*Última aula: História.*


Isabela estava encharcada por dentro. Não de chuva, de raiva.


Depois que os Cullen entraram no refeitório, a mesa da Jessica não parou de falar deles. E quanto mais falavam, mais a Isabela ficava irritada.


- Eles moram naquela casa enorme, de vidro, no meio da floresta, mas nunca convidam ninguém...

- O Dr. Cullen é tipo, muito rico, mas trabalha no hospital...

- A Rose já foi coroada rainha da primavera mas nem foi receber...

- O Jasper nem estuda, ele só tá lá porque quer, ele já se formou umas três vezes...


Isabela ouvia e revirava os olhos. "Claro, os esquisitos ricos que se acham melhores que todo mundo." Ela conhecia esse tipo. Em Phoenix, ela ERA esse tipo. E ela odiava concorrência.


Mas o loiro de cachos não saía da cabeça dela. Não porque ele era bonito — ele era — mas porque ele não olhou. Todo mundo olhava pra menina nova. Ele olhou por meio segundo e desviou como se ela fosse nada. Ninguém nunca fez isso com ela.


A aula de História foi com o Sr. Molina, um homem baixo que falava cuspindo. Ela sentou na última carteira de novo, perto da janela. A chuva batia no vidro. Lá fora, o campo de futebol americano estava vazio, encharcado.


Ela ficou desenhando na borda do caderno: a blusa. A blusa que começou tudo. $89. Era por causa de $89 que ela estava naquele inferno verde, com bota cara cheia de lama.


O sinal final tocou 14:30 e foi um alívio. Todo mundo levantou correndo, empurrando.


Ela demorou de propósito. Arrumou a mochila devagar, passou mais brilho labial, ajeitou o cabelo na frente do espelhinho compacto. Quando saiu da sala, o corredor já estava quase vazio.


Lá fora, a garoa tinha virado chuva de verdade. Fina, gelada, que atravessava a jaqueta.


Ela não tinha guarda-chuva. Charlie esqueceu de avisar que em Forks guarda-chuva era parte do uniforme.


Ela saiu com a mochila na cabeça, tentando não escorregar na rampa de madeira, e foi pro ponto onde o ônibus deixava os alunos.


E foi aí que ela viu o estacionamento.


No canto mais longe, isolado dos outros carros velhos e sujos de lama, tinha um Volvo prata. Novo. Limpo demais pra Forks. Caro demais.


Encostados nele, debaixo da chuva como se não se importassem em se molhar, estavam eles.


Edward, com a jaqueta preta, com a mão na cabeça, com cara de dor. Ele olhava pro chão, mas Isabela jurou que ele olhou rápido na direção dela quando ela saiu da porta. E franziu a testa de novo. Aquele silêncio na cabeça dela estava incomodando ele mais do que ele queria admitir.


Alice do lado dele, segurando a mão dele, mas olhando pra Isabela com uma curiosidade aberta, quase infantil. Como se tentasse lembrar de onde tinha visto aquele rosto no futuro.


Rose, de braço cruzado, linda e com nojo da chuva, olhando pra Isabela de cima a baixo e fazendo uma cara de "mais uma". Emmett do lado dela, enorme, comendo uma maçã como se não tivesse comido no refeitório, rindo de alguma coisa que só ele achou graça.


E um pouco afastado deles, encostado na porta do passageiro do Volvo, de braço cruzado, todo molhado...


Jasper.


Os cachos loiros estavam escuros de chuva, grudados na testa. A jaqueta preta dele pingava. Ele estava de cabeça baixa, olhando pra poça no chão. Não parecia sentir frio.


Jessica passou correndo do lado da Isabela com uma capa de chuva amarela horrível.


- Vem! O ônibus vai sair! Se ficar aqui você vai pegar pneumonia!


Isabela não se mexeu.


Naquele segundo, como se tivesse ouvido o pensamento alto dela — porque ele ouviu, ele sentiu — o Jasper levantou a cabeça.


De longe. Uns vinte metros de distância, com chuva entre eles.


Os olhos dele encontraram os dela. Não eram azuis claros como ela tinha imaginado de longe no refeitório. Eram pretos.


Isabela deu um passo pra trás sem querer. Não de medo. Foi um susto físico. Aquele rosto molhado, aqueles cachos loiros, aqueles olhos pretos olhando pra ela com uma intensidade cansada...


Não era um olhar de interesse. Era um olhar de "fica longe de mim".


Foi só um segundo. Ele desviou. Abriu a porta do Volvo e entrou no banco de trás, batendo a porta com força.


Edward entrou no banco do motorista, ainda com aquela cara de confusão olhando pelo retrovisor pra Isabela, tentando de novo ouvir o que não podia ouvir.


O Volvo prata saiu cantando pneu na lama e sumiu na estrada cercada de pinheiros.


Jessica puxou o braço da Isabela.


- Você tá maluca? Tá encharcada! E eu te falei, não olha pra eles! Eles são esquisitos!


Isabela ficou ali, encharcada, com a bota cara cheia de água, o cabelo colado no rosto, sentindo o coração batendo rápido demais.


Pela primeira vez no dia, ela não pensou em Phoenix.


Ela pensou no loiro de cachos que sentiu a raiva dela do outro lado do refeitório e mandou ela ficar longe sem dizer uma palavra.


E Isabela, que sempre teve tudo que queria na hora que queria, e que nunca aceitava um não...


Sorriu. Pela primeira vez desde o aeroporto.


- Me empresta seu celular? — ela disse pra Jessica, enquanto entrava no ônibus pingando. — Preciso pesquisar uma coisa.


- O quê?


- Casa de vidro na floresta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.