A história de Arthur
5 O Convite Dele
Não percebemos quando as coisas começam a agir em nós. Podemos até dizer que algo vai ser bom para nossa vida, que vai mudar-nos de alguma forma. Mas a verdade é que não notamos quando a mudança acontece e ainda mais quando achamos que nada está acontecendo. Algo incomoda o espírito, mas não analisamos este desconforto.
Estou quase em casa, só mais uma dobra na próxima esquina. Mas não me preocupo com o caminho, já faço-o a tanto tempo que é mais que automático o meu andar. Vou pensando nos acontecimentos recente, feliz com o meu desempenho na prova. Acho que posso tirar uma nota boa, uma excelente nota na verdade. Essa felicidade divide o espaço das emoções com a incerteza das minhas ideias com relação ao Sr. Grey. Depois da prova de hoje deixei os meus pensamentos livres. Na Clayton's parecia desatento ao trabalho, Philipe ocupava as minhas ideias, e confesso que isso me ajudou a suportar as poucas horas lá. No entanto tudo me deixou ainda mais confuso. Não sabia o que sentia por ele. Recuso-me a acreditar que seja pena. Não sou do tipo que sinta pena. Ainda mais de uma pessoa que até pouco tempo desgostava por ser inrrustido. Suspiro e penso na prova. É bom ter algo que me deixe feliz, para eclipsar a frustração de não conseguir compreender os próprios sentimentos. Abro a porta do edifício. Alguém chama o meu nome. Entro como sempre, meus movimentos são involuntários. Até que meu cérebro compreende que alguém chamou o meu nome e reage. Paro e volto-me. Meus olhos se deparam com a imagem de Philipe Grey. Depois de dias pensando nele e vendo apenas incertezas, olhar nos seus olhos... Olhos intensos focados em mim... Me causa uma sensação estranha. Sensação de insegurança, mas de prazer ao mesmo tempo, como se estivesse pronto a pular em um abismo sem saber o que me espera no fim, mas com um sentimento de querer muito pular.– Steele. — Diz ele se aproximando e rindo. Com certeza se divertindo com a minha cara de surpresa.– Philipe... — Digo quase num sussurro. Realmente estou surpreso. Não esperava vê-lo aqui. — É... Sr. Grey? — Corrigido-me, tento me recompor. Não tenho culpa de estar surpreso, mas teria se permanecesse demostrando minha surpresa.– Olá Steele. Estava te aguardando. Uma satisfação toma conta de mim, meu ego. Ele estava me aguardando! Uma expectativa de que ele tenha finalmente se aceitado me deixa esperançoso. Olho bem nos seus olhos. Esperando que diga algo mais. Porém fica calado.– Então? Eu já estou aqui. — Pergunto com um tom gentil, querendo que ele se sinta a vontade para falar o que quer que seja.– Então... Eu estava na cidade para finalizar uma das etapas da pesquisa. — Cala-se e me olha como querendo verificar se me convenceu. Entendo sua intensão. E a esperança de que ele esteja se aceitando começa a esvair. Sem demonstrar nenhuma reação digo apenas um "sim" para que continue.– É... Então resolvi aparecer para agradecer por ter enviado a matéria, mesmo a srta. Kavanagh tendo me enviado antes. Fiquei mais feliz por ter recebido de ti. Dou um sorriso de canto de boca. Kate... Ah Kate! Agora compreendo sua insistência para ser eu a enviar o e-mail. Mas vai ter volta, a sim! Depois de pensar na esperteza de Kate, tomo conciencia da indireta declaração do Sr. Grey. Sorriu sem jeito. Desta vez não consigo desfaçar. Eu gostei, gostei muito de o ouvir dizer que ficou feliz. Então decido não desmenti-lo. Ficamos em silêncio por um tempo, e como já estava ficando um pouco constrangedor, falo.– Não foi nada, Sr. Grey. Que bom que o senhor gostou. — Outro silêncio paira sobre nós. Continuou, mudando de assunto, vendo que não há mais nada que ele queira falar, ou que consiga falar. — Eu acredito que Kate esteja lá em cima. Não quer subir e agradecer a ela pela matéria?– Não... — Sua voz sua um pouco seca. E de repente baixa o olhar.– Bom... Então, foi um prazer lhe rever, Sr. Grey. Ele ergue o olhar e me encara. Vejo certa insegurança na sua forma de me observar. Como se lutasse com algo dentro de si. Mas quando fala é apenas para se despedir. Viro-me para entrar novamente, pensando em como ele é frustrante. E decido nunca mais esperar algo dele a não ser joguinhos de um menino inseguro. Ele faz o mesmo em direção ao se carro. E novamente escuto ele chamar o meu nome. Quando volto-me na sua direção, ele está me olhando. Vejo certo medo no seu olhar, mas também uma certa determinação.– Eu... Queria te convidar para sair qualquer dias desses. Na verdade amanhã mesmo... Se poderes... Ou pode ficar para outro dia. Você quem sabe! Fico estático, sem mostrar nenhuma reação. Por dentro vou deixando uma sensação de perspectiva realizada tomar o lugar da frustração. Não demostrando minha total emoção dou minha resposta.– Claro. Pode ser sim amanhã. — Sorriu. Philipe parece satisfeito. Sorri para mim. Eu retribuindo o seu sorriso, alargando o meu.– Eu posso te ver onde? — pergunto já que parece ter ficado anestesiado com o meu sim.– Eu te pego.– Certo. — fico feliz com a ideia dele vir me pegar. — Então te peço que venha um pouco mais tarde que hoje. Para que haja tempo de eu chegar do trabalho.– Tudo bem. Até amanhã, então.– Até! Vejo ele entrar no carro. E para não parecer um bobo apaixonado, porque não sou bobo nem estou apaixonado, entro no edifício com uma última olhada antes de fechar a porta. Ele ainda não dá partida no carro e subo as escadas ainda sorrindo, desta vez com a ideia de que ele está se recuperando da batalha que acabará de enfrentar ao me chamar para sair.
Pensar que Philipe deve ter sofrido até ter conseguido por para fora seu pedido e que ele sofreu, justamente para me convidar a sair, me deixa muito feliz. A felicidade aumenta quando imagino que amanhã vamos nos ver, e que foi ele que me convidou. Ao me ver, Kate me questiona como foi o resto do meu dia na Clayton's. Dou a resposta de sempre sem mencionar o encontro com o Sr.Grey. Vai ser a minha vingança por ter me enganado. Sei que foi uma boa ideia, afinal ele acabou vindo me convidar com o pretexto de agradecer pela atenção extra que tive. Mesmo assim não gosto de ser enganado e vou dá esse troco a Kate. Na cozinha, com um copo com água nas mãos, fico assim... Os lábios tocando a beirada do copo sem sentir o liquido frio e os olhos fixos em algum ponto que não faz a mínima diferença. Porque meus pensamentos estão longe, no amanhã... Pensando nele, no convite dele.
Fale com o autor