fios… — Izuku murmurou numa voz arrastada. — Depois dos fios… Para direita. Em frente na encruzilhada… Vai ficar… tudo bem…
— Sim. — Shoto ouviu-o tossir enquanto apertava a mão em suas costas, aumentando a quantidade de gelo.
A melodia assobiada retornou baixinha, fazendo seu estômago se contorcer por um segundo.
Lágrimas embaçaram sua visão e ele as limpou com as costas do braço. Estava irritado e extremamente frustrado consigo mesmo pela incapacidade de se manter calmo e pensar direito naquela hora. O cansaço e a dor no tornozelo o impediam de ser tão rápido quanto necessitava. Acima de tudo, sentia-se culpado pelo que acontecera com o colega.
Olhou para os próprios pés por um segundo enquanto andava. Estavam deixando uma clara trilha de sangue. Suspirou. Bloquear o caminho com gelo não surtiria efeito nenhum, considerando a individualidade do oponente, não havia meios de se esconderem e nesse ritmo seriam alcançados em questão de minutos se não encontrassem uma saída.
A brisa soprava desde um lugar ainda não mapeado e Shoto seguiu-a até outro caminho fechado por grade, através da qual podia visualizar uma abertura no chão que parecia levar a outro túnel vertical, cujo destino desconhecia. Segurou o metal enferrujado, tentando forçar as barras sem sucesso. A reclamação de Izuku em forma de gemido precedeu um engasgo que o fez inclinar o corpo para o lado e cuspir bastante sangue.
— Vou precisar de ajuda com a grade. — Shoto comentou, assim que Izuku se recompôs, tendo ciência do absurdo pelo qual estava pedindo. — Acha que consegue quebrá-la sem desabar tudo?
— Eu vou tentar.
A resposta veio em um tom de voz obstinado apesar de tudo. Posicionou-se de costas para o alvo do colega, que concentrou energia no braço enquanto fechava o punho do lado do corpo. Segurou-o com um pouco mais de força quando o barulho do metal ricocheteando pelas paredes se somou ao berro de dor em seus ouvidos. Quando abriu os olhos e encontrou a passagem liberada, sentiu um certo alívio.
A luz da lanterna começou a fraquejar quando apontada para baixo, na direção do cano desde o qual a circulação de ar parecia vir. Considerou por um segundo se realmente deveria se lançar mais para baixo da terra, mas conforme a música ia ficando mais próxima e o labirinto no qual passaram as últimas horas parecia não ter fim, percebeu que era a melhor alternativa se quisesse ao menos encontrar um lugar seguro.
Escorregou de pé pela espiral de gelo que ele próprio construía pelas paredes cilíndricas. A descida durou mais tempo do que o previsto. Ao alcançar o chão, olhou em volta. Estavam em cima de trilhos abandonados que se prolongavam para ambos os lados até onde se enxergavam, indicando que aquela era uma linha férrea desativada, o que provavelmente queria dizer que eles encontrariam uma estação caso seguissem em um dos possíveis sentidos.
Já não mais pareciam estar sendo seguidos. Colocou Izuku em cima da plataforma de concreto, ao lado de umas portas amarelas, sobre as quais placas anunciavam levar a salas de manutenção. De algum lugar, podia-se ouvir uma torneira pingando. O gelo na ferida do colega havia ficado completamente vermelho vivo, relembrando-o de que o tempo que tinha para sair dali era curto.
— F-Frio. — Izuku reclamou assim que voltou para o colo do outro. — Está frio. — Shoto apertou os olhos, incapaz de elaborar algo para confortá-lo, então o rapaz continuou em murmúrios. — Shoto-kun… Ele v-vai… nós dois… Você…
— Izuku — interrompeu-o, se pondo a caminhar outra vez em direção à estação que agora estava próxima. — Não diga nada agora. Você precisa guardar energia.
— Meu nome… Eu… — Shoto sentiu o abraço ficar mais forte com as mãos do garoto segurando sua roupa.
— Só mais um pouco. — pediu tentando manter a voz estável. — Nós já estamos na estação.
A amplitude vazia e escura do local abandonado era preenchida apenas com o barulho do vento que levantava seu cabelo. Encontrou uma escada rolante parada para onde uma placa recomendava como saída e começou a subir vagarosamente usando apenas um dos pés para fazer força. Aquele parecia ser um antigo ramal com várias conexões e Shoto teve que percorrer uma grande e consideravelmente confusa distância até a próxima subida. Depois de todo aquele tempo, era a primeira vez que sentia estar fazendo algum progresso.
No final do terceiro lance, apontou a lanterna para outra grande câmara, vasculhou pelas aberturas para plataformas e avistou uma linha de catracas. Ajeitou o rapaz em seu colo, que não pareceu protestar dessa vez. As indicações de saída o levaram a uma porta grande trancada pelo outro lado. Afastou-se na intenção de derrubá-la, mas foi interrompido pelo barulho seco de dois disparos. Engoliu. A ardência imediata indicava que havia levado um tiro no braço e outro na região lombar.
Virou-se para trás enquanto caia de joelhos, fazendo com que Izuku escorregasse para o lado e terminasse imóvel no chão. A atenção de Shoto, porém, se fixou no homem que o mirava com uma pistola na mão enquanto assoviava as mesmas três notas que o perseguiram durante todo o caminho de túneis.
— Eu mudei de ideia. — Ouviu-o dizer em uma voz ríspida, mas que ao mesmo tempo parecia se divertir. — Decidi colocar a cabeça dos dois na minha sala como recompensa pelo seu esforço, o que acha? Sabe, eu poderia ter feito alguma coisa há um boooom tempo, mas decidi ficar te observando se arrastar. É bastante impressionante você ter chegado até aqui em cima, na verdade. Como esperado de um herói classe A, os futuros melhores.
Shoto manteve-se imóvel enquanto o outro coçava o nariz com o cano da pistola. O calor em suas costas lhe dizia que o sangramento aumentava a cada segundo.
— Mas tem uma coisa faltando, sabe o que é? — Ele continuou em um tom sarcástico. — Os heróis salvam as pessoas indefesas. Só que parece que a sua pessoa indefesa morreu.
A atenção do rapaz se voltou para Izuku. Ele não tinha se mexido desde que despencara de seu colo e nem mesmo estava respirando mais. Shoto sentiu o coração na garganta, já há um tempo as reclamações de dor pararam, como ele não havia percebido? Fechou os olhos por um instante, sua cabeça latejando conforme os sentidos pareciam embaçados e o ar em seu entorno esquentava.
Levantou o braço esquerdo na direção do vilão e não se importou com o lugar onde estavam, quando uma enorme labareda se formou em seu entorno. Não teve tempo de reparar se o havia atingido. Pegou Izuku entre os braços e chutou a porta de metal com força suficiente para abri-la, aguentando a dor que seguiu os estalos na sua perna. Mancou por todo o corredor, o qual enchia de fogo ao passar.
No final de outra escada rolante parada, havia uma porta antecedida por grade. Podia ouvir conversas do outro lado quando se encostou ofegante. Usou as chamas para derreter as últimas barreiras que o separavam de uma parte da estação que ainda funcionava e se deixou cair em meio a olhares atordoados. Queria gritar por ajuda, mas as palavras não lhe saíam da boca.
A próxima coisa que ouviu foi a sirene de uma ambulância distante.
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