A garota que sentia baixinho
3 Capítulo 3
O despertador do Charlie tocou 6:30. Não era o despertador dela, era o dele, batendo na parede fina da casa.
Isabela não levantou. Ficou enrolada no edredom fino que cheirava a guardado, com o celular na cara tentando achar sinal.
6:42. Segunda batida na porta, mais forte.
- Isabela! Se perder o ônibus, vai a pé. É uma milha.
Ela levantou xingando. O quarto era gelado. O chão de madeira gelado. O espelho pequeno do banheiro embaçado. Ela tinha trazido chapinha, tinha trazido cinco produtos de cabelo. Não tinha tomada livre perto do espelho e a luz era amarela, horrível.
Colocou a roupa mais cara que tinha na mala — calça de marca, bota de couro que a Regina deu no Natal, e a jaqueta que comprou em Phoenix — só pra provar um ponto. Não ia se vestir como aquelas meninas de Forks de moletom da escola.
O ônibus cheirava a borracha molhada. Todo mundo já se conhecia. Quando ela subiu, o motorista nem falou, só assentiu pro Charlie que estava na viatura atrás, vigiando. Ela sentou sozinha, no meio, e sentiu vinte pares de olhos nas costas. Sussurros.
Forks High School não era uma escola. Era um conjunto de prédios baixos, de madeira escura, no meio de um monte de árvore. Tudo molhado. As poças refletiam o céu cinza. O estacionamento era lama.
Na secretaria, uma mulher simpática demais chamada Sra. Cope deu pra ela um papel com as aulas e um mapa que era inútil.
- Qualquer coisa, Isabela, pode procurar a Jessica Stanley. Ela vai te ajudar!
Jessica Stanley apareceu com um sorriso enorme e um coque mal feito.
- Oi! Você é de Phoenix, né? Eu amo Phoenix! Sol! Aqui chove sempre, você vai odiar, haha. Vem, você tem Biologia comigo e com o Mike!
Isabela seguiu, arrastada. Ela não queria amiga. Queria que o dia acabasse.
*1ª aula: Inglês.* A sala cheirava a giz. O professor pediu pra ela se apresentar. "Sou Isabela Swan, vim de Phoenix, meu pai é o delegado." Voz curta, seca. Mimada mesmo. As meninas da frente se entreolharam. Ela sentou no fundo, mexeu no celular sem sinal e contou os minutos.
*2ª aula: Biologia.* Foi a pior. O laboratório tinha cheiro de formol e as bancadas eram todas riscadas. O parceiro dela era o Mike Newton, um menino loiro que não parava de falar.
- Você morou em cidade grande? Deve ser muito louco. Aqui não tem nada. Você já foi no La Push?
Ela respondeu com monossílabos. "Aham. Legal." Até o Mike desistir.
No intervalo ela foi pro banheiro se esconder. Se olhou no espelho feio, a maquiagem já borrada da garoa. Abriu o Instagram. 3% de bateria. As meninas de Phoenix no shopping, com a blusa. A blusa. Ela sentiu aquele ódio subir de novo. Não era culpa dela ter roubado. Era culpa da mãe ter cortado o cartão pra agradar o Phil.
O sinal tocou.
*Refeitório. 12:15.*
Era barulhento, cheio de mesa de plástico, cheiro de batata frita e hambúrguer requentado. Jessica a puxou pra mesa dela.
- Senta aqui! Esse é o Mike, o Eric, a Angela...
Isabela sentou na ponta, sem tirar a jaqueta. Pegou uma maçã e ficou cutucando. Não ia comer aquela comida.
Foi aí que a porta lateral do refeitório abriu.
E o barulho da mesa dela, por um segundo, pareceu ficar mais baixo.
Entraram cinco pessoas. Não entraram como gente normal. Entraram juntos, mas separados, como se não precisassem um do outro mas escolhessem andar juntos.
Todo mundo olhou. Todo mundo sempre olhava.
Isabela olhou também, por cima da maçã.
Todos pálidos. Pálidos de um jeito que não era normal em Forks, onde todo mundo já era pálido. Era outra palidez.
Um de cabelo de bronze, despenteado, com olheiras, olhando fixo pra bandeja, como se estivesse com dor de cabeça.*Do lado dele, uma menina baixinha, de cabelo preto bem curto, espetado, com um sorriso que não combinava com o resto.* Eles estavam de mãos dadas.
- Eles namoram. — Jessica cochichou. — Edward e Alice. Ele é super estranho, nunca fala com ninguém.
Atrás, outro casal. A menina era linda. Linda de um jeito que irritou a Isabela na hora. Alta, loira platinada, rosto perfeito, com cara de quem sabia que era linda e odiava todo mundo por causa disso. Do lado dela, um cara enorme, de ombro largo, cabelo escuro curto, parecendo um jogador de futebol preso num uniforme de escola.Eles também estavam juntos.
- Rosalie e Emmett . Ela é insuportável. Se acha.
E por último, um pouco atrás dos outros quatro, como se tivesse escolhido ficar atrás.
Ele era loiro. Loiro de cachos. Cachos claros, bagunçados, que caiam na testa. Alto, magro, mas com ombros largos. Jaqueta escura. Rosto... Isabela não soube descrever. Não era só bonito. Era bonito de um jeito que doía olhar. Pálido, com olheiras leves, maxilar marcado. Ele não olhava pra ninguém do refeitório. Olhava pra janela, pra chuva, com uma expressão cansada, entediada.
Isabela, que sempre teve tudo que queria na hora que queria, sentiu o estômago dar uma volta idiota. Não era paixão. Era reconhecimento. Era "eu quero".
- Quem é aquele? — ela perguntou, sem nem disfarçar, apontando com o queixo pro loiro de cachos.
Jessica seguiu o olhar e fez uma careta.
- Ah, aquele é o Jasper. É o mais velho. Irmão deles. Nem tenta. Ninguém fala com eles. Eles são todos esquisitos, não vêm em festa, não...
Isabela não ouviu o resto. Porque naquela hora, lá na mesa deles, no canto mais isolado do refeitório, onde nenhum outro aluno sentava, o Edward levantou a cabeça de repente.
Ele não olhou pra Isabela. Ele franziu a testa. Como se tivesse ouvido um barulho alto e depois... nada. Silêncio.
Ele olhou pra mesa da Isabela, confuso, tentando focar. Tentando ler. E não conseguiu. Pela primeira vez em 150 anos, a mente de alguém era um vazio absoluto pra ele. Um buraco.
Ele cutucou a Alice, que olhou pra Isabela também, e arregalou os olhos por um segundo, como se tivesse tido um flash rápido e confuso.
Já o Jasper, o loiro de cachos, continuou olhando pra chuva. Só que a mão dele, segurando a bandeja, apertou um pouco mais forte. Porque mesmo de longe, mesmo sem nunca ter visto aquela menina mimada de Phoenix na vida, ele sentiu.
Uma onda de raiva, de frustração, de ódio de Forks, de tédio e de um interesse repentino, agudo, possessivo, vindo da mesa do canto.
Tão forte que fez o peito dele doer. Empata sente tudo. E o que ele sentiu vindo dela era barulhento demais pra ignorar.
Ele finalmente desviou os olhos da janela e olhou, por meio segundo, na direção dela.
Isabela prendeu a respiração.
Ele desviou de novo, como se não tivesse visto nada, e sentou de costas pra ela.
O sinal tocou.
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