Notas iniciais
Sobre perguntas idiotas e palavras de consolo — Scorpius Malfoy
Depois daquele dia, não era exagero dizer que o pesadelo ruivo não havia deixado-nos sozinhos para conversar coisas de garotos — que naquele tempo se tratava de quadribol e o mais novo modelo de vassoura que havia sido lançado —.
Por onde íamos, lá estava Rose Weasley forçando o que ela gostaria que fosse uma amizade. Albus até gostava disso e conversava bastante com a garota, mas eu evitava ao máximo qualquer tipo de contato que não fosse nas aulas particulares que ela nos dava de História da Magia e Astronomia, as matérias que eu e o Potter conjuntamente estávamos com maiores dificuldades.
O resto do ano passou sem nenhum acontecimento importante para mim e logo as férias chegaram, trazendo consigo toda a calmaria e paz que eu precisava longe da Weasley. Meus pais haviam programado uma viagem para America do Sul e foi uma experiência única, já que a cultura de lá se difere em muitos pontos da britânica.
Quando a carta de Hogwarts chegou, junto dela veio um comunicado — para desgosto do meu pai e uma admiração contida de minha mãe — dizendo que a partir daquele ano, todos os alunos eram obrigados a escolher uma matéria extra-curricular “trouxa”, para que possamos entender como eles conseguiam fazer magia de uma forma diferente, usando, por exemplo, tintas e telas — para quem escolher a aula de artes. Dizia também que os alunos do Quadribol não precisavam se inscrever, já que precisavam se manter focados em defender sua casa.
Logo primeiro de Setembro chegou e toda euforia era quase palpável na Plataforma 9¾. Avistei Albus em um canto parecendo emburrado, provavelmente havia recebido uma bronca por implicar com Lily, a Potter mais nova e, agora, uma aluna de Hogwarts também. Assim que me viu, veio em minha direção sem se preocupar em se despedir dos pais e eu dei um breve aceno para meu pai e um abraço rápido em minha mãe antes de me virar em direção ao trem. Quando estava próximo de embarcar, escutei a voz irritante de Rose chamando-me. Eu tentei ignorar a qualquer custo, mas a ruiva, infelizmente, sabia ser insistente quando queria.
— Scorpius! Não escutou quando chamei? — perguntou e eu podia ver seus grandes olhos azuis brilhando.
— Desculpe. — murmurei, tentando não prolongar aquele diálogo em frente aos meus pais.
O que vocês devem imaginar que não deu certo, já que se tratava de Rose Weasley. Seus cabelos ruivos já eram chamativos demais e para ajudar a garota tinha uma personalidade excêntrica, o que provavelmente assinou minha sentença de morte quando ela se pendurou em meu pescoço, me abraçando apertado.
Dei leves batidinhas em seu ombro, vendo-a soltar com um sorriso enorme no rosto e eu pude ver que havia algum resto de comida preso em seus dentes. Garota estranha!
Voltamos nosso caminho para o trem e os dois primos conversavam animados, embora vez o outra Albus parecesse querer se esconder quando o viam com ela. Achamos uma cabine vazia e nos sentamos, de forma que Albus e Rose ficaram de frente para mim e eu pude ir deitado toda viagem tranquilamente.
— Qual matéria vocês escolheram? — perguntou animada em algum ponto da viagem.
— Nenhuma. — respondi seco e podia sentir o olhar cortante do Potter sobre mim. Embora também não gostasse tanto dessa proximidade entre nós e ela, ele sempre me repreendia quando eu a tratava daquela maneira.
— Não escolhemos nenhuma porque iremos tentar entrar para time de Quadribol! — corrigiu.
— Uau! — bateu palminhas, deixando-a ainda mais esquisita. — Isso é demais! Irei torcer por você em todos os jogos! — percebi que ela me encarava com as bochechas coradas e quando correspondi o olhar ela desviou para o primo. — E você também Albus, claro.
O Potter sorriu. — E qual você escolheu, Rosie?
— Arte! — exclamou sorridente deixando a vista os dentes tortos.
— Arte? — perguntei debochado. — Que tipo de pessoa escolhe Arte? — ri.
Certo, não me levem a mal. Eu gostava de arte e até arriscava alguns desenhos, mas eu não podia perder uma oportunidade de zoar com Rose Weasley.
— Eu. — deu de ombros, não parecendo abalada. — É o que eu quero fazer após terminar Hogwarts.
— Por que está em uma escola de magia se pretende seguir uma profissão trouxa?
— Porque eu quero conhecer o melhor dos dois mundos! Nós fazemos magia porque algum ancestral, por mais antigo que fosse, era um bruxo. Já os trouxas, fazem magia sem o uso de qualquer varinha, entende? Eles criam, transformam coisas de maneiras às vezes impossíveis até para a bruxaria.
— Que bobeira. — murmurei, voltando meu olhar para janela.
— E você, Scorpius? — perguntou, fazendo eu voltar meus olhos em sua direção. — O que quer fazer quando terminar a escola?
— Meu pai quer que eu continue os negócios da família. — dei de ombros.
— Certo, mas o que você quer?
Por mais boba que parecesse ter sido, aquela pergunta me pegou de surpresa e eu não sabia o que responder.
Todo meu futuro já estava minuciosamente traçado com o que Draco Malfoy queria para mim e parecia tudo bem até aquele momento. Desde pequeno, sempre soube que deveria seguir os passos do meu pai então nunca havia questionado se era aquilo que eu realmente queria. E, agora, quando Rose Weasley me perguntou isso, eu sabia que a resposta era não.
Eu não queria ser como meu pai e queria menos ainda assumir seu lugar nas empresas da família. Mas também não queria decepcioná-lo.
Albus, percebendo o quanto a pergunta havia “mexido” comigo, tratou de mudar de assunto imediatamente e eu voltei meu olhar para janela, agora perdido demais em meus próprios pensamentos.
Foi naquele momento que eu percebi o quando odiava aquele filhote de trasgo e todas as suas perguntas estúpidas.
{...}
O segundo ano eu acredito que tenha sido o pior para Rose Weasley, isso porque com as aulas de Artes que ela andava fazendo, era comum ver a ruiva coberta de tinta pelos corredores do castelo e, juntando a sua aparência desagradável, trouxe consigo uma série de insultos e zoações para a garota.
E eu não conseguia me conter, e acabava entrando na onda também, sempre que ela estava longe, claro. Embora cada vez que eu proferia uma palavra ruim sobre ela, algo dentro de mim se revirava e eu sabia que não era certo. Ela era Rose Weasley, a menina que me ajudou para não levar bomba no fim do ano passado e agora eu zoava ela descaradamente.
Albus também brincava vez ou outra, mas sempre repreendia quando percebia que as coisas ficavam sérias demais.
Quanto a ela, bem, suportava tudo com aquele sorriso horrível e torto nos dentes. Pelo menos era o que eu achava... para vocês entenderem melhor, precisamos voltar a uma nublada noite de Fevereiro.
Eu caminhava cansado pelos corredores, o jogo da Grifinória versus Sonserina se aproximava cada vez mais e por isso, o Gosling, capitão do time de Quadribol da minha casa, havia aumentado ainda mais os treinos semanais, principalmente para os membros que haviam ingressado no time nesse ano.
Meu amigo Potter não me acompanhava naquela noite, já que o capitão tinha o chamado para dar alguns conselhos ou algo assim, não me importei muito em saber o que era.
Estava distraído pensando no futuro jogo, quando escuto um choro baixinho, bem próximo de onde eu estava. Cada passo que eu dava o som ficava mais alto, até eu virar a esquina do corredor e encontrar uma garota de cabelos volumosos encolhida.
Demorou segundos até eu notar que se tratava dela.
— Weasley? — chamei, sem saber ao certo o que estava fazendo. Ela não se mexeu, mas ainda era audível o som do seu choro. — Weasley, eu sei que é você! Anda, me fala, o que houve?
Eu estava desistindo de toda cordialidade e virando-me para ir embora, quando vi ela levantando a cabeça para me fitar. Seus olhos azuis, geralmente sempre com um brilho alegre e divertido, naquela noite estavam vermelhos e eu só conseguia ver dor ali. Aquilo, de alguma forma, mexeu comigo e eu percebi que não gostava de vê-la assim.
— Não é nada, Scorpius, amanhã conversamos, sim? — murmurou se levantando e tentando esboçar um sorriso — que saiu mais como uma careta.
Segurei seu pulso evitando que ela saísse, e ela se virou confusa. Não podia questionar, eu também não sabia o que estava fazendo.
— Diga, Weasley. — murmurei autoritário e observei quando ela desviou os olhos para minha mão, ainda em seu pulso.
Soltei de imediato e ela respirou fundo, antes de me encarar.
— Não é nada, só... — começou e eu vi seus olhos enchendo de lágrimas novamente — me jogaram uma azaração de Furnunculus.
Eu não consegui responder nada, sentindo uma raiva estranha crescer dentro de mim.
— Quem fez isso? — perguntei.
— Ninguém importante...
— Weasley, quem fez isso? — perguntei novamente, fitando seus grandes olhos, agora, avermelhados.
Ela respirou fundo, antes de dizer. — Hadassa Nott.
Minha expressão deve ter sido impagável, já que a filhote de trasgo desviou os olhos para as mãos novamente, com medo (?) de me encarar. Hadassa era minha prima e, na época, a garota por quem eu tinha um penhasco.
Suspirei pesadamente, tentando voltar ao normal antes de voltar a perguntar:
— Você já falou com a Diretora?
— Não, não precisa! Foi uma coisinha boba de nada, uma brincadeira e...
— Weasley, não foi uma brincadeira. Não importa o quão idiota você pensa ter sido, você precisa contar a diretora. Ela saberá o que fazer e, provavelmente, ela nunca mais irá lhe atormentar de novo! — exclamei.
— Você não entende, Scorpius... — ela suspirou, com os olhos lacrimejantes — não é a primeira vez que ela faz isso. Você pensa que não sei o quanto todos me zoam pelas costas? Eu tomei uma atitude da última vez que ela fez isso e essa foi a consequência. Eu nunca poderei competir com ela.
Aquelas palavras me doeram de uma forma inexplicável, e eu não consegui pensar muito antes de envolvê-la em um abraço. Era a primeira vez que retribuía — tecnicamente — um abraço dela e eu não conseguia deixar de pensar o quanto trazia uma sensação boa. Me perguntava se ela estava sentindo isso também. Quando pareceu notar o que acontecia, ela apertou ainda mais o abraço e eu não reclamei quando suas lágrimas começaram a molhar meu uniforme do quadribol.
— Ei, Weasley, sei que você acha que não, mas quero que saiba que você é a garota mais inteligente que eu conheço e não deveria deixar ninguém lhe dizer o contrário disso. Se há uma pessoa a altura de competir com Hadassa, eu não consigo pensar em ninguém melhor do que você! Nunca esqueça disso, Weasley. Você é brilhante!
Ela não respondeu nada, apenas apertou ainda mais — se possível — o abraço e senti seu choro aumentar ainda mais, junto com o soluço.
Eu não sei quanto tempo ficamos ali, parados e abraçados, mas o que eu sei, é que naquela noite eu descobri que odiava ver Rose Weasley chorando e que quando ela chorava, uma parte de mim se partia junto dela.
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