A garota que você não quis
8 VIII
Notas iniciais
Sobre reencontros — Rose Weasley
Se eu pudesse descrever Scorpius Malfoy em uma só palavra, eu diria imprevisível. Ou talvez inconstante, instável.
A realidade era que não dava para descrevê-lo somente em uma palavra porque Scorpius não era o tipo de pessoa que você poderia limitar. Era uma caixinha de surpresas, daquelas que você nunca sabe o que vai sair dali, ou como um truque de mágica trouxa.
Lembro-me de uma vez, em um passeio as ilhas caribenhas junto de Hugo e meus avós maternos, encontrar um mágico de rua, um ilusionista. Na época, fiquei encantada com os truques que ele fazia, me perguntando internamente se um dia conseguiria fazer algo semelhante — mesmo já sabendo das minhas raízes bruxas, mas você não pode culpar uma garotinha de oito anos por duvidar disso —, o bombardeando com perguntas de como ele fazia aquilo e coisas semelhantes. Ele riu, dizendo que nunca podia revelar os seus segredos, mas contou que cada gesto e cada frase de um mágico precisam sempre ser avaliados com atenção. Depois de muita insistência — da minha parte, já que meu irmão parecia bem mais interessado no papagaio falante que o homem carregava — ele me explicou finalmente o que queria dizer com aquilo. Quando mágico diz “a magia está acontecendo aqui”, na realidade, o verdadeiro truque está acontecendo em outro lugar, além de contar uma das principais regras da mágica: “Quanto mais perto você olhar, menos você vai ver.”
Era exatamente assim que eu me sentia com Scorpius. A cada passo que eu dava em direção à uma sonhada aproximação, ao mesmo tempo, sentia-me dando três para trás. Quanto mais eu tentava entender o que se passava na cabeça dele, menos eu conseguia compreender o porquê de suas atitudes. Quando eu achava que o conhecia o suficiente para saber o que ele faria, ele agia de maneira inesperada fazendo com que eu voltasse a estaca zero e percebesse que, na realidade, eu não o conhecia verdadeiramente como gostava de dizer.
Scorpius Malfoy era um maldito truque de mágica trouxa.
— Você parece distraída. — a voz de Lily me trouxe de volta à realidade.
Nós caminhávamos juntas pelos corredores do castelo, vendo algumas passarem apressadas por nós, com medo de se atrasarem e outras andando o mais relaxadas possíveis, como se nada no mundo mais importasse para eles.
— Estava só pensando em algumas coisas. — dei de ombros. — Qual sua aula agora?
— Matéria extra-curricular. — respondeu, olhando o papel nas suas mãos com os horário das aulas. — Vai se inscrever de novo em artes?
— Não decidi nada ainda. — confessei. — Acredito que não tenha mais a mesma vontade de antes.
— E eu acredito que você não está tão mudada quanto gosta de dizer que está. — murmurou, fazendo-me arquear a sobrancelha, confusa.
— Por que diz isso?
— Só o fato de você estar com a cabeça nas nuvens, e eu arrisco dizer que tenha haver com um certo loiro sonserino, mostra que você não está tão mudada assim. — deu de ombros.
— Malfoy não tem nada haver com isso. — retruquei, ela soltou uma risada.
— Suas bochechas e orelhas vermelhas te entregam. — revirei os olhos, odiando o fato de Lily me conhecer tão bem. — Se quiser, pode me contar o que houve.
Respirei fundo, organizando meus pensamentos para poder contar a Lily sobre as aulas extras e como Malfoy estava brincando com minha resistência e psicológico com joguinhos desde aquele dia. Desabafei com a ruiva, que não fez nenhum comentário enquanto eu contava a história, apenas arqueando a sobrancelha vez ou outra e mantendo a expressão neutra.
— Bom, não é como se você não tivesse pedido por isso. — começou. Vendo minha expressão indignada de quem iria retrucar, a ruiva ergueu o dedo indicador, me silenciando. — Malfoy é uma serpente, e você sabe que quem brinca com serpentes, quase sempre, acaba sendo picado. Talvez você ainda sinta o efeito do veneno dele em si.
— Do que é que você está falando, Lily? — indaguei sem entender onde ela iria chegar. — E não foi nada criativo compará-lo com uma cobra, só por ele ser sonserino. — retruquei implicante, mas a realidade é que eu havia gostado daquela comparação. Seria mais uma metáfora que eu usaria para descrevê-lo.
— Achei que seria legal. — deu de ombros. — O que eu quero dizer, é que não se esquece um amor do dia para noite. Na realidade, acredito que não há como se esquecer um amor. Não importa se você passe anos se preparando, mudando e se convencendo que não o ama, porque o amor é uma cicatriz e não há como se apagar uma cicatriz. — não respondi nada, apenas fiquei absorvendo e refletindo sobre suas palavras, que naquele momento, eu sentia como um tiro em meu coração. Ela respirou fundo, olhando para seu relógio de pulso. — Estou atrasada já, tenho que ir. Você deveria aproveitar seu período vago e ir dar um pulinho na sala de artes, acho que está precisando de um reencontro com você mesma. — e sem dizer mais nada, Lily apressou os passos em direção a sua sala, me deixando para trás xingando-a mentalmente por ela sempre se achar malditamente certa em tudo.
E no fundo sabia que eram poucas as vezes em que Lily Luna Potter estava errada. E aquela não era uma dessas exceções. Scorpius Malfoy era uma cicatriz em mim, mas isso também significava que já estava curada daquilo, certo?
Eu não sabia mais.
{...}
Respirei fundo, tomando coragem e batendo duas vezes na porta daquela sala nem um pouco desconhecida por mim.
A voz melodiosa da professora Fletchley murmurou um “entre” e eu não tardei em abrir a porta e adentrar a sala, vendo-a esboçar um sorriso confortante ao me reconhecer.
A sala estava da mesma maneira que eu lembrava, com grandes e finas cortinas claras que iam do teto ao chão e alguns cavaletes com telas — distribuídos aleatoriamente pelo cômodo —, com banquinhos nas frentes, para os pintores, e nas laterais, para o apoio dos materiais de pintura, como as palhetas, o godê, os pincéis e as tintas, claro.
— Senhorita Weasley! — exclamou Jean Fletchley, a professora de artes do castelo, vindo em minha direção e me dando um abraço. Assim como a sala, a mulher continuava exatamente da mesma maneira que eu me recordava. Seus cabelos curtos e negros, contrastavam bem com os olhos verdes e a franjinha frontal lhe dava um ar meio infantil. — É muito bom ver você! Ao que, ou a quem, devo a honra da sua visita?
— É bom estar de volta. — sorri. — Estava com o período vago então pensei em vir matar a saudade daqui. — passeei meus olhos pelo local, ainda sorrindo. — Aqui era o único local em que eu podia ser eu mesma e não era julgada por isso. — me aproximei de uma das telas, passando a mão por sua textura e lembrando de todas as sensações que eu tinha ao pintar. — Eu via esse lugar como meu refúgio pessoal.
— Não pensa em voltar? — perguntou. — Acho que desde a sua partida não tive mais nenhuma artista tão apaixonada quanto você.
— Acho que não... — me afastei da tela, retomando a consciência e encarando a professora nos olhos. — Acredito que eu não precise mais de um refúgio.
— Todos precisamos de um refúgio, senhorita Weasley. — sorriu. — Não gosta mais tanto assim de pintar? — perguntou, curiosa.
— Não pinto desde que sai daqui. — confessei. — Não por não gostar, pelo contrário. Quando eu pintava eu... me sentia no controle. — ri, vendo-a acompanhar. — Cada pincelada, cada cor, cada cenário, tudo era escolha minha... Eu me sentia livre.
— E o que faz você não querer pintar mais?
— Eu... — voltei a me aproximar da tela, tocando-a novamente. — acho que não me desperta boas lembranças da época... não sou mais aquela garota de antes.
A mulher não respondeu, entrando em uma salinha que eu sabia que ficavam os quadros dos alunos e voltando logo em seguida com uma tela na mão. Sorri automaticamente ao reconhecer de qual se tratava.
— Esse é um dos meus quadros preferidos seu, se não o próprio. — o quadro no qual ela se referia, era de um escorpião entrelaçado com uma rosa. — Você sabe me dizer por quê?
Fiquei em silêncio por alguns segundos, analisando o quadro e pensando o que faria ela, uma bruxa formada em licenciatura em artes, ter especificamente aquele quadro simples como seu favorito, já que pintei outros mil vezes mais elaborados.
— Não sei, talvez o uso das cores ou os traços...
— Também. De maneira técnica, como alguém formada em Artes, posso lhe assegurar que a escolha de cores e os traços são realmente lindos. Mas não é apenas isso que encanta e chama atenção nele. — arqueei a sobrancelha, sem entender onde ela gostaria de chegar. — Você colocou seu coração em todos os quadros que pintou nessa sala, isso é visível a qualquer um que prestar um pouco de atenção neles. Mas esse, — levantou a tela em sua mão. — esse em especial, eu consigo não só ver seu coração nele, como também sentir o amor e a paixão que você teve ao pintar.
— Eu... — estendi a mão, pegando o quadro e sorrindo automaticamente mais uma vez ao olhá-lo, senti algumas lágrimas insistentes se formando no canto dos meus olhos e escorrendo pelas bochechas. — amava alguém nessa época. Pintei esse quadro pensando em presenteá-lo um dia.
— Eu estava certa então quando disse sobre o amor que teve ao pintar. — sorriu, me fazendo encará-la, devolvi com um sorriso meio triste. — Pense bem sobre como se sentia e em como amava, e, se um dia quiser se reencontrar com o seu eu do passado ou simplesmente quiser voltar a pintar, saiba que o clube de artes sempre estará com as portas abertas para você.
— Obrigada, senhorita Fletchley. — sorri, limpando as lágrimas do meu rosto e devolvendo o quadro. — Prometo pensar bem e considerar isso.
— Não há de quê, Rose. Espero que realmente pense no assunto, você é talentosa, não desperdice isso.
Assenti levemente, me despedindo e saindo do cômodo. Não havia passado muito tempo ali, mas era o suficiente para trazer à tona memórias boas e ruins que eu sabia que iriam me perseguir pelo resto do dia — e talvez da semana.
{...}
O resto da semana passou arrastada e eu não tinha qualquer tempo livre, o que me fazia agradecer mentalmente a Merlin, já que dado a isso eu não tinha tempo para pensar em bobagens mais profundas. Consequentemente, eu ainda era obrigada a conviver com Scorpius Malfoy regularmente, que subitamente pareceu desistir dos joguinhos e não trocava palavras mais que o necessário comigo.
E eu odiava admitir, mas aquela situação estava me incomodando mais do que o normal. Talvez Lily estivesse certa e eu estaria realmente ainda sentindo o veneno dele em mim, e exatamente por isso aquela baboseira toda tinha que acabar o mais rápido possível.
Com isso em mente, eu passeava meus olhos pelas lombadas dos livros da biblioteca, na tentativa de achar um que me ajudasse a adiantar as matérias, tentando pela milionésima vez adivinhar o que aquela cabeça platinada pensava e qual matéria ele daria na nossa próxima aula, para poder terminar aquilo logo.
— Weasley. — escutei uma voz feminina desconhecida me chamando, fazendo-me virar quase que automaticamente para a dona. — Acho que nunca fomos devidamente apresentadas, sou Hadassa Nott, prima e melhor amiga de Scorpius. — a garota sorriu, revelando os dentes perfeitamente alinhados.
Arqueei a sobrancelha. Eu conhecia a loira perfeitamente bem assim como ela também me conhecia, já que costumava me perseguir antigamente. Encarei-a, prestando atenção nas mudanças que os anos fizeram com ela. Ela continuava muito bonita, e eu podia sentir toda sua autoconfiança apenas de olhá-la. A pele clara e os olhos azuis combinavam perfeitamente com o loiro escuro de seus cabelos. Hadassa Nott era a personificação de uma boneca barbie trouxa.
Preferi não comentar nada sobre nosso passado, já que a mesma parecia também disposta a deixar tudo para trás, e eu não era de todo uma pessoa vingativa.
— Rose Weasley. — apresentei-me. — Mas acho que isso você já sabe. — sorri amarelo, arqueando a sobrancelha em uma pergunta muda sobre o que ela queria comigo.
— Como passou esses últimos tempos? — perguntou, parecendo realmente interessada.
— Bem, obrigada. — respondi. — Perdoe minha falta de educação, mas, o que gostaria comigo? — perguntei impaciente, vendo ela assumir uma postura mais séria, cruzando os braços e se escorando em uma das prateleiras.
— Scorpius e eu compartilhamos do mesmo sangue, se assim posso dizer, mas isso não significava que consequentemente deveríamos ser amigos, ou melhores amigos. Foi uma escolha inteiramente nossa, acredito que você entenda bem sobre isso. — começou. Seu olhar estava fixo em alguma prateleira, mas ela parecia perdida em seus próprios pensamentos enquanto falava. — Ele e Haran eram meus heróis da infância, mesmo possuindo a mesma idade, eu sempre era a garotinha que deveria ser protegida por eles. Lembro das vezes em que os dois entravam em brigas com garotos mais velhos que me provocavam. — riu, fazendo-me acompanhá-la. Eu nunca havia trocado palavras com o Nott, gêmeo da garota, mas conhecia Scorpius suficientemente bem pra saber que era o tipo de coisa que ele faria para proteger as pessoas que ama, mesmo tentando parecer indiferente na maior parte do tempo. — Depois que Haran foi à Durmstrang, a tarefa ficou inteiramente para Scorpius, até a transferência do meu irmão à Hogwarts, claro...
— Aonde quer chegar? — perguntei, realmente não entendendo o ponto daquela conversa.
— Paciência é uma dádiva, Weasley. — sorriu, fazendo-me arquear a sobrancelha. — O que eu quero dizer, é que a minha vida toda fui protegida e nunca tive a oportunidade de retribuir isso para eles, já que eles sempre resolviam seus problemas sozinhos, tentando sempre manter a pose de herói. — as coisas começavam a fazer sentido na minha cabeça e eu já sentia meu estômago revirar. — Até que você voltou. — sorriu, me fitando pela primeira vez desde que começou a falar. — E eu percebi que essa era minha oportunidade de proteger o Scorpius, porque você parece causar uma confusão mais do que o normal na cabeça dele e parece se divertir ao saber disso. — abri a boca pra retrucar, vendo-a fazer um gesto para que eu me calasse e a escutasse. — Não sei qual é sua intenção com ele, se são boas ou se você só quer brincar e se vingar dele, mas quero que fique sabendo que seja lá qual for, eu vou saber. E se eu não gostar do que eu souber, eu e você resolveremos isso, sozinhas.
— Isso é uma ameaça? — arqueei a sobrancelha.
— É um aviso. — se desencostou na prateleira, caminhando e parando na minha frente. — Não ache que sou uma má pessoa, Weasley, ou que não gosto de você. Pelo contrário, eu simpatizo muito contigo, mas... eu apenas quero proteger quem eu amo. — não respondi, vendo-a sair da minha frente e caminhar em direção a saída. — Ah, Weasley — chamou, me fazendo contar até dez mentalmente antes de virar para vê-lá. — Um passarinho me contou que Poções será sua próxima aula extra... porque, você sabe, esse passarinho sempre me conta tudo. — sorriu amigavelmente, sumindo entre as prateleiras.
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