A garota e o cão (conto)
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O sol estava quase se pondo no horizonte atrás das montanhas e o céu estava meio alaranjado. No Leste havia muitas nuvens cinza e gordas o que indicava que talvez fosse chover.
A tarde monótona de sexta feira estava chegando ao fim. Meus pais estavam muito ocupados se arrumando para perceber isso — corriam pra lá e pra cá para se assegurar de que tudo estava certo.
Meus pais iriam a um casamento de um amigo esta noite. Como não havia ninguém disposto a cuidar de mim, eles resolveram me deixar sozinha em casa. Eles sabiam que não era o certo a se fazer, mas pensavam que nada de mal poderia acontecer, afinal o bairro em que vivíamos era tão calmo e vazio que quase nada de mais acontecia.
– Acho que está tudo pronto – disse a minha mãe da cozinha. Ela estava linda naquele vestido. Logo em seguida meu pai apareceu vestindo um terno preto e parecendo bem desconfortável ao tentar arrumar a gravata borboleta que usava. Ele olhou para mim e disse:
– Querida, acho melhor você colocar o Lucky para fora, não quero que ele mastigue o sofá de novo – disse ele sério. O sofá ainda tinha um enorme buraco na lateral que era disfarçado com uma manta por cima.
– Tá bom — eu disse aborrecida – Lucky! Vem cá garoto!
Lucky veio correndo á toda velocidade da sala em direção a cozinha com o rabinho abanando. Mesmo sendo um vira-lata, Lucky era o meu melhor amigo. Toda noite eu o trazia para o meu quarto para ele dormir embaixo da minha cama. Claro que mamãe e papai já me pegaram fazendo isso várias vezes, porém eles nunca realmente me castigaram. Quando Lucky estava embaixo da minha cama eu me sentia mais segura, como se ele fosse meu protetor e que assim nenhum monstro ou bicho poderia me atacar.
Lucky sentou e ficou me olhando com a cabeça tombada para o lado. Logo me abaixei e acariciei o topo cabeça dele. Ele tentou lamber a minha mão como sempre fazia e eu dei uma risada.
– Coloque logo esse cachorro para o fora, estamos em cima da hora. – disse meu pai olhando o relógio da cozinha.
– Já to indo. Vem Lucky! – Lucky me seguiu fielmente ainda com o rabo abanando enquanto eu ia para a porta da frente. Quando sai lá fora um vento frio me atingiu e eu tremi.
“Acho que ninguém vai querer ficar aqui fora com esse frio” pensei e depois olhei tristemente para Lucky que me seguia. Ele não deveria ficar aqui fora, mesmo com seu casaco de pelo particular ele ainda sentia frio. Nesse momento eu tive uma idéia brilhante e um sorriso se espalhou pelo meu rosto. Como é que eu nunca havia pensado nisso?
Corri pelo jardim a até chegar à porta dos fundos. Lucky me acompanhou alegremente. Peguei-o no colo e abri a porta com uma das mãos com muito cuidado para que meus pais não ouvissem. As portas rangiam estranhamente em momentos inoportunos.
Os dois estavam conversando de costas para a porta dos fundos. Se eu tivesse muito cuidado concerteza eles não ouviriam. Eles não ficariam muito bravos se descobrissem, porém eu não queria arriscar.
Andei lentamente tentando pisar nas tábuas do chão que não faziam barulho. Cheguei até a porta do meu quarto e a abri lentamente dando uma rápida olhada em meus pais que ainda conversavam. Fechei a porta e depois coloquei Lucky no chão que rapidamente se deitou no tapete de meu quarto de barriga pra cima.
– Preguiçoso. – eu disse pra ele. – Olha, fica aí quietinho viu? Não vai querer que meus pais descubram que você está aí. – Pelo jeito como ele estava esparramado no chão eu não havia com que me preocupar.
Abri a porta com todo o cuidado de novo e coloquei a cabeça para fora. Meus pais estavam se levantando e indo em direção á porta da frente.
“Ah não!” Fechei a porta do quarto com toda a cautela empurrando Lucky pra dentro “Não não, fica aí, eu já volto!” e depois corri para a porta da frente e disparei pelo jardim enquanto o vento gelado me atingia. Cheguei bem no momento em que meus pais saiam da casa.
– Porque você demorou tanto?- perguntou a minha mãe parecendo um pouco desconfiada.
– Eu só estava colocando o Lucky na casinha porque, sabe tá tão frio. – Assim eles não iriam procurar por ele. Eu ainda arfava um pouco, mas acho que eles não perceberam.
– Humm. Tá bom então – disse minha mãe indiferente. Ela olhou para o céu que agora estava bem mais cinza e depois disse. – Nós vamos levar a chave de casa... por precaução.
– Quer dizer que eu vou ficar presa em casa? – eu disse irritada olhando pra minha mãe com revolta. Meus pais sempre achavam que eu pudesse fugir de casa ou alguma coisa do tipo, quase nunca confiavam em mim.
– Não filhinha. Só estamos te protegendo, nós vamos voltar tarde hoje e não queremos que nada aconteça com você. E o Lucky também vai te proteger aqui fora. – Meu pai disse sorrindo para mim.
– Não se esqueça de ir dormir cedo e qualquer coisa que acontecer ligue para nós, o número está em cima da geladeira — ela parou — Bem, já estamos indo. Tchau filha – minha mãe se abaixou e me abraçou.
– Tchau mãe.
– Tchau querida – disse meu pai carinhosamente se abaixando para beijar meu rosto.
– Tchau papai. – eu o abracei com força.
– Entre para eu poder trancar aporta. – disse minha mãe pegando a chave da casa da bolsa.
– Vocês vão demorar? – eu perguntei não deixando de ficar preocupada.
– Não claro que não. Olha, não posso prometer que vai ser rápido, mas posso lhe prometer que não vamos passar da meia-noite, OK? Portanto vá dormir cedo.
– Se cuida filhota. – disse ele acariciando a minha cabeça.
– Se divirtam. – eu disse para os dois. Depois entrei na casa e minha mãe fechou a porta e eu ouvi o barulho da chave trancando a fechadura.
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