A herdeira e o cowboy
2 Parte 1
Notas iniciais
Eu sabia que meu pai não aprovava completamente a minha escolha, apesar de não ter tentado interferir na minha decisão. Mas afinal, o que eu poderia fazer? Não podia descontar nos colonos, que dependiam dos empregos na fazenda, os problemas da minha família. Portanto, disse a mim mesma que deveria pelo menos conhecer o local.
E foi assim que eu acabei numa diligência, atravessando o deserto a caminho de uma fazenda desconhecida na Califórnia. Com sorte, conseguimos uma carruagem exclusiva para nosso grupo. Portanto, viajávamos apenas eu; meu cachorro beagle, Jacob; o advogado e uma criada. Não a mesma da casa do meu pai, esta continuaria trabalhando para ele; mas uma nova, chamada Angela Weber, contratada especialmente para me acompanhar nesta viagem.
O caminho seria longo e exaustivo, já estávamos na estrada há mais de um dia, o que significava, pelo menos, que já tínhamos percorrido a maior parte do trajeto e estávamos perto do nosso destino. Olhei pela janela e vi o sol nascendo no horizonte, logo o dia estaria quente. Mesmo sendo inverno, as temperaturas tendiam a variar bastante no deserto e, quanto mais ao sul chegávamos, mais calor fazia. Retirei a capa que usava para me proteger das baixas temperaturas, não iria mais precisar dela, e suspirei, pousando a peça dobrada ao meu lado no banco, me dando conta que dias frios não fariam mais parte da minha rotina a partir de agora.
De repente, um estouro do lado de fora da carruagem chamou minha atenção. Era tiro! Instantaneamente, o veículo passou a se mover levemente mais rápido, os açoites aos cavalos lá fora passaram a ser mais constantes e exigentes.
Outro estouro. Mais um tiro, mas dessa vez mais perto. Os assaltos a diligências não eram exatamente raros, por isso se tornou comum as companhias de transporte enviarem um segurança armado para viajar junto do cocheiro e ele tinha entrado em ação para nos proteger.
— Estamos sendo assaltados! – Constatei em voz alta, minha voz soando apavorada até mesmo aos meus ouvidos.
— E o que fazemos agora? – Angela perguntou tão assustada quanto eu.
— Rezamos! – Declarou o advogado.
Ali eu sabia que estava perdida, não havia mais o que fazer além de seguir o conselho de Jason Scott. Jacob parecia assustado também, por isso o trouxe para o meu colo e, abraçada ao meu cachorro, pedi interseção divina pelas nossas vidas.
Os tiros continuavam de ambos os lados, não dava pra saber quem estava se saindo melhor naquela batalha. Porém, alguns relinchados altos e a nossa carruagem perdendo velocidade, pareciam um péssimo sinal. Logo entendi que os cavalos estavam sendo atingidos e não dariam conta de nos fazer escapar dos bandidos. Estávamos rendidos.
Não demorou muito para a diligência parar completamente e a porta ser aberta com violência.
— Todo mundo para fora! – O bandido bradou, apontando uma pistola em nossa direção. Ele tinha o rosto coberto por um lenço, mas era possível ver os cabelos loiros compridos saindo por baixo de seu chapéu e amarrados na altura da nuca.
Assustados, um a um, fomos saindo do veículo. Primeiro a criada, depois eu, com Jacob ainda em meu colo, e por fim o advogado.
O cocheiro e o segurança já estavam rendidos, sob o poder de outro bandido com o rosto igualmente coberto. Este também usava cabelos compridos sob o chapéu, mas mantinha os fios escuros e crespos soltos pelas costas.
— Enfileirados, todos vocês! – O moreno ordenou, empurrando o cocheiro e o segurança com força em nossa direção.
— Sabe de uma coisa? Eu poderia pegar a grana, os objetos de valor e poupar a vida de vocês. – O loiro divagou andando de um lado para o outro. – Mas sem os cavalos vocês não conseguiriam ir muito longe mesmo, acabariam virando poeira de deserto de um jeito ou de outro. – Evitei olhar para os animais abatidos na frente da carruagem, enquanto ele ria diabolicamente. – Pensando pelo lado positivo, eu estou até fazendo um favor a todos vocês pondo um fim breve nessa vidinha inútil de vocês. Vejamos, em quem eu devo atirar primeiro? – Ele refletiu, olhando para cada um de nós, que tínhamos formado uma fila ombro a ombro, como o outro ordenara.
O bandido deu um passo para trás, parecia que ele tinha tomado sua decisão. Levantou sua pistola para o alto e lentamente foi descendo o braço até mirar seu alvo. Porém, antes de atingir a altura de sua própria cabeça, um estouro foi ouvido. Me encolhi com o susto, mas nem eu e nem meus companheiros de viagem havíamos sido atingidos. Ao invés disso, o bandido tinha largado a pistola no chão e urrava agarrado à mão que antes segurava a arma. Ele sangrava.
Imediatamente, outro disparo foi ouvido e o segundo bandido estava caído antes que conseguisse alcançar suas armas no coldre.
Olhei para além deles, e vi uma figura se aproximando a cavalo. Ainda estava muito longe para que eu pudesse distinguir sua aparência, mas quem quer que fosse tinha acertado em cheio o punho do primeiro assaltante e o ombro do segundo, salvando nossas vidas.
Outro tiro, agora no chão, fazendo o loiro pular para longe de onde deixou cair sua pistola. Dessa vez, o segurança agiu rapidamente, capturando a arma do chão e rendeu o fora da lei.
A galopes velozes, nosso herói se aproximava e eu pude ver que se tratava de um homem; ainda não conseguia vislumbrar seu rosto sob a sombra do chapéu, mas seu sobretudo preto, com roupas igualmente escuras por baixo, e botas de couro me indicavam que talvez ele fosse um trabalhador do campo.
Pela visão periférica, vi o bandido moreno, que estava caído, começar a reagir e, mais uma vez, o cowboy atirou. Ele claramente não era um assassino, apesar de muito bom de mira. Todos os seus disparos foram milimetricamente calculados para apenas ferir e intimidar. Como se para provar minha teoria, ele atirou mais uma vez, acertando o chão ao lado do homem caído para assustá-lo, o que foi a deixa perfeita para o cocheiro ir até criminoso e prendê-lo num golpe mata-leão.
O forasteiro finalmente chegou perto, ele desceu do cavalo parando de pé bem diante de mim. Naquele instante eu estava curiosa para ver o rosto do homem que nos salvou, mas acabei presa na profundidade do tom de verde nos olhos dele; apesar da expressão dura no rosto, aquelas íris pareciam conter o universo inteiro no fundo delas.
— Obrigada, senhor! – Consegui proferir depois de longos segundos imersa naqueles olhos.
— Vocês não deveriam viajar apenas com o segurança da diligência. – Ele foi dizendo num tom duro, desviando seu olhar de mim e me fazendo quase desfalecer nas minhas pernas bambas. – O ideal era que para cada donzela na diligência houvesse um homem armado.
— Eu sou advogado e não pistoleiro! – Jason Scott rebateu se sentindo atingindo por aquela afirmação.
— Então, senhor advogado, talvez você também precise viajar com um homem armado para protegê-lo. – O cowboy retrucou sem sequer olhar para ele, enquanto pegava um maço de corda no alforje de seu cavalo. – Me ajudem a amarrar esses dois!
Scott bufou ao meu lado e eu prendi o riso inoportuno. O cocheiro e o segurança foram auxiliar o forasteiro, que se mostrou não ser bom apenas de mira, mas também provou saber dar nós bastante firmes. Eu duvidava que os bandidos fossem capazes de fugir de alguma forma depois que foram amarrados por ele.
— Bem, eu estou indo para a cidade e vou levar esses dois para o xerife. – Nosso herói declarou, montando de volta em seu cavalo, segurando a ponta da corda que prendia os bandidos.
— Senhor, espere! Pode pelo menos nos dizer seu nome? – Tentei dizer, mas o cowboy já tinha partido em seu cavalo a passos alongados, obrigando os bandidos amarrados a seguirem caminhando atrás dele.
O cocheiro prendeu à diligência os dois cavalos que os bandidos usavam, no lugar dos quatro animais abatidos no assalto, mas com o número de cavalos reduzido pela metade, demoramos cerca de duas horas a mais que o previsto para chegarmos na estação, onde Scott tinha outra carruagem a nossa espera.
Eu estava exausta da viagem, a transferência das bagagens para outra carruagem parecia nunca ter fim. Quando, finalmente, a segunda carruagem passou pela porteira de uma propriedade, eu quase desfaleci de alívio. Aquilo só podia significar que tínhamos chegado na fazenda.
Olhei pela janela, tentando absorver a paisagem. O caminho que percorríamos não era muito extenso, ao final dele, bem ao centro, havia uma casa grande cor de barro. Do meu lado da janela dava para ver o que parecia ser o celeiro, o estábulo, o curral e algumas outras construções necessárias para o funcionamento de uma fazenda de criação de gado que eu não conhecia. Tentei olhar também pela outra janela, no lado oposto da carruagem, mas por ela só vi o pasto para o gado e, mais além, uma floresta densa.
Quando a carruagem se aproximou da edificação principal, um casal saiu pela porta da frente e parou na varanda para nos receber. O cocheiro estacionou bem em frente à casa e Scott foi o primeiro a desembarcar, estendendo a mão para me ajudar a descer em seguida. Ele me conduziu pelos degraus da frente até pararmos junto ao casal.
— Bom dia! – O homem loiro nos saudou.
— Bom dia. – Respondemos juntos.
— Estávamos à espera de vocês. – A mulher de cabelos castanhos claros acrescentou.
— Sinto muito, tivemos um imprevisto durante a viagem. – Scott explicou.
— Algo sério? – Ela perguntou preocupada.
— Sim, mas está tudo bem agora. – Resumi a conversa, não querendo me prolongar no assunto do quase assalto.
— Srta. Swan, estes são Carlisle e Esme Cullen. Ele é o caseiro da propriedade e ela é a governanta da residência, os dois irão ajudá-la no que for preciso. – O advogado me apresentou – Sr. e Sra. Cullen, esta é Isabella Swan, herdeira da fazenda.
— Seja bem-vinda, querida! – A mulher, Esme, me saudou com simpatia, segurando minhas mãos num gesto pouco formal.
— Bem, agora que as apresentações foram feitas, creio que o senhor e a senhora Cullen possam guiar a senhorita a partir daqui. Eu preciso partir agora, tenho outro cliente me esperando no escritório.
— É claro. – A Sra. Cullen assentiu com cortesia, enquanto Scott se afastava de nós com uma mesura formal.
Ele retornou para a mesma carruagem que nos trouxe, onde o cocheiro acabava de descarregar a bagagem e a criada havia desembarcado com Jacob firmemente preso pela coleira.
—Srta. Swan, deseja conhecer a propriedade? Eu posso acompanhá-la. – O caseiro sugeriu e eu fiz uma careta.
— Por favor, me chamem apenas de Bella, certo? Ainda não estou acostumada com essa ideia de ser a patroa.
Os dois assentiram.
— E não, eu gostaria de conhecer a propriedade só depois de descansar um pouco, a viagem foi muito longa. Mas antes, quero que conheçam Angela Weber, ela será minha criada pessoal.
— É um prazer conhecê-los. – A criada se curvou para o casal.
— Por favor, querida, não seja tão formal. – A governanta pediu com um sorriso gentil. – Aliás, podem nos chamar pelo primeiro nome, não é mesmo, Carlisle?
Ele assentiu, porém tive a impressão de que ele concordaria com absolutamente qualquer coisa que sua mulher dissesse.
— Tudo bem. – Angela e eu concordamos juntas.
— Bem, e este rapazinho aqui é o Jacob, meu fiel companheiro. – Concluí as apresentações, indicando o cachorro.
— Olá, Jacob! – A governanta falou, fazendo carinho no animal.
Jacob sacudiu o rabo e lambeu a mão da mulher, mas logo em seguida ficou ofegante, com a língua para fora.
— Acho que ele está com sede. – Angela observou.
— Há algum lugar onde Jacob possa beber água?
— Bem, tem um riacho nos fundos da casa, onde o gado também toma água. Mas não precisa ir até lá, na cozinha com certeza alguém pode arranjar uma tigela para o Jacob. – Carlisle explicou.
— Angela, você pode cuidar disso para mim, por favor?
A criada assentiu ao meu pedido.
— A entrada dos funcionários fica na lateral da casa. – Esme apontou a direção. – Não tem erro, é a única porta deste lado e vai dar direto na cozinha.
— Pode ir, Angela. Por ora esse parece ser o caminho mais fácil, mas no futuro saiba que eu não vou exigir que os funcionários usem a porta dos fundos, todos podem usar a porta da frente quando for conveniente. – Me dirigi ao casal também e os três assentiram.
A moça partiu levando Jacob, e eu, Esme e Carlisle permanecemos na varanda, observando a carruagem que levava o advogado. Quando o veículo cruzou o portal da fazenda, eu estava pronta para me voltar ao casal e pedir a que eles me levassem a um lugar onde eu pudesse descansar, mas algo chamou nossa atenção. Uma nuvem de poeira indicava que tinha mais alguém chegando pela mesma estrada em que a carruagem partia. Alguns segundos mais tarde, foi possível identificar um cavalo galopando com duas pessoas sobre seu lombo. Quando a poeira se dissipou um pouco, meu coração pulou uma batida ao reconhecer o sobretudo preto, o chapéu e as botas de couro. O destino estava me colocando cara a cara mais uma vez com o meu herói do deserto.
— Quem é aquele?
— Ah, é o Edward! – Esme respondeu com uma alegria descomunal, mas que não deixava nada muito claro para mim.
— É o nosso filho mais velho. – Carlisle esclareceu.
— Ele foi buscar a irmã na estação. – Esme completou, mas seu olhar ainda estava brilhando fixamente na direção dos filhos sobre o cavalo.
— Nossa filha caçula estava fora, estudando para ser professora. – Carlisle explicou, claramente com orgulho da filha. – O irmão fez questão de mandá-la para estudar no Leste, ele usou parte do salário como peão para realizar este sonho dela.
— Ele parece ser um bom homem. – Comentei.
— Ele é sim. – Disse Esme com o mesmo orgulho de seu marido.
Não dissemos mais nada até o cavalo parar à nossa frente.
— Mamãe! – A moça foi a primeira a saltar do lombo do animal, com uma agilidade que me fez acreditar que ela tinha o hábito de andar de carona com outros cavaleiros. Ela correu degraus acima e se jogou nos braços da governanta. – Eu estava com tantas saudades!
— Também senti sua falta, querida. – Ela prendeu a filha num abraço terno e apertado.
Enquanto isso, o rapaz também desceu do cavalo e subiu os degraus, porém com menos pressa que sua irmã.
— Papai! É bom vê-lo também. – A jovem sorriu para o pai, saindo dos braços da mãe.
— Edward, eu não te vi essa manhã! – Esme falou com o filho, seu tom parecia uma leve bronca, mas ela o puxou para um abraço tão apertado quanto o que deu na filha.
— Eu queria sair cedo, para não me atrasar para buscar Alice na estação.
— E você falhou. – A garota acusou, fuzilando o irmão com os olhos.
— Temo que a culpa disso seja minha. – Me intrometi.
Três pares de olhos confusos pousaram sobre mim.
— Vocês se conhecem? – Esme perguntou.
— Minha diligência foi assaltada no deserto, já estávamos todos nas mãos dos bandidos quando seu filho apareceu, rendeu os criminosos e os levou para a cadeia. – Expliquei.
Ela fez uma expressão de espanto.
— Estão todos bem?
— Felizmente sim, graças ao Sr. Cullen. – Meneei a cabeça, indicando que falava do mais novo.
— Edward. – Ele me corrigiu. – Aqui eu sou apenas Edward. Sr. Cullen sempre foi o meu pai.
— É bom finalmente saber seu nome, cowboy. – Falei me curvando educadamente para ele.
— É uma pena que eu não possa dizer o mesmo sobre seu nome.
— Edward e Alice, esta é a Srta. Isabella Swan. – Carlisle me apresentou.
— Então, a princesinha da diligência no deserto é a Srta. Swan, neta dos Higginbotham?
Corei pela forma como ele me chamou.
— Apenas Bella. Eu prefiro que todos me chamem só de Bella.
— Gostei de você! Vai ser bom ter uma amiga aqui. – A garota falou sorrindo para mim.
— Alice, ela é nossa patroa! – O pai a repreendeu.
— O que não nos impede de sermos amigas. – Sorri de volta, porém um pouco mais tímida.
— Se me derem licença, eu preciso voltar para o trabalho na fazenda. – Edward mudou de assunto, puxou levemente a aba do chapéu e se retirou.
Então isso significava que ele também trabalhava na fazenda. Me animei com a possibilidade de vê-lo com frequência no dia a dia.
— Bem, eu vou pedir para as cozinheiras começarem a preparar o almoço. – Esme falou. – Carlisle, você mostra o quarto para Bella, querido?
Ele assentiu e me chamou.
— Depois eu venho pegar sua bagagem e a levo até a senhorita. – Me tranquilizou.
Entramos na casa, passamos apenas pelo hall de entrada e subimos pela escada que lá ficava. No andar de cima, viramos à direita e paramos à frente de uma das portas.
— Esse quarto não é...? – Não consegui terminar a frase, sem saber como não soar arrogante.
— Dos seus avós? – Ele concluiu e eu assenti. – Este é o quarto principal da casa, reservado para os proprietários. Mas não se preocupe, nós imaginamos que a senhorita ia se sentir mais à vontade num quarto com a sua cara. Já tiramos todos os itens pessoais dos seus avós e trocamos tudo, os móveis ainda são os mesmos, mas lençóis, cortinas, travesseiros, são todos novos. A senhorita pode redecorar como preferir, qualquer coisa que quiser mudar é só pedir, que ficarei feliz em providenciar.
— Obrigada. – Sorri sinceramente grata a ele e a esposa por terem pensado nisso.
Abri a porta e entrei. O quarto era grande, com janelas imponentes, uma cama de dossel no centro, em frente a ela ficava uma lareira, um tapete macio completava o ambiente. Uma porta na parede da direita levava ao quarto de vestir.
Carlisle não demorou a voltar com minhas malas e eu o agradeci mais uma vez. Deixei as bagagens no mesmo lugar onde ele as largou, perto da porta do quarto de vestir, cansada demais para arrumar qualquer coisa. Uma vez que caí sobre a cama, adormeci sem demora.
~*~
Acordei horas mais tarde e percebi que estava chovendo. Aproveitei então para conhecer a casa melhor. Carlisle me acompanhou. No andar de cima havia 5 dormitórios, um banheiro e o quarto de vestir, conectado ao meu.
No andar de baixo, eu já conhecia o hall de entrada. De um lado dele, ficava a sala de jantar, do outro, a sala de estar formal, nos fundos ficava a sala de estar íntima e perto da sala de jantar ficava a cozinha com o escritório da governanta.
— E este era o escritório do seu avô. – Carlisle encerrou nosso tour no ambiente entre a cozinha e a sala íntima. – Todos os documentos e papéis importantes ficam nas gavetas da escrivaninha, o cofre fica atrás daquele quadro. – Ele apontou. – Infelizmente eu não tenho a senha. Talvez a senhorita a encontre escrita em algum lugar. E aqui há um mapa da propriedade. – Ele pegou um tubo na estante e me mostrou.
— Obrigada. – Agradeci.
— Há algo mais que eu possa fazer pela senhorita?
— Por enquanto não. Obrigada, Carlisle.
— Disponha!
Ele se retirou e eu continuei no escritório. Pensei em escrever para o meu pai avisando que tinha chegado e que estava tudo bem.
Após escrever a carta, continuei explorando o ambiente, analisei os livros na estante e acabei encontrando em uma das gavetas o livro da contabilidade da fazenda. Eu era muito boa com números na escola, então comecei a folheá-lo, testando se eu entendia alguma coisa. Para minha surpresa, achei todos aqueles dados muito interessantes. Quando percebi já era noite.
O dia seguinte também amanheceu chovendo, então mais uma vez passei todo no escritório. Os números do livro eu compreendia muito bem e tudo estava perfeitamente registrado, porém havia gastos ali que eu não sabia para que serviam.
— Por favor, peça a um dos peões que venha aqui. – Pedi a Carlisle quando ele apareceu naquela manhã, perguntando se eu precisava de algo.
— Alguém específico?
— Não. Só preciso que seja alguém que entenda bem o funcionamento de tudo na fazenda.
Ele assentiu e me deixou sozinha novamente com os números. Algum tempo depois ouvi batidas na porta do escritório e autorizei a entrada. O caseiro tinha mandado justamente seu filho, Edward.
— Mandou me chamar?
Assenti e pedi que ele se sentasse à minha frente. Comecei a tirar minhas dúvidas e não foi surpresa ele responder tudo prontamente, eu sabia que Carlisle não o chamaria apenas por ser da família, se ele estava ali era porque tinha competência.
Passamos aquele dia inteiro conferindo notas e listando os insumos da fazenda. Ele aproveitou para me atualizar sobre itens que estavam em baixa e eu os anotei para repor depois.
~*~
Depois de três dias de chuva, no quarto dia finalmente acordei vendo a luz do sol entrar pelas cortinas. Aquilo me alegrou automaticamente. Sentei-me na cama apenas curtindo a claridade do dia. Naquele instante, soaram duas batidinhas na porta e Angela colocou sua cabeça para dentro do quarto, após abrir uma fresta da porta.
— Bom dia.
— Muito bom dia! – Sorri alegre.
— A senhorita vai descer para tomar café ou eu o trago aqui? – Perguntou entrando no quarto.
— Está um dia lindo! Eu vou aproveitar para passear com Jacob e na volta, por favor, peça para me servirem na varanda.
Ela assentiu. Me troquei com sua ajuda, depois desci e coloquei a coleira no meu cachorro. Estava prestes a sair e dar uma volta com ele, mas ao abrir a porta da frente me deparei com um homem desconhecido na varanda. Não era um dos peões, este estava bem-vestido e tinha uma postura elegante.
— Bom dia, senhorita! – Sorriu para mim e puxou minha mão depositando um beijo no dorso, de maneira galante.
— Bom dia, senhor...
— Que indelicadeza a minha! Deixe eu me apresentar: sou Aro Volturi, dono da fazenda aqui ao lado.
— Isabella Swan. – Me apresentei de volta.
— Eu soube que esta fazenda tem um novo proprietário e pensei em vir dar meus cumprimentos. A senhorita poderia chamá-lo? Eu gostaria de trocar algumas palavras com ele.
— O senhor já está falando com a proprietária das terras.
— É um enorme prazer falar com uma senhorita de tanta estima, mas eu insisto, eu gostaria de falar com o responsável pela propriedade.
— Sou eu mesma. – Cruzei os braços irritada.
— A senhorita não tem um homem que responda por você?
— O senhor vai dizer a que veio?
— Bem, eu estive pensando: talvez o dono desta...
— Eu! – Interrompi.
— Claro. Talvez a senhorita tivesse outros planos antes de herdar essa fazenda. Viajar, quem sabe? Ou visitar modistas? – Sugeriu.
— Não, eu não tinha muitos planos antes. Pretendo ficar exatamente aqui e estou satisfeita com as roupas que tenho. – Olhei para o vestido perfeitamente novo que eu usava.
— Sabe, mas a senhorita deve ter outras prioridades na vida e eu pensei que talvez fosse precisar de ajuda para administrar os novos negócios.
— Estou perfeitamente bem!
— Ainda assim, gostaria de oferecer meus préstimos.
Haja paciência!
— Eu tenho administrado minha fazenda aqui ao lado com muito zelo e poderia fazer o mesmo por essas terras aqui, não seria nenhum dispêndio. – Ele continuou.
— E o que eu ganho com isto?
— Mais tempo livre, é claro.
— E...?
— A parte que lhe couber dos lucros da terra.
Precisei de todo meu esforço para não rir na cara dele, porque aquilo tinha que ser uma piada. Eu receber “a parte que me couber” nos lucros da minha própria fazenda!
— Algum problema? – Edward perguntou se aproximando; ele subia os degraus da varanda, vindo em nossa direção.
— Imagino que você seja o senhor desta casa. O noivo da Srta. Swan, acertei?
— Não. – Respondeu, taciturno. – Ela é a única senhora desta casa.
— Sabe, senhor, eu realmente gostaria que me ouvisse. Eu tenho uma proposta...
— Todas as propostas devem ser dirigidas a ela! – Edward o interrompeu. – E se a dama não tem interesse em ouvi-lo eu peço, por favor, que se retire.
— Eu poderia administrar essa fazenda como ninguém mais!
— Por favor, senhor, se não tem nada melhor para dizer, peço que nos dê licença. – Me esforcei para manter a educação.
— O senhor ouviu a dama! – Edward praticamente o conduziu para fora da varanda.
Bufei de raiva e Jacob choramingou quando o arrastei de volta para dentro de casa, mal me dando conta que ainda segurava sua coleira.
— Sinto muito, amigo, mas vamos ter que deixar o passeio para mais tarde!
— O que houve? – Alice perguntou entrando no cômodo.
— Simplesmente o homem mais insolente da face da terra!
— Já conheceu o vizinho?
— Como você adivinhou?
— Eu praticamente nasci nessa fazenda, Bella! Conheço a capacidade do Sr. Volturi de ser desagradável. Você só não devia deixar aquele patife estragar seu dia.
Bufei de novo, ainda muito irritada.
— Mamãe disse que você ainda não tomou café da manhã, que tal comer um pouco? – Sugeriu.
— Você me acompanha?
Ela assentiu. Tomamos café juntas, Alice me contando várias histórias de sua infância na fazenda. Depois da refeição, saímos para o passeio com Jacob. Desta vez, ela contava sua experiência de estudar no Leste, enquanto eu também contava um pouco sobre a minha vida no Norte.
Após o almoço, pensei que poderia aproveitar o sol para conhecer o resto da propriedade. Apesar de ter andado um pouco com Alice e Jacob, não nos distanciamos muito da casa e, portanto, não vimos nem metade da fazenda.
Entrei no celeiro em busca de alguém que pudesse me guiar. Havia quatro cavalos lá dentro e dois homens, um de pé escovando os cavalos e um deitado sobre um maço de feno, com seu chapéu sobre o rosto.
— Boa tarde!
O que estava deitado levantou-se ao ouvir minha voz e eu vi que se tratava de Edward.
— Boa tarde. – O outro me respondeu.
— Emm, esta é a Srta. Isabella Swan. – Edward me introduziu ao colega.
— Apenas Bella.
— Emmett McCarty. – Ele se apresentou de volta.
— É um prazer conhecê-lo. – Me curvei levemente com educação.
— A senhorita precisa de alguma coisa? – Edward perguntou.
— Eu vim ver se algum de vocês poderia me acompanhar num tour pela fazenda.
— Emmett?
— Sinto muito, amigo, mas essa é com você. Estou ocupado aqui. – Ele mostrou a escova que passava no pelo dos animais.
— Deixa que eu escovo os cavalos. – Pediu, se ponde de pé.
— Por que isso? Eu já estou fazendo. Além do mais, tenho certeza de que você faria um tour muito mais completo com a Srta. Bella do que eu.
— É só um passeio, cowboy. Não vou te torturar nem nada parecido. – Falei.
— Vou preparar a charrete. – Ele respondeu, parecendo insatisfeito de ter que me acompanhar.
— Não precisa! – Declarei. – Podemos montar cavalos individualmente.
— Tem certeza? A charrete não seria mais apropriada?
— Um cavalo selado está bom. – Afirmei.
Emmett já selava um dos animais e Edward foi fazer o mesmo com outro. Depois, montamos e partimos juntos. Passamos à frente da casa e chegamos ao pasto que ficava mais além.
— A floresta também está nas suas terras. Mas fica numa área acidentada e não é vantajoso explorá-la para pasto, por isso foi apenas preservada. – Me explicou apontando a mata adiante.
Seguimos cavalgando em direção aos fundos da casa.
— Sua propriedade vai além do rio. – Disse quando paramos diante do riacho que Carlisle mencionou no primeiro dia. – Na época de seca o gado consegue atravessar para o pasto do outro lado. Agora, com as chuvas recentes, o rio está cheio e muito profundo para o gado atravessar.
Assenti.
— Mas a chuva também fez brotar o pasto deste lado, de forma que não precisa se preocupar do gado ficar desnutrido e seu produto perder qualidade.
— Nem tinha pensado nisso. – Era estranho pensar nos animais como meu produto e que eu teria de me preocupar com o seu valor de venda.
Edward assentiu e me chamou para continuar nossa cavalgada. Voltamos na direção do celeiro, mas como eu já conhecia aquela construção, passamos direto, seguindo para as edificações mais além.
Ele me mostrou os estábulos, o curral, o comedouro e terminamos no galpão de armazenamento de insumos, onde ele fez questão de entrar e me mostrar os detalhes.
— Aqui temos ferraduras, selas, grãos para inteirar a pastagem... – Ele ia apontando cada item que havia ali e eu me esforçava para absorver tudo.
Durante uma semana inteira eu apenas observei a rotina da fazenda. Acompanhei os peões no campo, também aproveitei para me inteirar melhor do trabalho dentro da casa. Edward estava sendo bastante prestativo em me explicar tudo o que eu não conhecia e também em me apontar as falhas e os acertos da gestão do pessoal que vinha desde a época dos meus avós. Com a ajuda dele, consegui já nesta primeira semana implantar melhorias.
Na semana seguinte, já compreendendo melhor a logística de tudo, tirei alguns dias para ir até a cidade comprar as coisas que Edward tinha me sinalizado. Nos dias que se seguiram também atendi dois empresários interessados em adquirir nosso gado e fiquei surpresa com o meu talento de negociação.
Os dois clientes eram homens e, lógico, tentaram me desmoralizar quando viram que iriam negociar com uma mulher. Depois me fizeram propostas absurdas, como se fossem mais espertos ou como se eu não soubesse lidar com os números. Porém, me mantive firme, não fraquejei nos meus argumentos e rebati cada contraproposta deles. No fim, consegui vender o gado para ambos por um preço maior até mesmo do que eu tinha visto nos livros de registro da fazenda.
Além disso, consegui diminuir os gastos com insumos. Primeiro pesquisando preços, negociando ofertas e trocando fornecedores. Segundo, com a ajuda de Edward, elaboramos uma nova lista de compras, reduzindo desperdícios e focando no que era realmente necessário.
Com o aumento nos lucros e a redução nos gastos, eu começava a cogitar a possibilidade de aumentar o salário dos funcionários, afinal eram eles quem produziam e não era justo os manterem à parte dos resultados. Porém, muitos cálculos estavam envolvidos neste planejamento; por isso, ao final daquela semana, fiquei imersa no meu escritório para analisar a viabilidade no aumento de salários. Um trabalho bastante minucioso, com muitos detalhes e que, após me tomar quase um dia inteiro, ainda estava bem longe de ser concluído.
Percebi que eu já estava trancada no escritório vendo números e comprovantes há muito tempo, precisava tomar um ar. Saí e notei a casa bastante vazia, não havia nenhuma camareira passando para o andar de cima com travesseiros ou barulho de conversas na cozinha, coisas que eram constantes numa casa com tantos empregados.
Saí para a varanda e vi Alice e Angela passeando com Jacob pelo campo enquanto conversavam.
— Alice! Angela! – Chamei, indo na direção delas, as duas pararam a caminhada e se viraram para mim. – Vocês sabem por que a fazenda parece tão vazia?
Observei que mesmo no campo não havia tantos peões quanto de costume.
— Acho que a maioria dos empregados já foram. – Alice respondeu.
Nós três voltamos a caminhar, indo na direção das outras construções da fazenda.
— Tão cedo? – Estranhei.
— É que hoje é a primeira lua cheia do ano e vai ter uma festa na fogueira na colônia. Sempre que isso acontece todo mundo adianta os trabalhos e aproveita os horários de folga para sair mais cedo.
— E vocês, não vão a essa fogueira? – Perguntei.
— Sim, eu já estava indo para casa me arrumar. – Alice respondeu.
Angela deu de ombros.
— A senhorita não vai precisar de mim à noite? – Ela perguntou timidamente.
Eu entendia seu ponto, afinal ela era minha criada pessoal e estava quase o tempo todo ao meu lado. Mas se ela queria ir a uma festa na colônia bastava ter me informado, eu não iria me opor.
Eu estava prestes a dizer isso a ela, quando Alice falou:
— Você também devia vir, Bella! Vai ser divertido.
— Ah, eu não fui convidada.
A colônia era onde moravam a maioria dos funcionários das fazendas, então provavelmente era uma festa de peões e eu duvidava que uma patroa fosse bem-vinda.
— Bobagem, a festa da fogueira é para todo mundo.
Enquanto andávamos, chegamos à sombra do celeiro, de onde saíram Edward e Emmett.
— A princesinha na festa da fogueira na colônia, Alice? Acho que não daria certo. — O Cullen falou de seu jeito petulante de sempre, cruzando os braços e se escorando relaxadamente à parede.
— Por que não? – Desafiei com uma sobrancelha erguida.
— É uma reunião simples, com pessoas humildes, não é o tipo de lugar para uma princesinha rica.
— Na verdade, meu amigo, acho que a ideia é boa. – Emmett deu uma tapinha no ombro dele e se voltou para mim. – A senhorita seria muito bem-vinda!
— Sendo assim, acho que vou aceitar o convite. – Sorri para eles. – Vamos, Angela?
A criada assentiu com um sorriso. Edward bufou.
— Vocês querem que eu venha encontrá-las para irmos juntas? – Alice ofereceu.
— Seria bom. – Concordei.
— Então nos vemos mais tarde. – Ela se despediu. – Me acompanha até em casa, Edward?
Ele assentiu e se despediu de nós puxando levemente a aba do chapéu.
— Bella, se a senhorita não se opor eu também gostaria de ir agora. – Emmett falou assim que os dois irmãos deram as costas.
— Tudo bem, Emmett, pode ir.
— Então, até mais tarde. – Ele também puxou a aba do chapéu e saiu.
Voltei com a criada para dentro de casa, para que pudéssemos nos arrumar. Quando estávamos prontas, ficamos na sala esperando Alice chegar para irmos juntas.
Alguém bateu à porta e eu mesma fui atender, pensando ser Alice, mas na varanda estava um dos peões, segurando seu chapéu sobre o peito.
— Boa noite, Srta. Bella, ouvi dizer que a senhorita vai à festa da fogueira e pensei em me oferecer para acompanhá-las no caminho. – O homem se dirigiu a mim com cordialidade, mas seus olhos frequentemente vagavam na direção de Angela, que me seguia.
— Bem, eu estou esperando os Cullen para irmos juntos. – Ele pareceu murchar diante da minha resposta. Porém, me virei para minha criada. – Angela, você gostaria de acompanhar o senhor...?
— Ben Cheney, senhorita! – Ele respondeu, notando que eu não me recordava seu nome, com uma alegria quase infantil estampada no rosto.
— Então, gostaria?
— Com certeza! – Ela respondeu com um sorriso idêntico ao dele e as bochechas levemente coradas.
— Então podem ir na frente, eu vou continuar esperando os Cullen.
Os dois acenaram para mim e se foram. Não demorou muito até finalmente ser Alice que estava batendo à porta. Ela, Carlisle e Esme estavam numa charrete, mas eu já havia mandado preparar a minha e iria usá-la. Alice se ofereceu para ir comigo, para não me deixar sozinha. O que foi ótimo, porque eu queria mesmo conversar com ela.
— Seu irmão não vai? – Perguntei, vendo apenas seus pais no veículo que estávamos seguindo.
— Ele mora numa casa de solteiro na colônia e a essa altura já deve estar na festa.
— Alice, falando no seu irmão, – Introduzi o assunto – Ele pareceu não gostar muito de mim. Você sabe o que eu posso ter feito para deixá-lo assim?
— Você não fez nada, Bella. Outra pessoa fez, agora ele não confia nas mulheres, em geral. – O assunto parecia deixá-la brava.
— Eu já o vi com você e não é do mesmo jeito que ele age comigo.
— É diferente, Bella. Eu sou família! – Ela pareceu debater internamente se me contava ou não. Por fim, parecia que o lado que queria contar venceu. – Edward teve o coração partido pela noiva.
Ele era noivo? Eu não sabia. E onde será que estava essa noiva?
— Foi anos atrás. – Alice prosseguiu. – Ele era jovem, mas ele e Maria tinham a mesma idade e cresceram juntos. Eu não fiz tanta parte disso porque nasci seis anos depois, eu era apenas a irmã mais nova pirralha, mas eu vi os dois juntos e eu conheço meu irmão. Quando os dois cresceram, ele achou que era certo pedir Maria em casamento, ele tinha acabado de ser contratado para trabalhar na fazenda e estava juntando todo seu salário para o casamento.
— E o que aconteceu? – Perguntei interessada.
— Maria foi uma boa amiga para ele durante a infância, mas não estava tão envolvida naquele noivado quanto meu irmão. Na época, a ferrovia estava chegando à cidade e Maria sempre foi oportunista, o filho do dono da estrada de ferro veio com o pai acompanhar as obras. Ele se interessou por Maria e ela na mesma hora desmanchou o noivado com meu irmão para se casar com um homem rico.
— Biscate!
— Eu sei! – Retrucou furiosa. – Eu era só uma adolescente quando isso aconteceu, mas lembro como meu irmão ficou arrasado. Depois disso ele nunca mais foi o mesmo, nunca mais pensou em se casar e afasta qualquer mulher de respeito. O dinheiro que ele estava juntando para o casamento, ele usou para me mandar estudar no Leste. Ele disse que se não podia realizar seu sonho faria de tudo para me dar o meu.
— Ele é um homem bom.
— É sim!
— Agora tudo faz sentido! Outro dia ele me disse num tom acusatório que eu tinha um teto sobre minha cabeça, sem precisar depender de ninguém para isso. Eu não sabia que ele tinha sido trocado por alguém com posses.
— Na verdade, isso é outra coisa que não é culpa sua. – Alice suspirou. – A casa da minha família pertencia aos seus avós e Edward esperava que eles deixassem a casa para meus pais no testamento, porém você herdou tudo e acho que ele se ressente por isso.
— Então é por isso que ele parece sentir tanto rancor de mim? Amanhã mesmo eu vou pedir ao advogado para preparar o documento de transferência da casa.
— Não, Bella, meus pais não fazem questão de serem donos de nada, apenas meu irmão pensa que isto seria o justo.
— E eu concordo com ele!
— Não se preocupe com isso, está certo?
Não pudemos prosseguir com o assunto, porque a colônia já estava visível diante de nós. Mas fiz uma nota mental de providenciar a doação da casa para os Cullen.
Prendemos os cavalos no amarradouro mais próximo e seguimos para onde a festa já acontecia. A colônia era composta apenas por uma rua, com as residências dos trabalhadores do campo de ambos os lados; a cidade era onde ficavam o banco, o saloon, a hospedaria, a igreja, os comércios, os escritórios e as casas dos homens de negócios, e ficava um pouco mais distante da fazenda.
No centro da única via da colônia a fogueira estava acesa. Sentados em troncos perto dela, três homens tocavam banjo e cantavam, perto deles algumas pessoas dançavam. Mais distante do fogo, havia uma mesa com comidas e bebidas, além de outras mesas menores onde as pessoas estavam sentadas. Avistei Angela e seu acompanhante numa delas, acenei pros dois e acompanhei os Cullen indo nos sentar em outra mesa vazia.
Varri a festa com o olhar e encontrei Edward mais além da fogueira, outros peões estavam por perto e eles pareciam se divertir, rindo bastante. Percebi que eu nunca tinha visto Edward sorrir, pelo menos não sem cinismo.
Ele sacou a pistola do coldre, me deixando confusa. Se estavam todos se divertindo, se era uma festa pacífica, por que ele precisava sacar a arma? No entanto, ao invés de mirar em alguém, ele virou-se de costas para todos. Então eu vi, a certa distância, havia uma mesa com garrafas de vidro em cima. Edward começou a disparar e uns segundos depois todos os vidros tinham sido estourados. Os outros homens vibraram, parabenizando o cowboy pelo feito.
— Homens! – Alice bufou ao meu lado e eu percebi que os encarava tão fixamente que me esqueci da companhia dela e de seus pais.
Emmett apareceu para nos cumprimentar, o que me salvou de ter que responder a garota.
— Que bom que veio, Bella!
Sorri, agradecida. Ele pediu que ficássemos à vontade, disse que podíamos nos servir de comida e bebida na mesa maior que vi na chegada e logo se despediu, pois voltaria para junto da esposa.
Outros funcionários da fazenda passaram por nossa mesa também, para desejar boa noite. Alguns pareciam intimidados pela minha presença, mas tratei de tranquilizá-los, não queria construir aquela imagem de patroa carrasca com eles. Esperava que pudéssemos ser todos bons amigos, eu acreditava que assim o trabalho se tornava mais agradável.
— Bella, quer jogar argolas comigo? – Alice me chamou depois de algum tempo.
Assenti e ela praticamente me arrastou para perto de onde antes os peões estavam atirando. Novas garrafas tinham sido posicionadas sobre a mesa e uma linha foi marcada no chão. Os peões não estavam mais por perto, mas vi Edward dançando com uma mulher voluptuosa perto da fogueira.
Alguém colocou 5 argolas de madeira na minha mão, desviando minha atenção para o jogo que Alice me convidou. Ela também já tinha suas argolas nas mãos, ao que parecia seria uma competição entre nós duas. Ela ficou atrás da linha e atirou as argolas, acertando todas 5. Depois foi minha vez de jogar, mas eu só acertei 2 garrafas. Alice comemorou ao meu lado, feliz por ter vencido aquela rodada.
Outra mulher, que tinha vencido a rodada anterior, desafiou Alice para ver qual das duas era melhor. Saí de perto tentando passar despercebida, mas até chegar à mesa onde estavam Carlisle e Esme eu teria que passar pela fogueira, pelos músicos e, óbvio, por Edward e sua companheira de dança.
Percebi que ele estava com outra, dessa vez era uma loira alta que fazia questão de tocá-lo sem pudor durante a dança. Apressei o passo e tentei passar despercebida, mas fui interceptada por um garotinho de aproximadamente 10 anos.
— A senhorita me concede uma dança? – O menino me estendeu a mão, de acordo com as regras de etiqueta.
Eu ri e ele me sorriu de volta, faltando um dente no canto da sua boca. Ele parecia tão focado em me tirar para dançar, parecendo um verdadeiro cavalheiro. Pensei, por que não?
Pus minha mão sobre a do garoto que me estava estendida e me curvei formalmente.
— Seria uma honra.
O garoto conhecia os passos de dança, mas não tinha tanta desenvoltura, assim como eu. Portanto, apesar de estarmos seguindo todas as regras, não protagonizávamos um show como Edward e suas parceiras. Pelo menos estávamos nos divertindo.
— A senhorita é muito bonita. – O garoto me elogiou entre os nossos passos de dança.
— Obrigada! – Sorri para ele. – E você é um rapazinho muito educado.
— Obrigado! Foi minha mãe que me ensinou. – Ele sorriu orgulhoso. – Ela também me ensinou a escrever meu nome, mas disse que logo vai ter que me mandar para continuar estudando na cidade, porque não tem escola aqui.
O que ele falou me fez pensar. Ele não devia ser o único filho de colonos que precisava ir para a escola. Talvez houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudar aquelas crianças.
— A senhorita mora aqui? – Ele perguntou, atraindo novamente minha atenção.
— Sim.
— Onde?
— Na fazenda Higginbotham.
— Minha mãe trabalha lá! – Constatou maravilhado. – A senhorita a conhece?
— É provável que sim.
— Legal!
Ele não falou mais nada, eu também não sabia o que dizer, então apenas nos concentramos nos passos da nossa dança.
A música acabou e o garoto exibiu de novo seu sorriso banguela. Nos curvamos um para o outro, seguindo o protocolo.
— Minha mãe está me chamando! – Ele disse e saiu correndo.
Ri e me virei para voltar à mesa dos Cullen, mas acabei esbarrando em alguém.
Era Edward. E percebi que aquela era a primeira vez que nos tocávamos. Um arrepio subiu pela minha coluna. O olhar dele caiu penetrante sobre meu rosto. O sorriso feliz que estava estampado em sua face desde que cheguei à festa, adquiriu um ar sarcástico.
— Se queria uma dança era só pedir, princesinha.
— Dispenso! – Respondi com desdém.
Ele riu e eu me distanciei. Logo havia outra moça dançando com ele. Não pude deixar de notar como ela projetava os seios para frente, praticamente os oferecendo a ele.
Bufei, chateada. Não deixei o espaço onde ele e outros casais dançavam, apenas me afastei um pouco, ficando perto dos homens que tocavam. Apesar de haver outros casais dançando, Edward e sua parceira promíscua se destacavam entre eles. A mulher girava deixando sua saia rodar suntuosa.
Cruzei os braços e fechei a cara para a cena. Não sabia por que estava daquele jeito. Aliás, sabia sim. Eu estava com ciúmes. Ele dedicava montes de atenção a todas aquelas mulheres e para mim só cabia a ironia e o cinismo. Eu não fiz nada para ele, não era justo pagar pelo testamento dos meus avós.
A música acabou, Edward cumprimentou a parceira de dança e se afastou, indo para o lado oposto de onde eu estava e passando por uma viela entre duas casas.
Atravessei a rua e fui atrás dele, era minha melhor chance de confrontá-lo. Deixei a fogueira para trás e passei entre as mesmas duas casas que o vi desaparecer, os sons da festa ainda chegavam a mim, mas as luzes não e eu me vi no completo escuro.
Quando saí da viela entre as duas residências e me vi no quintal iluminado pela luz da lua, Edward estava de costas, destrancando a porta de uma construção anexa no fundo de uma das casas. De repente, ele sacou uma das armas e virou-se na minha direção. Achava que estava sendo furtiva, mas de alguma forma ele notou minha presença e agora eu estava sob sua mira. Saltei de susto.
— Calma, cowboy! – Pedi rendida.
Ele relaxou sua postura e guardou de volta a pistola.
— Nunca mais faça isso, princesinha! Pode acabar se dando mal.
Virou-se de costas novamente e continuou abrindo a porta. Ele entrou e eu fui atrás.
Estava escuro demais para que eu pudesse identificar que lugar era aquele. Então, Edward acendeu uma vela e eu pude ver melhor o espaço a minha volta. Estávamos numa casa de apenas um cômodo. Então era aqui que ele morava?
— Você não devia ter vindo até aqui. – Me recriminou.
— Precisamos conversar.
— Estou de folga!
— Não é sobre trabalho. É sobre nós.
— Não existe nós. Sou seu funcionário, apenas isso.
— Por que você me trata assim?
— Assim como? – Devolveu com outra pergunta.
— Com tanto desprezo.
— Acredite, é melhor assim. – Virou-se de costas com uma expressão amargurada.
— Melhor para quem?
— Para todo mundo! Uma boa relação entre nós dois não teria como dar certo por muito tempo.
— Por que você tem tanta aversão a mim?
— Não tenho aversão a você.
— Isso é por causa de Maria?
Ele se virou pra mim, chocado.
— Como você sabe disso?
— Alice me contou.
— Ela não tinha esse direito!
— Sua irmã só quer seu bem, ela queria ajudar a gente a se entender.
— Não vejo como contar minha vida pessoal para qualquer um pode me fazer bem.
Doeu ser chamada de qualquer uma, mas engoli aquele sentimento e me mantive firme na nossa conversa. Eu não podia fraquejar ou ele daria um jeito de evitar o tema novamente.
— Ela disse que depois de Maria você nunca mais confiou em mulher nenhuma. – Com ousadia, dei um passo para mais próximo dele, querendo olhar no fundo dos seus olhos sob a luz da única vela. – É isso? Você não confia em mim?
— A senhorita é minha patroa, não se trata de confiar ou não, apenas estamos em posições diferentes. – Respondeu, mas percebi que ele evitou dizer diretamente que sim ou que não.
— Então isso é sobre meus avós não terem deixado a casa dos seus pais para eles?
— Alice te contou isso também? – Eu não sabia dizer se seu tom era de surpresa ou irritação.
Assenti timidamente, talvez tivesse colocado minha amiga em maus lençóis.
— Alguém devia cortar um pedaço da língua de Alice, para ver se ela consegue manter dentro da boca.
— Por favor, não brigue com ela.
Ele não me respondeu, apenas me deus as costas e ficou respirando fundo. Dei mais alguns passos em sua direção. Agora, se estendesse a mão conseguiria tocá-lo.
— Edward, olhe para mim. – Supliquei.
Ele se virou, a fúria ainda presente em seu semblante. Permanecemos em silêncio, apenas nos encarando, até que sua expressão suavizasse.
— Por favor, se abra comigo. – Praticamente implorei. – O que eu fiz de errado? Por que você não deixa eu me aproximar?
— Por que você insiste tanto nisso?
— Você tem sido tão importante para mim na fazenda, foi a pessoa que mais ajudou a me adaptar. Eu só quero ser sua amiga.
— Não acredito em amizade entre patrão e empregado. Então você devia poupar seu tempo e suas energias.
— Você vale meu tempo e minhas energias. – Toquei suavemente seu braço.
— Princesinha, não me provoque! Você não sabe onde está se metendo.
Apesar da repreensão, ele não se afastou e nem desviou o olhar, parecia que estávamos presos naquela conexão visual.
— Por que você me chama assim?
— Não é óbvio? Porque você teve a vida fácil como a de uma princesa.
— Você está enganado.
— Será que estou? – Ergueu uma sobrancelha, descrente. – Você pode me dizer que já precisou trabalhar para se manter, que lhe faltou comida e bons vestidos ou que não ganhou uma fazenda sem precisar fazer o menor esforço?
Colocando daquela forma, eu não tinha como discordar, mas minha vida estava longe de ser vazia como ele imaginava.
— Não, eu não posso lhe dizer essas coisas. Mas minha vida também está longe de ter sido fácil como você imagina. – Emendei, interrompendo seu risinho sarcástico. – Meu pai me criou sozinho com muito esforço! Nunca me faltou o básico, mas também nunca tive luxos e nem mimos. E sim, você está certo, eu herdei uma fazenda sem fazer nada em troca, mas você se lembra que eu não cresci nesta fazenda, não é? Que nunca conheci todos esses luxos até bem pouco tempo atrás.
— Desculpe, não quis dar a entender que você era fútil.
— E mesmo assim você me vê de uma forma negativa. – Acusei.
— Como assim?
— Você trata todas aquelas mulheres lá fora com tanta atenção, parece tão alegre perto delas, e para mim sobra só frieza e ironia.
— Você não é uma delas! – Falou desviando o olhar.
— O que elas têm que eu não tenho?
— É o contrário, você tem algo que elas não têm.
— E o que seria?
— Um nome, uma reputação para zelar, uma posição social e fortuna.
— Então é apenas minha posição social que te afasta de mim? Que te impede de me tratar como às outras mulheres?
— Eu sou homem e não sou cego! Você é uma mulher linda e atraente, é claro que eu não sou imune a isso. Mas não posso lhe tratar como às outras mulheres por quem sinto desejo.
— O que?
— Desejo, Isabella! É claro que eu sinto desejo por você, seria um tolo se não sentisse. Mas eu não posso sucumbir, não com você, princesinha.
Fiquei em silêncio tentado absorver o que ele havia dito, de alguma forma eu havia entendido suas palavras, mas elas postas juntas daquela maneira não faziam sentido.
— Eu não posso simplesmente lhe desejar, eu preciso ser cuidadoso. – Prosseguiu. – Entre nós, pairam todas as diferenças sociais e o que elas representam, todas as responsabilidades que recaem sobre você.
— Então é isso que nos afasta? As convenções sociais? – Perguntei com desdém.
— Não menospreze, princesinha, estou falando isso agora para você não acabar magoada depois.
— O que me magoa é o seu desprezo!
Ele rugiu e tomou meu rosto nas mãos. Seu rosto, tão perto do meu, parecia feroz e estava cada vez mais perto. Mas eu não tive medo, eu ansiava por algo, mas não sabia exatamente o quê.
Então os lábios dele estavam sobre os meus, macios e famintos ao mesmo tempo. A força do contato fez meu corpo se chocar contra a parede. A mesma ferocidade que vi em seu rosto estava presente no beijo, mas ao mesmo tempo ele era carinhoso e gentil.
— Você não sabe no que está se metendo. – Repetiu, afastando minimamente nossos lábios.
Apesar de sua afirmativa, ele voltou a colar os lábios nos meus. Uma de suas mãos desceu pelas minhas costas me mantendo colada ao seu corpo, a outra mão se infiltrou nos meus cabelos. Ele sugava meus lábios e sua língua explorava o interior da minha boca. Eu não sabia descrever o sentimento de ser beijada por ele, só sabia que era bom, muito melhor do que qualquer coisa que eu poderia imaginar.
Eu já não tinha controle sobre meu corpo, sobre meus impulsos, minhas ações e movimentos. Um gemido involuntário rasgou minha garganta.
Edward, no entanto, parecia mais controlado, porque ele nos afastou. Por um segundo permanecemos nos braços um do outro, com as testas coladas e respirações aceleradas em sincronia.
— Você não deveria estar aqui. – Repetiu.
Então se afastou mais um pouco, me soltando por completo.
— É melhor você ir. – Falou.
— O que?
— É melhor você voltar para a festa antes que alguém sinta sua falta.
— Por que isso agora?
— Se alguém nos pegar aqui você estará em sérios problemas.
— Edward, nós ainda não terminamos nossa conversa!
— Volte para a festa, princesinha. Você não devia estar aqui.
— Não! A gente precisa conversar.
— Não nessas condições
— Quer saber? Eu vou embora, claramente foi um erro ter tentado conversar civilizadamente com você. Acho que nunca vou ser digna do seu respeito. – Disse e deixei a casa dele.
Ao invés de voltar para a rua central, segui pelos quintais das casas, querendo chegar à minha charrete, que deixei próxima à esquina.
— Bella, espere! – Eu tinha andado cerca de 20 metros quando Edward veio atrás de mim. – Bella, aonde você pensa que vai?
— Vou para casa! – Retruquei brava.
— Você não pode ir sozinha.
— Me dê um bom motivo para não ir agora. – Desafiei, me virando para ele.
— Está escuro e a estrada pode ser perigosa para uma dama desacompanhada.
Bufei e continuei indo em direção a minha charrete. Eu esperava que ele respondesse minhas perguntas, que dissesse o que tinha contra mim e que nos tornassem amigos, mas se ele não estava disposto eu não tinha por que ficar.
— Bella, espere! Você veio com meus pais, espere para voltar com eles.
Edward pediu, mas eu já soltava o cavalo do amarradouro para ir embora.
— Eu quero ir agora e não vou interromper a festa dos seus pais. – Disse, já subindo na charrete para voltar para casa.
— Mas é teimosa!
De repente, Edward estava ao meu lado, acompanhando a charrete montado num cavalo.
— O que você está fazendo?
— Eu não vou deixar você pegar essa estrada sozinha. Se vai insistir em ir agora, eu vou fazer sua escolta.
Revirei os olhos e não disse mais nada. Ele realmente me seguiu até a fazenda e só retornou para a colônia depois que soltei o cavalo da charrete e entrei em casa.
~*~
No dia seguinte, acordei cedo e me sentindo enérgica. Na noite anterior tive uma ideia e queria colocá-la em prática.
Eu já estava na varanda quando Esme chegou para o trabalho e, com sorte, a filha vinha com ela, as duas conversando.
— Bom dia, Bella! De pé tão cedo? – A governanta me saudou.
— Bom dia! Alice, eu estava ansiosa para falar com você. – Praticamente quiquei no lugar.
— Algo sério? – Minha amiga enrugou as sobrancelhas.
— Sim, mas não algo ruim. Você me acompanha até o escritório?
Ela assentiu e entramos juntas, deixando sua mãe para trás.
— Alice, ontem estive conversando com um garoto da colônia e o que ele disse me fez pensar sobre um assunto. – Comecei, quando nós duas já estávamos sentadas no meu escritório. – Você disse que estudou para ser professora, certo?
Ela assentiu.
— O garoto falou que em breve seria mandado para estudar na cidade e eu fiquei pensando: não temos uma escola perto. Crianças como ele saem de casa muito cedo para estudar e depois não voltam, por isso a região não prospera. Os que ficam, não possuem instrução e acabam se tornando somente mais mão de obra bruta. Quando a gente precisa de um profissional, como um veterinário ou um contador, temos que mandar vir de longe.
Fiz uma pausa para tomar um ar. Percebi que Alice estava acompanhando meu raciocínio, mas não entendera ainda o meu ponto.
— Eu quero construir uma escola aqui na fazenda. – Esclareci.
— É uma ideia incrível!
— Se a gente tivesse uma escola aqui as crianças poderiam ficar e criar raízes, eu acho que isso no futuro poderia fazer com que tivéssemos muito mais profissionais qualificados por perto. – Concluí.
— Concordo plenamente.
— A princípio, eu pensei em receber apenas os filhos dos funcionários daqui, até mesmo para os pais trabalharem mais despreocupados com as crianças, e eu gostaria de contar com você para ensinar esses meninos e meninas. – Ela assentiu. – Com o tempo, podemos pensar em ter mais professoras e receber os filhos de outros trabalhadores da região.
— Pode contar comigo!
Passamos o resto do dia discutindo detalhes da construção da escola. Olhamos juntas o mapa das terras e escolhemos o melhor local para construí-la. Fizemos planos e calculamos juntas os possíveis gastos daquele projeto. Só paramos quando anoiteceu e estávamos mentalmente exaustas.
Na manhã seguinte, Alice voltou para me encontrar e pedi que ela fosse até a colônia sondar quantos possíveis alunos teríamos. Enquanto eu, sondava com os funcionários da casa a necessidade deles para com os filhos.
Após o almoço, lembrei que também tinha a questão da posse da casa dos Cullen para resolver. Com os planos para a escola acabei deixando aquele assunto pendente.
Fui ao campo em busca de um peão que me aprontasse uma charrete, para que eu pudesse ir até a cidade pedir ao advogado para preparar o documento de transferência da casa. Naquele horário, todos estavam no pasto com o gado e eu parei por um instante, encostada à cerca, me permitindo observar um pouco o trabalho dos homens.
Enquanto eu assistia, um homem montado em seu cavalo cruzou a porteira da fazenda. Ele interceptou um dos peões que estava mais próximo e trocaram algumas palavras. Vi o funcionário apontar na minha direção e o outro puxou a aba do chapéu em um cumprimento. Ele continuou a trajetória em seu cavalo, vindo na minha direção. Mesmo à distância eu podia ver a estrela prateada em seu peito. Meu pai usava uma igual.
— Boa tarde, Srta. Swan. — Ele desceu do cavalo quando chegou perto o suficiente de mim. — Sou o xerife Beaufort.
— Boa tarde, xerife! A que devo a honra?
— Xerife, algum problema? – Edward se materializou ao meu lado.
— Estou aqui para fazer um alerta a vocês.
— O senhor aceita tomar um café? Se me acompanhar até a casa posso pedir para nos servirem, enquanto a gente conversa.
— Eu adoraria, mas tenho pressa. Um pistoleiro perigoso foi visto na região. – O homem da lei pegou um papel no alforje e nos mostrou o cartaz de procurado. – Ele é conhecido por Riley Vingança e meus homens já estão em diligência à procura dele. Mesmo assim, eu gostaria que vocês tomassem cuidado.
Eu e Edward trocamos um olhar preocupado.
— Bem, se me derem licença, eu vim aqui só para alertá-los. Agora preciso fazer o mesmo aviso em outras fazendas.
O xerife puxou a aba do chapéu e montou novamente em seu cavalo. Deixando a fazenda em seguida.
— Cowboy, você pode reunir os peões no celeiro, por favor? Eu vou chamar o pessoal da casa, preciso me reunir com todos.
Ele assentiu e partimos cada um para um lado. Quando estavam todos os funcionários reunidos, me juntei a eles no celeiro e pedi atenção. Edward ficou de pé ao meu lado e me ajudou a conseguir a atenção de todos, que estavam curiosos com o motivo daquela reunião.
— Caros colegas, – Comecei. – Como alguns de vocês sabem, hoje recebemos a visita do xerife. Ele veio nos alertar sobre um pistoleiro procurado que foi visto na região, pediu que tivéssemos cuidado ao sair e por isso reuni vocês aqui. Pensando na segurança de todos, vim pedir que evitem sair de casa e, até que o xerife capture este bandido, as atividades da fazenda estarão suspensas.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, o que tornou impossível entender qualquer coisa. Edward fez um som alto que chamou a atenção de todos e fez o burburinho parar.
— Por favor, falem apenas um de cada vez! – Ele ordenou.
— Por ora, os salários de todos vocês estão mantidos. – Respondi primeiro o que parecia ser uma dúvida geral. – Por alguns dias eu posso garantir isso a vocês, se esta situação se estender por mais tempo teremos que pensar em outra estratégia. Mas agora, vamos focar em nos manter seguros e esperar que o xerife pegue o bandido.
As faces à minha frente pareceram mais aliviadas, não completamente relaxadas, porém mais confiantes e um suspiro coletivo se seguiu.
— Bella, você vai ficar sozinha aqui? – Esme perguntou.
Eu estava pronta para dizer que sim, afinal era para todos ficarem em suas casas, mas o filho dela foi mais rápido que eu.
— Eu vou me estabelecer na fazenda, para fazer a guarda das terras e proteger a Srta. Bella.
— O que? – Perguntei chocada.
— Espero que não se importe de me ceder seu sofá, porque discussões estão fora de cogitação no momento.
— Você pode usar um dos quartos sem problema nenhum. Não é essa a questão no momento, mas você não vai ficar com sua família?
— Bella tem razão, filho. – Esme se pronunciou de novo. – Eu ficaria muito aflita se não tivesse notícias suas.
— Ela também não pode ficar sozinha com Angela. – Rebateu.
— Vocês podem ficar na casa comigo. Temos quartos suficientes. – Sugeri.
— É uma boa solução para mim. – Esme aprovou.
— Nós aceitamos. – Carlisle decidiu.
— Legal! – Alice comemorou quase atrás de mim, perto da porta do celeiro.
Edward ficou carrancudo, mas não tentou frear os pais. Um dos peões deu um passo à frente e eu lhe cedi a palavra.
— Desculpe questionar, mas como vai ficar o gado enquanto estivermos fora?
Eu não tinha pensado nesta parte, na hora me preocupei apenas com a segurança das pessoas.
— Fico responsável pelos bois também. Reduzindo o tempo no pasto, acho que consigo garantir a sobrevivência deles durante esses dias. – Edward respondeu.
— Sozinho? – Outra pessoa questionou.
— Emmett me ajuda. Posso contar com você, amigo?
Ele assentiu, mas seu semblante não me transmitia muita confiança.
— Emmett, você pode ficar conosco também.
— Bella, Emm tem família! – Edward me recriminou.
— A casa tem muito espaço, podemos dar um jeito. Emmett, quantos filhos você tem?
— Na verdade, minha esposa ainda está grávida do primeiro.
— Ótimo, então você pode buscá-la e vocês ficam conosco na fazenda.
— Você vai se arrepender de abrir seu reino para tantas pessoas, princesinha. E depois será tarde para voltar atrás. Além disso, Emmett pode não querer deixar a casa dele.
— Para ser sincero, amigo, eu me sentiria muito melhor se não tivesse que deixar a Rose sozinha. Aqui ela vai ter muito mais companhia e eu posso sair para te ajudar com o gado. – Ele se dirigiu a mim. – Nós vamos aceitar seu convite, obrigado.
— Ótimo! Alice e Angela, vocês se importam em dividir o quarto por uns dias? – Perguntei às duas, que estavam perto da porta do celeiro.
Elas negaram e trocaram um olhar de cumplicidade. Felizmente, tinham se tornado amigas e estavam dispostas a colaborar diante da situação atípica.
— Então está decidido! Temos 5 quartos, o meu, um para Carlisle e Esme, um para Alice e Angela, um para Edward e um para Emmett e a esposa. Todos os outros estão dispensados.
Aos poucos, todos foram deixando o celeiro. Logo a fazenda ficou vazia, no entanto, a casa nunca esteve tão movimentada.
Alice, Esme e Edward foram buscar seus pertences pessoais. Emmett, além de suas coisas, iria buscar também a esposa, Rosalie. Carlisle ficou na casa para montar uma cama extra no quarto de Angela, enquanto ela me ajudava a separar roupas de cama para todos.
Todos retornaram algumas horas depois e se acomodaram. Conheci a esposa de Emmett, Rosalie, uma mulher belíssima e muito agradável. Alice estava animada de dividir a casa com as novas amigas, eu e Angela. Edward estava com a cara amarrada de sempre.
— Sabe, estou achando o máximo ter meu reino cheio! – O provoquei após um jantar muito barulhento entre as 8 pessoas.
~*~
Já era o sexto dia que estávamos isolados em casa, o pistoleiro que o xerife falou ainda não havia sido pego, mas também não houve nenhum registro de crime violento na região. Eu começava a imaginar que o bandido estava só de passagem pela cidade, e que talvez já tivesse partido para outro lugar. Eu sentia também que meu grupo começava a ficar menos tenso, e começávamos a aproveitar melhor os dias reclusos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era domingo e Esme preparou um almoço especial. Sentamos todos juntos na mesa da sala de jantar e comemos até nos fartar, depois da sobremesa permanecemos à mesa, tomando um café e conversando amenidades.
Foi quando ouvimos o primeiro estouro, algo tinha sido atingido na sala de estar. Todos nos levantamos assustados, o barulho de tiro era inconfundível.
— Estamos sendo atacados! – Edward constatou, já puxando suas armas e correndo para a janela mais próxima.
Emmett estava um passo atrás dele e ocupou a outra janela, também na sala de jantar.
— Fiquem abaixados! – Edward ordenou para o restante de nós. – E procurem algum móvel para se protegerem.
Imediatamente, todos arranjamos uma forma de nos acomodar sob a enorme mesa de carvalho.
A partir daí, o som dos disparos tornou-se contínuo e incessante.
— Eles são muitos! Nós não vamos dar conta. – Emmett constatou depois de algum tempo, entre um tiro e outro ele se escondia ao lado da janela, para que a parede o protegesse.
— Pai, o senhor vai precisar atirar também! – Edward declarou parando por um instante e olhando na nossa direção, ele estava agachado, protegido pelo peitoril da janela.
— Eu? – Carlisle perguntou surpreso ao meu lado.
— Claro que é você, pai! – Edward retrucou impaciente, se levantando por um instante para voltar a atirar e logo se escondendo de novo. – Não temos mais ninguém para nos ajudar a dar conta dessa gangue toda.
— Eu atiro! – Declarei.
— Você? – Edward perguntou incrédulo.
— Claro! Você mesmo disse que precisamos de efetivo.
Saí do meu esconderijo debaixo da mesa e, ainda agachada, fui até a escada.
— Bella, aonde você vai?
O cowboy tentou me deter, mas era tarde, eu já tinha deixado o cômodo.
— Bella! Isabella, volte aqui! – Ouvia seus resmungos na sala de jantar, mas a essa altura eu já tinha alcançado os degraus e subia apressada, deixando sua voz para trás.
Nas minhas explorações pela casa eu já tinha chegado até o sótão, onde havia alguns móveis velhos e vários caixotes, foi dentro de um deles que encontrei o rifle, que provavelmente pertenceu ao meu avô, e diversas munições. Peguei a caixa e voltei com pressa para o andar de baixo. Quando atingi o nível térreo da casa, voltei a andar agachada tentando me esconder atrás dos móveis, até chegar de novo na sala de jantar.
— Bella, pare com isso! – Ao me ver entrar no ambiente, Edward tentou me interromper de novo.
— Eu posso ajudar!
— Você ao menos sabe atirar?
— É claro que sei! Senão eu não teria ido pegar uma arma! – Declarei o óbvio, me colocando ao lado da mesma janela que ele, porém ficando de pé, da mesma forma que Emmett. – Sou filha de xerife, lembra? Meu pai me ensinou a me defender há muito tempo!
— Então posso saber por que nunca vi você fazer isso antes?
— Primeiro, porque eu não ando armada, aliás seria até difícil carregar uma arma usando essas roupas femininas cheias de tecido e camadas. E segundo, não é porque eu sei atirar que eu gosto de atirar, por isso nunca saí por aí acertando garrafas. – Citei, relembrando o dia da festa.
— Ainda não sei se concordo com essa ideia.
— Não pedi sua aprovação. – Respondi a ele, carregando a arma.
— Claro, faça o que bem entender! – Retrucou com ironia, entre um disparo e outro. – Estamos aqui arriscando nossas vidas para proteger sua fazenda, para a princesinha tomar um tiro e a propriedade ficar à mercê do tempo.
— Cala a boca e atira, cowboy!
Emmett riu levemente. Eu os ignorei e me posicionei para atirar. Olhei rapidamente pela janela, mapeando onde estavam nossos rivais, e voltei a me esconder. Eles estavam escondidos por maços de feno, barris, carroças e outros objetos que estavam espalhados pelo campo da fazenda.
Respirei fundo e mais uma vez olhei pela janela, atirei na direção em que vi um dos pistoleiros, mas não permaneci para conferir se ele havia sido derrubado, precisava voltar a me esconder.
Eu, Emmett e Edward continuamos atirando naquele ritmo, intercalando os disparos com nos escondermos pelas paredes das janelas. Felizmente, havia o rio nos fundos da casa, desse modo os bandidos só puderam chegar pela frente da propriedade, ao invés de nos cercarem.
— Estou sem munição! – Emmett nos informou.
Chutei a caixa com munições para ele, havia diversos tipos lá dentro, talvez alguma servisse. Entre um disparo e outro, notei Emmett recarregando sua pistola, então ele havia conseguido algo. Após recarregar, ele voltou a atirar conosco, mas claramente estávamos em menor número.
— Bella, se for para desperdiçar munição é melhor não fazer nada. – Edward ralhou comigo quando errei um tiro.
— Estou fazendo o melhor que eu posso! Nem todo mundo nasceu com o dom da mira perfeita.
— Ela está indo bem, Edward! – Emmett veio em minha defesa. – Sem ajuda nós dois estaríamos numa situação muito pior e você sabe disso. – Ele completou, após mais um tiro.
— E ainda assim eles estão avançando. – Lamentou o outro.
— Como estava a situação quando vocês começaram a reagir? – Perguntei.
— Vários deles estavam depois da cerca da fazenda. – Edward respondeu.
Agora eu podia ver, todos os pistoleiros que ainda não haviam sido abatidos estavam dentro dos limites da fazenda. O que significava que eles estavam ganhando território e se aproximando da casa, que era nossa fortaleza.
Um dos disparos que entrou pela janela, atingiu a cristaleira que ficava junto a uma das paredes da sala de jantar, fazendo o vidro da porta estourar. Alice e Esme, que estavam debaixo da mesa mais próximas dos estilhaços, gritaram assustadas.
— Não na minha família, calhorda! – Edward sibilou antes de se levantar mais uma vez e disparar contra os pistoleiros.
Ele passou a atirar com muito mais ódio e também com maior frequência. Isso fez com que ele precisasse recarregar as armas. Enquanto isso, no meu ritmo, me preparei para acertar um dos invasores, que estava mais à frente do grupo, mas quando me coloquei na janela vi o corpo dele já caído sobre um maço de feno. De onde estava, Emmett mirava os pistoleiros do outro lado do campo. Com Edward ainda recarregando as armas, eu sabia que nenhum de nós tinha atingido aquele homem.
— Estamos tendo ajuda de fora. – Constatei.
— Impossível! – Edward declarou, ainda agachado em sua posição, sem olhar para fora.
— Ela tem razão, acabei de ver um homem sendo atingido.
— Alguém pode ter acertado um companheiro por engano.
— Não acho que seja isso. – Ponderei.
— Então, a fada madrinha da princesinha está abatendo homens lá fora? – Foi irônico enquanto voltava a atirar, sua arma já recarregada.
— Talvez algum deles tenha se arrependido da vida de criminoso. – Chutei.
Ele riu com desdém.
— Você não acredita que existe pessoas boas no mundo? Que alguém lá fora seja capaz de nos ajudar? – Inqueri.
— O que eu não acredito é em conto de fadas. Se alguém lá fora está atingindo os próprios companheiros, algum objetivo individual ele tem!
— Você precisa ter um pouco mais de fé na humanidade, cowboy.
— Ou a princesinha precisa encarar mais a realidade.
— Será que vocês podem deixar os flertes para depois e se concentrarem em atirar? – Emmett reclamou, nos provocando ao mesmo tempo.
— Não sei, pode ser minha última chance de flertar com alguém. – Edward retrucou com cinismo e me fez corar, porque ele não negou que estava flertando comigo. – Você pode querer dizer alguma coisa para sua esposa também, pode ser sua última chance de ser romântico.
Mesmo implicando comigo e com o amigo, o cowboy ainda conseguia ser muito ágil e certeiro no gatilho.
— Pretendo sair vivo dessa, amigo!
— É um bom plano!
Focamos em atirar e logo a frequência de disparos vindos de fora diminuiu. Também ficou claro que estávamos recebendo alguma ajuda externa, eu cheguei a ver uma cabeça coberta por cachos loiros e curtos se escondendo atrás de um arbusto frondoso, além das cercas da fazenda.
— Será que acabou? – Emmett cogitou sussurrando, quando os tiros sessaram.
— É melhor a gente ter certeza. – Edward respondeu, também sussurrando.
Ele fez sinal para que eu me afastasse, mas eu não obedeci. Se havia alguém de tocaia lá fora eles iriam precisar de cobertura. Eu não conhecia muito sobre estratégias de ataque, mas poderia tentar fazer alguma coisa.
— Será que algum dia você vai me obedecer, princesinha?
— Nunca!
Edward levantou-se e olhou pela janela, permaneceu algum tempo exposto, mas nenhum disparo foi feito para atingi-lo. Ele atirou uma última vez, não sei se viu algum movimento do lado de fora ou se foi apenas para chamar a atenção de possíveis oponentes. Mesmo assim não houve nenhuma reação de volta.
— Parece que os derrotamos mesmo. – Declarou, guardando as armas no coldre, mas saindo da janela. – Emmett, vem comigo.
— Para onde? – Ele perguntou, mas seguiu o amigo que já deixava a sala de jantar pela porta que levava ao hall de entrada.
— Alguém precisa contabilizar os mortos e feridos.
— Por favor, não me atualize os números. – Pedi, indo atrás deles.
Edward abriu a porta e eu parei, realmente não queria ver o estrago que estava o campo da minha fazenda. Porém, pela porta aberta vi alguém se mexer, a pessoa já estava na nossa varanda. O cowboy imediatamente puxou as armas do coldre, mas eu reconheci os cachos loiros.
— Edward, não! – Gritei desesperada. Felizmente ele não chegou a disparar, mas também não abaixou as armas.
— Quem é você e o que está fazendo nesta propriedade?
— Era ele quem estava nos ajudando. – Expliquei. – Por favor, senhor, entre!
Meu pedido se deveu ao fato de eu não querer que aquela conversa continuasse na varanda, com uma verdadeira cena de guerra ao fundo, da qual eu tentava manter meus olhos afastados.
— Ficou louca, Bella? – Edward me questionou, ainda mantendo o homem sob a mira.
— Acho que nós podemos confiar nele, pelo menos enquanto estamos em maior número. Agora, será que podemos continuar essa conversa na sala?
O cowboy abriu passagem e os dois entraram, todos os outros tinham vindo da sala de jantar atrás de mim e se amontoavam na soleira da porta que levava ao hall de entrada. Seguimos juntos para a sala de estar.
— Sente-se aí, forasteiro. – Edward usou uma das armas para apontar o sofá.
O rapaz loiro obedeceu, mas o cowboy continuou de pé, numa postura altiva que demonstrava quem estava no comando da situação.
— Então, quem é você e o que veio fazer aqui?
— Me chamo Jasper Withlock. Sou filho do major Withlock do exército do Texas, se quiser pode investigar minhas raízes.
— Um confederado! Era só o que me faltava!
— Edward, quer por favor deixar o homem se explicar? – Ralhei.
Ele bufou, mas fez um gesto para que o outro prosseguisse.
— Eu acabei de chegar na cidade e estou à procura de emprego.
— E não tinha emprego no Texas?
— Edward! – Repreendi.
— Para ser sincero, não. Minha família vivia da plantação de algodão, mas desde que o Sul perdeu a Guerra Civil, como vocês sabem, estamos enfrentando problemas financeiros e, atualmente, minha família se encontra falida. Tentei conseguir emprego em outras fazendas da região, mas estavam todos tão quebrados quanto nós. Se falava que no Oeste tinham muitas oportunidades, sendo um território novo, por que não tentar? – O forasteiro deu de ombros. – Primeiro, tentei o Novo México, fiz alguns bicos, mas não consegui um emprego fixo, depois de algum tempo vivendo assim, passei para o Arizona, onde mais uma vez não consegui nenhum trabalho e, depois de alguns meses, decidi continuar minha jornada para Oeste rumo à Califórnia, até chegar aqui.
— Justo hoje? – Edward questionou com ironia.
— Acaso.
— Sorte a nossa, não? – Perguntei com escárnio, freando as desconfianças do cowboy.
— Estava rodando na região, pensei que com minha experiência no campo pudesse conseguir trabalho numa dessas fazendas, mas encontrei tudo muito parado, todas as fazendas estavam fechadas. Agora eu sei que estavam todos com medo. Quando cheguei aqui e vi vocês sendo atacados, pensei em ajudar e aqui estamos.
— Por puro altruísmo? – Perguntou Edward, sem abandonar a ironia, aquilo já estava me cansando.
Suspirei.
— Sinceramente? Não! – Ele respondeu com uma calma singular, considerando que o outro ainda segurava uma arma em cada mão. — Eu pensei que ajudando vocês a se livrarem dos pistoleiros, pudesse conseguir um emprego aqui em troca.
— Não tão rápido!
— Esta decisão não é sua, cowboy!
Embora eu confiasse demais no trabalho dele e o tivesse como um verdadeiro conselheiro na administração da fazenda, ele precisava ser lembrado que ainda era eu quem estava no comando.
— Ainda não estou convencido que você não é um bandido que quer apenas se infiltrar na fazenda para depois atacar na surdina. – Ele me ignorou completamente, continuando a se dirigir apenas ao nosso convidado.
— Bem, já contei toda a minha história e você pode investigar se quiser, o que mais posso fazer para merecer a confiança de vocês?
— Primeiro, você vem comigo! – Eu estava prestes a perguntar para onde, mas Edward prosseguiu antes que eu ou o loiro dissesse alguma coisa. – Não vou deixar você longe da minha vista enquanto não tiver certeza de que é quem diz ser.
— Justo. – Jasper concordou com serenidade.
— Nós vamos até a cidade, levar esses pistoleiros até o xerife. Ou para o cemitério, que seja. – Ele completou com um suspiro. – E Emmett fica aqui, é melhor que os outros tenham alguma proteção caso isso seja uma emboscada ou exista outro pistoleiro à espreita.
— Pelo que vi mais cedo, sua senhora jamais estaria desprotegida. – O forasteiro meneou a cabeça na minha direção e eu corei pela segunda vez naquela tarde.
— Ela não é minha esposa. – Edward retrucou com frieza, o que doeu um pouco no meu coração, embora fosse simplesmente a verdade.
— Peço desculpas pela confusão. – Ele pareceu verdadeiramente intrigado, pela primeira vez desde que começou a ser interrogado sob a mira de duas pistolas.
— Então, vamos ficar de conversa o dia todo ou podemos ir dar um jeito na bagunça lá fora? – O cowboy resmungou e o loiro se pôs de pé. – Você primeiro. – Gesticulou em direção à saída e então os dois se foram.
~*~
Após o susto daquela tarde, estávamos todos muito abalados, por isso Esme preparou um chá para todos, que foi servido na sala íntima. Após terminarmos a bebida, continuamos todos juntos no cômodo, aguardando notícias dos rapazes que tinham ido até a cidade.
— Vai ser bom voltar pra casa. – Esme comentou sonhadora.
— Eu estava apreciando a companhia. – Lamentei.
— Nós também, querida, mas não há lugar como nosso lar. E eu estou ansiosa para voltar para minha casa.
— Eu vou sentir falta do tempo que passamos aqui. – Alice suspirou.
— Você pode ficar se quiser. – Ofereci. – Eu ia gostar de ter uma amiga por perto.
Ela olhou para a mãe esperançosa, quase como se tivesse um pedido nos olhos, mas nenhuma das duas falou mais nada.
Acariciei o pelo de Jacob, agora adormecido, no meu colo. Assim que os dois homens saíram rumo à cidade, eu encontrei o cachorro escondido embaixo da minha cama e tremendo, ele provavelmente tinha ficado assustado com os estouros do tiroteio. Por isso, peguei-o e o abracei até que ele estivesse mais calmo. No momento, o cachorro estava sereno sobre minhas pernas.
Ouvimos o galope de cavalos chegando à fazenda. Por precaução, Emmett espiou pela janela, mas no fundo todos sabíamos que era Edward voltando, se fossem outros bandidos eles seriam mais sorrateiros.
— Tudo certo na cidade. – O cowboy mal esperou entrar na sala onde estávamos para contar as novidades. – E o xerife também confirmou que um dos pistoleiros era o tal Riley Vingança que ele estava procurando, então devemos ter um pouco de normalidade nos próximos dias.
— Infelizmente, os bandidos que sobreviveram não revelaram ainda por que escolheram atacar esta fazenda. – Jasper, o homem que nos ajudou, completou a informação entrando na sala logo depois de Edward.
Jacob pulou do meu colo, supus que para cheirar os pés do homem que acabara de entrar, ele sempre fazia isso quando chegavam pessoas novas.
— Também aproveitei para investigar esse aí, o xerife disse que não tem nenhum aviso de busca contra ele, o que já é um fator positivo...
Porém, enquanto Edward contava, apontando para o forasteiro, Jacob passou direto por eles e seguiu correndo. Olhei pela porta que levava ao hall de entrada e notei que havia bastante luz do sol neste cômodo. Então, percebi que se o cowboy entrou primeiro, provavelmente o outro tinha sido o último a passar pela porta da frente e, provavelmente, a tinha deixado aberta.
— Jacob! – Gritei e me levantei correndo.
Como imaginei, a porta da frente estava aberta e o cachorro tinha fugido. Segurei a saia e corri atrás dele, atravessando a varanda e os degraus. Malditas roupas compridas e pesadas, eu não conseguia me mover com tanta agilidade e ele já estava a diversos metros de distância de mim.
Jacob correu para o lado direito da casa, onde havia apenas o pasto e a mata mais além. Com o gado preso no curral, diversos passarinhos estavam no campo de pastagem, mas com a aproximação desastrosa do meu cachorro, eles levantaram voo em bando.
— Bella! Aonde você vai? – Edward apareceu na porta logo atrás de mim, mas eu o ignorei e corri para o lado oposto que Jacob tinha ido, onde ficavam as demais construções da fazenda. Ele era bem mais rápido do que eu e estava indo em direção à floresta, eu teria muito mais chances de alcançá-lo estando a cavalo.
Felizmente, ao entrar no celeiro notei que havia 3 animais prontos para cavalgar. Escolhi um que eu já havia montado, o Twilight, com quem eu tinha familiaridade e sabia que era veloz.
— Bella, volte para dentro, ainda é perigoso sair! – O cowboy veio atrás de mim.
— Por isso que eu não posso deixar meu cachorro perdido por aí! – Disse e saí cavalgando o mais rápido que pude.
Deixei o celeiro bem a tempo de ver Jacob sumindo entre as árvores da floresta, além do pasto. Droga! Seria ainda mais difícil pegá-lo na mata fechada, mas eu não iria abandonar meu amigo, então me lancei para frente.
Logo após a primeira fileira de árvores, o terreno começava a ficar bastante acidentado, a floresta subia por uma encosta e o cavalo avançava com dificuldade.
— Jacob! – Eu gritava seu nome, mas não via mais nenhuma pista do cachorro.
Ouvi outro galope vindo atrás de mim e olhei assustada sobre o ombro com a possibilidade de estar sendo seguida. Não sei se ter visto que era Edward quem vinha atrás de mim me aliviou ou me deixou irritada. Ele estava sempre tentando me controlar e eu não estava com paciência para isso.
— Vá embora, cowboy!
— Eu não vou deixar você sozinha na floresta!
— Eu não vou ouvir suas reclamações agora, eu só volto para casa com meu cachorro!
— Eu sei. E exatamente por isso eu estou aqui, você vai precisar de proteção se cruzar com outro pistoleiro escondido na mata.
Não discuti com ele e voltei à minha busca. Ele chegou até a me ajudar chamando o nome do cachorro, mas nenhum sinal de Jacob. Entrávamos cada vez mais na mata, eu cavalgava de um lado para o outro, me esforçando para recordar o caminho que estava fazendo e não me perder. A mata era frondosa e a luz do sol mal chegava ao chão, mesmo assim, eu tinha a impressão de que estava cada vez mais escuro.
— Bella, é melhor a gente voltar, já estamos procurando esse cachorro há muito tempo. – Edward reclamou depois de um longo silêncio.
— Já disse, eu não vou desistir de Jacob!
— Ele pode até ter voltado sozinho.
— Talvez você deva voltar e conferir essa teoria. – Rebati e ele bufou.
— Já disse, não vou te largar sozinha sem saber se é seguro.
— Então cale a boca e não me atrapalhe.
— Teimosa! – Resmungou.
A situação da nossa busca ficou ainda pior quando começou a chuviscar. Edward tentou mais uma vez me fazer voltar para casa, desistir da busca ou mesmo retomá-la depois e, mais uma vez, eu afirmei que não retornaria sem meu amigo. A chuva foi ficando mais forte, os resmungos do cowboy também eram cada vez mais constantes e eu estava quase chorando de desespero.
— Jacob! – Gritei mais uma vez a plenos pulmões, quase sem esperança.
— Bella...
— Não! Eu não quero ouvir suas lamúrias. – O interrompi.
Estava cansada, molhada, com medo e entrando em desespero, tudo que eu não precisava era ouvir mais palavras negativas. Ele bufou, mas continuamos cavalgando juntos e chamando o nome de Jacob.
— Bella, espera. – Edward parou de repente.
— Não, por favor... – Choraminguei.
— É sério!
— O que?
— Você está ouvindo isso?
— Ouvindo o que?
Então ouvi sobre o que ele estava falando. Era um choramingo, mas eu reconhecia muito bem o som, era um chorinho de cachorro. Cavalguei rapidamente na direção em que estava ouvindo e Edward veio atrás de mim, o som ficando cada vez mais perto.
Jacob estava escondido sob um tronco caído na mata, mesmo assim ele estava todo molhado e por isso chorava. Suspirei de alívio quando o vi.
— Que susto que você me deu, meu amigo!
— Deixa que eu pego o pulguento. – Disse Edward, descendo do seu cavalo.
— Não chame ele assim!
— Tanto faz.
— E o cachorro é meu, pode deixar que eu o levo. – Fiz menção de descer do cavalo, mas Edward já estava montando de volta no seu, com Jacob nos braços.
— Eu cavalgo muito melhor do que você, princesinha, posso carregar um cão assustado bem melhor! – Sorriu afrontoso e me deu as costas andando com seu cavalo, me deixando para trás boquiaberta.
Ainda brava com todas as provocações do cowboy, saí galopando com velocidade e passei à frente dele. Atrás de mim, ouvi sua gargalhada e o galope do outro cavalo me seguindo. Segui reto pelo mesmo caminho que tinha chegado até ali, mas quando virei na direção que me lembrava de ter vindo, Edward me interrompeu.
— Bella, espere!
Não entendi qual era seu objetivo, depois de tanto me pedir para voltar agora ele queria esperar o quê?
— Bella, pare! – Edward pediu mais uma vez.
— O que houve? – Perguntei, virando com o cavalo em sua direção.
— O terreno dessa região é predominantemente barro, com a chuva provavelmente tudo já virou lama. E, quanto mais perto da fazenda, maior será a concentração de barro no solo.
— O que isso quer dizer?
— Os cavalos não vão conseguir descer a encosta, eles só vão enterrar as patas na lama e correm o risco de se machucarem.
— Mas nós não podemos continuar aqui, debaixo dessa chuva, temos que voltar para casa!
— E o que você pretende? Largar dois puros-sangues na floresta e continuar a pé? – Perguntou com ironia. – Foi ideia sua montar cavalos de raça, agora não podemos seguir em frente e botá-los em risco.
— Qual sua ideia, então? – Rebati irritada.
— Você tem uma cabana de caça do outro lado desta mata.
— Tenho?
— Seus avós não deixaram todos os bens pra você? – Inquiriu impaciente. – Então a cabana agora é sua! E o terreno até lá é principalmente plano, acho que conseguimos chegar com mais facilidade e podemos esperar até a lama secar para voltar.
— E onde fica essa cabana?
— Me siga!
Ele começou a cavalgar com velocidade, no sentido oposto ao que eu estava indo antes. Não me restava outra alternativa além de segui-lo. Twilight já estava com as patas parcialmente atoladas em lama e, pelo que Edward tinha dito, a tendência era piorar mais perto da fazenda.
A chuva era forte e, com a velocidade que íamos, eu mal conseguia enxergar a mata à minha frente. Só esperava que Edward soubesse bem o caminho para a gente não se perder. A velocidade também fazia o vento se chocar com mais agressividade no meu rosto e eu comecei a tremer de frio.
Felizmente, logo eu vi a floresta se abrir numa clareira pequena e, no centro desta, havia uma construção de pedra. Só podia ser a cabana que procurávamos. Não era grande, mas serviria de abrigo para a chuva. Descemos dos cavalos e Edward os amarrou ao guarda-corpo da varanda, após passar Jacob para o meu colo.
— Você sabe arrombar portas? – Perguntei, encarando a porta trancada.
O teto da varanda já mantinha a chuva afastada de nós, mas o vendo ainda batia frio contra meu corpo molhado.
— Sei, mas existe uma forma melhor de entrar na cabana.
— Qual?
Ele olhou para os lados como se procurasse intrusos, então esticou a mão até o alto da moldura da porta.
— Seu avô me trouxe para caçar aqui uma vez, eu conheço o esconderijo da chave.
Edward destrancou a porta e adentrou a cabana primeiro, com a mão sobre sua pistola no coldre, como se conferisse se o ambiente era seguro. Entrei atrás dele e soltei Jacob no chão após fechar a porta. Vasculhei o ambiente com o olhar, estávamos no que parecia ser uma sala de estar, no centro do ambiente, escorado a parede da direita, havia um sofá de madeira com um tapete de pele de animal na frente. Ao lado, bem perto da porta que eu havia acabado de passar, havia uma mesa quadrada com 4 cadeiras. No centro da parede esquerda havia uma lareira de pedras e ao lado dela, em frente à mesa, havia outra porta. A parede dos fundos se abria num portal para o que parecia ser a cozinha. Andei furtivamente para a porta à minha esquerda. Dentro daquele outro cômodo havia uma cama de casal com duas mesinhas laterais, um armário e outra porta, que supus levar ao banheiro.
— Felizmente, meu pai também mantém essa propriedade. – Edward parecia ter finalizado sua inspeção e abandonara a postura rígida.
— Hã?
— Ele vem aqui uma vez por mês e, graças a isso, estamos abastecidos de lenha.
Edward se agachou diante da lareira e pegou um cesto com lenha cortada, que estava do lado oposto à porta do quarto, onde eu continuava parada observando tudo.
— Pronto, logo estaremos aquecidos. – Ele ficou de pé quando o fogo pegou. – Agora tire a roupa.
— O que? – Minha voz saiu estridente com o sobressalto.
— Tire essa roupa molhada, antes que você fique resfriada.
Apesar de ter entendido o que ele queria dizer, não significava que eu não continuasse chocada. Ele esperava que eu ficasse nua diante dele? Meu corpo parecia petrificado.
— Será que eu tenho que fazer tudo, princesinha? – Reclamou atravessando o cômodo a passos largos e parando diante de mim.
Ele começou a abrir os botões da minha blusa e um calafrio subiu pela minha coluna. Embora suas mãos passassem bem longe da minha pele, seu rosto concentrado na tarefa de me despir causou uma reação estranha no meu corpo e um calor desconhecido se alojou no meu baixo ventre.
Minha respiração acelerou e eu percebi que não tinha mais controle sobre meu próprio corpo. Cada pedacinho de mim agora pertencia ao cowboy e obedecia somente a ele.
— Eu sei tirar minha própria roupa. – Falei com o último fio de autocontrole que restava em mim.
— Não é o que estava parecendo.
— E você, não vai tirar a roupa molhada também? – Ergui uma sobrancelha.
— Depois eu cuido disso.
Ele terminou de abrir os botões da minha blusa e jogou a peça dos meus ombros, expondo minha roupa íntima. Sem me virar, Edward passou as mãos para minhas costas procurando o fecho da minha saia e isso me colocou ainda mais próxima do corpo dele.
O frio já não era mais o causador dos arrepios no meu corpo, o rosto dele estava tão próximo e tão acessível, era quase um convite para mim. Mal resistindo aos meus impulsos, passei uma mão por seu maxilar, sentindo os primeiros indícios do crescimento de sua barba espetarem minha pele. Depois, aproximei meu rosto até não haver mais distância entre nós.
Meus lábios estavam nos seus, sua boca não me ofereceu resistência alguma, pelo contrário. Ele abriu os lábios me recebendo de bom grado, sugando os meus em resposta.
As mãos dele, que estavam em minhas costas após me liberar da saia, me apertaram mais, me mantendo ainda mais perto do corpo dele. Naquele momento eu não possuía mais raciocínio lógico, apenas queria senti-lo tocando em mim.
Infelizmente, Edward não parecia tão descontrolado quanto eu e teve a presença de espírito de interromper o nosso beijo, me deixando ofegante e completamente desorientada.
— Já falei para não me provocar! Você não sabe no que está se metendo.
Ele também estava ofegante e com os lábios levemente inchados, porém parecia mais controlado do que eu, pois atravessou o quarto a passos largos e ficou o mais distante possível de mim.
Naquele momento, eu estava apenas com o corpete e as anáguas cobrindo minha combinação de roupa íntima. A saia e a blusa estavam caídas aos meus pés.
— Vamos ver se encontramos algo para vestir aqui. – Ele se enfiou no armário.
Dei alguns passos em sua direção, mas não parei tão perto de suas costas. Ele deixou o armário com um tecido leve em uma das mãos.
— Aqui tem um robe. – Ele passou por mim colocando a peça nas minhas mãos. – Tire essas anáguas molhadas, eu vou sair para você se trocar.
Mas eu não o deixei concluir aquela ação, agarrei em seu braço obrigando-o a parar e olhar para mim.
— Você também precisa tirar a roupa molhada. – Falei.
— Já disse que depois cuido disso.
Ignorei sua declaração e comecei a retirar seu casaco, da mesma forma que ele fez comigo.
— Bella... – Eu sabia que sua intenção era me repreender, mas a forma como ele falou só me instigava a continuar.
Larguei sobre a peseira da cama, seu casaco e o robe, que ainda estava nas minhas mãos. Depois, passei a abrir os botões de sua camisa. Os olhos dele eram penetrantes sobre o meu rosto.
— Você está brincando com fogo, princesinha.
— Eu não tenho medo.
— Está rindo na cara do perigo.
— E você seria o perigo? – Provoquei, com petulância.
— Não teste meu autocontrole!
Não respondi. Apenas permaneci quieta, devolvendo seu olhar intenso, procurando respostas para a sinergia entre nós no fundo do verde daqueles olhos.
Num átimo, ele me pegou no colo e colou os lábios nos meus. No instante seguinte, me senti sendo colocada sobre a cama macia, com o corpo quente dele por cima do meu, me prendendo ao colchão. Passei as mãos por sua nunca e agarrei seus cabelos, seus lábios vorazes nunca deixando os meus. Meu corpo se remexeu num espasmo involuntário e ele pareceu gostar daquilo, pois senti seus lábios se curvarem num leve sorriso durante nosso beijo.
Edward se afastou de mim por um instante e voltou a me encarar, daquele jeito intenso que fazia alguns segundos atrás, porém desta vez com um sorriso sacana no rosto.
— Você é tão linda! – Afirmou, apenas me olhando.
Eu corei, era como se aquele olhar estivesse me despindo mais do que suas mãos o fizeram mais cedo. Seus olhos despiam minha alma.
Ele desceu as mãos sensualmente por todo meu corpo, passando-as por cima dos tecidos que ainda me cobriam até chegar à barra das anáguas. Então, ele voltou a subir as mãos, desta vez por baixo do tecido, até tocar minha pele, no ponto exato em que os canos das minhas botas terminavam. Era um contato inocente, apenas suas mãos nas minhas pernas, mas somente aquilo foi capaz de me arrepiar inteira. O som de um gemido escapou dos meus lábios, sem que eu tivesse planejado aquilo. Edward voltou a me encarar, com o mesmo sorriso sacana estampado no rosto.
Lentamente, ele puxou minhas botas, uma de cada vez, de maneira provocante. Depois, se debruçou sobre mim e roçou os lábios levemente nos meus, mas sem realmente me beijar. Me lancei para frente, tentando antecipar o nosso contato, mas Edward se afastou e eu gemi de frustração. Ele riu.
Com serenidade, ele passou a desfazer os laços do meu corpete. Meu peito subia e descia com minha respiração acelerada, em expectativa pelo seu próximo toque. Edward me liberou do corpete e junto levou a parte de cima da combinação, deixando meus seios expostos. Meu primeiro impulso, foi sentir vergonha e tentar me cobrir, mas ele segurou minhas mãos antes que chegassem ao meu peito.
— Não! – Sussurrou. – Me deixe admirar você.
Eu corei, mas relaxei um pouco diante do seu pedido. O encarei de volta, enquanto ele me admirava com devoção. Seus olhos pareciam chamas de um fogo verde e brilhante.
— Tão linda! – Repetiu.
Edward foi descendo o rosto até o vale entre meus seios e beijou um de cada vez. Cada um dos seus movimentos era lento e calculado, mas aquilo só aumentava minha expectativa e me fazia ansiar mais pelos seus toques.
Infiltrei as mãos nos seus cabelos, enquanto ele continuava beijando e sugando com suavidade os meus seios. Em seguida, seus beijos desceram quentes e lentos numa linha reta pela minha barriga, passando pelo meu umbigo, até chegar nas anáguas.
Seus dedos se infiltraram no cós e retiram de mim todas as peças que me restavam. Eu fiquei completamente exposta a ele.
Edward continuou a trilha de beijos abaixo do meu umbigo. Com as mãos, ele separou minhas pernas e desceu os beijos até o meio delas. Aquele toque me pegou de surpresa, eu não esperava por isso, mas estava gostando. Ele sugava e lambia a região, me deixando completamente fora de mim.
Depois de algum tempo, ele adicionou uma das mãos às carícias, brincando e acariciando uma parte do meu corpo capaz de me fazer ver estrelas. Eu já não conseguia manter meus olhos abertos, não controlava os sons que saíam da minha boca e nem os movimentos do meu corpo, que se contorcia e se chocava contra sua boca e seus dedos. Agarrei com força os lençóis abaixo de mim, sentindo que meu corpo poderia explodir a qualquer minuto.
De repente, seus toques pararam. Eu me sentia no céu, como se estivesse voando, mas naquele momento, foi como ser atirada de volta ao solo. Eu quis reclamar, mas antes que eu falasse qualquer coisa, ele roçou o nariz suavemente na base da minha barriga e rastejou acima de mim. Apenas sua respiração tocando minha pele me causava arrepios e me faziam ansiar por mais.
— Edward... – Choraminguei.
— O que? – Perguntou, com os lábios a centímetros dos meus.
— Não pare.
— O que você quer, princesinha?
— Você!
Eu esperava que aquela resposta fosse suficiente, porque eu não saberia dizer mais nada além daquilo. Felizmente, aquela resposta pareceu bastar. Ele se pôs de pé e começou a tirar as próprias roupas. Fiquei deitada exatamente onde estava, apenas observando cada centímetro da sua pela sendo exposta para mim. Eu gostei daquilo, e o sorriso malicioso no rosto do cowboy me fazia crer que ele estava curtindo o momento tanto quanto eu.
Após se despir, Edward voltou seu corpo para junto do meu. Eu senti algo rijo tocar minha barriga e aquilo me causou expectativa.
— Se estiver arrependida, você precisa me pedir que pare agora. – Ele me alertou, mas eu não tinha nenhum arrependimento.
— Eu quero você! – Reafirmei.
O brilho nos olhos de Edward se tornou ainda mais intenso, se é que isto era possível.
Ele voltou a me beijar, enquanto suas pernas faziam o trabalho de afastar as minhas para que ele se encaixasse entre elas.
— Está pronta? – Perguntou e eu assenti, embora não soubesse exatamente o que me esperava.
Ele desceu uma das mãos entre os nossos corpos e guiou seu membro até minha entrada. Edward olhou mais uma vez nos meus olhos antes de me invadir com firmeza e agilidade. Arfei, surpresa pela invasão. Em seguida, senti algo rasgar dentro de mim. Era dolorido, mas ao mesmo tempo, a sensação de tê-lo dentro de mim era boa.
— Você está bem?
— Sim. Por favor, continue.
E aquilo foi a deixa para ele se mexer dentro de mim. Eu não sabia exatamente o que fazer, não tinha sua experiência, mas de alguma forma, meu corpo parecia saber exatamente como agir e nós dois nos movimentávamos em sincronia.
— Bella! – Edward deixou escapar meu nome pelos seus lábios, com sofreguidão.
Me senti poderosa, com aquele homem viril gemendo meu nome. Eu poderia ter sorrido, se seus lábios não tivessem me interrompido com um beijo.
Aos poucos, fui sentindo meu corpo sair do meu controle novamente. Revirei os olhos e tombei a cabeça para trás, deixando meu pescoço livre para os beijos de Edward. Ele continuou investindo contra minha intimidade, enquanto eu rebolava debaixo dele, acompanhando seus movimentos.
Então, algo aconteceu. Meu corpo se contraiu e parecia que eu tinha chegado ao paraíso, sem sair daquele quarto. Edward ainda se mexia dentro de mim, ajudando a prolongar aquela sensação, mas logo também o senti se contrair dentro de mim para, em seguida, seu corpo relaxar junto ao meu.
~*~
Não sei quanto tempo tinha se passado, mas alguma coisa me acordou. Pela fresta da janela, vi que estava escuro do lado de fora, então devia ser madrugada. Eu não sabia por que tinha acordado, visto que ainda estava cansada, foi então que eu ouvi: o som parecia um gemido ou um arfar e vinha de trás de mim. Virei na cama, me deparando com Edward ao meu lado, ele estava completamente molhado de suor, o rosto adormecido parecia estar em agonia e ele também tremia muito.
— Cowboy?
Meu chamado não obteve resposta, mas quando toquei seu ombro, na tentativa de despertá-lo, me assustei com a temperatura. Ele estava queimando em febre!
Aquela constatação me despertou totalmente, eu precisava fazer algo para Edward melhorar.
Maldito cowboy cabeça dura! Pensei internamente. Se ele não tivesse continuado com as roupas molhadas, nada disso estaria acontecendo.
Levantei-me da cama pensando o que fazer para ajudá-lo, então me dei conta que estava nua. Eu corei, mesmo estando sozinha, era uma reação inevitável. Ao pé da cama, estava o robe que ele me dera mais cedo. Vesti a peça e fui ao armário do quarto, em busca de algo que pudesse ajudá-lo.
Encontrei pedaços de tecido que pareciam lenços ou guardanapos, aquilo teria que servir para fazer compressas frias. Molhei um dos panos e coloquei sobre a testa de Edward. Aquilo pareceu acalmá-lo um pouco, mas não baixou a temperatura imediatamente.
Passei o restante da madrugada naquele processo de colocar panos úmidos sobre ele, sempre que um esquentava em contato com sua pele febril, eu trocava por outro fresco. Vi quando o dia começou a raiar do lado de fora da cabana, também notei que a chuva tinha cessado. Porém, a febre de Edward não cedia, ele continuava a tremer e arfar em seu sono.
Na noite anterior, quando chegamos à cabana, notei que havia uma horta na lateral e, com sorte, eu poderia achar algo que me ajudasse a cuidar do cowboy.
Infelizmente, me deparei apenas com pés de legumes. Eu poderia preparar um caldo para ele, iria ajudá-lo a se manter forte, mas isso em si não iria curá-lo. Suspirei pensando no que mais podia fazer por ele.
A clareira onde ficava a cabana não era tão grande e a floresta, por onde viemos, estava a poucos metros. Foi quando eu vi minha salvação. Fazia tanto tempo que eu quase me esqueci, mas na infância, sempre que eu ficava resfriada, tomava chá de agulhas de pinheiro. Aquilo tinha que ajudar Edward!
Entrei na casa para apanhar um facão, montei em Twilight e adentrei de novo na mata, o solo ainda estava lamacento por causa da noite chuvosa, mas eu precisava alcançar um pinheiro. Não foi difícil achar um, logo colhi alguns ramos e retornei para o meu cowboy.
Primeiro fiz o chá e, enquanto os legumes coziam, o obriguei a tomar a bebida. Não completamente desperto, ele reclamou bastante, mas esvaziou a caneca. Deixei-o descansar mais um pouco enquanto eu terminava de preparar o caldo e, depois que estava pronto, decidi comer antes de servi-lo. Mais uma vez ele reclamou, mas também comeu tudo.
Levei o prato para a pia, enquanto Edward voltava a dormir. Arrumei a cozinha toda antes de retornar para o quarto, troquei as compressas na testa dele e me permiti deitar mais um pouco ao seu lado, onde acabei cochilando novamente.
Não foi um sono pesado, ainda estava alerta ao estado de saúde do homem ao meu lado. Mas, quando acordei horas mais tarde, me sentia revigorada, como não me senti pela manhã.
Chequei a temperatura de Edward, ele ainda estava quente, mas não tinha mais calafrios nem estava suando como na madrugada. Troquei outra uma vez os panos de sua testa e fui preparar mais chá. Desta vez ele bebeu sem reclamar e chegou até a trocar umas palavras comigo, perguntei se ele queria comer mais um pouco do caldo, mas ele disse que a garganta doía e preferiu voltar a dormir.
Esquentei os legumes para mim e comi mais um pouco. Aproveitei que a chuva parou e levei nossas roupas do dia anterior para o sol, afinal só tínhamos aquelas.
Mais uma vez, voltei para o lado do cowboy e troquei as compressas. Ele parecia melhor, até mesmo nas feições. Deitei-me novamente ao seu lado e, apesar de ter fechado os olhos, não consegui dormir de novo.
À tarde, eu já estava cansada de ficar deitada. Edward estava melhor, apesar de ainda adormecido, e não precisava de vigia constante. Pensei em me levantar e mudar um pouco de ares. Ainda estava vestida somente com o robe da noite anterior. Fui até o armário do quarto e achei um cobertor macio, me enrolei nele e me mudei somente para a sala.
O fogo da lareira ainda crepitava desde a noite anterior. Sentei-me no tapete de pele diante dela e apoiei as costas na madeira do sofá, assistindo o fogo dançar. Fiquei tão concentrada nas chamas que não ouvi os passos se aproximando.
— Ei! – Olhei para a porta do quarto, onde Edward estava parado, ele vestia apenas a roupa íntima, um macacão branco com botões no peito, os quais ele tinha deixado aberto.
— Ei! Como se sente?
— Bem melhor agora. Graças àquele treco que você me deu para tomar.
Ele se sentou ao meu lado no tapete e me puxou para seus braços. Passei de bom grado para seu peito. Ele afastou meus cabelos todos para um lado e se dedicou a beijar minha nuca.
— É chá de agulhas de pinheiro, minha mãe sempre me fazia tomar esse chá quando eu era criança. – Suspirei.
— Você sente muita falta dela, não é? – Ele perguntou, com o rosto ainda enfiado na curva do meu ombro, suas mãos subindo e descendo carinhosamente pelos meus braços.
— Sim...
— Você tinha quantos anos quando ela faleceu? – Ele parou com os beijos, mas suas mãos continuaram fazendo carinho nos meus braços.
— Oito.
— E agora?
— Vinte e seis.
— É bastante tempo... – Refletiu.
Assenti. Após um minuto de completo silêncio entre nós, ele retomou os beijos.
— E você?
— Eu o que? – Perguntou, com a boca ainda colada na minha pele.
— Tem quantos anos?
— Vinte e oito.
— Quando é seu aniversário?
— Junho. Por quê? – Parou mais uma vez as carícias, intrigado.
Calculei mentalmente.
— Você tinha alguns meses de vida quando meus pais se casaram e minha mãe deixou a fazenda. Seus pais já trabalhavam lá quando você nasceu?
— Sim. – Suspirou. – Eles trabalham para sua família desde antes de se casarem.
— Será que mamãe chegou a te conhecer?
— Isso tem importância?
— Seria... – Procurei a palavra adequada. – Reconfortante saber que minha mãe conheceu a pessoa que mais está me apoiando nesse momento de reviravolta na minha vida. – Também suspirei. – É quase como se tivesse a aprovação dela para tudo que estou fazendo aqui.
— Tenho certeza de que sua mãe sentiria orgulho de você, independentemente de ter me conhecido quando eu era bebê ou não.
— Mesmo assim, gosto de pensar que ela teria gostado de te conhecer.
— Mesmo que ela tenha me conhecido antes de deixar a fazenda, eu era apenas um bebê, tenho certeza de que não deu para formar uma opinião a meu respeito. Quero dizer, eu sequer tinha desenvolvido minha personalidade ainda.
Sem sair de seus braços, me virei para olhar no seu rosto.
— Consigo visualizar você recém-nascido já com jeito de cowboy e essa cara de mau – Sorri e fiz carinho no seu maxilar.
Ele riu da minha provocação.
— Ah, princesinha! O que eu faço com você?
— Me beije. – Sugeri e ele prontamente atendeu.
Era bom beijar Edward, ele passeou a língua pela minha boca e depois mordeu o canto do meu lábio inferior. Eu não sabia que aquilo poderia ser tão bom. Uma de suas mãos adentrou por baixo do cobertor e acariciou minha cintura por cima do tecido fino do robe. Seus lábios nunca se afastando dos meus.
O corpo dele foi me pressionando de modo que eu me deitasse sobre o tapete, o cobertor no qual eu me enrolei, ficando abaixo do meu corpo e ele por cima de mim. Aquilo estava bom e eu queria mais. Eu sempre queria mais de Edward.
Ele também não parecia disposto a parar, no entanto nem tudo que queríamos era possível. Jacob, que eu tinha visto mais cedo adormecido de baixo da mesa, levantou-se e veio brincar com meus cabelos, que agora estavam espalhados sobre o tapete. Edward grunhiu e me largou, se jogando ao meu lado no tapete. Eu ri e tentei fazer Jacob soltar os meus cabelos.
— Este cachorro é meu pior rival! – Declarou frustrado e eu ri de novo.
Consegui fazer Jacob soltar meus cabelos e o puxei para meu colo, onde ele se esticou todo para lamber meu rosto. Ri mais uma vez, tentando escapar de sua língua.
— Você fica tão linda sorrindo. – O cowboy falou me olhando de maneira penetrante e eu corei.
Jacob aproveitou minha distração para acertar uma lambida no meu olho.
— Eca! – Reclamei e quem riu desta vez foi Edward.
Ele me ajudou a me livrar das lambidas e deixou o cachorro brincar com sua mão até ele cansar e se acalmar, deitado entre nós dois.
— Sabe, apesar dos percalços que nos trouxeram até aqui, estou feliz de estar nesta cabana com você. – Falei olhando para o teto. – Só nós dois.
— E Jacob. – Edward caçoou, ainda deitado ao meu lado.
— Claro, e ele.
Ficamos em silêncio um minuto.
— Por quê? – Perguntou de repente.
— Como? – Virei minha cabeça pra vê-lo e ele ergueu o tronco, se apoiando no cotovelo e olhando intensamente para o meu rosto.
— Por que você está feliz de estar sozinha aqui comigo? Sabe que se alguém descobrir, sua honra estará arruinada para sempre, não é?
Lembrei do deserto, quando o conheci durante o assalto à diligência. Lembrei de ter olhado no fundo daqueles olhos verdes e ter pensado que cabia o universo inteiro neles. Embora, depois eu tenha descoberto que havia uma muralha ao redor de sua alma, seus olhos ainda continham todas as respostas para todas as perguntas do mundo.
— Eu sempre quis que você me deixasse me aproximar, mas você sempre se fechou. – Voltei a olhar o teto, se continuasse olhando para o verde dos olhos dele não sei se teria coragem de continuar a explicação. – Mas aqui podemos ser Bella e Edward, não o cowboy e a princesinha. – Fiz careta ao mencionar o apelido que ele me deu. – Sem trabalho envolvido, sem pressões sociais, sem diferenças econômicas, apenas nós. – Voltei a olhar pra seu rosto. – E eu gostei do que eu vi. Acho que poderíamos ser uma boa dupla, se você me deixasse ser sua amiga.
— E apesar de tudo, ainda teremos que voltar para a fazenda, onde eu sou o empregado e você a patroa. – Ele voltou a se deitar com um suspiro.
~*~
Ficamos em silêncio por tanto tempo, cada um imerso nos próprios pensamentos, que eu nem percebi quando adormeci. Quando notei, estava acordando, ainda deitada sobre o tapete de pele, com Jacob ao meu lado. Edward não estava à vista, mas eu podia sentir um cheiro muito bom.
— O que você está fazendo? – Perguntei após erguer um pouco o corpo e ver o cowboy de costas para mim, mexendo algo no fogão.
— Acordou, dorminhoca? – Se virou, sorrindo para mim. – Gosta de carne de cervo?
— Não faço ideia. Nunca provei. – Enruguei as sobrancelhas.
— Então estamos prestes a descobrir. O jantar está quase pronto.
— De onde veio o cervo?
— Estamos numa cabana de caça, afinal. Você preparou o almoço, pensei que podia retribuir com o jantar. – Ele voltou a mexer a panela.
— Você saiu para caçar? Mesmo doente?
Ele assentiu.
— Já estou me sentindo melhor, não foi nada demais.
— Você não devia ter ido. – Repreendi.
— Agora já está feito, não tem como voltar atrás. – Deu de ombros e eu bufei.
Enquanto ele terminava de preparar o jantar, aproveitei para me lavar no banheiro. Quando terminei, vesti um segundo robe que achei no armário do quarto e o encontrei novamente na sala, no momento em que ele colocava a carne e os pratos sobre a pequena mesa. Antes de nos sentarmos para comer, Edward cortou um pedaço da carne, colocou numa tigela e pôs no chão para Jacob. Achei atencioso da parte dele ter pensado no cachorro, uma vez que ele nunca demonstrou nenhum tipo de afeição por ele.
— Não sabia que você cozinhava tão bem. Estava uma delícia! – Elogiei, depois de esvaziar meu prato.
— Um homem solitário precisa aprender algumas coisas para não morrer de fome.
— Você nunca pensou em se casar?
— Você sabe sobre Maria.
— Eu quis dizer depois dela.
— Precisamos mesmo falar disso? – Ele fechou a cara, voltando a parecer muito o cowboy carrancudo que eu via todos os dias trabalhando.
— Não. – Suspirei. – Acho que você deveria tomar mais um pouco de chá. – Mudei de assunto.
Ele fez careta.
— Você parece criança agindo assim.
Ele resmungou, mesmo assim coloquei mais uma caneca de chá na sua frente e ele a esvaziou. Aproveitei enquanto ele bebia para começar a limpar a cozinha e Edward anunciou que ia se lavar, ao me devolver a caneca.
Quando terminei, o encontrei já deitado, mas eu não sabia se dormia ou não. Mesmo assim, me deitei ao seu lado e virei de costas para ele.
— Ei, você está brava? – Perguntou, me abraçando por trás.
— Não sabia se você estava acordado ou não.
— Então você não vai se importar se eu fizer isto, não é? – Beijou meu ombro.
Neguei e ele continuou beijando. Me acomodei melhor contra seu peito.
Com delicadeza, ele puxou o laço e abriu meu robe. Furtivamente, sua mão se infiltrou pelo tecido e tocou a minha pele, subiu pelas minhas costelas e afastou o tecido, deixando meu ombro exposto para seus beijos.
Ele passou o outro braço por baixo do meu ombro e subiu a mão pela minha barriga, naquele momento livre de qualquer tecido. Seus dedos tocavam tão delicadamente minha pele, que deixavam um rastro de arrepio. Ele seguiu trilhando aquela linha provocativa, subindo pelo meu corpo, até alcançar meu seio. Ele massageou suavemente a região, sua mão em concha parecia feita sob medida para encaixar naquela parte do meu corpo.
Seus beijos continuavam pela minha nuca e meu ombro, intercalados com mordidas e sugadas. Edward passou a outra mão por cima da minha cintura, depois fez o caminho contrário da outra, descendo cada vez mais pela minha barriga, até chegar à minha intimidade. Ele brincou um pouco com os dedos na região, sem me invadir, apenas dedilhando suavemente sobre minha pele.
Após algum tempo naquela provocação, ele finalmente afundou mais os dedos na minha carne e tocou meu ponto mais sensível. Rebolei nos seus dedos e ele gemeu no meu ouvido. Seu próximo passo foi me invadir com dois dedos, me pegando completamente de surpresa. Remexi meu quadril outra vez e senti sua ereção pressionada contra minha bunda.
— Edward! – Falei seu nome como se fosse um bote salva-vidas e ele gemeu em resposta.
Seus toques continuaram na minha intimidade e eu rebolava cada vez mais rápido na sua mão, almejando o mesmo alívio que conheci na noite anterior.
— Ainda não, princesinha. – Ele retirou os dedos de mim e eu urrei, frustrada. – Vire-se para mim.
Obedeci e colei meu peito ao dele. Edward abocanhou meus lábios e me beijou com voracidade. Me entreguei àquele contato, deixando sua língua explorar minha boca por completo e fazendo o mesmo com ele. Sua mão alcançou minha cintura mais uma vez e deslizou para minhas costas, por baixo do robe que, mesmo aberto, ainda cobria a parte posterior do meu corpo.
Toquei seu peito e deixei minhas mãos passearem por aquela região, sentindo seus músculos definidos reagirem ao meu toque. Aproveitei os botões de sua roupa íntima abertos para puxá-la de seus ombros e libertar seus braços. Depois, continuei descendo minhas mãos para libertar também seu quadril da roupa. Ele me ajudou erguendo um pouco o corpo e, depois, chutou a peça para longe de suas pernas.
A mão dele também passeou pelo meu corpo, desceu pela lombar até a minha bunda, onde deixou um beliscão, e continuou descendo até minha coxa.
Subitamente, Edward puxou minha perna e passou por cima do seu quadril. Senti a rigidez dele roçar levemente na minha entrada e suspirei em seus lábios. Ele desfez nosso beijo, mas seguiu com os lábios para meu pescoço. Não consegui conter um gritinho surpreso quando ele me penetrou de uma só vez.
A sensação de estar com Edward era boa, ser dele era incrível. Ele sabia o que fazer e me levava à loucura. Pela segunda vez na minha vida, senti o prazer que era me entregar de corpo e alma àquele cowboy.
~*~
Acordei com a luz do sol entrando pela fresta da janela e batendo no meu rosto. Pisquei para me acostumar com a claridade. Virei para o outro lado na cama e me deparei com Edward adormecido.
Toquei mais uma vez em sua testa, somente para me certificar de que ele estava bem e, como esperado, a febre tinha cedido de vez.
— Ainda estou vivo? – Ele perguntou, com os olhos ainda fechados.
— Você está acordado, seu fingido! – O empurrei.
— Estava aproveitando seu cuidado.
— Eu me preocupei com você.
— Estou bem!
— Graças ao meu chá.
Ele riu.
— Minha mãe também tem essas receitas caseiras para quando a gente fica doente. Alice quem sempre toma. Eu não preciso disso, sou forte!
Foi minha vez de rir. Ele fez um carinho suave no meu rosto.
— Eu vou sentir falta de ter você cuidando de mim.
— Precisamos mesmo voltar? Eu estava gostando de ficar aqui e te conhecer melhor. – Acariciei o rosto dele da mesma forma.
— O que mais você quer saber?
Refleti.
— Qual o seu nome do meio? – Perguntei algo simples, porém relevante.
— Anthony. Posso saber o seu?
— Marie. – Fiz uma careta.
— Você sabe que eu conheci sua avó, não é? Ela era uma boa pessoa.
— Para mim, ela é apenas a pessoa que cortou laços com minha mãe porque ela se casou com meu pai.
— Seus avós se arrependeram depois, todos na fazenda sabiam que eles foram atrás da filha e viram como eles voltaram arrasados com a notícia da morte dela.
— Ainda assim, não adiantou de nada, esse arrependimento veio tarde demais e eu me pergunto se foi genuíno. – Suspirei. – Imagino o que diriam se vissem a neta, para quem deram todos os bens, aqui, nesta cabana deitada com um cowboy.
Ele fechou a cara, da mesma forma que na noite anterior, quando mencionei sua ex-noiva.
— O dia todo de sol ontem deve ter secado a terra. Temos que ir. – Falou de repente, levantando-se da cama.
— Você está fugindo! – Acusei.
— Precisamos mesmo ir. Devem estar preocupados com nosso sumiço.
Não discuti, afinal aquilo também era verdade, assim como o fato dele estar fugindo do assunto.
Edward saiu e pegou as nossas roupas onde eu tinha colocado para secar no dia anterior, me entregou as minhas e saiu do quarto outra vez, me deixando sozinha para me vestir.
~*~
Mal entramos galopando na fazenda, e Esme já rompia pela porta da casa. Tivemos tempo apenas de pôr nossos pés no chão ao descermos dos cavalos, antes de sermos capturados juntos por ela, num abraço apertado. Até mesmo Jacob, no meu colo, foi esmagado entre nós.
— Edward! Bella! Nós estávamos tão preocupados! – Seu tom estava entre uma lamúria e um estado de graça.
— Irmão! – Alice também apareceu na porta da casa e se juntou ao nosso abraço.
— Graças a Deus vocês estão bem!
— Onde vocês estavam?
As duas falavam ao mesmo tempo nos deixando atordoados.
— Será que podemos entrar? – Edward pediu.
— Claro! – Esme praticamente nos conduziu para dentro de casa.
Nós só conseguimos chegar até o hall de entrada, onde Carlisle e Angela também vinham ao nosso encontro. O caseiro se aproximou do filho e a criada veio até mim.
— Você está bem? – Me perguntou.
Assenti e soltei Jacob no chão, após ter certeza de que a porta estava fechada atrás de Alice. Todos ainda falavam ao mesmo tempo, enquanto éramos levados até a sala de estar formal. Eu não estava cansada, mesmo assim alguém me forçou a sentar numa das poltronas.
— O que aconteceu? Onde vocês estavam? – Esme perguntou, quando estávamos todos sentados e os outros um pouco mais calmos.
— Saímos para procurar Jacob e fomos pegos pela chuva. – Expliquei.
— A encosta na floresta ficou úmida e o barro virou lama, não era seguro voltar com os cavalos. Nós ficamos na cabana de caça esperando a terra secar. – Edward concluiu.
— Felizmente, a cabana estava à disposição. Obrigada por mantê-la, Carlisle. – Agradeci.
— Só fiz meu trabalho. – Ele deu de ombros.
— Nós ficamos tão preocupados! Não sabíamos se estavam bem, chegamos até a pensar que tinham sido pegos por outro pistoleiro. – Esme estremeceu.
— Aro esteve aqui enquanto vocês estavam fora. – Alice contou.
— Aro Volturi?
— O que aquele patife queria? – Edward perguntou, irritado.
— Disse que ficou sabendo que fomos atacados e veio prestar solidariedade. – Esme explicou.
— Como ele pode ter ficado sabendo? – Perguntei intrigada.
— Só se foi ele quem encomendou a emboscada e percebeu que deu errado quando os capangas não retornaram. – O cowboy especulou.
— Nós chegamos a pensar nisso também. – Carlisle ponderou.
— E com vocês dois desaparecidos, a gente não sabia se estavam bem... foi apavorante! – Esme completou.
— Mas por que ele faria algo assim contra nós? – Perguntei.
Todos ficaram em silêncio por um instante, como se formulassem suas teorias internamente. Por fim, Edward falou:
— Água, só pode ser isso. Passa um rio nas suas terras e isso é muito valioso.
— E Aro vive de cavar poços para não deixar o gado dele morrer de sede. – Carlisle completou.
— Ele só apareceu uma vez? – Edward quis saber.
— A primeira vez ele veio bater à porta da frente e falou com nossos pais, já que Bella não estava, mas no dia seguinte ele foi visto rondando a fazenda e sondando alguns peões. – Alice narrou.
— Bastardo!
— Edward, olhe a boca! – Foi repreendido pela mãe.
— Não se preocupe, eu o coloquei para correr daqui. – Jasper, o forasteiro que nos ajudou no dia do tiroteio, falou entrando na sala.
— O que esse cara ainda está fazendo aqui?
— Edward, ele nos ajudou! – Alice o repreendeu.
— Acho que podemos dar um voto de confiança. – Declarei.
— Nem sei o que seria de nós se Jasper não estivesse aqui. – Alice ruborizou levemente. Sem perceber a expressão da irmã, Edward fuzilou o rapaz com os olhos.
— Bem, então acho que está claro que o Sr. Withlock tem um emprego aqui, se quiser. – Falei, cortando qualquer briga que o cowboy estivesse disposto a começar.
— É tudo o que eu mais queria, Srta. Swan. – Seu olhar viajou rapidamente na direção de Alice e eu torci para que o irmão dela não tivesse notado aquele lapso, ou uma guerra poderia estourar dentro da minha casa.
— Por favor, me chame apenas de Bella. Todos aqui na fazenda já o fazem e eu prefiro assim.
— Então, por favor, me chame apenas de Jasper. – Pediu, com um tom cortês.
— É claro. – Assenti e me virei para Edward, que encarava o chão com uma cara azeda. – Cowboy, você pode apresentar o serviço para nosso novo funcionário?
— Eu?
— Claro. Você não espera que eu faça isso, espera?
— Certo, então devemos começar já. – Ficou de pé. – E saiba que eu vou manter você sob vigia.
Jasper bateu continência, Edward revirou os olhos e os dois saíram para a lida.
~*~
Com os pistoleiros presos, todos os funcionários já tinham voltado ao trabalho. Eu também tinha que retomar minhas funções na administração da fazenda, por isso fui logo ao meu escritório.
Comecei abrindo a correspondência. Havia algumas coisas para responder, um comprador queria agendar uma reunião e também tinha uma carta pessoal para mim.
— Com licença. – Um chamado atraiu minha atenção. Era Edward, na porta do escritório.
— Entre, por favor.
— Bella, alguns bois estão muito doentes, vamos precisar do veterinário.
— Claro, vou escrever o recado. Você pode designar um dos peões para levar?
Ele assentiu e deixou o escritório.
Pouco depois, Esme veio me chamar pois havia uma visita na sala. Para meu desgosto, era Aro Volturi com um rapazote parecendo que mal tinha saído dos cueiros.
— Srta. Swan, que prazer em vê-la de volta.
— Fui informada que esteve visitando a fazenda na minha ausência, Sr. Volturi. – Fui direta.
— Ah, eu estava preocupado quando soube que bandidos armados atacaram sua casa e depois, quando soube do seu desaparecimento, fiquei aflito.
— Eu imagino. – Falei, tentando conter a ironia na minha voz.
Patife cínico! Vinha até aqui fingir preocupação, como se não estivesse interessado apenas nas minhas posses.
— Creio que a senhorita não tenha tido ainda a oportunidade de ser apresentada ao meu filho, Alec Volturi. Ele chegou há pouco tempo do colégio interno. – Falou, apontando para o jovem que o acompanhava. Pela sua aparência e pela informação sobre o colégio interno, julguei que o garoto deveria ter no máximo 19 anos. – Filho, entregue as flores que trouxemos para a Srta. Swan.
Era impressão minha ou ele estava incentivando aquele moleque a me cortejar?
— É um prazer conhecê-la, senhorita. – O garoto me cumprimentou, sem jeito.
Aceitei as flores e respondi Alec com cordialidade. Porém, não tinha a mesma disposição para seu pai. Aquele homem tinha algo que me incomodava.
Eu não sabia mais o que dizer, não queria estender a conversa com ele, mas também não queria ser mal-educada e pedir que eles se retirassem. Felizmente, fui salva pelo gongo. Naquele momento, Jasper entrou na sala me informando que trazia a resposta do veterinário.
— Bem, Sr. Volturi, se me der licença eu preciso cuidar disso. – Pedi no mesmo instante.
— É claro, nossa visita foi apenas de cordialidade, já estamos de saída. – Ele respondeu e, junto com o filho, saíram atrás do novo peão.
Nunca fiquei tão grata na minha vida por receber uma correspondência quanto naquele momento, retornando ao meu escritório com o bilhete do veterinário nas mãos.
Abri o envelope e li a mensagem, ele viria ver o gado em dois dias, devido a outros compromissos em sua agenda. Saí eu mesma para o campo, para informar Edward o que ficou acertado. Percebi naquele momento que ele tinha voltado a agir frio e distante comigo, como sempre foi, ou talvez até pior. Ou talvez, eu apenas tivesse mal-acostumada com a atenção exclusiva que recebi dele nos dias que ficamos na cabana.
Dois dias depois, como prometido, o veterinário estava na minha porta. Mal tinha terminado meu desjejum, quando a batida soou à porta e Esme foi atender.
— Bom dia, Srta. Swan. Qual o problema com seu rebanho?
— Eu não sei exatamente, um dos peões identificou alguns animais doentes e me avisou.
Notei certo ar de deboche nele, mas pelo menos não chegou a fazer nenhum comentário irônico.
— Vamos chamar o cowboy, ele vai saber te explicar melhor. – Sugeri logo.
Encontramos Edward no estábulo e, como previsto, ele soube explicar muito melhor que eu o problema dos animais. O veterinário mal se dirigiu a mim naquela visita, se reportando o tempo todo apenas a ele.
Aquilo me fez perceber uma coisa: eu era boa em negociações, lidei muito bem com os números da fazenda, aumentei o lucro e otimizei os rendimentos em menos de um mês da minha administração. No entanto, eu não entendia nada do funcionamento da fazenda no dia a dia. Edward, por outro lado, cuidava de tudo aquilo eximiamente, ele era praticamente um segundo no comando da fazenda sem que eu precisasse ter lhe delegado aquela função.
Quando retornei para casa, a correspondência do dia tinha sido entregue e, no meio dela, havia uma carta do meu pai. Ele perguntava como estava sendo minha adaptação e como eu estava cuidando de tudo por aqui.
Aquilo me lembrou do meu propósito original, quando aceitei vir até aqui com o advogado. Eu não queria ser dona de nada, planejava analisar a situação e encontrar uma forma de manter a fazenda, para que nenhum colono perdesse o emprego. Estava na hora de retomar aquele plano.
Escrevi a resposta para o meu pai, contei que estava gostando de lidar com os negócios e também outras novidades. Pulei as partes ruins, como o tiroteio, pois não queria deixá-lo preocupado. Depois, pedi que alguém chamasse Edward, eu precisava dele para colocar meu plano em prática.
— Mandou me chamar? – Ele perguntou após bater na porta.
— Sim. Por favor, sente-se. – Indiquei a cadeira a minha frente. – Preciso conversar com você.
— Algum problema?
— Não. Eu apenas tenho uma proposta para lhe fazer.
— Que proposta?
— Eu quero te propor uma sociedade.
— Sociedade? – Franziu o cenho.
— Desde que cheguei aqui, eu me dei muito bem cuidando dos negócios, manejando o orçamento e fechando contratos. Mas está muito claro que eu não entendo nada sobre cuidar de uma fazenda, sobre manutenção de insumos ou lida com o gado.
Respirei fundo e me inclinei mais em sua direção, a fim de dar continuidade.
— Você, por outro lado, cuida disso tudo naturalmente. Por isso, eu quero propor esta sociedade. Eu quero deixar a fazenda sob seu comando, me mudar para a cidade e administrar os negócios de um escritório lá.
Ele deu um sonoro tapa na mesa entre nós e se pôs de pé, o que me assustou e me fez pular no assento.
— Isso é por causa da casa dos meus pais? – Bradou, irritado.
— O que? Não!
— Alice não devia ter falado nada disso para você. Eu já disse, não quero nada do que é seu. – Falou a última frase pontuando cada palavra, olhando bem dentro dos meus olhos, de uma forma quase intimidadora.
— Edward, eu...
Queria dizer que não era nada daquilo, que eu não estava dando meus bens para ele e que não estava fazendo aquilo por piedade ou culpa. Queria explicar que só estava propondo que ele fosse meu sócio, para que nós dois administrássemos os negócios juntos. Cuidar da fazenda não era uma das minhas habilidades, e até mesmo as investidas de Aro estavam me irritando. Eu queria me mudar para a cidade e continuar fazendo meu trabalho de lá, sabendo que as terras estariam em boas mãos.
Eu queria ter dito tudo isso a ele, mas seu estado de espírito me impediu. Porque por mais que tentasse falar, ele não estava ouvindo, enquanto proferia suas queixas.
— Eu sabia que isso não tinha como dar certo, sempre soube que era uma péssima ideia tentar ser amigo de patrão.
— Edward, não... – Tentei dizer, mas ele já tinha me dado as costas. Deixou o escritório a passos duros e com uma batida estrondosa da porta.
Eu quis ir atrás dele, mas sabia que, enquanto ele estivesse de cabeça quente, não iria adiantar de nada. Ele não iria me ouvir da mesma forma. Por isso, decidi dar tempo ao tempo e esperar que Edward estivesse mais calmo antes de tentar expor meu ponto novamente.
Suspirei e segui meu trabalho com os números. Ou pelo menos tentei, porque enquanto eu conferia notas e passava valores para os livros de caixa, meu pensamento vagava espontaneamente para o cowboy. Como será que ele estava? Será que tinha se acalmado? Quando será que eu poderia tentar retomar o assunto?
Ainda é cedo, disse a mim mesma.
No entanto, pouco tempo depois, ele estava de volta à minha sala. Carregando uma bolsa no ombro e com um envelope na mão.
Assim que o vi entrar, me coloquei de pé, pronta para voltar a expor meus argumentos, mas antes que eu sequer tentasse, ele jogou o envelope sobre a mesa na minha frente.
— O que é isso? – Perguntei.
— Meu pedido de demissão por escrito.
— Edward, por que você está fazendo isso?
— Acho que está claro que eu não posso continuar aqui.
— Não está claro coisa nenhuma! – Vociferei.
— Nós estragamos tudo tentando manter uma relação além da profissional e agora é tarde para voltar atrás. – Ele disse com o tom mortalmente gélido. – Alice não devia ter dito nada sobre a casa dos nossos pais, agora você pensa que eu só estou interessado nos seus bens, mas eu não quero nada que não é meu.
— Não é nada disso. Você está entendendo tudo errado!
— Adeus, Srta. Swan. – Disse, sem olhar uma última vez no meu rosto e deixou o escritório novamente.
Bufei e me joguei de volta sobre a cadeira. Maldito cowboy teimoso!
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