A guerra das Runas
2 As Runas do Monte Targon
Notas iniciais

Runas
As runas da Runeterra eram pedras pequenas (ou grandes, como os Nexus) que carregavam intenso poder. Podiam curar, conjurar, invocar e até mesmo restaurar.
As primeiras foram encontradas no subsolo. Por toda a Runeterra existiam Runas enterradas. Não se sabe ao certo como surgiram, ou quem as criou, mas o interessante era todo o poder que podia caber em uma pedrinha. Obviamente os povos começaram a coletá-las e usa-las nas guerras, que eram constantes.
Quando a Runeterra começou a ser devastada e destruída por causa destes poderes (no que ficou conhecida como a Primeira Guerra das Runas), surgiu o tratado, e em seguida a Liga.
As runas também foram divididas proporcionalmente entre povos e potências. Apesar do potencial destrutivo das pedrinhas, elas também podiam ajudar (curando, protegendo, etc). Outro motivo para distribuí-las era para que todos os povos pudessem ter chances iguais de se defenderem caso uma guerra surgisse novamente.
De qualquer forma, todas elas podiam ser utilizadas, menos as que causassem destruição e dor. Estas eram reservadas para Summoner’s Rift. Assim, esperava-se que menos danos fossem causados por toda a Runeterra.
Estava de noite quando, atrás do palácio de Jarvan IV, um grupo pequeno de homens surgiu, trazendo uma caixa de madeira grande e lacrada.
Pararam quando avistaram um homem encapuzado. A caixa foi colocada no chão e o homem do capuz escuro usou um pé de cabra para abrí-la.
Dentro dela, havia, em cima de tecidos, pedras pequenas com símbolos escritos. Os símbolos brilhavam de forma intensa e de cores variadas.
O homem abaixou o capuz, revelando seu rosto: Jarvan IV. Ele sorriu ao ver as runas novas, e fechou a caixa novamente para levá-la para dentro do palácio.
Freljord
— Majestade. – Anivia curvou-se perante Ashe, que trabalhava em seu arco de gelo.
— Olá! Fique a vontade. Então, o que há de importante?
— Bom, recebi notícias de Bandópolis: Gnar está completamente saudável. Os yordles estão cuidando muito bem dele.
Ashe sorriu. Desde que havia encontrado o bebê yordle congelado em gelo verdadeiro, ela sentiu pena dele. Uma criança, congelada por séculos. Para a surpresa de todos, estava vivo. Após descongelá-lo, a rainha de Freljord decidiu que seria melhor mandá-lo para Bandópolis, a cidade yordle.
— Fico feliz de saber. – Ela respondeu.
— E tem mais. – Anivia ficou séria, e Ashe percebeu que ela mudaria de assunto.
— Como assim?
Quando o pássaro de gelo ia explicar, Sejuani abriu a porta do salão sem a menor delicadeza.
— Era para você esperar eu te chamar. – Anivia dirigiu-se a ela.
— Calada, pomba.
— Prima? – Ashe levantou-se imediatamente.
— Primeiramente, quero que saiba que eu não queria estar aqui. Mas é necessário.
— Não estou entendendo.
— Com licença. – Anivia saiu da sala, deixando as duas parentes conversarem.
— Bem, por onde eu começo... – Sejuani tirou seu elmo, colocando-o desajeitadamente sobre a mesa de Ashe. – Coloquei alguns espiões por toda Valoran. Como você pode perceber, meu domínio é bem mais prestativo do que o seu. Ainda acho que eu deveria governar toda Freljord e...
— Sejuani...
— Tudo bem. Continuando. Os demacianos estavam explorando o Monte Targon. Uma expedição normal, como eles sempre fazem, só que desta vez, os infelizes encontraram Runas. Mas não são Runas normais. Essas são tão fortes que deixam as nossas no chão.
— Quando vão ser distribuídas? – Ashe pareceu não se importar, porque não havia nada demais em encontrar Runas novas;
— Distribuídas? – Sejuani riu. – Por que você acha que eu estou aqui? Jarvan está extraindo todas elas e levando para Demácia. Ele pensa que está fazendo tudo em segredo, mas até Noxus já descobriu.
Ashe estremeceu. Ela sabia exatamente o que aquilo significava. E não estava disposta a vivenciar outra guerra.
— Eu vim aqui para uma aliança. – Sejuani continuou. – Precisamos nos preparar, você sabe. Se algo acontecer e ficarmos separadas, Freljord será dizimada. Odeio você e toda a sua babaquice, mas se quisermos alguma vantagem, toda Freljord precisará se unir.
— Você sabe que, pelo menos para mim, eu, você e Lissandra sempre estivemos unidas como uma tribo só. Não precisa nem pedir. Já falou com Lissandra?
— Ela não quis sair daquele buraco que chama de domínio. Mas garanto que ela não vai querer ficar contra nós.
— Ótimo. Tente falar com ela por mim. Vou tomar algumas providências por aqui.
Sejuani deixou a sala, e Ashe estava cada vez mais preocupada. Noxus e Demácia possuíam os únicos Nexus restantes, se eles fossem destruídos, toda a Runeterra sucumbiria. E não haveria nada que a rainha de Freljord pudesse fazer.
Katarina
— Vocês dois, matem a loira. Eu mato o general. – A ruiva disse, apontando para Draven e Darius. – Vocês três aí devem matar os que ficarão de vigia. E o resto, cuidem do restante do grupo deles.
A equipe de Noxus tinha sido enviada por Swain com ordens de executar qualquer demaciano que cruzasse a fronteira. Vinte noxianos contra dez demacianos que acampavam sossegados na trilha.
— Quero que cheguem sem serem notados. – A ruiva continuou. Noxianos eram considerados um povo sem honra, porque não respeitavam regras na hora de abates. Matavam de surpresa, utilizavam métodos sujos e dolorosos. – Vamos por trás. Esperaremos escurecer ou atacaremos quando eles entrarem nas barracas.
Os homens ficaram escondidos esperando. O sol já estava baixo, e os demacianos comiam e cantavam no acampamento.
Ezreal estava explorando despreocupado por perto quando viu um brilho no meio do mato. Aproximou-se com cautela e identificou os noxianos espreitando o acampamento. No meio da cantoria os homens de Demácia, ele viu Lux, e, por empatia, temeu que algo acontecesse com ela.
Ele não sabia como se aproximar para alertá-los, então resolveu esperar. Pensou que Katarina fosse iniciar o ataque ao anoitecer. Mas, com o céu ainda um pouco claro, os noxianos começaram a se mover, pois dos demacianos tinham um toque de recolher cedo por conta da viagem do dia seguinte.
Ez não teve outra escolha: priorizou Lux. Abriu a barraca dela (pela frente, visto que os inimigos estavam vindo por trás), e a loira deu um pulo de susto ao vê-lo.
— Mas o quê...- Ela tentou falar.
— Não faça barulho! – Ezreal a interrompeu. – Tem um grupo de noxianos invadindo o acampamento. Você precisa sair daqui.
— O quê? Nem pensar! Meu irmão.... Nós podemos vencê-los.
— Nem se quisessem. Eles têm o dobro de homens, e, que eu saiba, seus soldados estão se preparando para dormir.
— São os demacianos mais bem preparados que eu conheço. Preciso avisá-los, não sairei daqui sem....
Lux foi interrompida por um grito abafado. Logo surgiram outros, e o caos tomou conta do acampamento.
Ezreal ouviu passos se aproximando da barraca, e não pensou duas vezes antes de segurar a garota e teleportar-se para fora, junto com ela. Foram parar a poucos metros do acampamento, escondidos entre as árvores da Floresta Sombria.
— O QUÊ VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – Lux gritou quando percebeu onde estava. – Eu preciso voltar para lá.
Ela saiu correndo em direção ao acampamento, mas foi segurada por Ezreal.
— Não posso deixar você ir. Olha – ele apontou.
Apesar de alguns respingos de chuva, metade das barracas estavam em chamas. Haviam homens correndo por todos os lados. Lux engoliu seco quando viu a cena.
Um pouco mais cedo, quando o primeiro grito ecoou, Garen se levantou e estava prestes a sair de sua tenda quando deu de cara com Katarina. Ela tinha entrado pela frente mesmo, e sem emitir um único ruído.
Sem sua armadura e com sua espada fora de alcance, o general estava desprotegido. E a noxiana sorriu quando percebeu o fato.
— O que diabos vocês pensam que estão fazendo? – Garen perguntou, se dando conta de que os demacianos sofriam um ataque.
— Me perguntei o mesmo quando vocês levaram as Runas.
— Runas?
— Não banque o desentendido, querido. – Katarina revirou os olhos, enquanto os gritos aumentavam lá fora.
Garen, por um segundo tentou prestar atenção no que estava acontecendo com seus homens. Um erro, pois, assim que o fez, foi surpreendido por um par de adagas vindo em sua direção. Seus reflexos apurados fizeram com que ele conseguisse desviar e as adagas rasgassem o fundo da barraca. Com o movimento, chegou perto o suficiente de sua espada.
Um trovão ecoou e tremeu o chão, no mesmo segundo em que Katarina teleportou-se para trás do general. Os dois começaram a lutar. Garen era extremamente forte, mas lento demais se comparado à ruiva.
O espaço da barraca tornou-se pequeno para o confronto e eles acabaram saindo pelo rasgo da parte detrás, adentrando a Floresta Sombria. Gigantesca, era densa e tão grande que chegava até a cidade yordle, Bandópolis. Portanto, o caminho que Garen e Katarina estavam fazendo sem perceber poderia ser perigoso e deixá-los perdidos facilmente.
Alguns pingos de chuva começaram a cair enquanto os dois investiam um contra o outro freneticamente. Garen possuía cortes distribuídos pelo corpo, e Katarina tinha levado dois ou três socos do general.
— O seu povo me dá nojo. – A ruiva gritou, enquanto avançava com suas adagas.
— Posso dizer o mesmo.
Garen não fazia ideia do que estava acontecendo. Muito menos tinha conhecimento sobre as novas runas.
A chuva ficou mais intensa e Katarina, se movimentando rápido demais, acabou perdendo o controle quando colocou os pés na lama. Perdeu uma de suas adagas no meio da floresta, e Garen teve certa vantagem.
Porém, como uma boa assassina, ela conseguia lutar bem até desarmada. Logo a espada do general caiu deslizando na lama e foi parar embaixo de troncos velhos e apodrecidos.
Chovia sem parar e Katarina aproveitou a vantagem para derrubar Garen e parar por cima dele, com sua adaga ameaçando o pescoço do homem. Ela suspirou de orgulho quando percebeu que havia vencido e estava prestes a executar sua missão quando, de-repente, ouviu um rugido.
Garen e Katarina olharam para a mesma direção. Conseguiram ver, apesar da chuva forte, uma Pantera Noxiana a poucos metros dos dois.
Uma nota sobre Panteras Noxianas: se pareciam com panteras normais, não fossem pelos seus 2 metros de altura e 3 de comprimento. Suas presas enormes escapavam pela boca, possuíam garras de no mínimo 20cm e corriam tão rápido quanto um leopardo. Extremamente territorialistas, guardavam as fronteiras de Noxus e transmitiam medo até nos piores assassinos. Uma delas foi responsável por arrancar o pé direito do pai de Katarina. E eram o único tipo de animal que a ruiva temia.
Katarina fraquejou por meio segundo, e neste tempo o animal investiu contra ela. Os dois foram parar longe de Garen, e a pantera estava dilacerando Katarina com suas garras.
A ruiva tentou, mas o animal era pesado demais e acabou ficando por cima dela, arranhando-a em vários pontos ao mesmo tempo. Ela aceitou a morte, quando, de-repente, o animal caiu inconsciente em cima de seu corpo. Quando se deu conta, o sangue azul da pantera cobria o chão em volta, e Garen retirou o animal morto de cima dela.
Zed
O ninja estava exausto. Desviar das investidas de Syndra era algo cansativo, e ele não conseguia chegar perto da mulher, pois ela não saía da luz.
Zed percebeu que precisava encontrar uma fraqueza nela, ou ele seria derrotado pela primeira vez.
Lembrou-se de como a descreveram quando lhe explicaram a missão: uma mulher descontrolada, emotiva e muito poderosa. Emotiva. Uma palavra chave.
— Por que não para de se esconder, querido? – Syndra disse com calma, enquanto continuava utilizando seus poderes sem esforço.
— Quer tanto adiar seu fim? Está pronta para morrer?
— Eu quem pergunto.
— Deve ser tenso. – Zed disse, enquanto moveu-se para uma sombra perto do teto do salão. – Morrer sozinha, com a sensação de que ninguém irá se importar. Muito menos vingar o assassinato.
Syndra riu. Ela sabia onde ele queria chegar, mas não iria funcionar.
— Deixe-me adivinhar. – Zed continuou, enquanto a mulher ainda tentava atingi-lo. – Você não escolheu ser assim. Provavelmente devem ter te expulsado de onde você morava.
Syndra tentou ignorá-lo. Ele estava descrevendo a história dela quase perfeitamente.
— E aí surgiram seus pais. Te defendendo até o último segundo, apesar de você ser um monstro.
— Pare. – A voz de Zed entrava na cabeça dela a cada palavra, e Syndra acabou se lembrando de todo o trauma. Apesar do pedido, o ninja não deu ouvidos a ela e continuou.
— Não foi fácil proteger você. Seus pais devem ter te levado para vários lugares. Às vezes, você os machucava. Porque é tão fraca que não consegue se controlar.
— Pare de falar! – A voz da mulher saiu duplicada, e seus ataques começaram a ficar mais fortes.
— Mas eles foram mortos. E você, como uma boa ingrata, deixou eles morrerem.
— CALA A BOCA! – O formato das esferas de Syndra ficou desfocado, como se ela estivesse perdendo o controle. Ela se levantou, e começou a procurar por Zed, porque tinha perdido seu foco. O templo estava sendo cada vez mais destruído.
— Você viu eles serem mortos. E não fez NADA.
— É mentira. – Ela protestou, e Zed viu algumas lágrimas escaparem por debaixo da tiara. – Por favor...
— Você é um monstro. Que tipo de pessoa assiste os próprios pais morrerem sem protestar?
Syndra pôde ver a morte de seus pais se repetindo em sua mente. “Corra”, sua mãe disse, enquanto era atingida no peito. A garotinha, assustada, deixou a casa e conseguiu escapar. Teve pesadelos com aquilo até quando mais velha. Demorou a superar, e agora Zed tinha a feito se lembrar dos mínimos detalhes.
Sem conseguir tirar aquelas cenas de sua mente, gritou. Chegou em seu ponto máximo. Ao mesmo tempo, uma explosão roxa saiu dela, destruindo todo o salão em volta, rachando as paredes e atingindo Zed em cheio.
Ela caiu de joelhos, chorando. O ninja se levantou com dificuldade, satisfeito. Aproximou-se dela caminhando, sabia que Syndra não o atacaria.
Ele viu quando ela retirou a tiara do rosto, mostrando seus olhos cor púrpura, mas agora sem brilho. Chorando, a mulher continuou encarando o chão.
— Por favor – Syndra disse baixinho. – Me mate. Você está certo. Eu sou... um monstro.
Então, ela levantou o rosto. E olhou diretamente nos olhos escarlates do ninja através da máscara dele.
— Meus pais fizeram de tudo para me proteger. – Continuou. -E, naquele dia, quando minha mãe me pediu para sair correndo, eu o fiz. Estava assustada e confusa. Eu tinha só oito anos, mas podia ter feito alguma coisa. Além disso, viver deste jeito é pior ainda. Nunca vou aprender a controlar minha magia, então talvez seja melhor eu nem viver.
Zed sentiu o impacto das palavras dela. E uma parte dele sentiu a tristeza passada pelo olhar de Syndra. Eles eram um pouco parecidos: órfãos, com espíritos poderosos dentro de si, vivendo sozinhos e sem nenhum tipo de relacionamento. Por este motivo, ele a compreendia.
— Por favor, termine a sua missão. – Syndra pediu, ainda chorando.
Zed ameaçou levantar sua lâmina, mas não conseguiu. Pela primeira vez estava hesitando em matar alguém.
“Merda”, pensou. “O que diabos está acontecendo? ”.
Syndra ficou confusa. Sensibiliza-lo realmente não tinha sido sua intenção. Os dois ficaram se encarando quando, de repente, ouviram barulhos na floresta, em volta do templo. Eram soldados. Soldados Ionianos.
Os dois reconheciam os sons. Do lado de fora, os soldados subiam na ilha por cordas e estavam indo “checar” se o ninja tinha mesmo completado a missão. Geralmente, desciam daquela ilha apenas corpos mortos.
Zed pretendia fazer algo. Syndra parecia confusa enquanto o ninja pensava por tempo demais. Até que, num piscar de olhos, todo o templo foi invadido por dezenas de homens muito bem armados e com ordens para matar.
—Vou me arrepender disso. – O ninja disse, e, em meio segundo, Syndra viu uma sombra cobrir e apagar a tocha que iluminava o local.
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