A herdeira das Sombras: entre luz e sombras
5 Capítulo 5: Uma Vidente e Uma Vila que é Uma Lenda
Numa parte remota do País Seraphine, existia uma vila oculta pelas runas mágicas, um refúgio protegido do mundo exterior. Ali, casas de madeira com telhados inclinados pareciam quase tocar o céu. No coração dessa aldeia, uma senhora repousava em sua cama, mergulhada em um sonho inquietante. Em sua visão, a bela vila estava sendo consumida por fogo e sangue. Jovens corriam aterrorizados, suas roupas ensanguentadas, enquanto outros se ajoelhavam no chão rochoso, puxando os cabelos em desespero. O som das gritos ecoava, misturado ao barulho das chamas.
A senhora observava como uma espectadora, impotente diante do caos. Era o segundo sonho em que via essa cena, e, mais uma vez, ela se sentia um espectro do futuro. Vinte e um anos haviam se passado, e os presságios da destruição voltavam a se repetir. Ela sabia que não se tratava de simples quimeras noturnas. Algo estava para acontecer, e não seria bom.
Enquanto ela assistia à tragédia, uma figura apareceu diante dela: uma dama de cabelos vermelhos. A velha senhora ficou perplexa e aterrorizada ao perceber que era a mesma mulher que ela havia visto há vinte e um anos, correndo em direção a um homem moreno, cujos olhos ardentes estavam em lágrimas vermelhas. Seu corpo parecia transbordar de dor, e seus tímpanos estouravam com o som ensurdecedor de sangue jorrando. Ela rugia furiosamente, como um leão, conjurando feitiços atrás de feitiços. Seu poder era devastador. Não havia hesitação enquanto ela atacava todos os soldados, destruindo-os sem piedade. A atmosfera estava carregada de uma tragédia iminente.
A velha senhora sabia que o destino da vila estava entrelaçado com a dama ruiva. A preocupação se intensificava enquanto via a jovem ser atacada, esfaqueada por um homem, um líder dos clérigos, que a feriu com uma adaga em uma velocidade impossível. Ela caiu no chão, ofegante, enquanto a dama, desesperada, tentava se levantar, mas foi chutada e golpeada novamente. A velha senhora tentou correr até ela, mas a cena desapareceu com o despertar abrupto.
Tremendo de medo, a senhora sabia que algo ainda pior estava por vir. Ela sentiu uma inquietação no ar. A vila estava em perigo. Sua visão revelou mais fragmentos do futuro: o poder descontrolado da dama ruiva, o ataque do clérigo, e uma guerra que traria a destruição da vila. Determinada, a velha senhora decidiu buscar respostas. Ela convocou os anciãos da aldeia para uma reunião, compartilhando suas visões. Juntos, concordaram que ela deveria encontrar a dama ruiva e trazê-la até eles para impedir o fim de sua casa.
Preparada para uma jornada, a velha senhora sentiu que, ao traçar seu caminho, não seria apenas o futuro da vila que estaria em jogo, mas também o destino daquela jovem misteriosa.
Enquanto isso, na aldeia de Solaria, Luna e Meissa estavam imersas em uma lenda antiga que Meissa havia trazido. A história falava de um lugar escondido em Seraphine, protegido por espíritos e runas. Para entrar nesse local, que prometia curar qualquer doença, era necessário enfrentar e superar o maior medo de cada um. Aqueles que conseguissem entrar seriam agraciados com uma visão de uma aldeia florida, onde homens e mulheres viviam até duzentos anos, e crianças voavam pelo céu, enquanto poções mágicas poderiam tornar qualquer um o ser mais rico do mundo.
Luna, com um sorriso irônico, fechou o livro e comentou, já desconfiada do tom fantasioso da lenda:
- Está lenda é bem fantasiosa.
Meissa, por outro lado, estava fascinada. Ela não podia negar a atração por aquela história cheia de mistérios e promessas de magia.
- Ah, não! Eu quero saber mais — Meissa reclamou, pegando o livro novamente e se sentando com um brilho nos olhos. — Se você não gostou, não é culpa minha. Eu tenho certeza de que essa aldeia existe, e eu vou encontrá-la.
Luna suspirou, olhando para o horizonte, onde o sol começava a se pôr. As primeiras estrelas apareciam no céu, tingindo-o de cores suaves que se misturavam ao manto escuro da noite. Havia algo no ar, algo que ela não conseguia identificar, mas que sentia profundamente. Algo grande estava prestes a acontecer, e ela e Meissa estavam no centro disso.
Com um sorriso suave, Luna acariciou os cabelos de Meissa, seu gesto tão delicado quanto seu tom de voz.
- Sim, você poderá fazer coisas extraordinárias — disse Luna, seu sorriso tocando Meissa de uma maneira que ela não soubera explicar.
Meissa corou, desviando o olhar de Luna e abrindo o livro novamente, tentando disfarçar a confusão que sentia em seu peito. Para evitar a embaraçosa tensão, Luna se deitou no colo de Meissa, fechando os olhos enquanto escutava a leitura suave da freira.
O silêncio se instalou, mas não era um silêncio desconfortável. Era o silêncio de algo que se aproxima. De uma verdade ainda não revelada. De um destino que as duas estavam prestes a descobrir.
Enquanto as palavras de Meissa preenchiam o ar, Luna sentiu, de alguma forma, que o que estava por vir seria maior do que elas poderiam imaginar. E a conexão entre elas, que parecia simples, estava mais profunda do que qualquer uma poderia perceber.
A noite avançava, e o futuro, com todas as suas possibilidades e mistérios, se aproximava silenciosamente, como uma sombra esperando para ser desvelada.
Naquela mesma noite, enquanto Luna e Meissa compartilhavam aquele momento tranquilo, um vento diferente começou a soprar pela aldeia de Solaria. Era frio e cortante, trazendo com ele um murmúrio quase imperceptível, como se alguém estivesse sussurrando ao longe. Luna abriu os olhos subitamente, sentindo um arrepio que subiu por sua espinha.
— Você ouviu isso? — ela perguntou, sentando-se rapidamente.
Meissa levantou os olhos do livro, confusa.
— Ouviu o quê? — respondeu, franzindo a testa enquanto olhava ao redor.
Luna ficou em silêncio por um momento, tentando escutar novamente. Mas o sussurro havia desaparecido, como se nunca tivesse existido.
— Nada... deve ter sido minha imaginação. — Mas, no fundo, ela sabia que não era apenas isso.
Naquele exato momento, a velha senhora da vila remota caminhava pelas florestas de Seraphine, seu cajado ressoando contra as pedras úmidas. Apesar da idade, seus passos eram firmes, movidos pela urgência de sua missão. Os presságios eram claros: a dama ruiva que ela precisava encontrar estava ligada a algo maior, algo que poderia mudar o destino de muitos.
Enquanto avançava, as árvores pareciam se inclinar sobre ela, sussurrando palavras incompreensíveis. As runas gravadas em sua pele começaram a arder levemente, um sinal de que ela estava no caminho certo.
Do outro lado, em Solaria, Luna não conseguia mais relaxar. Algo dentro dela estava inquieto, como se uma força invisível a puxasse para um lugar que ela ainda não conhecia.
— Meissa, você já se sentiu como se algo... ou alguém estivesse te chamando? — Luna perguntou, olhando para o céu estrelado.
Meissa fechou o livro, sua expressão ficando mais séria.
— Por que a pergunta?
Luna hesitou antes de responder.
— Não sei. É como se houvesse algo lá fora... esperando por nós. E, ao mesmo tempo, sinto que não estou preparada para enfrentá-lo.
Meissa sorriu, tentando aliviar a tensão.
— Você é mais forte do que imagina, Luna. Seja lá o que for, enfrentaremos juntas.
No entanto, antes que Luna pudesse responder, um som ecoou na distância: o barulho de galhos quebrando e passos apressados. Ambas ficaram em alerta, seus corpos enrijecidos pela adrenalina.
— Isso eu ouvi. — Meissa sussurrou, levantando-se devagar.
As duas se entreolharam, a tensão crescendo no ar. Os passos se aproximavam, rápidos e desajeitados, como se a pessoa ou criatura que os produzia estivesse desesperada.
Luna pegou uma adaga que carregava consigo e deu um passo à frente, protegendo Meissa instintivamente.
— Quem está aí? — ela gritou, sua voz cortando o silêncio da noite.
Uma figura cambaleante surgiu entre as árvores, iluminada apenas pela luz fraca da lua. Era um jovem, com as roupas rasgadas e o rosto sujo de sangue seco. Ele parecia à beira do colapso, mas seus olhos, arregalados e cheios de terror, estavam fixos em Luna.
— Por favor... vocês precisam me ajudar — ele implorou, sua voz rouca e trêmula.
Meissa se aproximou lentamente, tentando avaliar a situação.
— O que aconteceu com você? — perguntou, sua voz carregada de preocupação.
O jovem ofegou, tentando recuperar o fôlego.
— Eles estão vindo... — Ele olhou para trás, como se esperasse que algo surgisse das sombras a qualquer momento. — A Igreja... eles... estão atrás de mim... e de vocês também.
O sangue de Luna gelou ao ouvir aquelas palavras.
— Por que estariam atrás de nós? — ela exigiu saber, aproximando-se dele com a adaga em mãos.
Ele balançou a cabeça freneticamente.
— Vocês... não entendem. Eles sabem o que vocês são... e o que vocês podem fazer. Eles querem... acabar com isso.
Antes que Luna pudesse perguntar mais alguma coisa, o jovem caiu no chão, inconsciente.
Meissa olhou para Luna, sua expressão transbordando de preocupação.
— O que fazemos agora?
Luna apertou a adaga em sua mão, seu olhar fixo na escuridão da floresta.
— Descobrimos a verdade... antes que eles nos encontrem.
E, com isso, as duas sabiam que o momento de agir havia chegado. O destino que parecia tão distante agora batia à sua porta, trazendo consigo perigos e revelações que mudariam tudo.
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