— Bom dia, Arthur.
Respondo um “bom dia” quase imperceptível e sorriu para Kate concentrada em algo no seu computador. A cozinha está com um cheiro de café fresco. Alegro-me instantaneamente.
— Arthur. – Chama-me.
— Oi.
— Terminei a matéria com a entrevista de Philipe Grey.
— Que bom. – Digo saindo da cozinha com uma xícara de café e me sentando ao lado dela no sofá. Seu olhar ainda atento ao computador. – Mas pensei que já tinhas terminado bem antes.
— Sim, terminei a alguns dias. Mas estou te falando porque queria enviá-la para o Sr. Grey. Ou talvez o link da página do site do jornal para ele dá uma olhada. – Diz ela.
— Envia... Ele vai adorar se ver entrevistado. Vai aumentar seu ego.
Kate rir. Depois de um curto silêncio ela volta a falar.
— Eu estive pensando que tu poderias fazer isso. – Ela olha para mim como um animal encurralado esperando a qualquer momento um ataque de seu predador.
Não digo nada, apenas balanço a cabeça negativamente antes de tomar um gole de café.
— Vai, migs... Eu sei que, no mínimo, ele mexeu um pouco contigo.
— Não. – Digo secamente me erguendo. Volto à cozinha.
— Tá bom, não queres chamar ele para sair... Não chama. Apesar d’eu achar que tu deverias dá uma chance a ele. – Sorriu com as coisas que Kate diz. – Mas envia, por favor. É melhor que sejas tu, já que ele te conheces e que foste tu a entrevistá-lo.
— Eu não o conheço, Kate.
— Vou enviar para o teu e-mail, é só tu reenviar. Vou mandar o e-mail dele também. Ok?
— Não, nada ok. – Digo passando pela sala, voltando para o quarto.
— Envia, ARTHUR. – Grita Kate enquanto fecho a porta.


Depois de anexar o arquivo com a entrevista do Sr. Grey e deixar um recado curto e imparcial, digito o e-mail que Kate me deu. Apesar de estar indeciso e não saber se irei mesmo enviar aquela mensagem, meus dedos só se afastam do teclado assim que digitam o “com”.
Olho e penso se faço ou não, enviou ou não. O e-mail é o da empresa, provavelmente será a secretária que verá. O Sr. Grey não saberá que eu lhe enviei um e-mail. Não sei se fico feliz ou triste por isso. Clico no botão “enviar” e me jogo na cama olhando o teto. Agora foi, já enviei, digo pra mim mesmo que tanto faz se for ele ou sua secretária que irá ver, mas a minha indiferença não é tão verdadeira assim. E se for a secretária dele que verá, os argumentos de Kate para ser eu a pessoa a enviar não têm mais razão.
— Kate! – Ergo-me com o proposito de implicar com ela, apesar de não fazer mais sentindo: Meu e-mail já foi enviado.


— O que tu queres beber? – Pergunta-me Paul assim que chegamos ao balcão do bar. Olho para o barman e depois para Paul.
— O mesmo que tu. – Digo e volto a olhar para o barman. De uma beleza trigueira e rosto quadrado, seus olhos são o que desperta a minha atenção e me faz observa-los. São escuros, bem pretos e de uma intensidade forte. Percebo isso quando ele se vira para mim. Sem graça, fujo o meu olhar do seu e foco nas pessoas dançando. Ele deve estar acostumado a ser observado, bonito como é... Isso é inevitável. Mas eu não me sinto bem em paquerar outros caras quando estou acompanhado.
— Arthur. – Chama-me Paul.
— Oi. – Viro-me e vejo que o garçom saiu para pegar as nossas bebidas.
— Senta aqui – Diz ele indicando um dos bancos que circundavam o balcão. – Então como eu vinha dizendo, volto à Seattle amanhã. Foi apenas uma folga depois do trabalho que tivemos no Brasil.
O barman volta com nossas bebidas. Com o copo encostando nos lábios dou um risinho pra Paul observando seu rosto bronzeado.
— Tá... Eu confesso, deu pra se divertir um pouquinho, Mas, Ar... São muito cansativas essas viagens: ir para um outro pais, passar pouquíssimo tempo e ainda mais trabalhando... – Paul torce a boca no seu gesto característico de reprovação.
— Hum – Lambo os beiços sentindo o gosto do álcool. – Mas imagino que tenhas tido tempo suficiente para ver um corpo sarado correndo na areia.
Paul solta uma gargalhada e dá um gole na sua bebida.
— E como, Ar. Mentalmente eu suplicava para que a sunga curta estivesse na moda por lá... Infelizmente não fui atendido, os homens preferiam bermudas de banho. Mas os poucos que apareceram passaram no teste PAUL DE PERFEIÇÃO. Músculos bem trabalhados são coisas agradáveis de se ver. Não?
Sorriu, balançando a cabeça afirmativamente. Termino a bebida e peço outra demorando o olhar nos olhos do barman.
— E tu? – Pergunta-me Paul terminando a sua bebida e fazendo um gesto para que lhe tragam outra. – Novidades
Balanço a cabeça negativamente pensando em alguma coisa. Não tinha ocorrido nada de interessante nestes dias, não tinha conhecido ninguém, só... Viro-me para o barman fazendo seu trabalho com as bebidas. Seus olhos... Seus olhos são como os de Philipe Grey. Não! O olhar é que é parecido. A intensidade nos olhos, estes são pretos, os de Grey cinza, ambos intensos.
— Ar! – Chama Paul.
— Não, nenhuma novidade. – Digo tranquilamente me voltando a ele.
Paul cerra o olhar e me encara. As nossas bebidas chegam.
— Tu não está a fim, está? – Pergunta ainda me encarando e fazendo um leve sinal na direção do barman.
Pego a bebida. Saboreio o liquido forte antes de responder.
— Não, claro que não. – Riu da expressão de desconfiança de Paul. Ele é bom em descobrir os verdadeiros sentimentos de uma pessoa quando esta tenta esconder. Mas o que ele não pode imaginar é quem realmente está na minha cabeça. Fico tranquilo.
— Estou de olho. – Diz ele pegando seu copo – Então? Nenhuma novidade? Nenhum boy novo?
— Não, ninguém. – Digo firmemente.
— Que bom.
Faço cara de ofendido, o copo dançando em minhas mãos.
— Então tu ficas feliz com minha solidão. – Sorriu.
— Claro. – Ele se aproxima de mim. – Porque assim posso dizer que te quero, esta noite, na minha cama.
Seu olhar foca no meu. Ele sorri. Sinto o carinho e o desejo que este sorriso me faz recordar. Meu corpo esquenta, mas penso em Grey, o olhar dele a pouco despertado na minha cabeça. Fecho os olhos. Ponho o copo no balcão.
— O que foi? – Pergunta Paul surpreso.
— Nada! – Me volto para ele tentando corrigir o erro. Tentei negar Grey da minha cabeça, não o convite de Paul. Olho para ele e me lembro de Philipe, daquele corpo apertado pelo terno no dia da entrevista e que ainda me persegue. Aproximo-me ainda mais de Paul. – Estarei na tua cama, mas antes – pego o copo e o esvazio – vamos dançar.
Paul sorri. Levanto-me e puxo-o na direção da pista de dança. Faço seus braços agarrarem minha cintura e espero senti-los apertando-me enquanto caminhamos.


— Não me lembro dessa mesinha. – Digo tentando desviar da peça no meio da sala enquanto Paul me empurra para o quarto.
— Já faz um tempão que mano comprou. Qual foi a última vez que estivesse aqui em cima?
— Não me lembro.
Agarro-me ao seu pescoço e procuro sua língua. Sinto. Sua língua me desperta lembranças boas. Meu corpo se arrepia ainda mais com a ideia dessa língua percorrendo todo o meu corpo. Paul sabe o que fazer. Paul... Paul... E Paul... Ninguém mais.
Minhas pernas encostam na cama, solto-o e me jogo. Olho para Paul esperando qualquer reação sua. A luz fraca que vem de fora do quarto me mostra sua cabeça raspada, seu rosto magro e longo, seus lábios cheios circundados pelo bigode e cavanhaque e seus olhos. Seus olhos me prendem, me desejam, ele me quer e estar aqui.
— Quem foi o ativo da última vez? – Pergunta-me.
Também não me lembro disso, mas sabendo o que ele quer e para não cortar o clima, minto.
— Eu.
Ele sorri, a calça já desabotoada, seus dedos fazendo o zíper descer. Paul não tem os músculos trabalhados como imagino que Grey tenha. Mas é forte, e bem forte. Arrasto-me para próximo dele. Puxo-o até mim. Sinto-o. Quero senti-lo intensamente. Agarro-me aos seus braços. Paul... Paul... E ninguém mais. Tento pensar em ninguém mais. Tento.


As coisas na maior parte das vezes são simples. Quando não são é porque as complicamos. Eu tinha uma boa noite de sexo com alguém, um amigo, que me fazia bem. Deveria ao menos estar satisfeito. Mas talvez eu esteja. Isso é apenas um desconforto, mas com o quê?
É difícil organizar os pensamentos quando a solução parece ainda mais complicada. Me sinto mal por transar com Paul pensando em outro homem. Mas por que Philipe Grey me marcou tanto? Não sou nenhuma moça virgem e ingênua. Kate?... Será que foi o que ela me disse? Não vou negar que depois daquela conversa passei a pensar em Philipe Grey com menos desagrado. A culpa por tê-lo tratado mal também pode influenciar... Então é remorso o que me faz pensar nele?
Confuso, balanço a cabeça tentando deixar esses pensamentos de lado. Tenho prova hoje, nada de devaneios. Enxugo o cabelo molhado com uma toalha enquanto saiu do banheiro. Paul está se espreguiçando em cima da cama. As cobertas caiem no chão descobrindo seu corpo nu.
— Já? – Pergunta ele sonolento.
— É. Tenho que ir para universidade. – Digo pegando a minha cueca. – Quero sair sem ser notado.
Paul rir.
— Eles sabem de nos, Ar.
— A Sr. Clayton sabe que somos amigos e saímos juntos na noite. Mas não que fazemos sexo na casa dele.
— Ai, Ar, quanto pudor!
Sorriu. Já todo vestido analiso o meu reflexo no espelho.
— Ar, tenho algo pra tu. – Paul se ergue, mas continua na cama sentado. Pega algo de uma das gavetas da cômoda ao lado. Sento-me na cama. Ele me passa um envelope. Abro-o e vejo fotos.
— Aquelas fotos?!! – Digo sorrindo e surpreso, reconhecendo as imagens.
São fotos minhas. Eu, nu, fazendo posse no pequeno studio que Paul tem em seu apartamento em Seattle. Olho bem as fotos, foi logo após uma transa nossa, a última por sinal. Olho a data, quase um ano.
— Foi a nossa última transa, antes de ontem. – Diz Paul olhando para mim.
— É. E eu fui mesmo ativo. – As fotos me fizeram lembrar. Eu tinha o olhar de alguém que ameaça, que provoca e elevava a virilha a frente. Lembro-me de ver como Paul ficara excitado ao me fotografar. A ideia foi dele, como uma brincadeira, foi bem divertido. E as fotos ficaram boas.
— Queria fazer outras. – Digo sorrindo.
— Na próxima fez que tu for à Seattle. – Ele se aproxima mais de mim. – Vou amar fazê-las.
— Calma. – Falo erguendo-me da cama – Isso está ficando um pouco romântico.
— E além de amizade, há apenas sexo. – Paul fala de modo automático balançando a cabeça.
— Isso mesmo. – Sorriu. Esse é nosso acordo. – Estou indo. As fotos são minhas, né?
— São. – Diz ele voltando a se deitar. – Vai à Seattle, vou estar te esperando. Boas provas.
— Valeu!
Na rua, penso em Paul e me pergunto porque não ama-lo também. Grey vem a minha mente. Fecho os olhos e tento não pensar nele. Tenho prova hoje. Vou me concentrar nela. Tento pensar na prova e nos assuntos que estudei e de como posso me sair. Prova, assuntos e eu. Ninguém mais.