Notas iniciais
Sobre a garotinha (des)obediente do papai — Rose Weasley
“Está vendo aquela gente ali? São os Malfoy, não se aproxime deles, Rosie! Seja a garotinha obediente do papai!”
Uma vez alguém me disse que nós devemos sempre escutar nossos pais, pois eles sabem o que dizem e vêem sempre além do que nós vemos. E hoje percebo o quanto estavam certos.
Acredito que tenha sido nesse momento, ainda na estação de trem antes de embarcar para o primeiro ano em Hogwarts, que eu deixei de ser a “garotinha do papai”. A princípio eu não dei muita atenção e nem me interessei em saber de quem meu pai estava falando, apenas assenti e o abracei apertadamente, já sentindo saudades dele e de minha mãe antes mesmo de partirem.
Foi só no dia seguinte, nosso primeiro dia de aula oficial, que eu fui dar atenção a fala do meu pai. Albus havia sido selecionado para Sonserina, e lembro que James passou o café da manhã inteiro dizendo o quanto ele estava desgostoso com tudo isso. Acabei encontrando-o no corredor e não consegui me conter em abraçá-lo e dizer o quanto estava orgulhosa dele, afinal, eu tinha lido uma vez em algum lugar que todos que são selecionados para casa das serpentes são destinados ao sucesso.
Só então que eu notei ele. E hoje eu vejo como uma grande bobeira, mais ali, aos meus recém completados onze anos, eu senti o mundo parar e todas as sensações e frases românticas que até então só havia lido nos livros da Jane Austen pareceram fazer sentido.
Coração disparado, mãos suando, bochechas quentes e um borbulho estranho no estômago.
Eu sabia que havia me apaixonado no exato momento que meus olhos encontraram os cinzas tempestuosos de Scorpius Malfoy. E eu sempre fui esperta o suficiente para saber que ele iria acabar me machucando, uma hora ou outra.
Porém eu não queria acreditar nisso, porque isso implicaria admitir que ele nunca gostaria de mim e eu não queria isso. Então, eu apenas o cerquei com todo o amor que poderia oferecer, e só agora, quase seis anos mais tarde eu percebo o quão ridícula eu fui.
Mas, bem, não podemos culpar uma garota por tentar, né?
Após minha saída de Hogwarts, eu fui transferida para Ilvermorny, onde as coisas começaram a finalmente se ajeitar para mim.
Eu continuava a aluna brilhante e zoada de sempre, porém, eu tinha amigos agora. Eu não estava mais sozinha e, por mais que vez ou outra as pessoas ainda me zoassem pela minha aparência — que não era das melhores, admito, mas quem dá o direito de julgar alguém? — eu tinha pessoas para me defender. Eles me salvaram de mim mesma e ensinaram coisas que os livros jamais conseguiriam colocar na minha cabeça.
Por exemplo, que a forma que nos amamos é a forma que ensinamos os outros a nos amar. E com isso em mente, eu prometi que só voltaria à Hogwarts de novo quando eu conseguisse manter isso na prática cem porcento, começando pela aparência.
— Não acredito que você disse realmente aquilo! Vocês viram a cara dele? — a voz de Roxy me cortou dos meus pensamentos, gargalhando.
— O que foi Lily? — Dominique perguntou, vendo a expressão exitante da outra ruiva.
— Não sei... hm... Rose... você ainda gosta dele? — o sorriso que estava em meu rosto se desfez, dando espaço para uma sensação estranha que eu não conseguia identificar ao certo o que era.
— Deixa de besteira, Lils! — exclamei, procurando passar toda confiança – que eu não tinha sobre isso – na frase.
— Foi o que eu pensei! — Roxy riu. — Você viu o que aquele Filhote de Doninha fez com a Rosie, Lils? Acha mesmo que ela ainda sentiria algo por ele depois de tudo aquilo? Seria idiotice!
{...}
O sol não havia nascido ainda quando acordei, indo ao banheiro tomar um longo e relaxante banho, seguida de toda minha higiene matinal. Quando voltei ao dormitório, as meninas continuavam dormindo pesadamente e eu não quis interferir no sono delas. Só Merlin sabia o quão chata as garotas Weasley eram de manhã.
Me vesti rápido, passando uma maquiagem básica e logo descendo para o Salão Comunal com minha leitura da semana. Logo o lugar começou a encher, e decidi que era a hora de ir tomar café.
Muitas pessoas já conversavam quando cheguei ao Salão Principal, e eu quis azarar todos que olhavam para mim e cochichavam em suas panelinhas. Não importava quanto tempo passasse, acho que nunca me acostumaria com isso. Eu ainda era Rose Weasley, afinal.
Me sentei em um canto afastado da mesa da Grifinória, me servindo de alguns bolinhos de baunilha que tinham ali.
— Bom dia, raio de sol. — escutei a voz de Albus me cumprimentando e tomando o lugar ao meu lado.
— Bom dia. — sorri. — Onde está seu fiel escudeiro? — arqueei a sobrancelha.
— Não faço a mínima ideia. — ele passeou os olhos pela mesa verde e prata. — Nós brigamos.
— Por quê? — perguntei.
— Ele acha que não sou um bom amigo. — deu de ombros, servindo um pouco de chá em nossas xícaras. Eu conhecia meu primo bem o suficiente para saber que embora ele estivesse com essa pose desleixada por fora, ele estava ressentido com tudo isso. E eu arriscava dizer que o Malfoy também.
— Seja lá o que foi que aconteceu, vocês irão dar um jeito. Vocês são Albus e Scorpius. Não funcionam separados. Tenho certeza que independente do que ele lhe disse, não era o que realmente queria. — sorri.
— Como você consegue? — o Potter perguntou, após segundos em silêncio.
— O que?
— Isso. Scorpius é meu melhor amigo, e te machucou de todas as piores formas possíveis... e mesmo assim você está aqui, o defendendo e buscando um lado bom na situação.
— Bom... — encarei a xícara em minhas mãos. — Scorpius não é de todo uma pessoa ruim, você sabe mais do que ninguém disso. E mesmo que nós dois agora não tenhamos a melhor relação do mundo... eu sei que ele é importante demais pra você.
— Ele é babaca demais, isso sim! — exclamou.
— Eu sei disso, senti isso na pele, não é? — voltei meus olhos para ele, que devolvia o olhar. — Mas mesmo assim, eu acho que ele seria e estaria muito pior sem você.
— Por quê?
— Porque acho que você é o único que pode o salvar dele mesmo.
{...}
— Como a maioria deve saber — a voz do velho professor Slughorn bradou, atraindo a atenção da sala. — essa ano vocês realizarão as provas do NIEMs, então...
— Desculpe o atraso, professor. — escutei a voz dele se desculpar. Era a primeira vez que Scorpius Malfoy me encararia como Rose Weasley, desde a minha volta, e eu não pude conter a minha ansiedade quando pensei na ideia.
— Acordei um pouco indisposto e precisei passar na enfermaria.
— Oh, claro, claro, senhor Malfoy! — concordou o professor. — Espero que não se repita, sim? Sente-se ao lado da senhorita Weasley.
Uma nuvem de murmúrios se espalhou pela sala. O loiro desviou os olhos pela sala pela primeira vez desde que chegou, parando em mim. Nós nos encaramos, e por alguns segundos, eu podia jurar que éramos só nós dois.
No geral, eu era boa em ler as pessoas. Suas emoções, sentimentos, essas coisas. Mas com Scorpius sempre foi diferente. Talvez fosse o olhar, ou a cara entediada que ele sempre exibia pelos corredores, mas eu nunca havia conseguido lê-lo de verdade. E não foram poucas as vezes que eu me peguei desejando ter algum super-poder para tentar conseguir entendê-lo.
Mesmo assim, não precisava ler mentes para saber que ele estava pensando na mesma coisa que todos, incluindo à mim: o dia em que fui embora.
Ele retomou a consciência, acenando para o professor e se encaminhando para a carteira vaga ao meu lado. Mesmo que ele estivesse sentado ao meu lado, era nítida a distância e o muro invisível que havia entre nós.
Slughorn continuou sua introdução a matéria e logo passou um trabalho, o que nos obrigou a trocar algumas poucas palavras desconfortáveis.
No fim da aula, o professor nos chamou pedindo para que aguardássemos a sala esvaziar. Eu podia sentir meu estômago revirar, e eu torcia que não fosse pelo motivo que minha cabeça gritava.
— Então, senhorita Weasley... — ele começou, atraindo nossa atenção. Scorpius estava sentado desleixadamente em cima de uma carteira, próxima a saída. Os braços fortes estavam cruzados e seu rosto brincava entre tédio e seriedade. Eu apenas escorava meu corpo na mesa em frente a do professor, tentando ao máximo manter distância. — Sei que é uma aluna brilhante, e acredito que os tempos fora do castelo não mudaram isso, mas eu terei que pedir para você ter algumas aulas extras, apenas para se situar do conteúdo aqui passado nos últimos anos.
— Claro, professor. — concordei.
— O cargo de Diretor da Sonserina me cobre muito tempo, senhorita, e infelizmente não poderei acompanha-lá. Por isso, chamei você, senhor Malfoy. — virou-se para o rapaz, que se limitou a arquear a sobrancelha platinada. — Quero que revise com a senhorita Weasley todo conteúdo dos últimos anos. Sei que você é tão bom quanto eu! — o gorducho sorriu, passando a mão em sua barriga.
— Professor, me perdoe, mas não há realmente nenhum outro aluno para isso? — ele questionou, aparentando seu desconforto.
— Creio que não. Mas lhe darei alguns pontos extras por causa disso. Não que você precise, claro. — o homem sorriu em um tom próximo ao deboche, deixando claro a veracidade e ironia em suas palavras.
— Mas, professor...
— Sem mais, senhor Malfoy. Ao final de cada conteúdo aplicarei uma prova para a senhorita. — virou-se para mim, que apenas concordei acenando, ainda muito em choque para dizer qualquer coisa. — É melhor vocês irem ou irão se atrasar.
Peguei minha mochila na carteira e segui para fora, passando por Scorpius que sequer se mexeu, provavelmente iria tentar convencer o professor sem mim.
Já estava próxima da sala de minha aula seguinte, quando escutei sua voz me chamando.
— Ei, — meu estômago revirou – de nojo, é claro –, e eu me virei, encarando com a expressão mais entediada que conseguia. — olha, sei que você quer fazer isso tanto quanto eu, então... posso arranjar alguém para ir no meu lugar nessas aulas, e no fim fazemos um relatório positivo para Slughorn, o que acha?
— Ainda usando as pessoas para fazer suas tarefas, Malfoy? — arqueei a sobrancelha, observando quando seus olhos se tornaram um cinza tempestuoso, cor que, se bem me lembro, só aparecia em situações que ele estava começando a ficar nervoso. — Não, obrigada. Acho que está na hora de você enfrentar seus problemas de frente, ou você realmente está com medo de mim? — ri.
— Não estou com medo, muito pelo contrário. — sorriu debochado, perdendo toda postura de bom moço que estava exibindo até então. A tensão do ar entre nós era palpável, e alguns alunos que passavam por ali encaravam curiosos. — Apenas acho que você é ainda a garotinha chorona que não resiste e é apaixonada por mim. E então, será que você aguentaria isso? — arqueou a sobrancelha em desafio.
— Ah, Malfoy... — sorri da forma mais sacana que consegui, passando os dedos pelo seu pescoço, alargando mais ainda o sorriso quando senti os pelos da sua nuca arrepiarem. — seu ego ainda vai acabar te destruindo. — sussurrei. — Te vejo quarta-feira, às cinco. — pisquei, rindo e seguindo meu caminho em direção à sala, deixando-o ainda sem reação para trás.
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