Notas iniciais
Sobre confusões e ajudas inesperadas — Rose Weasley
Eu costumava ser o tipo de pessoa que acreditava que tudo poderia ser resolvido e amenizado com um bom café. Talvez fosse o cheiro confortante, que me lembrava a casa dos meus avós, o gosto forte ou mesmo a cafeína eletrizante que motivava qualquer um a fazer as maiores loucuras, mas o ponto era que eu podia me considerar uma cafeólatra — essa palavra existe?.
E ali, caminhando a passos lentos até o Salão Principal em plena seis e meia da manhã, nada naquele momento me fazia crer mais de que eu precisava de um bom e forte café para acordar e enfrentar sem dormir mais uma aula de História da Magia, matéria que sempre gostei mas que naquele dia em questão, onde passei a madrugada toda me revirando para tentar conseguir dormir, não me parecia uma boa opção.
— Você é um idiota, Zabine! — a voz conhecida de repente encheu meus ouvidos e quando meus olhos avistaram um amontoado de pessoas eu já sentia que não precisaria mais de café para acordar.
Sempre me considerei uma pessoa intuitiva, por isso quando meus pés me guiaram involuntariamente até a multidão de pessoas, eu não pensei muito e nem tentei impedir, porque algo dentro de mim gritava que eu precisava ir ali ver o que estava acontecendo, e o medo do rótulo de enxerida e fofoqueira não me assombrava mais.
E eu pude sentir a confirmação da minha intuição no momento em que, depois de empurrar algumas pessoas, consegui chegar no meio onde estava ocorrendo a discussão e não consegui conter minha cara de surpresa e confusão quando meus olhos reconheceram Lily, juntamente de um Timothy Briggs — namorado da garota — vermelhos e nervosos do lado oposto de onde estavam Albus, Scorpius, Haran e Antony Zabine.
— Presta atenção, Zabine, — a forma nervosa que Tim, que costumava ser quieto e tímido pelas poucas vezes que trocamos palavras, mostrava o quanto toda aquela situação estava realmente o incomodando e não era de hoje. — eu aturei você por muito tempo... te vi dando em cima da minha namorada descaradamente na minha frente, aturei quando você humilhou os meus amigos por todos esses anos, mas para tudo há um limite! Eu não tenho culpa por você ser um escroto que não se importa com os sentimentos alheios e tenho menos culpa ainda pela Lily ter escolhido a mim do que um babaca como você! Então, aceitando ou não, é comigo que ela está, é a mim que ela beija e anda de mãos dadas aqui, por isso, se eu fosse você, aceitaria de uma vez o merda que você é e deixaria nós dois em paz logo!
— Você não sabe nem metade das coisas que está falando, seu idiota! — Antony rosnou, dando um passo à frente em direção ao moreno.
Meus pés não me obedeciam e eu podia sentir que Lily estava da mesma forma, já que ela só observava tudo, ainda vermelha, com uma expressão indecifrável. Quando eu achei que a guerra começaria de fato, Albus resolveu intervir na discussão.
— Chega disso, vocês dois! — resmungou com a voz autoritária, puxando Antony de volta onde estava.
— Não, chega vocês! — Timothy bradou, fazendo Albus e Scorpius arquearam a sobrancelha para a cena. — Eu estou cansado disso tudo, e cansado de você, Albus, fazendo o papel de bom samaritano quando na realidade você é tão babaca quanto todos os outros! Tentei relevar todas as suas merdas porque você é irmão de Lily, mas não tem como suportar a forma que você ri e apoia sempre que o Zabine parece comer sua irmã com os olhos ou quando ele trata ela como mais uma que vocês comem e acham legal jogar fora! E digo o mesmo sobre você, Nott! — o moreno virou-se para o rapaz que se limitou em arquear a sobrancelha. — Onde estão aqueles Albus Potter e Haran Nott que todo mundo idealiza como os caras perfeitos? Por que eu sinceramente não sei onde estão! — desta vez quem ganhava a coloração vermelha era Albus e eu sabia que ele explodiria a qualquer momento. Mordi o lábio nervosa, eu precisava me mexer, mas por que é que meus pés não me obedeciam? — E não irei nem comentar sobre você, Malfoy!
Quando Timothy tocou no nome de Lily e sobre como Albus a tratava eu sabia que ele havia tocado em um ponto sensível e que talvez não sairia mais inteiro dessa briga, visto que meu primo iria pra cima e consequentemente seus fiéis escudeiros também, já que eles compartilhavam o lema de sempre lutar uns pelos outros e sabiam sobre como mexer com o lance família era jogar baixo com o Potter.
— O que você quer, cara? — retrucou o platinado, avançando em direção ao garoto. Albus olhou para o loiro, se comunicando silenciosamente pelo olhar e esticou o braço, impedindo que Scorpius avançasse mais. Depois disso, o moreno virou devagar para Timothy, fitando-o de maneira indecifrável.
— Quero que me deixem em paz! Quero que parem de andar por aí se achando os deuses quando, na verdade, não passam de uns babacas escrotos que só se importam com vocês mesmos!
E aquela foi a deixa perfeita para Albus avançar em direção ao garoto, segurando-o pelo colarinho. Olhei nervosa pra Lily que finalmente pareceu recuperar os movimentos e vi quando ela corria na direção dos dois rapazes tentando impedir a briga, mas meus olhos não conseguiram acompanhar direito os movimentos e logo a ruiva já estava no chão, devido a um empurrão que pelo que entendi partiu de seu próprio namorado.
Naquele momento Antony se enfureceu, avançando pronto para deferir socos no garoto que agora era segurado por Albus.
— Vocês vão me bater? — riu debochado. Meus movimentos também pareceram voltar e logo eu corria em direção a Lily, abraçando-a, que chorava sem conseguir se conter. — Vão enfrente! Mostrem mais uma vez os bostas que vocês são!
— Timothy, Albus, parem! — escutei minha própria voz gritar e senti as lágrimas insistentes brotarem nos meus olhos. — Sim, Tim, eles podem ser egoísta e realmente só fazem merda, mas se você continuar dando corda pra isso será tão babaca quanto eles! — exclamei, me levantando e enxugando meu rosto. Pelo canto de olho, pude ver o Malfoy arqueando a sobrancelha.
— Você está defendendo eles, Rose? — perguntou perplexo. — Agora posso ter certeza que você mereceu toda aquela merda mesmo! — dessa vez quem o encarava sem acreditar era eu e já sentia as lágrimas pesando novamente nos meus olhos.
— Você já me encheu pra caralho, Briggs! — e sem conseguir acompanhar mais uma vez, Scorpius partiu na direção ao garoto, o socando.
Albus o soltou pelo impacto e não tardou em também socar o rosto de Timothy, sendo seguido por Antony. Quando os três estavam prontos para distribuir o segundo soco cada, e Haran entrar na brincadeira distribuindo seu primeiro, uma voz autoritária nos fez travar onde estávamos.
— O que é que está acontecendo aqui? — Minerva Mcgonagall bradou em um tom sério, mas seus olhos denunciavam o quão brava e a surpresa estava. — Senhores Malfoy, Potter, Briggs, Zabine e Nott, me acompanhem. — virou, já seguindo seu caminho para a diretoria quando voltou parecendo esquecer algo. — E vocês duas também, Senhorita Potter e Senhorita Weasley.
Eu realmente não precisava mais de um café para acordar.
{...}
— Vocês tem ideia de quão imprudentes e de quantas regras quebraram somente nessa manhã? — Mcgonagall perguntou, apertando os lábios claramente desgostosa da situação.
— Diretora, veja bem... — Timothy tentou argumentar, sendo cortado pela mulher.
— Não há “veja bem”, senhor Briggs! Todos — enfatizou a palavra, encarando cada um de nós. — vocês foram imprudentes! — Mordi os lábios nervosa, tentando olhar pra qualquer lugar que não fosse a mulher na minha frente.
Eu, Lily e Timothy estávamos sentados nas cadeiras enfrente a mesa da diretora, enquanto os quatro sonserinos se encostavam nas paredes, todos de braços cruzados e um em especial exibia uma expressão entediada. Naquele momento, mais uma vez, eu desejei saber o que se passava na cabeça de Scorpius Malfoy.
— E é por isso — voltou a falar, respirando fundo. — que todos irão cumprir detenções com o senhor Filch três vezes na semana durante quinze dias. — arregalei meus olhos, aquilo não podia ser verdade! — Senhor Malfoy e senhorita Weasley, as aulas extras de vocês estão suspensas até o fim da detenção.
— Diretora, mas nós temos treino de quadribol! — Scorpius pela primeira vez desde que chegamos naquela sala resolveu se manifestar, abandonando a expressão de antes, que agora dava lugar a uma indignação presente em todos no cômodo.
— Bem lembrado, senhor Malfoy. — a diretora sorriu levemente, e nós quase respiramos aliviados. Quase. — Os aqui presentes que estão no time de quadribol, estão suspensos por três jogos.
— Até eu? — Lily perguntou exasperada.
— Você está aqui, não está, senhorita Potter? — sorriu debochada, arqueando a sobrancelha. — Além das detenções e suspensões, serão retirados 60 pontos da Sonserina, Grifinória e da Lufa-Lufa. A primeira detenção será amanhã, estão dispensados.
— Diretora, mas...
— Há menos, senhorita Weasley, que queira aumentar sua detenção e perder mais pontos para sua casa, eu recomendo que me obedeçam e saiam agora. — murmurou sem olhar, rabiscando alguma coisa em um pergaminho.
Ninguém arriscou falar mais nada, caminhando em silêncio para os corredores, cada um preso aos seus próprios pensamentos. Albus foi o primeiro a tomar uma atitude.
— Lily, eu... — a ruiva não deu tempo para o irmão dizer nada, apressando os passos com Timothy em seu encalço. Antony revirou os olhos com a cena.
— Dê um tempo a ela, Al. — suspirei, atraindo a atenção dos sonserinos. — Lily precisa organizar os próprios pensamentos e talvez a conversa com Tim seja prioridade no momento.
— O que ela vê nesse nerd idiota? — Antony perguntou em uma careta, parecendo questionar mais a si mesmo do que nós.
— Algo que ela com certeza não viu em você, irmão. — Scorpius debochou, arrancando risadas de todos, e dando leves batidinhas no ombro do moreno, que resmungou alguma coisa e afastou-se, ainda bravo, na direção oposta de Lily e Timothy.
Albus e Haran foram atrás do amigo, restando somente Scorpius e eu.
Desde que havia ido parar pela primeira vez na diretoria, não tinha parado para pensar em como realmente cheguei lá, até encontrar os olhos acinzentados do Malfoy sobre mim, me encarando como se quisesse falar algo. Então, a imagem do loiro socando o Briggs invadiu minha mente e, talvez fosse meu lado infantil querendo ver o melhor no meu primeiro amor, mas eu sentia que Scorpius tinha me defendido. Ele havia socado alguém, levado detenção e sido suspenso do esporte que tanto amava por minha causa e aquilo, no mínimo, merecia um agradecimento.
— Malfoy... — foi com esse pensamento que o chamei, e ele pareceu voltar a realidade. Dado isso, não consegui conter minha expressão de choque quando o vi apressando os passos, indo atrás dos amigos, e me deixando ali, sozinha.
{...}
Já havia passado das sete e meia e minha cabeça tentava ainda processar tudo que havia acontecido naquela manhã em que ainda não tinha nem acabado o primeiro tempo. Evidentemente, por todos os ocorridos, todos nós tínhamos perdidos a primeira aula e enrolávamos até dar o horário da segunda.
Eu encarava minha figura no espelho, tentando controlar meus pensamentos.
Detenção. Havia ganhado minha primeira detenção sem qualquer razão justa e não fazia nem um mês que tinha voltado. O que meus pais iriam pensar quando soubessem? Porque, claro, Minerva Mcgonagall daria um jeito da Ministra Hermione Granger e o Auror Ronald Weasley saberem. Respirei fundo.
— E então ele... — uma voz feminina afastou meus pensamentos, atraindo minha atenção. Ela não pareceu notar a princípio minha presença, mas assim que o fez se calou, parando onde estava na porta e encarando-me com uma expressão indecifrável. — Weasley, que bom te ver. — cumprimentou, sorrindo falsamente. Arquei a sobrancelha, me perguntando internamente quem era aquela garota que reconheci ser lufana pela gravata.
— É um prazer. — forcei um sorriso fraco, voltando minha atenção ao espelho. Passei as costas das mãos pela bochecha, onde um rastro de rímel, devido ao meu choro antes, ainda era um pouco visível.
A garota entrou no banheiro, acompanhada de mais uma garota que entrou em uma das cabines, e parou enfrente ao espelho, tirando uma necessaire da sua bolsa e pegando um batom, começando a passá-lo em seus lábios. Repeti o gesto, pegando um rímel da minha bolsinha.
— Soube da confusão que teve mais cedo. — comentou, me encarando pelo espelho.
— Difícil não ficar sabendo. — resmunguei, concentrada em não borrar o rímel.
— Realmente, ainda mais quando envolve Scorpius Malfoy. — arqueei a sobrancelha, perplexa pelo fato de ela estar mais preocupada com o loiro, que sequer era o foco principal da discussão. — Soube que ele socou o garoto para te defender.
— Talvez seja isso. — retruquei. — Não tem como saber o que se passa na cabeça dele. — foi a vez dela arquear a sobrancelha, parando de passar o batom e virando-se para me encarar diretamente.
— Não sei o que aconteceu com você ou o que fez o patinho feio virar um cisne, mas não esqueça que um perdedor sempre é um perdedor. — nesse momento eu já havia virado também em sua direção e a morena se aproximava de mim ameaçadoramente. — Dado a isto, eu sugiro que fique bem longe do meu homem.
— Seu homem? — consegui achar minha voz para indagar, debochada.
— Sim, Scorpius Malfoy, meu homem. — retrucou, não parecendo feliz com meu comentário. — Se não quer voltar para seus dias de patinho feio e perseguição, Weasley, então não se aproxime mais dele. — meu estômago revirava e eu sentia o suor das minha mãos, mas eu não poderia recuar. Não, não podia. Caso contrário tudo o que lutei todos esses anos teria sido em vão.
— Não me aproximar dele? — ri irônica. — Você se acha tão inferior assim a mim para vir aqui me ameaçar? Se esperava que eu ficasse com medo depois disso, fique sabendo que apenas reforçou a imagem de garota patética que eu tinha de você.
— Sua...! — ela puxou a varinha das vestes, apontando em minha direção em um movimento rápido. Senti meu corpo travado e eu sabia que não era efeito de um feitiço, era minha mente não reagindo mais uma vez. A expressão confiante que antes estampava meu rosto sumiu, e em consequência um sorriso maldoso surgiu nos lábios da morena. Havia deixando a minha varinha no dormitório, já que sempre passava lá após o café para pegar meu material.
De uma maneira também rápida, a varinha da garota voava diretamente em direção a porta, onde Hadassa Nott agarrou, com uma expressão entediada — mas com uma faísca divertida no olhar — e apontando a sua própria varinha em direção a lufana.
— Jade Finnigan. — cumprimentou, sorrindo debochada. — Posso brincar com você o dia todo, mas já que estamos sugerindo coisas umas para as outras, eu sugiro que fique longe da Weasley, e se eu souber que você ousou se aproximar novamente... só posso dizer que minha varinha não estará somente apontando pra você. — alargou o sorriso ao ver a expressão na cara da garota.
A porta de uma das cabines se abriu e logo a garota que entrou com Jade — que agora eu sabia o nome — tentou um feitiço de desarme na sonserina, que foi mais rápida e acabou lançando um Furnunculus a outra. A morena arregalou os olhos indo em direção a amiga.
Minha cabeça estava confusa. Anos atrás, eu era vítima das azarações de Hadassa e hoje, os mesmos feitiços que usava contra mim, ela usava para me defender. Quando eu poderia imaginar isso?
— Desfaça o feitiço! — gritou, desesperada. Hadassa revirou os olhos.
— Uma coisa antes, querida, — sorriu meigamente, e eu tentava conter a risada diante da expressão da Finnigan. — assim que eu desfizer esse feitiço, você e sua amiga irão embora e não voltarão a importunar a Weasley, estamos entendidas? — arqueou a sobrancelha. A forma com que ela falava, se assemelhava como se tivesse falando com uma criança e aquilo parecia irritar ainda mais a morena, que não respondeu, mas acenou positivamente com a cabeça.
A loira desfez o feitiço, e logo Jade e a amiga se direcionavam para a saída. Quando estava prestes a sair, a lufana se virou pra mim, mexendo os lábios, mas que não foi difícil identificar um “isso não acabou aqui”.
— Eu senti você ameaçando alguém, Jade? — a sonserina arqueou a sobrancelha para a morena que arregalou os olhos e se apressou a sair junto com a amiga. Assim que passou pela porta, Hadassa se virou em minha direção. — Como você está?
— Estou bem... — encontrei minha voz, agora ainda mais confusa com os acontecimentos do dia. A Nott balançou a cabeça concordando, também se direcionando para a saída. — Espera! — chamei, vendo-a parar e voltar me encarando sem entender nada. — Por que fez isso?
Ela sorriu. — Nós garotas devemos nos manter unidas. — e sem dizer mais nada saiu pela porta do banheiro, me fazendo perceber que odiava a mania daquela família de me deixar para trás com cara de idiota.
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