Notas iniciais
Sobre masculinidade (frágil) e declarações de guerra — Scorpius Malfoy
A água quente escorria pelo meu corpo e queimava minha pele, mas eu não sentia nada. Não, aquilo não era nada comparado ao que eu estava sentindo por dentro.
Merda, quando foi que as coisas saíram do meu controle dessa forma? Quando eu me tornei esse tipo de pessoa que se abala por qualquer coisa? Soltei um riso irônico. Eu sabia exatamente todas as respostas e, sabia ainda mais que elas tinham nome, sobrenome e agora, infernalmente, uma bela bunda. Rose Weasley estava de volta e aquilo era motivo suficiente para tudo desmoronar.
Soquei a parede com toda força que tinha, sentindo a dor se instaurar de uma forma roxeada, que eu sabia que me acompanharia por longos dias dali pra frente.
Desliguei o chuveiro, buscando a toalha e me secando. Eu não podia fugir, e mesmo se pudesse, pra onde eu iria? Eu tinha de enfrentar Rose Weasley, como o garoto de anos atrás enfrentou. Como um Malfoy enfrentaria.
Abri a porta, tomando um leve susto com o que vi.
Sentado em sua cama, ainda vestindo o uniforme da escola, embora com a gravata mais frouxa que o recomendado, estava Albus. O moreno apoiava seus cotovelos nas coxas e mantinha o olhar fixo no chão.
— Ao menos nisso você parece não ter mudado. — arqueei a sobrancelha, observando-o desviar os olhos do chão e me encarar, com o canto dos lábios ligeiramente levantados, em um sorriso beirando a ironia. Eu era bom em ler as pessoas, por isso, não foi difícil encontrar arrependimento em meio aos olhos esverdeados de Albus.
Não respondi nada, fazendo meu caminho até o malão, em busca de uma cueca e uma calça de moletom.
— Você pode me ignorar, mas não pode deixar de ouvir que eu vou te dizer. — insistiu, me encarando.
— Eu posso lançar um feitiço sobre você. — resmunguei, voltando para o banheiro para me trocar.
— Sabe que sou melhor que você em feitiços. — mesmo a distância, eu podia ouvir o tom arrogante e irônico de Albus, além de arriscar dizer que ele estava com mais um sorriso irritante no rosto. Revirei os olhos, bufando.
Terminei de me vestir, saindo para o quarto e encontrando o Potter ainda sentado em sua cama, me encarando.
— O que você quer? — suspirei. Não adiantava adiar isso, só iria piorar a situação ainda mais. E uma parte de mim sabia que eu precisava de Albus, porque ele era o irmão que meus pais nunca puderam me dar.
— Sei que o que eu fiz pareceu errado pra você, mas não me arrependo de ter feito. — abri a boca para retrucar, vendo-o fazer um gesto que eu me calasse e prestasse atenção nas palavras dele. — Você é meu irmão e eu te considero pra caralho, e não canso de lhe dizer isso porque acredito que a verdade precisa ser dita, e eu estou pouco me fodendo se isso me faz parecer um boiola ou não. — despejou, parando um pouco e respirando fundo. — Não me arrependo de ter mentido pra você por causa dela e nem de ter dito tudo que eu disse, mas me arrependo de ter contribuído para as coisas terem chegado aonde chegaram. Eu incentivei você a zoar ela, eu não repreendi você na primeira vez que você a insultou pra mim e eu não fiz nada quando aconteceu toda aquela cena de anos atrás que a fez ir embora. O que eu quero te dizer, é que não tenho qualquer direito de te julgar, porque eu tenho tanta culpa quanto você.
Fiquei alguns minutos em silêncio, processando as palavras do meu amigo, que neste momento me encarava com uma ansiedade contida. Respirei fundo, deixando um sorriso irônico se formar em meus lábios ao mesmo tempo que via uma expressão confusa surgir no rosto de Albus.
— Essa é a sua maneira de me pedir desculpas? — perguntei, arqueando a sobrancelha vendo o moreno bufar.
— Eu devia saber que seria uma perda de tempo mesmo! — afirmou impaciente, se levantando e indo em direção a porta do dormitório.
— Albus — chamei, fazendo-o se virar ainda impaciente. — por pior que seja, não encontrei alguém ainda um pouco melhor que você pra treinar comigo nas aulas vagas. — ri, vendo o meu amigo também soltar uma risada.
— Eu também te considero pra caralho. — resmunguei, indo em sua direção e lhe dando um abraço.
Pessoas se expressam de formas diferentes, e tanto eu quanto Albus, que as características verde e prata gritavam, sabíamos que “eu te considero pra caralho” não era um simples voto de consideração e sim, um “estarei sempre com você” ou até mesmo algo próximo daquela frase de três palavras e sete letras, que eu prefiro não comentar aqui para não ferir minha — frágil — masculinidade.
Me soltei do abraço, indo até meu malão e pegando um moletom.
— Preciso ir, o furacão Rose Weasley me aguarda.
— O que vai fazer quanto à ela? — perguntou, se jogando em sua cama.
— Vou jogar. — sorri, vendo-o arquear a sobrancelha. — Ela quer jogar, então vou entrar no jogo dela. É o melhor que posso fazer agora. — Albus suspirou.
— Prometi a mim mesmo que não irei me meter diretamente mais entre vocês, então, por favor, mais uma vez, não me coloquem no fogo cruzado.
Eu sorri, piscando para o moreno — que apenas bufou em resposta — e sai do quarto, caminhando o mais devagar que conseguia até onde a ruiva me esperava já, provavelmente pronta para me lançar todas as azarações possíveis.
{...}
— Rose Weasley
Quando Slughorn anunciou que eu precisava cumprir aulas de reforço extra com Scorpius Malfoy, eu havia me sentido radiante, parecia até que o universo estava sorrindo ao meu favor.
Eu tinha certeza que, depois de tudo, Scorpius nunca tentaria nada contra mim, o que me dava uma clara vantagem sobre ele e a situação.
Foi só, às exatas cinco e vinte — vinte minutos após o combinado, devo ressaltar — de uma quarta-feira, quando Scorpius Malfoy entrou na sala marcada, com as mãos na calça de moletom, os cabelos loiros úmidos e a expressão relaxada, que eu fui perceber que talvez eu tivesse preparado minha própria armadilha e que ele, sabendo bem disso, poderia se aproveitar da situação o quando quisesse e pudesse.
— Você está atrasado. — murmurei, desviando meu olhar dele e sentando na mesa dos professores. Sorri internamente ao perceber que ele acompanhou minha movimentação, encarando descaradamente minhas pernas descobertas.
— Tinha assuntos para resolver mais importantes. — resmungou, entrando e se escorando em uma carteira de frente a mesa em que eu estava, cruzando os braços. — Com o que você quer começar?
— Com você. — soltei. O loiro arqueou a sobrancelha.
— Você realmente mudou, Weasley. — soltou, parecendo falar mais consigo mesmo do que comigo. — Começaremos com Trato das Criaturas Mágicas, abra seu livro na página...
Ele se desencostou da mesa, pegando o livro de mais próximo e colocando na mesa, começando a folhear. Aproveitei a deixa para me aproximar, fingindo um interesse no livro e nas páginas em que ele passeava os olhos rapidamente. Estávamos tão próximos que eu sentia nossa respiração se misturando.
— O que você está fazendo? — arqueou a sobrancelha, virando-se e me encarando, com o rosto a centímetros do meu.
— Vendo o livro?! — respondi como se fosse óbvio e o vi soltar uma risada nasalada.
— Escuta, Weasley... — ele soltou, se aproximando ainda mais. Xinguei mentalmente meu corpo por recuar automaticamente, só parando quando senti a mesa dos professores atrás de mim. Sentei na mesma, tentando fingir que toda aquela recuada foi estratégica, vendo-o colocar um braço de cada lado, me “prendendo” ali. — Sei que você acha que está em vantagem, mas não se engane, amor. — ele se aproximou mais, de modo que nossas bocas ficassem a centímetros uma da outra, mais uma vez. Eu intercalava meus olhos entre os seus e a sua boca, inconscientemente. — Mas esse jogo que você aprendeu a jogar agora, eu já dou aula há muito tempo. — riu, também intercalando os olhares.
E foi ali que eu tive a certeza que nada seria como eu havia planejado. Ali eu percebi também que Scorpius Malfoy ainda, de certa forma, mexia comigo. A prova disso, eram minhas mãos suadas e meu coração batendo descompassado dentro do peito. Sabia que se continuasse mais algum segundo ali, eu cederia e tudo pelo qual eu lutei pra deixar pra trás, voltaria à tona junto com outra provável humilhação.
— Malfoy... — sorri da forma mais sacana que conseguia, também me aproximando mais. — Quem disse que eu aprendi a jogar agora? — sem nem pensar muito e de maneira rápida, movi meu joelho em direção em suas partes depositando um chute naquele lugar.
Não consegui conter a gargalhada quando o vi se contorcendo de dor, com as mãos no local onde chutei.
— Você pode ter vencido a primeira batalha, Weasley, — começou, depois de longos minutos se recompondo. — mas tenha à certeza que essa guerra eu não perco. — ele falava sério, como se o assunto fosse realmente importante pra ele. — Vamos acabar logo com isso.
Nenhum de nós ousou se encarar depois de tudo aquilo, cada um por suas próprias razões. O Malfoy por provavelmente ainda estar bravo pelo chute e eu porque simplesmente não tinha coragem depois de perceber o quanto ele ainda causava efeito em mim, fazendo com que trocássemos palavras apenas quando necessário.
Foi ali também em que eu percebi que havia entrado em uma guerra achando que sabia tudo sobre o adversário, mas que eu estava errada.
E eu não tinha mais tanta certeza se sairia vitoriosa dela.
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