Notas iniciais
Bom, gente, eu queria começar este capítulo me desculpando pelo tempo que demorei para postá-lo (se é que ainda resta alguém que se lembre dessa fic). Eu sei que prometi pra semana seguinte ao Carnaval do ano passado e aqui estou eu, mais de um ano depois, postando na semana seguinte ao Carnaval deste ano. Preciso justificar que no período em que eu pretendia ter postado este capítulo eu acabei descobrindo um problema de saúde e isso acabou ocupando toda a minha mente. Quando este problema de saúde deixou de ser uma grande questão na minha cabeça, eu acabei ficando sem tempo para a fanfic porque estava envolvida em projetos pessoais que eu sempre participo no decorrer do ano. Mas finalmente estou de volta. E, sem mais delongas, vamos ao capítulo. Boa leitura!

Fazia um mês desde a partida de Edward e eu não tinha uma notícia sequer do seu paradeiro. Nem mesmo Esme, Carlisle ou Alice sabiam me informar sobre ele.

Eu estava levando a administração da fazenda como podia, mas não era tão fácil sem ele. Emmett estava me ajudando com o que dava, mas ele não tinha o conhecimento generalizado e nem a visão ampla como o amigo. Todos os peões estavam acostumados a receberem ordens e cumprirem dentro do prazo, mas eu precisava de alguém com iniciativa para ser meu braço direito.

– Os cavalos precisam de ferraduras novas. – Me informaram.

Mas quantas seria preciso comprar? Ninguém sabia me dizer.

Estava começando a ficar irritada com aquela situação. Eu também não entendia muito daquilo; lidava bem com as contas, as negociações e o dinheiro, mas era Edward quem sempre sabia o era preciso ser feito no campo, como manejar o gado e quais as tarefas cada um dos seus colegas deveriam desempenhar para a fazenda continuar funcionando em perfeita atividade. E eu sequer lhe designei aquela função, ele a assumiu de maneira natural.

Há um mês, eu ia levando um dia de cada vez, resolvendo os problemas de forma pontual, mas a falta de uma gestão de qualidade me deixava sem tempo para resolver qualquer outra coisa, por exemplo, o aumento de salário dos funcionários, que eu tinha cogitado há um tempo.

Em meio a tudo isso, eu ainda tinha que lidar com Aro, que continuava a aparecer em diversas ocasiões sem ser convidado, na maioria das vezes com o seu filho, carregando um buquê de flores para mim. Ele definitivamente estava tentando fazer o garoto me cortejar e eu acreditava que aquilo era para pôr as mãos nas minhas terras através de um casamento.

E este era outro assunto que me preocupava. Eu sabia que o que tinha feito com Edward poderia arruinar minha reputação, e a sociedade era implacável com mulheres. Felizmente, nossa aventura não teve nenhuma consequência maior, cerca de 1 semana depois minhas regras vieram, retirando pelo menos aquela preocupação da minha mente. Ainda assim, se alguém descobrisse o que aconteceu entre nós, seria o meu fim.

E Aro já dava indícios que poderia saber daquela informação. Cerca de três semanas após o meu retorno da cabana, fui a um jantar em sua casa, apenas por não ter nenhum motivo educado o suficiente para recusar o convite. Obviamente, não iria sozinha até aquele covil, por isso levei Angela comigo para o jantar e Ben, que estava oficialmente cortejando minha amiga e criada pessoal, permaneceu nos esperando na carruagem.

Na maior parte do tempo, não aconteceu nada extraordinário. Fui apresentada à Sra. Volturi, uma mulher até agradável para ser a esposa de um abutre tão desprezível, e a outra filha deles, Jane. No entanto, após o jantar quando nos sentamos na sala de visita, Sulpicia Volturi se retirou um instante e Jane distraiu Angela com a prataria da família, neste momento Aro aproveitou para dizer:

– Adorável sua dama de companhia, não? – Perguntou com um tom calculadamente inocente, sentando-se ao meu lado no sofá. – Uma pena que nem sempre ela não seja tão eficiente. – Olhei intrigada em sua direção, sabendo que ele estava destilando seu veneno, mas eu não poderia deixar de questionar aquela afirmação. – Se me lembro bem, a senhorita passou alguns dias desaparecida, bem como um dos cowboys da sua fazenda. – Ele fez uma pausa, deixando a insinuação pairar no ar. – As pessoas falam, minha cara. A sociedade é rápida em julgar, e a moral é uma moeda valiosa. A reputação é uma coisa frágil, especialmente para uma dama como você.

Eu me tremia por completo, aquilo claramente tinha sido uma ameaça. Ele sabia demais e podia facilmente me difamar. A sociedade não era justa com mulheres e eu era o elo mais fraco daquela equação.

Queria ser capaz de rebatê-lo, mas não havia nada que eu pudesse responder naquele momento. Felizmente, a Sra. Volturi retornou para a sala naquele instante, seguida por uma criada que trazia uma bandeja com licor, e assim, nem mesmo Aro pôde continuar me fazendo suas ameaças.

Peguei um cálice da bebida apenas por educação, me sentindo fisicamente incapaz de tomar um gole sequer. Esperei apenas que Angela terminasse seu licor antes de chamá-la para ir embora.

Retornei para casa aturdida. Alec foi a única testemunha daquela conversa, mas na hora ele se fez de desentendido, sendo conivente com as ameaças do pai. Eu estava sozinha, e precisava aprender a me defender de Aro Volturi.

~*~

Dois dias depois daquele jantar, acordei resfriada, me sentindo cansada, com a cabeça pesada e o corpo mole. A convalescência me foi útil para enviar um recado cortês para a família Volturi, me desculpando por não poder retribuir o jantar que eles me ofereceram. A resposta veio em forma de um buquê de flores com um bilhete de Aro me desejando melhoras.

Durante aquele período de enfermidade, Esme foi bastante atenciosa cuidando de mim, porém ela se mantinha reservada em seu lugar de governanta. De repente, me senti muito solitária. Eu sentia falta da minha mãe, que não estava mais comigo, e do meu pai, que estava longe. Supreendentemente, também senti falta de Edward, lembrando da noite que passei cuidando dele. Será que ele faria o mesmo por mim agora?

É claro que não, sua boba! Me repreendi. Ele sequer se importou com a fazenda, por que se preocuparia comigo?

~*~

Levou 4 dias para que eu me sentisse recuperada daquele resfriado e, quando retornei à fazenda, a situação era pior do que deixei, o caos estava maior do que antes. Comecei meu dia indo direto ao campo, ignorando a correspondência que devia se acumular em montanhas no escritório. Não precisei me distanciar muito de casa para ver que a situação não era boa, o pasto à frente estava repleto de mato seco e o capim bem alto. Encontrei Emmett sem dificuldade e fui ao seu encontro, para me atualizar sobre o panorama geral. Nem andamos muito e já nos deparamos com ainda mais problemas: dois peões discutindo nos estábulos por um motivo que nem sequer fiz questão de conhecer, dois potros ariscos soltos no padoque e diversos animais doentes.

Para piorar a situação, um garoto da colônia surgiu correndo de repente e se empoleirou no cercado do curral onde Emmett e eu estávamos.

– Sr. McCarty! Sr. McCarty! – Ele estava ofegante. – Mandaram avisar que sua esposa está tendo o bebê.

– O bebê está nascendo? – Emmett ecoou atônito e o menino assentiu, ainda tentando recuperar o fôlego. – Oh meu Deus! O que eu faço agora?

– Vá ficar com sua esposa, homem! – Ordenei.

Ele assentiu, ainda com uma expressão lívida, e deixou o curral, com a criança em seu encalço.

Suspirei e olhei as vacas recolhidas junto à cerca. Localizei o peão mais próximo e pedi que ele fosse buscar o veterinário para ver aqueles animais, já que ninguém tinha tomado aquela iniciativa ainda. Então, caminhei de volta em direção ao estábulo, onde mais cedo havia dois homens discutindo. Ao chegar na porta, fui interceptada por Jasper.

– Srta. Bella! O que devo fazer com os potros ariscos?

Suspirei. Edward com certeza saberia aquelas coisas, eu não precisava nem perguntar a ele para ter certeza, ele também de certo daria as instruções para seus colegas sem nem mesmo esperar uma ordem minha.

– Lace os potros selvagens e isole os dois. Recrute quantos homens achar necessário para tentar amansar os bichos o mais rápido possível. – Ordenei para Jasper que assentiu e saiu, depois me virei para os outros dois peões dentro da construção. – E um de vocês, sele um cavalo para mim, eu vou sair para resolver nossos problemas.

Deixei o estábulo e voltei caminhando a passos firmes para casa. A fazenda estava um caos sem um administrador adequado, alguém que soubesse exatamente o que a propriedade precisava para funcionar. E para completar, o filho de Emmett estava nascendo e, por pelo menos algum tempo, eu não poderia contar com o homem que mais estava disposto a tentar me ajudar.

Eu precisava agir, alguma coisa tinha que ser feita antes que minha inexperiência levasse a fazenda à falência e deixasse todos aqueles funcionários sem emprego.

Por mais que a ideia não me agradasse, eu sabia qual era a solução. Não podia negar que a fazenda de Aro estava funcionando muito bem. Ele podia ser um patife calculista, mas sabia como administrar os negócios. Não me agradava ver a fazenda que fiz prosperar por dois meses ir parar nas mãos de um calhorda como ele, mas eu sabia que ele já estava de olho nas minhas terras e era melhor vendê-las logo do que esperar estar arruinada e à beira da falência.

Subi para o meu quarto e troquei de roupa, depois passei no escritório para recolher alguns documentos.

– Com licença, Bella, pediram para avisar que seu cavalo está pronto no celeiro. – A governanta apareceu na porta do escritório.

– Obrigada, Esme.

Saí galopando rumo à fazenda ao lado. Durante todo o trajeto, uma pequena vozinha no fundo da minha mente insistia que eu estava cometendo um erro e que deveria voltar atrás enquanto ainda era tempo. Mas minha consciência sabia que estava fazendo o certo, por isso segui firme até o meu objetivo.

– Preciso falar com seu patrão. – Informei ao peão que me recebeu logo após a porteira da propriedade vizinha.

O homem assentiu e foi chamá-lo. Enquanto isso, desci do meu cavalo e fiquei à espera dos dois na varanda da casa principal. Logo o funcionário retornou, sendo seguido pelo chefe.

– Srta. Swan, que prazer recebê-la! Venha, entre e vamos beber alguma coisa.

– Estou bem aqui mesmo.

Eu estava desacompanhada e já tinha sido ameaçada antes somente com base em especulações, seria melhor evitar criar brechas para mais falatório e me manter às vistas de todos os funcionários no pasto.

– A sua adorável dama de companhia não veio hoje? – Pude sentir sua ironia, mesmo que velada.

– Aro, eu vim falar de negócios. – Fui direta, ignorando completamente as formalidades.

– Muito bem, que tipo de negócios? – Cruzou as mãos diante do corpo.

– Qual o seu interesse na minha fazenda?

– São terras muito boas, amplas, prósperas, com uma nascente de água... – É claro que ele não deixaria de observar aquele atributo. – Mas, aonde quer chegar?

– Quero saber qual seu interesse em administrar a propriedade.

– Devo chamar meu filho? – Um pequeno sorriso começou a brotar em seus lábios.

– Vamos deixar as crianças de fora da nossa conversa.

– Alec é um homem feito.

– Claro! – Desdenhei.

– Alec tem uma grande estima pela senhorita.

– Aprecio a estima dele, mas podemos manter o assunto entre nós?

– É claro. A senhorita disse que queria falar de negócios, do que se trata?

– Eu quero negociar minha fazenda, estou falando de vendê-la ao senhor.

– Comprar suas terras?

– Sim. Tem interesse?

– Você sabe, são tempos de crise, o mercado está em baixa e eu não sei se as finanças são favoráveis a um negócio desta magnitude.

– Como pode afirmar isso? Eu ainda nem lhe dei meu preço. Não prefere pensar um pouco e conversar com seu contador antes de me dar essa resposta?

– Claro, podemos amadurecer esta ideia com o tempo. Mas você também pode pensar um pouco sobre os sentimentos do meu filho, talvez possamos lidar com essa questão de uma maneira menos onerosa e resolver tudo em família.

Dispenso! Foi a primeira resposta gritada em minha mente, mas eu precisava ser mais gentil, mesmo a contragosto, se quisesse fechar negócio com ele e eu dependia disto.

– Infelizmente, não pretendo continuar na cidade por muito tempo. – Usei como desculpa o que me pareceu plausível para não querer me ligar a Alec Volturi. – Sinto falta da minha cidade antiga e pretendo voltar para a casa do meu pai tão logo concretize a venda.

De qualquer modo, eu não teria por que continuar ali quando não tivesse mais nada para me prender à cidade. Aquele não era o principal motivo para eu estar desistindo de tudo, mas acabaria acontecendo de qualquer forma.

– Compreendo. – Ele suspirou, mas seu minúsculo sorriso indicava que ele planejava algo e isso me causou um arrepio. – Bem, se prefere assim podemos levar as negociações com mais parcimônia.

– Sim, eu prefiro assim.

– Então temos um acordo. – Ele sorriu, me causando novamente sensações ruins. – Aguardo seu retorno para prosseguirmos com as negociações.

– Obrigada por me receber, Aro.

– É bom fazer negócios com você.

Fiz uma mesura a ele em despedida e me retirei daquela fazenda que me trazia mau agouro.

Na manhã seguinte saí bem cedo para o escritório do advogado, logo após o desjejum, fiz uma pequena parada na colônia e segui para a cidade.

– Srta. Swan, que prazer revê-la!

– Bom dia, Sr. Scott. O senhor está ocupado? Eu gostaria de lhe falar por um instante.

– Claro, venha comigo.

Entramos no escritório, não muito grande, mas muito bem decorado em tons escuros. Scott ocupou uma cadeira opulenta atrás da escrivaninha e eu sentei-me numa poltrona diante dele, com a mesa entre nós.

Expliquei para ele meu interesse em vender a fazenda e que precisaria de sua assessoria durante o processo.

– Se me lembro bem, quando nos encontramos pela primeira vez o senhor citou algo sobre um inventário, certo?

– Sim. É claro que um inventário foi feito após o falecimento do seu avô, para quantificar exatamente o patrimônio da sua herança, estava tudo especificado no documento que lhe pedi que assinasse naquele primeiro dia. – Assenti me lembrando do papel em questão. – Mas nesses meses que se passaram e, não me refiro somente após a senhorita tomar posse da fazenda, como também ao período que eu levei para encontrá-la, a fazenda continuou em atividade, gerando lucros e despesas; mesmo que haja esse inventário recente, será preciso fazer um levantamento atualizado dos bens para podermos chegar a um valor de mercado justo das terras.

– O senhor pode cuidar desta atualização para mim?

– É claro que eu posso auxiliá-la, mas será preciso convocar alguém para fazer o levantamento dos bens, também iremos precisar de um avaliador para precificar as terras e depois de um tabelião para lavrar a escritura.

– E o que eu preciso fazer?

– Por enquanto nada, eu conheço bons profissionais e vou escrever para eles agora mesmo, mas isso vai levar algum tempo.

Suspirei. Eu não tinha tempo, não sabia até quando conseguiria levar as coisas da maneira que estavam, mas era o processo e eu precisava respeitá-lo.

– Tudo bem, Sr. Scott, vou ficar aguardando notícias suas sobre os próximos passos.

Saí do escritório do advogado com a promessa de que ele me apresentaria a listagem atualizada dos bens o mais breve possível. Estava soltando meu cavalo do amarradouro quando um movimento chamou a minha atenção. Do outro lado da rua, alguns metros na diagonal do escritório de Jason Scott, ficava a delegacia da cidade, e de dentro dela estava saindo uma figura que eu reconhecia muito bem.

Edward não olhou na minha direção, seguiu o tempo todo de costas até alcançar seu cavalo, preso em outro amarradouro. Pensei em caminhar até ele, mas como não tinha sido vista, sabia que não iria alcançá-lo antes dele partir em seu cavalo, o qual já montava. Por isso, continuei soltando as rédeas de Twilight e montei também, seguindo atrás do cowboy a galopes.

Ele cavalgava com velocidade e logo estávamos saindo da cidade. Meu objetivo era alcançá-lo, mas assim que as construções ficaram para trás, ele acelerou ainda mais. Apenas o campo se estendia diante de nós, eu tentava me aproximar, mas seu cavalo era bastante veloz.

De repente, vi Edward meter a mão no coldre, sacar sua pistola e virar na minha direção. No meu ímpeto de segui-lo, não pensei que ele poderia interpretar aquilo como uma ameaça. No susto de ficar sob sua mira, acabei puxando as rédeas do cavalo por reflexo e o animal empinou com um relinchado alto, ficando apenas sobre as patas traseiras e me derrubando no chão.

– Bella! – Ouvi o grito ao mesmo tempo que meu corpo atingia a relva dura.

Se engana quem pensa que a vegetação rasteira serviria como amortecimento para o solo, aquela queda doeu como o inferno.

– Ai! – Gemi.

– Bella, você está bem? – De repente, Edward descia do seu cavalo bem ao meu lado.

– Está doendo. – Reclamei, enquanto ele estendia uma mão na minha direção.

Respirei fundo tentando conter a dor do impacto. A mão de Edward tocou meu braço descoberto pela manga curta do vestido e aquilo me transportou para a última vez que nossas peles se tocaram. Estávamos nus, deitados juntos na cabana de caça, aquilo parecia ter ocorrido em outra vida, com outra Bella e outro Edward. Meu olhar encontrou o dele, que demonstrava preocupação, e encarar aquele infinito verde novamente, me transportou de vez para as lembranças da gente na cabana.

Tentei erguer meu corpo, antes que a melancolia me dominasse por completo. Era sempre assim quando eu me lembrava da nossa aventura no dia que meu cachorro fugiu, as recordações vinham acompanhadas de tristeza, porque foram dias felizes, mas eu sabia que jamais retornaria a eles e que nunca mais teria algo nem mesmo próximo daquilo.

– No que você estava pensando? – Ele perguntou, ajudando a me sentar.

– No que eu estava pensando? Você me apontou uma arma!

– Você estava me seguindo!

– Sim, porque nós precisamos conversar! Nem sua família tinha notícias suas, quando eu lhe vi na cidade sabia que precisava lhe alcançar para essa conversa existir.

Àquela altura, eu estava aborrecida e ele na defensiva.

– Não temos mais nada para conversar, já dissemos tudo que deveríamos.

– Você falou tudo o que quis, mas não me deu a chance de dizer nada de volta.

– E o que mais você tinha a dizer? – Bufou, abandonando sua posição agachado ao meu lado e pondo-se de pé.

Aproveitei para me levantar também, mesmo com fortes dores pela queda. Era humilhante demais ter aquela conversa sentada no chão de terra. Bati a poeira do meu vestido antes de prosseguir com o assunto.

– Você entendeu tudo errado! Se tivesse ao menos me deixado explicar, saberia que eu preciso de você!

– O que?!

– Eu preciso de você trabalhando comigo. – Me corrigi rapidamente. – Eu estava te propondo uma sociedade porque eu posso ser boa com os números e as negociações, mas eu não entendo nada do dia a dia no campo e você seria o administrador perfeito para essa função. – Respirei fundo, eu precisava botar para fora de uma vez tudo que ficou engasgado quando ele se demitiu. – Você me acusou de estar te dando coisas por piedade, mas a verdade é que eu preciso de você! Teríamos sido uma boa dupla se você me desse uma chance, não me repelisse toda vez que eu tento me aproximar, não construísse uma muralha em torno de si. Apesar de tudo, eu me sinto tão leve quando estou com você, não sei por que não pode se sentir da mesma maneira comigo.

– Creio que isso não seja mais possível, estragamos tudo mantendo uma relação além da profissional.

– Tudo o que? Você nunca me deu nem a chance de me aproximar. Sempre que eu tentava ser minimamente amigável você erguia suas barreiras.

– Porque eu sabia que isso só podia acabar mal, como acabou. – Rebateu.

– Não, não acabou mal. Você se colocou na posição de vítima e acha que precisa se proteger de tudo. Eu te ofereci uma sociedade, um acordo de trabalho, porque precisava da sua ajuda, mas você criou uma situação na sua cabeça em que você precisava se defender de mim, como se eu estivesse tentando te humilhar ou te controlar. Não sou sua inimiga, cowboy!

Permanecemos em silêncio por quase um minuto inteiro, apenas nos encarando. Os olhos dele, que eu sempre achei tão profundos e cheios de verdade, agora pareciam vazios, completamente sem emoção nenhuma dentro deles.

– Sei que você teve seu coração partido no passado, mas você não pode descontar essa decepção em todas as mulheres do mundo! – Falei com mais suavidade, após respirar um instante. – Quando cheguei aqui achei que você fosse um cara legal e que a gente pudesse se dar bem, mas sua falta de confiança me machuca.

– Sinto muito. – Ele falou tão baixo que eu não tive certeza se ouvi direito.

– Por que você não para de fugir? Pare de ser tão orgulhoso e admita que agiu precipitadamente. Você ainda pode voltar e trabalhar comigo

– Eu não posso.

– Será que não está me ouvindo? Eu preciso de você, a fazenda também precisa, aquele lugar está um caos desde que você se foi.

– Você vai encontrar alguém para ajudar com a administração.

– Não, eu não vou! Acha que não já tentei durante um mês inteiro? – Rolei os olhos. – Nenhum outro peão conhece aquele lugar como você.

– Eles aprendem.

– Emmett foi o único que ainda tentou me ajudar, mas imagino que agora, com um bebê recém-nascido, eu não possa mais contar tanto com ele.

– O bebê de Emmett nasceu?

– Sim, é um menino, estão o chamando de Henry. Passei para visitá-lo esta manhã, antes de vir para a cidade.

– E como ele é?

– Saudável, aparentemente. Tem todos os dedos das mãos e dos pés, dois olhos, um nariz, uma boca. Você sabe como é.

– E com quem ele se parece?

– Sei lá. – Dei de ombros, para mim todo bebê era meio parecido. – Tem as bochechas rosadas, como as de Emm e de Rose, é rechonchudo como todo bebê e ainda não abriu os olhinhos para sabermos a cor.

– Você poderia tentar me dar mais detalhes. – Reclamou.

– Sinceramente, por que você não vai vê-lo pessoalmente? Acho que seu amigo ficaria feliz com uma visita sua. – Bufei. – Aliás, não só ele, sua família também ficaria feliz de ter notícias suas. Eles estão preocupados, sabia?

Ele desviou o olhar e se encolheu um pouco, parecia que eu o tinha atingido.

– Talvez eu passe na casa dos meus pais mais tarde. – Respondeu a contragosto.

– A propósito, onde você esteve neste último mês? O que andou fazendo?

– Estava resolvendo algumas questões, coisa minha.

– Você está sendo vago e evasivo! Será que podemos ter uma conversa séria sem meias palavras pelo menos uma vez na vida?

– Está bem. – Suspirou. – Eu estive investigando Aro.

– Por quê? – Perguntei surpresa.

– Eu sei que ele é um calhorda e não presta. Também sei que ele está interessado nas suas terras e que é capaz de qualquer coisa para conseguir o que quer, até passar por cima das pessoas.

– E o que você tem com isso?

– Todas as pessoas com quem me importo trabalham para você, eu não podia deixar que ele se aproximasse com todo seu rastro de destruição.

– E o que você acha que ele pode fazer contra nós?

– Eu sei que foi ele quem armou aquela emboscada um mês atrás.

Certo, ele tinha um ponto.

– Disso, eu também não duvido; mas os pistoleiros não quiseram abrir a boca e revelar o nome do mandante deles.

– Aro é inescrupuloso e está interessado nas suas terras, eu sei que ele não vai parar enquanto estiver impune. Naquela ocasião, eu estava por perto para ajudar a defender a fazenda, mas sem trabalhar lá eu precisava dar um jeito de mantê-lo longe.

– Certo, e o que você pretende descobrir investigando Aro?

– Eu vou provar que aquele patife roubou as terras que diz pertencer a ele e mandá-lo para a cadeia.

– Você não pode fazer isso!

– Por que não?

– Eu preciso vender minha fazenda a ele!

– O que?

– É minha única alternativa.

– Como assim?

– Você não está ouvindo tudo o que eu disse até agora? A fazenda está afundando e vendê-la para ele será bom para ambos os lados.

– Aro, princesinha? Sério?

– Está claro que ele sabe gerir os negócios, a fazenda dele está prosperando muito bem.

– Devem haver outros bons gestores por aí, você pode encontrar comprador melhor.

– Anunciar a fazenda pode levar tempo e isto é algo que eu não sei se tenho mais. Você mesmo disse que Aro está interessado, é melhor vendê-la logo do que esperar ele se aproveitar da minha desgraça.

– Aro é um patife interesseiro e oportunista, ele nunca irá pagar um valor justo pelas suas terras, ele não sabe o que é isso.

Lembrei-me da oferta que ele me fez quando nos conhecemos, administrar minha fazenda para que eu pudesse viajar e visitar modistas. Também me lembrei da conversa no dia anterior, como ele disse que o mercado não era favorável antes mesmo de considerar a proposta. E, além de tudo, sua expressão sombria de quem estava tramando algo. Mas eu não daria o braço a torcer para o cowboy.

– Isso é um problema meu, você não acha?

– Então pense nos meus colegas, ele é um péssimo patrão, todo mundo que trabalha para ele tem do que se queixar.

– Melhor um patrão ruim do que ficar sem emprego. – Rebati e depois completei: – Porque é o que vai acontecer com todos os funcionários se eu levar aquela fazenda à falência.

– Você não vai à falência.

– Você não pode afirmar isso.

– E você não pode achar que vender sua fazenda para Aro é a solução dos seus problemas!

– Então me diga, qual a solução para os meus problemas? – Desafiei e ele não foi capaz de me dar uma resposta. – Aliás, você nem pode falar nada, já que foi embora sem pesar as consequências. Além disso, Aro está me chantageando.

– Não ceda!

– E deixar ele me arruinar? Não, obrigada. – Bufei.

– Ele está blefando, só pode ser um blefe!

– Não quero pagar para ver.

– E o que você pode ter feito de tão grave para estar assim nas mãos dele?

– Eu dormi com você! – Esbravejei, impaciente.

– E como ele sabe disso? Você contou?!

– Não! – Rebati ofendida. – Eu não seria tola de contar isso a alguém, mas ele esteve na fazenda enquanto estávamos fora, você sabe, e está especulando.

– São só especulações, você não pode estar tão apavorada por uma suposição dele.

– Mas ele está certo, você sabe disso.

– Ele não tem como saber.

– Tem certeza? – Ergui uma sobrancelha em desafio. – Nossa pequena aventura pode ter gerado consequências, você sabe.

– O que você está querendo dizer?

– Uma consequência dos nossos atos pode ter ficado em mim e em breve se tornará visível para toda a sociedade.

Sua expressão congelou e os olhos dele voaram até minha barriga, como se procurasse ali algum volume diferente. Eu nunca tinha visto o cowboy surpreso e talvez até tivesse apreciado a sensação, se aquele olhar não tivesse causado reações em mim. Como seria se realmente houvesse um bebê nosso crescendo dentro de mim?

– Você está grávida?! – Perguntou, a compreensão finalmente o atingindo.

– É uma possibilidade. – Dei de ombros, tentando manter meu tom neutro, embora eu já soubesse que não haviam mais chances reais.

– Neste caso, eu não irei fugir das minhas responsabilidades.

– E o que isso quer dizer?

– Que eu vou dar meu nome ao nosso filho. E a você também. – Completou.

– Você está me propondo casamento?

– É o certo a se fazer, eu não deixarei você lidar com essa desonra sozinha.

– Então isso significa que você vai voltar para a fazenda?

Eu sabia que não estava grávida, mas tentei calcular mentalmente por quanto tempo conseguiria manter aquela mentira, ou ao menos fingir que ainda restavam dúvidas.

– Bem, ainda não.

– Como assim?

– Hoje, eu levei ao xerife os certificados de posse das terras de Aro, para que ele possa investigar se são falsificados ou não, mas eu ainda preciso conseguir testemunhas das barbáries que ele foi capaz de fazer para conseguir aquelas terras.

– E onde você vai conseguir essas testemunhas?

– Não sei. – Confessou com uma ruga se formando em sua testa. – Mas acho que já tenho uma pista por onde começar.

– E quanto tempo isso vai levar?

– Também não sei.

– Enquanto isso eu fico à mercê das chantagens dele?

– Só peço que você aguente um pouco, assim que possível estarei de volta para lidarmos com isso. Juntos! – O olhar dele era intenso ao proferir aquilo, continha promessa no fundo dos olhos dele.

Porém, eu não tinha tempo e não podia continuar esperando. Promessas sem garantias não eram nada para mim naquelas circunstâncias.

– Por que você não desiste dessa ideia de investigação e fica comigo? Nós podemos lidar com os rumores juntos!

– Se você está mesmo esperando um filho nosso eu tenho mais um motivo para manter Aro bem longe e mandá-lo para a cadeia.

– Esqueça! – Bufei irritada e já completamente desesperançosa. – Você não tem nenhuma obrigação comigo, cowboy.

– Como não?

– Eu não estou grávida.

– Tem certeza?

– Absoluta!

Achei que eu tivesse visto ele desmoronar um pouco, mas com certeza não interpretei sua reação corretamente, afinal não fazia sentido.

– Então a chantagem de Aro não tem embasamento, você não precisa ceder.

– Não é bem assim, ele ainda pode me difamar.

– Negue tudo!

– Ainda será minha palavra contra a dele, e ele é um homem influente.

– Você também é influente na cidade, sua propriedade é uma das mais importantes da região.

– Pode até ser verdade, mas ainda vivemos numa sociedade injusta, a palavra de uma mulher nunca terá o mesmo peso que a de um homem, principalmente de um homem poderoso como Aro Volturi. Isso seria o meu fim.

– E você me culpa por isso, não é?

Sua pergunta me pegou de surpresa. Não tinha tom de acusação, nem era uma simples constatação, seu tom era sereno, de uma curiosidade sincera. Precisei de um instante para pensar a respeito, mas cheguei à conclusão de que não, eu não o culpava. Quando estávamos a sós na cabana, eu quis aquilo tanto quanto ele, cedemos ao desejo de ambos, não era justo culpá-lo como se eu tivesse sido seduzida contra minha vontade.

Porém, eu não podia negar que sentia um pouco de inveja dele. Se Aro realmente nos delatasse, a honra dele não sairia tão manchada quanto a minha, eu diria até que continuaria intacta. Talvez, em público, um ou outro condenasse sua posição, “como foi capaz de arruinar a reputação de uma moça de família?”, diriam. Mas, por trás de toda moral e dos bons costumes da sociedade, ele seria admirado e talvez até parabenizado pelos colegas, sairia como o corajoso vencedor de um desafio que poucos ousavam encarar.

Ele não estaria condenado ao ostracismo, como eu. Não veria outros rapazes evitá-lo por ser apontado como má influência por suas famílias. E, se algum dia desejasse casar-se, nenhuma moça de boa origemo descartaria como possível noivo apenas por sua falta de pureza. Então, sim, eu o invejava, queria poder sair daquela situação tão ilesa quanto ele, mas sabia que, como mulher, seria muito mais difícil para mim.

– Não, Edward, eu não o culpo. – Respondi, por fim. – Mas a questão agora não se trata de apontar culpados e sim conter os danos.

– Eu lamento que você esteja envolvida nessa situação e eu não vou negar minha participação nisso tudo. Mas espero que você entenda que eu não posso ficar ao seu lado agora. Se Aro não for detido nós nunca teremos paz. Porém, se a bomba estourar, saiba que eu não vou lhe deixar desamparada.

– Então, chegamos a um impasse.

– O que você quer dizer com isso?

– Você não está disposto a abrir mão da sua investigação e eu com certeza também não vou desistir da minha negociação. Eu sei que não posso deixar todo mundo perder os empregos e você não está de dando alternativa. Portanto, nós dois continuaremos com nossos planos como se essa conversa nunca tivesse existido. E que se dê melhor quem alcançar seus objetivos primeiro.

– Princesinha, isso não é uma guerra! Estamos do mesmo lado, eu só quero o seu bem.

– Sério? Porque você é uma verdadeira incógnita para mim! Quando eu peço sua ajuda você se ofende, esbraveja e vai embora, mas depois reaparece e diz que estava agindo escondido para me proteger. Eu realmente não consigo te entender!

– Eu nunca estive contra você.

– Quer saber? Eu desisto de tentar te compreender. Eu só quero concluir minha negociação com Aro, garantir os empregos dos colonos e ir embora daqui. Eu vou voltar para a casa do meu pai, na cidade onde ninguém sabe o que aconteceu aqui, longe de Aro, de você e de todos esses problemas. Já entendi que eu só posso contar comigo mesma para me defender. – Lutei contra as lágrimas que tentaram escapar.

– Não é bem assim...

– Twilight! – Ignorei sua tentativa de protesto, chamando o cavalo, que tinha ido parar a alguns metros de distância depois da minha queda.

Porém, o animal sequer se mexeu diante do meu chamado. Comecei a andar em sua direção, mesmo que, a cada passo que eu desse, meu quadril doesse do lado que eu caí, mas fui impedida de prosseguir por uma mão firme segurando meu pulso.

– Bella, você está machucada, não pode montar.

– Esqueça que eu existo, cowboy! – Soltei meu braço com um safanão e segui até meu cavalo.

Enquanto me afastava, senti uma mistura de emoções que não conseguia decifrar muito bem. A raiva e a frustração ainda estavam lá, mas havia algo mais, algo que crescia cada vez que eu pensava nele. Sua presença sempre despertara uma sensação de segurança e conforto que eu não conseguia explicar. Havia uma conexão que eu relutava em reconhecer completamente, algo que fazia eu me sentir bem e feliz perto dele, por razões que eu não conseguia entender totalmente.

Eu estava tão perdida em meus pensamentos que mal percebi o caminho passar por mim, até chegar em casa. Assim que cheguei em casa, subi os degraus da varanda e abri a porta da frente, ainda completamente abalada pela conversa que tinha acabado de ter. Até mesmo Jacob, que vinha me receber com sua alegria costumeira, se assustou com o estrondo com que deixei a porta fechar e se escondeu sob o aparador da entrada por um segundo, para se certificar de que estava seguro antes de voltar a pular sobre mim.

– Está tudo bem, Bella? – Esme apareceu na porta, que ligava o corredor da casa ao hall de entrada, tão logo deixei a porta bater. Alice vinha logo atrás dela.

– Esme, encontre Carlisle e podem ir para casa, vocês dois estão dispensados por hoje.

– Nós fizemos alguma coisa errada? – Perguntou preocupada.

– Não. Eu apenas vi seu filho na cidade e ele disse que vai visitá-los mais tarde. – Respondi, me concentrando em conter a alegria de Jacob aos meus pés.

– Edward?

– Vocês têm outro filho que eu não conheço? – Perguntei com ironia e logo me arrependi da minha grosseria, estava descontando nela a irritação causada por outra pessoa. – Sinto muito, Esme. Não quis ser rude, mas é que seu filho me tira do sério.

– O que Edward fez?

– Nos encontramos na cidade e acabamos discutindo. Você pode perguntar os detalhes para ele mais tarde. Só, por favor, vá para casa antes que ele não os encontre lá e decida vir procurá-los aqui. Eu não quero ter que vê-lo de novo.

Cruzei o hall de entrada e comecei a subir a escada para o segundo andar.

– Bella, você está andando estranho. – Alice observou.

– Eu caí do cavalo.

As duas emitiram sons de surpresa.

– Você está bem? – Quis saber a governanta.

– Há algo que eu possa fazer por você? – A jovem falou ao mesmo tempo que sua mãe.

– Estou bem. – Respondi para ambas. – Vá para casa com seus pais, Alice. Vou pedir que Angela me prepare um banho e vou descansar o restante do dia, logo estarei melhor.

Não aguardei resposta delas e continuei subindo para o segundo andar da casa.

~*~

Demorou uma semana inteira para que o advogado aparecesse na minha fazenda com a pessoa que iria atualizar a lista de patrimônio e recursos. Depois disso, eles precisaram de mais 3 dias para visitar toda a propriedade e analisar as posses. Era uma sexta-feira quando eu recebi a documentação atualizada e, somente na terça-feira seguinte, foi que o avaliador chegou à cidade para que pudesse precificar as terras. Este também precisou de 3 dias para visitar toda propriedade e fazer suas anotações, com isso mais uma semana se passara. Eu estava apreensiva, pois quanto mais o tempo corria mais eu sentia que minha sentença se aproximava.

Finalmente, no dia seguinte após terminar suas visitas, o avaliador me enviou seu parecer pelo correio, num elegante envelope lacrado. Assim, não perdi mais tempo e rumei para a fazenda ao lado em busca de fechar negócio.

Um dos peões da fazenda vizinha me cumprimentou logo na porteira, ele me deu passagem e disse que eu encontraria seu patrão na casa principal. Agradeci e segui meu caminho adentrando na propriedade. Peguei o envelope com os números que eu precisava no alforje do cavalo e subi os degraus da varanda, batendo a aldrava da porta em seguida.

Felizmente, fui recebida pela governanta da casa, que me conduziu até a sala de visitas enquanto ia chamar o patrão. Aproveitei os instantes a sós para respirar fundo e me preparar mentalmente, focar na minha missão ali. Porém, o fato daquela ser a mesma sala onde fui ameaçada na noite do jantar não estava me ajudando.

– Srta. Swan, que prazer recebê-la novamente!

– Sr. Volturi, imagino que saiba porque estou aqui.

– Sim, você deve estar com a proposta de venda das suas terras.

– Exatamente. – Entreguei para ele o envelope que estava em minhas mãos.

Aro o abriu e cuidadosamente retirou o maço de folhas. Leu cada uma com cuidado e com uma lentidão que estava me deixando impaciente. Às vezes, erguia as sobrancelhas para logo depois voltar a sua expressão neutra. Por fim, realinhou as páginas e me encarou.

– Bem, Srta. Swan, é uma proposta interessante, mas infelizmente eu não disponho desse montante para investir na sua propriedade.

– O senhor chegou a falar com seu contador desde a última vez em que nos falamos? – Perguntei, pois eu duvidava que ele tivesse dado aquele passo, estando desde o princípio determinado a negar minha oferta e se dar bem em cima das minhas terras de alguma outra forma.

– Sim, eu conversei com meu contador. – Declarou com intensidade, mas não consegui identificar se estava sendo sincero. – E eu realmente não disponho dessa quantia. São tempos de crise, você sabe. – Não, eu não sabia. Minha fazenda estava produzindo e lucrando muito bem enquanto contava com Edward como gestor, eu duvidava que a dele não estivesse também, mas não ousei discutir e deixei que ele prosseguisse. – Mas podemos pensar numa outra forma de acordo.

– O que você tem para me oferecer?

– Que tal uma sociedade?

– Sociedade? – Me inclinei um pouco para frente.

– Eu posso ser apenas um administrador das suas terras, você me pagaria um salário para cuidar de tudo e ficaria com o restante do lucro.

A proposta era tentadora, não era muito distante do que eu tentei propor ao cowboy. Com a diferença que desta vez eu estava lidando com Aro Volturi e eu não confiava nem um pouco nele. Eu não podia afirmar se ele seria completamente honesto comigo quanto a administração das terras, além disso, se ele tivesse negócios escusos era melhor não ter meu nome associado ao dele.

– Sinto muito, mas eu tenho interesse em realmente me desfazer da propriedade. – Falei com a maior suavidade que pude.

– E se eu comprar apenas parte das terras?

– Parte?

– Sim, como você disse antes que não quer ficar na cidade, eu posso ficar o recorte onde fica a residência e alguma área ao redor. – É claro, e logo atrás ficava a nascente de água que ele tanto almejava. – Parte das terras desabitadas a senhorita poderia manter.

– Isso ainda me manteria vinculada a esta cidade, com terras aqui.

– Seria apenas pasto, Srta. Swan, não terá que administrar ou cuidar.

E terras não administradas, ao lado de terras que pertenceriam a ele, sem o olhar de um dono, era tudo o que ele precisava para se espalhar e tomar conta de tudo sem pagar o que devia. Eu me tornaria uma presa fácil para suas artimanhas e não gostava disso.

– Sr. Volturi, eu realmente não pretendo manter mais nenhuma propriedade na cidade, quero cortar todos os laços antes de partir.

– Compreendo. Mas infelizmente eu não tenho a verba para investir em tudo.

– Peço que reconsidere minha proposta. Pode ficar com os papéis para mostrar ao seu contador se quiser. – Apontei para o envelope que ele largou sobre a mesa de centro após ler. – Reveja suas finanças e, se possível, me faça uma contraproposta. Eu espero para seguirmos com a negociação.

E eu esperei. Por duas semanas inteiras eu apenas esperei, cuidando dos negócios a duras penas, até que houvesse novidades. Mas a resposta não veio.

Na terceira semana, haveria uma festa na igreja da cidade e, pela forma como as pessoas falavam, percebi que era um evento bem importante. Todo mundo se envolvia bastante. Logo, compreendi que durante esse período nenhum negócio seria concretizado.

Na primeira noite de festejos, Alice fez questão de levar Angela e eu, as mais novas moradoras da cidade. Nós três assistimos à missa juntas e depois fomos à quermesse diante da igreja. Aquilo me lembrou um pouco a festa da fogueira na colônia que eu fui uns meses antes, porém numa versão maior. Havia barraquinhas de jogos, comidas, bebidas e artesanato. Também havia um grupo tocando música country e casais dançando.

Minhas duas amigas e eu acabamos nos juntando a um grupo de outras funcionárias da fazenda, que encontramos por acaso na quermesse, e ficamos conversando por algum tempo.

– Boa noite, senhoritas. – O xerife cumprimentou ao passar por nós, levantando brevemente seu chapéu.

– Boa noite, xerife Beau. – Respondemos todas juntas, mas notei que as moças nativas da cidade usaram uma versão diminutiva do seu nome.

– Alguma de vocês, viu minha noiva essa noite? – Ele perguntou.

– Vi a Srta. Edythe perto da barraca da família Ateara. – Jessica, uma das cozinheiras, o informou.

– Obrigado pela informação. Se me derem licença, vou ao encontro dela. – Mais uma vez ele levantou seu chapéu com cordialidade e nos deixou.

Continuei conversando com as garotas por algum tempo, até que o grupo começou a dispersar. Algumas foram dançar, outras saíram para comer e logo éramos somente eu, Alice e Angela de novo. Nós três caminhamos entre as barracas apreciando a quermesse e suas atividades.

O evento era realmente grande e relevante para a cidade, parecia que todos os habitantes estavam lá naquela noite. Em certo momento, acabamos até cruzando com toda a família Volturi. Eu e minhas amigas os cumprimentamos com cordialidade ao passar por eles; mas, assim que os quatro ficaram para trás, fizemos caretas simultâneas e foi inevitável cair na gargalhada.

– Vocês já conhecem o artesanato indígena da região? – Alice chamou nossa atenção, já nos guiando para uma das barracas. – Tem muita coisa linda!

A seguimos até onde ela nos levava e minha amiga estava certa, tinha várias coisas lindas.

– Que legal, filtros dos sonhos! – Observei as peças.

– Olha que trabalho perfeito e meticuloso! – Angela comentou sobre as pulseiras de couro com pingentes de madeira.

Ela e Alice se distraíram elogiando os detalhes do trabalho artesanal, mas quando olhei em sua direção, algo que acontecia atrás delas prendeu minha atenção. A vários metros de distância estava a igreja, naquele momento já fechada, e a figura do xerife Beaufort contornava a construção a passos furtivos. O estranho era que não havia nada atrás da igreja, a cidade inteira se dispunha diante do templo. Foi então percebi outra movimentação.

O vulto se misturava à escuridão, com seu sobretudo, botas e chapéu pretos. Mas eu conhecia aquela figura muito bem para identificá-lo, mesmo sendo só uma sombra no escuro, seguindo os passos do xerife.

Um arrepio percorreu meu corpo. Não via Edward há mais de um mês, desde aquele encontro desastroso. Então ele estava na cidade. Será que estava de volta ou nem sequer tinha saído?

– Bella, olha que lindo esse bordado! – Alice falou, atraindo novamente minha atenção por um momento.

– É muito bonito. – Respondi, tentando disfarçar minha inquietação.

– Finalmente encontrei Ben! – Angela comentou animada, acenando para seu pretendente a alguns passos de distância, vindo em nossa direção. – Estava esperando vê-lo desde cedo.

– E Jasper está com ele! – Alice sorriu.

– Acho que eu sobrei. – Brinquei com elas.

– Não seja boba, ninguém está sobrando! – Alice argumentou.

– Tudo bem, eu estava mesmo a fim de comer algo. – Dei uma desculpa, que me pareceu plausível, para deixá-las por um instante.

– Nós vamos com você. – Angela ofereceu.

– Não precisa. Deixem os rapazes saberem que vocês estão livres para uma dança! – Pisquei para elas e as duas riram. – Eu vou dar uma música de vantagem para vocês, é somente o tempo de comer uma fatia de torta e logo eu estou de volta.

– Você tem certeza que vai ficar bem sozinha, Bella? – Minha dama de companhia se preocupou.

– Absoluta! E vocês, lembrem-se que terão apenas uma dança antes que eu volte. Aproveitem com sabedoria.

Me retirei estrategicamente antes que os dois homens nos alcançassem. Caminhei em direção à barraca de tortas, como disse às minhas amigas; mas, quando estava fora de vista, continuei seguindo em frente em direção à igreja. Contornei a construção pelo mesmo caminho que vi os dois homens seguirem mais cedo. Pé ante pé, para não interromper o que quer que estivesse acontecendo.

– Certo, se tiver mais informações sabe onde me encontrar. – Ouvi a voz baixa do xerife antes mesmo de vê-los.

– Obrigado, xerife Beau.

Segui contornando a igreja com meus passos cautelosos e, atingi os fundos da construção, bem a tempo de ver o xerife indo embora pela outra lateral. Edward, que estava de costas para mim, virou-se lentamente e me encarou.

– Você não devia estar aqui, princesinha. – Mesmo no escuro, vi seus olhos se estreitarem em minha direção.

– Como você sabia que eu estava aqui?

– Midnight é um cavalo bem treinado. – Ele fez um gesto com o queixo indicando algo atrás de mim. Me virei e vi o animal de pelagem escura que não havia notado antes, ele se misturava no breu da noite ainda mais do que os dois homens.

– É o seu cavalo?

Edward assentiu.

– Precisei comprá-lo depois que deixei a fazenda, para me locomover. Midnight reagiu no exato momento que notou sua aproximação, mas ele não ficou agitado, o que significa que ele não identificou postura de ameaça em quem quer que fosse.

– E você sabia que era eu?

– Deduzi. – Deu de ombros. – Você é a única pessoa sem senso de autopreservação que eu conheço e que não deixa de se envolver em qualquer situação.

– Eu vi vocês dois se esgueirando para fora da quermesse, eu precisava saber do que se tratava.

– Você não considerou o quão arruinada estaria se alguém tivesse te visto vindo para cá sozinha?

– Eu fui cuidadosa.

– E não chegou a imaginar que, se o xerife tivesse percebido sua aproximação, ele poderia ter se sentido ameaçado e se armado contra você? – Ele se aproximou de mim. – Ou mesmo eu, se não tivesse deduzido que era você?

– Isso já aconteceu antes, não foi? – Acusei, me aproximando também.

– Exatamente. Por que você tinha que vir atrás de nós?

– Algo me dizia que o assunto poderia ser do meu interesse.

– E o que você concluiu? Depois do que ouviu.

– Não ouvi muito. – Confessei, derrotada. – Apenas que você pode procurá-lo se tiver mais informações, mas não captei bem a essência do tema.

– Isso não é novidade para você. Já lhe disse que o xerife Beau está me ajudando na investigação contra Aro.

– Então, quer dizer que você tem novidades sobre este assunto?

– Você sabia que eu não iria desistir.

– E o que você descobriu agora?

– É melhor você não saber, por enquanto.

– Quando então?

– No momento certo.

– Como assim? Você tem que ser sempre tão evasivo? – Reclamei, franzindo o cenho.

– Se você souber de tudo antes do tempo pode tentar fazer algo para me interromper, mas estou convicto de que tudo que estou fazendo pela sua propriedade vai ser benéfico para você também. Então, para te proteger de você mesma, é melhor que não saiba nada por enquanto.

–Você diz que faz as coisas para o meu bem e para me proteger, mas eu nem sequer consigo compreender suas meias palavras. Como vou saber se está mesmo fazendo o melhor para mim?

– Não se preocupe, princesinha. – Ele sorriu de lado e meu coração se agitou no peito. – Quando for seguro eu mesmo farei questão de lhe contar cada detalhe dessa investigação.

– E quando vai ser isso? – Cruzei os braços. – Você some e reaparece o tempo todo. Não dá nem para saber quando vai ser a próxima vez que vamos nos ver.

– É bem provável que nos vejamos bastante de agora em diante.

– O que isso quer dizer?

– Eu vou ficar na cidade desta vez. – Então ele tinha mesmo saído de novo.

– E por que isso agora?

– Não foi você que outro dia me acusou de deixar minha família preocupada sem notícias minhas? Pois bem, decidi voltar e ficar perto deles. – Ele deu um passo na minha direção. Se eu estendesse o braço conseguiria tocá-lo, e não me faltou vontade de fazer aquilo.

– Duvido que alguma observação minha tenha sido relevante numa tomada de decisão sua! Você só está tentando se desviar da verdade.

– Pense como quiser! O fato é que eu estou procurando emprego na região para ficar por perto definitivamente.

– Sabe que tem um emprego esperando por você quando quiser.

– Eu já lhe disse que é impossível voltar a trabalhar para você.

– Você é tão teimoso! – Bufei.

– Olha quem fala!

Por um minuto inteiro, nós apenas nos encaramos com intensidade. Nossos olhos praticamente travando uma batalha entre si. Estávamos perigosamente perto um do outro. Racionalmente, eu sabia que devia me afastar, mas era impossível ser racional quando ele estava por perto.

Não notei o momento exato em que isso aconteceu, mas nós nos aproximamos e logo eu estava nos braços dele. Meus olhos desceram de seus olhos para seus lábios, que estavam entreabertos, e não resisti a morder o cantinho do meu próprio. Os olhos de Edward também passaram para minha boca e seus braços aumentaram levemente a pressão em minha cintura.

Abri mão do último fio de sanidade ao qual me agarrava e puxei seus lábios para os meus. Ele correspondeu ao meu impulso de bom grado. Sua língua era voraz em minha boca, às vezes ele sugava e mordiscava meus lábios, me levando à loucura. Eu tentava corresponder igualmente, porém me sentia mais tímida.

Ele girou nossos corpos, sem desfazer nosso beijo, e colou minhas costas no que presumi ser a parede dos fundos da igreja. Apertei meus braços com mais força em torto dele, o trazendo ainda mais para perto de mim. Eu queria fundir nossos corpos.

Uma de suas mãos deslizou pela lateral do meu corpo, me causando um arrepio, até alcançar minha coxa direita por cima do tecido do vestido. Ergui aquela perna e enlacei sua cintura com ela, o sentindo cada vez mais próximo a mim. Edward continuou seguindo sua trilha com a mão pela minha perna e se infiltrou por baixo da saia, encontrando a pele do meu tornozelo, no ponto onde a borda da bota se encerrava. Gemi involuntariamente em meio ao beijo, completamente entregue a ele. A mão dele continuou subindo pela minha perna até pousar na minha coxa, onde ele beliscou com suavidade. Sem conseguir controlar meu corpo, me movimentei contra ele em busca de mais contato e contornei sua cintura com minha outra perna também, ficando completamente em seu colo. Ele se posicionou melhor para me segurar firme com aquele novo arranjo, sem romper nosso beijo, e foi sua vez de gemer, praticamente um rugido rompeu seu peito.

Após um bom tempo beijando meus lábios, ele desceu os carinhos para minha mandíbula e depois meu pescoço. Tombei minha cabeça para trás, dando a ele mais acesso à minha pele. Seus beijos desceram para o meu colo. Senti quando ele abriu os primeiros botões do meu vestido, mas eu não podia estar me importando menos com aquilo, só queria senti-lo cada vez mais, em contato com meu corpo todo. Ele afastou meu corpete para baixo expondo um dos meus seios.

Por um momento, Edward apenas admirou meu corpo exposto a ele. Ao mesmo tempo que eu me senti poderosa diante do desejo dele, eu corei sob aquele olhar intenso. Então ele voltou a beijar minha pele e eu não pude conter mais um gemido baixinho. Estava com saudade daquele toque e somente naquele momento me dei conta do quanto.

De repente, o cowboy me colocou de volta no chão e deu um pulo para trás, se afastando de mim. A princípio, eu não entendi nada, mas quando ele se virou notei que o cavalo estava um pouco inquieto, de maneira bem sutil.

– Tem alguém vindo. – Edward concluiu num sussurro. – Não podemos ser pegos assim.

– O que fazemos agora? – Sussurrei também, de olhos arregalados.

Ele fez um gesto com a mão para que eu esperasse, e por um segundo nós apenas ouvimos com atenção os passos que se aproximavam.

– O que um cavalo faz sozinho aqui, meu Deus? – Ouvimos uma voz masculina, desconhecida por mim, vindo do lado direito da igreja.

– Vai, vai! – Edward sussurrou, me conduzindo para longe da voz.

Contornei a lateral esquerda da igreja e parei quando estava fora de vista, ainda na penumbra, para ajeitar o vestido. O cowboy ficou para trás.

– Tem alguém aí? – Ouvi a voz masculina novamente.

– Boa noite, padre. A sua benção. – Ouvi a voz de Edward e concluí que era o religioso quem se aproximava.

– Deus abençoe, filho. O que está fazendo aqui sozinho?

– Eu vim pegar meu cavalo, que está preso sob aquela árvore.

Santo Midnight!

– Então este cavalo é seu?

– Sim, é meu.

– Mas por que o deixou aqui, neste lugar ermo?

– Eu acabei de chegar de viagem e, como a quermesse já tinha começado, achei que seria inoportuno da minha parte entrar cavalgando na cidade. Mas não se preocupe, eu já estou de saída e vou tirar Midnight daqui.

– Ainda é cedo! Por que não leva só o cavalo para um lugar melhor e aproveita mais um pouco?

– Como eu disse, acabei de chegar de viagem, estou cansado.

– Compreendo. Bem, pelo menos não deixe de vir outras vezes, nossa quermesse vai durar a semana toda, ficaremos aqui até próximo domingo.

– Certamente voltarei, agradeço o convite.

– E quando voltar, lembre-se que não há necessidade de deixar seu cavalo tão isolado.

– É claro, serei mais cuidadoso. Sua benção novamente, padre.

– Deus o abençoe.

Ao perceber que eles se despediam, conferi uma última vez o estado das minhas roupas, passei as mãos nos cabelos rapidamente e voltei para a festa procurando agir de maneira mais natural possível. No entanto, meu coração estava acelerado. Não sei se por ter sido tocada mais uma vez por Edward tão intimamente ou se por quase ter sido flagrada pelo padre.

Uma vez de volta à quermesse, não tive dificuldade de reencontrar minhas amigas. A dança delas já havia terminado, os rapazes competiam numa das barraquinhas de jogos mais próximas da igreja e as duas estavam apenas uns passos mais atrás.

– Bella, aí está você! – Alice acenou para mim.

– Está tudo bem? – Angela perguntou de supetão e eu me preocupei com o que minha expressão estaria transparecendo.

– Sim, só me dei conta do quanto estou cansada. – Tentei desconversar. – Tudo bem a gente ir embora agora?

Ambas assentiram. Eu devia estar mesmo parecendo derrotada, porque nem Alice, que só falava desta quermesse há dias, discutiu.

– Podemos só procurar meus pais antes de ir? – Foi a única objeção dela. – Se conheço bem o Sr. Carlisle Cullen ele deve estar só esperando a deixa para ir embora também.

Concordamos e fomos em busca dos Cullen para irmos embora. No entanto, é óbvio que nós acabamos retornando para todas as outras noites da quermesse.

~*~

Com o fim das festividades na cidade, eu voltei a pensar na contraproposta de Aro. E eu estava ficando impaciente, quanto mais o tempo passava mais eu me aproximava da ruína. Não adiantava continuar esperando, uma vez que silêncio era a única resposta que eu tinha.

Num ímpeto, montei em meu cavalo e parti decidida para a fazenda vizinha. Sabia que mandar recados não adiantaria, eu iria pressioná-lo pessoalmente a me dar uma resposta.

Ao chegar, procurei um local fresco que pudesse deixar meu cavalo, com o fim do inverno estava cada vez mais quente e desgastante para os animais. Avistei um amarradouro na sombra de um celeiro e rumei para lá. Estava atando as rédeas quando senti um braço passar por minha cintura e me levantar do chão, enquanto outra mão cobria minha boca, prendendo o grito que subiu no meu peito. Me debati contra quem me raptava, enquanto era levada aos fundos do celeiro.

A pessoa que me carregava me soltou e girou, prensando minhas costas contra a parede dos fundos da construção, ficando finalmente diante de mim para que eu pudesse ver seu rosto.

– Cowboy?! – Balbuciei, quando ele liberou minha boca.

Obviamente nos esbarramos outras vezes durante as demais noites de quermesse, mas não tínhamos voltado a nos falar. E, na fazenda de Aro, era o último lugar que eu esperava '-lo.

– O que você está fazendo aqui, Bella? – Ele espalmou ambas as mãos na parede atrás de mim, me mantendo presa entre seus braços.

– O que você está fazendo aqui? – Devolvi num sussurro irritado, com medo de que alguém nos flagrasse naquela situação.

– Eu trabalho aqui. Você é quem não devia estar aqui.

– Você está trabalhando aqui? – Ignorei sua represália. – Por quê? Você não confia em Aro!

– Nem ele em mim.

– Exatamente! Por que ele te empregaria?

– Pelo mesmo motivo que eu pedi um emprego aqui, para me manter sob vigia. Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda, princesinha! – Sussurrou, chegando bem próximo do meu rosto e me causando um calafrio.

Meu corpo não respondia a mim quando ele estava por perto. Um calor tomava conta de mim e me controlava. Meu coração batia num ritmo frenético. Fechei meus olhos e senti no nariz dele roçando levemente na minha bochecha. Um arrepio percorreu meu corpo sentindo sua respiração na minha pele.

– Você ainda não me disse, princesinha, o que está fazendo aqui. – Desta vez, seu sussurro foi bem próximo ao meu ouvido.

– Negócios. – Mal consegui pronunciar esta palavra, meus pensamentos turvos pelo contato dele.

– Você vai insistir nisso? – Seu nariz roçou suavemente minha mandíbula.

Seus lábios roçaram levemente contra os meus, naquele momento qualquer resquício de lucidez já havia abandonado meu corpo. Não resisti a tocá-lo e espalmei minhas mãos no seu peito. Era bom estar com Edward de novo e saber que ele estava bem, mesmo que naquela situação, trabalhando para o inimigo. Eu me importava com aquele cowboy mais do que deveria e gostava de senti-lo bem, em meus braços.

De repente, um barulho chamou nossa atenção e nós interrompemos nosso contanto num ímpeto, assustados. Era apenas meu cavalo relinchando do outro lado do celeiro, mas aquilo nos serviu para clarear as ideias. Empurrei Edward com força para longe de mim, não podíamos ser pegos naquela situação.

– Eu preciso concluir essa venda, cowboy. Você sabe o que está em jogo para mim e eu não posso arriscar. – Declarei, ainda com o coração acelerado pela nossa proximidade, encarando seus olhos verdes tão profundos. – Espero que você não se meta no meu caminho, porque eu não vou permitir que me atrapalhe.

O deixei parado, me encarando, nos fundos daquele celeiro, enquanto eu voltava para a frente.

Diferentemente da outra vez, quando bati à aldrava da porta da casa principal foi o próprio Aro Volturi que me atendeu.

– Srta. Swan, que surpresa vê-la aqui!

– Sim, eu sei que não agendei essa visita, mas creio que o senhor saiba por que estou aqui. – Fui direto ao ponto.

– Imagino que para falar novamente sobre a venda de suas terras, estou certo? – Assenti. – Bem, é uma pena, mas você me pegou num péssimo momento, eu estava de saída para outra reunião de negócios e não posso lhe dar atenção.

– Tudo bem, eu posso ser breve. Só preciso saber se o senhor já tem uma contraproposta para me fazer.

– Infelizmente, ainda não tive a oportunidade de me reunir com o contador. Você sabe, com os festejos na cidade e tudo mais, acabei ficando sem tempo.

Revirei os olhos. Eu estava ciente de que a quermesse tinha deixado tudo meio suspenso por uma semana na região, mas antes disso ele teve duas semanas inteiras para tratar daquele assunto.

– O senhor teria pelo menos uma previsão para me dar esta resposta? – Tentei o máximo que pude manter o tom cordial.

– Vamos fazer o seguinte, eu prometo que assim que for possível mostro aquele seu relatório ao meu contador e, quando chegarmos a um novo orçamento, eu procuro a senhorita para falar novamente sobre este assunto, está bem? Porém eu realmente preciso ir agora, ou me atrasarei para minha reunião.

Assenti e nós descemos juntos os degraus da varanda. Ele entrou na carruagem que já o esperava e eu voltei para o meu cavalo. Enquanto cavalgava para fora dali, notei Edward ao longe parado no meio do pasto, mesmo sob a aba do chapéu, pude notar que seu olhar me acompanhava fixamente. Eu só não era capaz de imaginar o que estaria se passando pela cabeça dele naquele momento.

~*~

Os dias se arrastaram sem que nada mudasse. Desde a minha conversa com Aro, uma semana inteira havia se passado, e com isso, completou um mês desde que entreguei a ele os papeis com a avaliação da minha propriedade. O tempo era marcado apenas pela rotina monótona da fazenda e pelas incertezas que pesavam sobre mim. Não houve nenhuma nova proposta, nenhuma reviravolta, apenas a sensação incômoda de que o tempo estava se esgotando. Mas eu sabia que aquilo não poderia se estender por muito mais tempo. Algo precisava acontecer. E logo.

– Bella, tem uma visita te esperando na sala. – Esme me avisou da porta do escritório.

– Obrigada, Esme. Já estou indo.

Fechei alguns cadernos sobre a minha escrivaninha, organizei os papeis e deixei o cômodo. Eu até imaginava quem estava à minha espera: finalmente era Aro Volturi com sua proposta final para comprar a fazenda. Porém, me surpreendi quando cheguei à sala e vi que outro homem estava sentado no sofá, de costas para mim, bebericando de uma pequena xícara de café.

– Xerife Beau, boa tarde. – Utilizei o diminutivo de seu nome, como toda a cidade parecia chamá-lo.

Ao ouvir minha voz, o homem se virou rapidamente, pousando a xícara junto ao conjunto de porcelana sobre a mesa de centro, e se pôs de pé.

– Srta. Swan! – Ele retirou o chapéu e o segurou sobre o peito, em sinal de respeito.

Lembrei-me que da última vez em que ele apareceu de surpresa foi para avisar sobre pistoleiros a solta na cidade, e pouco depois sofremos uma emboscada desses mesmos bandidos.

– Estou surpresa com sua visita. – Eu disse, sentando-me numa poltrona ao seu lado, indicando que ele voltasse a se sentar. Aproveitei para também me servir de um pouco de café. – Aconteceu alguma coisa?

– Receio que sim. Não estou aqui para uma conversa agradável. – Ele hesitou por um instante, parecendo escolher as palavras com cuidado. – Srta. Swan, achei melhor lhe trazer a informação pessoalmente de que seu vizinho, Aro Volturi, foi preso hoje mais cedo.

Pisquei algumas vezes, surpresa com a informação. Eu não esperava que aquilo pudesse acontecer tão rápido. Fazia cerca de um mês e meio desde que encontrei o cowboy a primeira vez na cidade, quando ele me contou sobre sua investigação. Ele já tinha conseguido sua testemunha?

– O quê?!

– A denúncia partiu de um antigo funcionário da sua fazenda, Edward Cullen. Ele que me entregou as provas de que o Sr. Volturi estava envolvido em atividades ilícitas relacionadas à grilagem de terras. – Fez uma pausa para avaliar minha reação. – E, graças aos esforços do Sr. Cullen, conseguimos prender o Sr. Volturi. Mas, como a denúncia veio de alguém que trabalhou por anos aqui, achei que era meu dever informá-la diretamente.

– Eu agradeço por ter vindo, xerife. Tudo isso me pegou de surpresa, ainda estou tentando processar a informação.

– Fique tranquila, Srta. Swan, sei que é uma notícia chocante. Continuaremos a investigar e a manteremos informada. – Colocou de volta o chapéu e fez uma leve reverência. – Se precisar de qualquer coisa, não hesite em me procurar.

– Obrigada, xerife. Redobrarei os cuidados a partir de agora.

Ele me deu um último aceno de cabeça antes de se retirar.

Dois dias se passaram desde a visita do homem da lei, e a notícia da prisão de Aro ainda pairava no ar, junto com a preocupação silenciosa que eu carregava. O começo de um novo dia trazia consigo a promessa de novas oportunidades, mas minha mente estava longe de qualquer sensação de renovação. Pela manhã naquele dia, eu apenas passeei com Jacob pelo pasto, como de costume, e depois me refugiei em meu escritório para lidar com meus livros caixa.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Depois do almoço, decidi dar uma volta a cavalo pela fazenda para clarear os pensamentos. O campo estava quase deserto, apenas alguns peões estavam à vista, espalhados a metros de distância. Supus que a maioria deles tinha se retirado para almoçar em um dos galpões, assim não pedi ajuda com o cavalo, fui até o estábulo e eu mesma escolhi o animal para montar. O conduzi até o celeiro e, antes de pôr a sela, decidi escová-lo um pouco, aproveitando a paz de estar a sós com o animal.

Até que um barulho atrás de mim chamou minha atenção. Virei-me despreocupada para ver quem estava entrando, mas a imagem com a qual me deparei não era nada do que eu esperava encontrar.

Alec estava parado na porta do meu celeiro, com uma expressão transtornada, cabelo desalinhado e roupas amarrotadas. De repente, ele levou a mão às costas e sacou uma pistola, apontando-a em minha direção, com o braço em riste. Pude perceber que sua mão tremia.

Olhei assustada ao redor, em busca de socorro ou de uma salvação, mas estávamos completamente sozinhos, exceto pelo cavalo, e eu estava encurralada no fundo do celeiro, com a única saída atrás dele.

– Alec? – Tentei manter meu tom sereno para acalmá-lo. Também evitei fazer movimentos bruscos para não assustá-lo. Porém, nada daquilo adiantou, ele parecia possuído por um espírito maligno.

– Agora é entre mim e você.

– O que você está fazendo aqui?

– Eu vim acertar as contas.

– Por favor, abaixe a arma. Você não está em condições de tomar nenhuma decisão agora.

– Meu pai está preso! – Vociferou, seu tom era de pura fúria.

– Calma, Alec, vamos conversar.

– É tudo culpa sua, vagabunda!

O estouro foi a última coisa que eu ouvi. Depois disso mais nada, nem dor, nem afiliação, apenas o vazio.

Notas finais
Bem, esta era para ter sido a última parte da história, mas como sempre eu perdi o prumo e acabei escrevendo mais palavras do que este site permite por capítulo, então eu tive que dividir mais uma vez. A próxima parte já está pronta, só não vou postar logo para vocês terem tempo de comentar a parte 2 (sim, estou biscoitando kkk). Daqui uns dias estarei de volta com a terceira e – finalmente – última parte da história. Dessa vez prometo não sumir mais por tanto tempo <3