A história de Arthur
3 O cobertor entre os braços
– Temos esses dois modelos, senhora.
Uma voz vinda do corredor anterior me faz virar o rosto. Philipe Grey também ergue a cabeça alarmado. Tendo noção da loucura que estava preste a fazer, tiro, com cuidado, a perna presa na escada.
– Deixe-me ajudar. – Pede Philipe frustrado, mas cauteloso.
– Não precisa, Sr. Grey, eu estou bem. – Digo já com os dois pés bem apoiados sobre o chão.
Philipe Grey olha atento para mim, seus olhos procurando algo nos meus. Não digo nada. Assim como ele, olho-o intensamente. Não há como tentar esconder mais, eu sei com exata certeza, agora.
Espero por um tempo a sua reação, alguma pergunta ou algum pedido, mas nada vem. Ele olha para o assento em minha mão.
– Este está bom, Sr. Grey? – Pergunto por fim com um sorriso, mas não consigo disfarçar a irritabilidade na minha voz.
A minha vontade era dizer-lhe o que eu pensava dessa farsa, de falar Sim, o senhor é gay. Porém me segurei, e ao chamá-lo pelo último nome esperei ouvi-lo dizer, novamente, para chamá-lo de Philipe. Mas desta vez eu não estava em seus braços e haviam pessoas no outro corredor. Ele compreende a minha escolha e quando responde “sim, este é perfeito” sinto uma sensação de alivio na sua voz, apesar de seus olhos demonstrarem tristeza. Compreendo que ele também não fica contente com a situação, mas a culpa é toda sua. Ele prefere omitir sua sexualidade em vez de ser o que é.
– Me acompanhe, por favor. – Digo asperamente, voltando ao balcão.
No corredor anterior vejo uma mulher com duas espátulas para a aplicação de massa. Ela escolhe um dos objetos e parece em dúvida. Ao lado dela reconheço Paul Clayton revirando os olhos.
– Paul! – Grito não tão alto.
Quando me vê sua expressão muda de tédio para felicidade.
– Só um momento, senhora. – Diz deixando a mulher com seu dilema das espátulas e vem até mim.
Agarro-me ao seu pescoço em um abraço bem apertado. É bom ver alguém normal, um gay assumido.
Paul acha estranho essa minha reação.
– É saudade. – Explico omitindo a causa exata daquela reação, mas fico feliz ao ver que ele gosta de saber que eu senti sua falta.
Paul é irmão do Sr. Clayton e fotógrafo. Trabalha numa agência de publicidade fotografando modelos para catálogos de moda. Às vezes no seu tempo livre vem visitar o irmão e acabamos passando um bom tempo juntos, tanto na loja como quando saímos com outros amigos.
– A Sra. Clayton me falou que tu estavas no Brasil, não imaginei te ver esse fim-de-semana.
– É verdade, lindo – fala Paul com seu jeito bem gay. É tão bom vê-lo. – Trabalho, sabe, foi bem rápido. Uma estilista se inspirou no trabalho de um artista plástico de Recife... Conheces?
– Não. – Respondo tentando me lembrar o pouco do Brasil que conheço.
– Então – continua ele. – Fomos lá, no atelier desse tal artista, Ar. Um lugar de outro mundo, bem exótico, com esculturas...
A senhora das espátulas se decidi e começa a olhar para nós. Então percebo que o Sr. Grey também está ali, atrás de mim.
– Que legal, Paul – Interrompo-o. – Mas acho melhor agente conversar depois. – Com um gesto indico a mulher.
– Esqueci dela – diz ele chateado. – Então que tal agente se vê mais tarde, à noite?
– Hoje não dá. Tenho um encontro exclusivo com minha cama.
– Entendi – Paul rir.
– Mas posso amanhã.
– Está marcado. – Paul dá dois beijos em cada bochecha minha, revira os olhos, suspira exageradamente e volta a atender a cliente.
Sorriu vendo-o ir. Volto-me para o Sr. Grey. Este me olha intensamente, ainda com aquela tristeza, mas também percebo algo como raiva.
– Desculpe pela interrupção – digo. – Podemos ir agora.
– Que bom. – Seu tom é seco e duro. Viro-me e continuo o caminho. Chegando ao balcão confiro o valor do produto, e ao dizer-lhe noto que parece estar exausto. Ele paga. Entrego-o a nota fiscal e o produto em uma sacola.
– Obrigado. – Digo. Mas sua única resposta é um sorriso que não parecia demonstrar nada, nem uma falsa felicidade, nem verdadeira. Apenas um sorriso.
Ele vai embora. Vejo-o sair, a porta fechar atrás de si sem olhar para trás.
***
– Ele foi lá! – A reação de Kate é o que eu esperava. Surpresa pergunta, – O que Philipe Grey iria fazer na Clayton’s?
Não respondo, olho-a sem piscar esperando que ela mesma lhe dê a resposta. Estamos na sala, depois de termos jantando, sentamos no sofá. A noite está fria, me encolho no cantinho apertando um cobertor.
– Não, Arthur, ele não é gay – responde Kate – eu ouvi a entrevista.
– Ele mentiu. Eu sabia pelos seus modos, seu olhar que ele era gay sim. Disse que venho à Portland conferir umas pesquisas da WSU que financia. Mas é outra mentira sua.
– Não sei – Kate não acredita em mim. – Ele realmente ajuda a custear pesquisa...
Interrompo-a. Começo a narrar tudo que aconteceu naquela tarde. Seu jeito de falar comigo, a escada, o quase beijo. Falo da reação dele ao ouvir a voz de Paul no outro corredor e de como ficou alarmado ao perceber que alguém poderia nos ver. Descrevo o olhar que lançou para mim depois que Paul voltou para sua cliente. E ainda falo da frieza com a qual saiu da loja.
– Claro – Tenta explicar Kate. – Além de perder a oportunidade de te beijar, ainda vê outro cara te convidando para sair.
– Se o que ele queria era me convidar para sair, deveria ter sido mais rápido.
– Talvez seja tímido. Acontece de pessoas bem sucedidas nos negócios, serem um fracasso no amor. Mas isso não impede que tu faças um convite.
– Não! – Respondo como se a sua idéia fosse algo surreal.
– Por que não, Arthur? Se ele venho à cidade só para te ver é obvio que está a fim de ti. A timidez dele não te impossibilita de tomar a iniciativa.
Olho bem nos olhos de Kate.
– O problema de Philipe Grey não é timidez. Ele não é gay – ao dizer essa última palavra, faço o gesto de aspas com os dedos. – Ele não quer ser gay. Ou seja, ele não se assume, não quer sair do armário.
– Como tu podes ter tanta certeza disso? – Pergunta ela achando que eu estou fazendo uma idéia pré-concebida de Philipe Grey.
– Como??? Primeiro ele diz que não é gay, depois vem até onde eu trabalho... Certo... Tem as pesquisas da WSU, que eu ainda acho ser só uma desculpa. Mas não há explicação para o fato dele tentar me beijar, a não ser que ele é gay.
Termino de falar. Espero Kate dizer algo, mas ela fica calada, pensativa.
– Tá. – Diz depois de um tempo. – Ele é inrrustido. Mas isso não impede que tu tentes algo. Afinal de contas, ele está interessado.
– Nunca – falo determinado. — Eu não suporto inrrustidos. Gays que não se assumem são, para mim, piores que homofóbicos. Matam a si próprios todos os dias.
– Não sejas tão mal assim, Arthur – repreende-me Kate. – Só existem inrrustidos porque existem homofóbicos.
Sua filosofia me deixa surpreso. Mas uma vez o silêncio paira sobre nós. Começo a refletir. Penso que talvez ela esteja certa, mas... Philipe Grey é um homem independente, dono de sua própria empresa. Quem poderia lhe impedir de ser o que quer ser.
– Talvez ele tenha medo. – Continua Kate.
Deixou os meus pensamentos e volta a atenção para ela.
– Medo todo mundo tem, Kate. Eu mesmo tive medo quando resolvi dizer “Eu sou gay”, mas vi outros lutarem para serem o que queriam ser. Vi amigos meus deixarem o medo de lado e se assumirem. O medo não é desculpa para não agir.
– Estar sozinho é. – Ela me olha com uma expressão séria no rosto. Não compreendo o que diz. Percebendo minha dúvida, continua: – Eu penso que, diferente de ti, Philipe Grey não tenha tido a influencia de pessoas que eram como ele e que resolveram se assumir. É possível que ele não tenha amigos gays.
– Todo mundo conhece alguém que é gay, Kate, seja um vizinho, um primo...
– Mas não estou falando em conhecer, me refiro a ter a presença de alguém... Alguém que passou pelas mesmas coisas que ele pode passar, alguém que não irá discriminá-lo, que não dirá um “Hãm” com indiferença quando ele disser “Eu sou gay”, alguém que o ajude a superar o medo.
Ela para de falar. Mais uma vez me vejo pensando nas suas palavras.
Penso no Sr. Grey e nos seus modos naquela tarde. A aparente alegria logo ao chegar à loja “Essa é uma pergunta que eu não posso responder Sr. Steele.”; O desanimo ao ouvir minhas palavras frias, a raiva/tristeza (não sei como julgar) com a qual deixou a Clayton’s. Começo a me perguntar se fui muito rude com ele. Sinto-me mal. Aperto-me ainda mais ao cobertor.
– Então, Arthur... – Diz Kate.
Olho-a.
– Tu poderias ser esse alguém.
– Não. – Respondo no automático. Minha voz, no entanto, está suave, leve. – Não vou sair com Philipe Grey. Já falei – ergo-me do sofá. – E agora vou dormir que o dia hoje foi um sábado de trabalho com tudo que se tem direito. Boa noite – digo beijando o seu rosto.
– Boa, migs. E pensa nisso tudo. Philipe Grey não é o tipo de homem que se pode encontrar em outra entrevista.
– Não, eu não vou pensar – minto – já decidi.
Eu menti. Estou pensando nele. Vou pensar nele a noite toda. Não só pelo o que Kate falou, mas também pelo próprio Sr. Grey, alguns de seus modos hoje, algumas reações foram estranhas.
Vou para o quarto com ele em minha cabeça e o cobertor entre os braços.
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