Notas iniciais
- Em determinado momento vocês vão ver a palavra irmão, mas ela não foi usada com o objetivo de nomear o irmão pelo laço de sangue e sim nomear uma forte amizade. — Espero que gostem e desculpem qualquer erro de português

Mitologias e lendas capítulo XV – Demônios

Demônio ou anjo caído também conhecido como reflexo negro da luz; são seres nascidos das trevas, cuja aparência, sabedoria e poderes se igualam a dos anjos, sendo diferenciados geralmente por seus olhos de cores vibrantes e asas em tons escuros. Caminham entre a terra e o mundo espiritual assim como os anjos, seus reinos ficam entre dimensões terrestres e possuem inúmeros clãs de diferentes tipos, cada um vivendo de acordo com sua hierarquia.
Diferente dos anjos os demônios são perversos, cruéis e vão contra as leis de Deus, são regidos pela luxuria e costumam usar de seus dons para corromper as almas humanas. (...)


Lin olhava para o rapaz a sua frente e conseguia projetar em sua mente alguns trechos de um antigo livro que lera á muito tempo chamado livro das lendas, foi com esse livro que passou a ter conhecimento sobre as diversas criaturas existentes entre os seres humanos, mas a garota jamais imaginou que se encontraria com uma delas:

Lupus: Se está preocupada com a garota que veio com você fique tranquila, ela já cumpriu o dever dela e voltou para o castelo

Lin: Quem é você... O que é você...? – as palavras quase não saíram, Lin sentia a garganta quase se fechando, ela pressentia o perigo, mas o perigo lhe parecia algo tentador o que á deixava ainda mais confusa.

Lupus: Meu nome é Lupus e sou o que você vê – disse sério — estou impressionado com o fato de você não ter notado nada de diferente, você realmente não tem ideia de nada?

Lin: Você é mesmo um demônio! – admirou-se por estar certa e não pode deixar de analisar mais uma vez o rapaz diante de si — por favor, me diga o que quer de mim? O que está acontecendo?

Lupus balançou levemente a cabeça em um sinal negativo, apoiou as costas em um tronco de arvore, cruzou os braços e depois de um longo suspiro foi direto em suas palavras:

Lupus: Sua preciosa rainha me pediu para tirar a sua vida – disse ele de forma serena.

Lin: O que? Não posso acreditar! – uma pontada de dor atingiu seu peito, ela queria acreditar que tudo aquilo não passava de uma grande mentira – por quê?

Lupus: Não sei o que Cordélia tanto teme e odeia em você e sinceramente eu não quero saber, mas ela própria me fez essa proposta, me ofereceu ouro para tirar a sua vida – fitou Lin seriamente — você pode até tentar voltar para o castelo e perguntar á ela, porem lá você só conseguirá encontrar sua morte.

As palavras de Lupus eram francas e atingiram Lin em cheio, ela estava em choque e não queria crer em tudo que estava acontecendo, mas Cordélia á odiava a á anos e por mais que ela quisesse acreditar no ato de bondade de sua madrasta, algo bem no fundo de seu ser lhe dizia que tudo aquilo não passava de uma cruel ilusão:

Lin: Eu realmente quis acreditar, eu fiquei feliz, pensei que seria um novo começo, como eu pude ser tão ingênua? Como pude ser tola a ponto de acreditar em alguém que nunca demonstrou uma gota de afeto por mim em toda a minha vida? – a melancolia em sua voz era evidente e em seus olhos se formavam lágrimas, a jovem princesa levou as mãos aos cabelos e caminhou na direção de Lupus que acompanhava as ações da mesma sem esboçar qualquer tipo de reação — você veio aqui para me matar e por que não o fez?

Lupus: Não cabe á mim decidir quem vive ou morre, humanos são criaturas que se acham superiores e tendem a julgar pelas aparências, pelos mitos! Diferente do que a sua rainha pensa eu sou um caçador de recompensas, não um assassino de aluguel – disse firmemente olhando nos olhos de Lin – se eu fosse você iria embora desse reino!

Sem dizer mais nada o caçador simplesmente foi embora, para ele sua missão ali já havia acabado, não cumpriu o acordo com Cordélia e não tinha mais razões para estar ali.

Lin o observou sumir e logo depois caiu de joelhos, a jovem se sentia perdida e confusa, não conseguia acreditar em sua má sorte e questionava sua própria existência, pois não encontrava respostas ou motivos para ser tão odiada.

Cordélia havia tirado tudo dela, ela estava sozinha e não havia á quem pedir ajuda ou onde procurar abrigo. Sem rumo, Lin chorou até suas lágrimas secarem, ela permaneceu ali caída.

Os olhos da jovem princesa estavam inchados, sua boca seca e seu coração machucado, Lin havia se rendido á tristeza, estava no chão, derrotada, cansada e com a garganta doendo de tanto gritar.

Sem muitas opções a princesa só conseguia pensar em uma solução, ir embora de Ernas, sair de seu próprio reino e tentar recomeçar a vida em algum reino vizinho, mas a jovem não tinha a menor de ideia de que caminho seguir, a floresta era imensa e perigosa, principalmente para ela que não conhecia os perigos do mundo.

Mesmo se sentindo perdida Lin se colocou de pé, recuperou sua cesta de frutas, olhou para trás uma última vez se despedindo de Ernas e caminhou floresta adentro sem rumo.

A princesa caminhou por horas até finalmente encontrar uma trilha e segui-la mesmo sem saber aonde esse caminho a levaria, o cansaço e a fome já se manifestavam, mas a jovem não queria desistir e precisava encontrar algum lugar para se abrigar da noite, com a aproximação do inverno as noites se tornavam ainda mais gélidas e se aquecer com uma toalha de mesa não lhe parecia uma boa ideia.

Lin deu uma breve parada para descansar e notou que o céu estava escurecendo, a jovem suspirou profundamente, uma chuva nas condições em que ela estava iria complicar ainda mais as coisas, depois de alguns instantes a jovem continuou sua caminhada até que ouviu várias vozes masculinas, ela deu mais alguns passos e notou que havia uma outra trilha mais a frente e nela haviam cinco rapazes conduzindo uma carruagem de cores escuras e muito bem lacrada.

Feliz com a possibilidade de conseguir ajuda Lin se aproximou dos homens para pedir informação e tentou dar seu melhor sorriso, não queria demonstrar sua tristeza:

Lin: Boa tarde, meu nome é Lin e espero não estar atrapalhando vocês, mas eu gostaria de saber uma informação.

O grupo parou e por um instante trocaram olhares furtivos entre si: os dois homens mais robustos se mantiveram a frente da carruagem e sustentavam um olhar sério por baixo da grande aba de seus chapéus, já os outros dois mais esguios, um moreno de cabelos longos e um loiro de brilhantes olhos azuis cruzaram seus braços e mantiveram um leve sorriso no canto da boca, o único á se pronunciar fora um ruivo de estatura mediana cujas sardas se espalhavam pelo rosto e lhe davam um ar travesso:

Sam: Muito prazer senhorita – a cumprimentou beijando-lhe a mão – meu nome é Sam, aqueles grandões são os gêmeos Guyle e Goeh, os dois esquisitos ali são Tyre e Billy, somos humildes comerciantes.

Lin: Muito prazer – fez uma reverencia – poderia me informar aonde essa trilha leva?

Sam: Se você continuar indo reto encontrará o reino de Serdin – apontou com o dedo — mas se optar pela mesma trilha que eu e meus amigos você chegará a Canaban, que por sinal já está próxima.

Lin: Muito obrigada pela informação – sorriu e continuou a caminhar pela mesma trilha em que se encontrava, a trilha que a levaria para Serdin

Sam: A senhorita está apressada, vai encontrar alguém? – o ruivo correu e parou na frente de Lin

Lin: Estou de mudança, por isso tenho pressa – a jovem foi educada, mas se sentia tensa com a situação

Sam: Por que você não vem com a gente, vamos á um leilão bem interessante, lá só serão leiloados itens muito raros...

Lin: Obrigada pelo convite, mas eu realmente devo ir.

Sam: Acho que você não tem escolha!

O ruivo abriu um enorme sorriso e antes que Lin pudesse correr sentiu seus braços serem segurados e sua boca ser tapada, a jovem viu os longos cabelos de Tyre ao vento enquanto o mesmo amarrava rapidamente suas mãos e pés, em seguida Lin foi amordaçada e levada nos ombros por Goeh, a princesa tentou de todas as formas se soltar, mas seus esforços foram em vão, ela foi colocada dentro da carruagem e para sua surpresa lá dentro havia mais quatro garotas, todas igualmente amarradas e amordaçadas.

Distante dali em uma das inúmeras trilhas da imensa floresta que rodeia Ernas, Lupus caminhava calmamente em direção á uma colina, com facilidade o caçador chegou ao topo e se sentou ali a fim de admirar o por do sol.

Muitas nuvens escuras cobriam os céus, porem bem ao longe quase sumindo no horizonte era possível ver o sol quase desaparecendo e levando consigo o degrade de cores que pairava entre laranja, azul e roxo. O fim de tarde sempre foi o momento preferido de Lupus, pois não se trata nem do dia e nem da noite, mas sim o encontro dos dois.

As folhas das arvores balançavam junto ao vento produzindo um som único, de olhos fechados e com a mente vazia o jovem caçador se sentia em paz, todo aquele ambiente soava como liberdade para seus ouvidos e ele pretendia continuar ali por mais algum tempo, porem seus devaneios foram dispersos assim que um som bem familiar se propagou pelo ambiente:

Lupus: Como vai Dio... – arqueou a sobrancelha

Dio: Eu sabia que o encontraria aqui isolado de tudo – Dio é conhecido por muitos como profano não só por seus exóticos cabelos e olhos cor de vinho, mas também pela sua maneira selvagem de se vestir as vezes deixando o peito exposto, exibindo uma tatuagem tribal e um crucifixo

Lupus: Deixa-me adivinhar, veio rir de meu isolamento? – um leve sorriso brotou em seus lábios

Dio: Dessa vez não, vim apenas conversar com você, tem um minuto?

Lupus: Claro, pode falar

Dio: Eu gostaria de lhe pedir que fosse comigo esta noite á confraternização de Frederick

Lupus: O lorde asqueroso que coleciona mulheres e contrabandeia mercadorias roubadas? Não obrigado, peça á Arion é sempre ele quem te acompanha mesmo.

Dio: Por isso estou aqui, Arion esta no meio de um trabalho e não poderá vir– fez uma pausa – não fale como se você fosse o único a não gostar dessas confraternizações com humanos, você sabe que isso é mais uma troca de favores, Frederick assim como a maior parte dos burgueses e aristocratas pagam altíssimas quantias por cada serviço. Eles nos tiram do nosso eterno tédio só pela ilusão de acharem que quando um de nós está escoltando ou buscando algum de seus bens tudo está seguro... Só vou aparecer lá para manter as aparências e você sabe disso.

Lupus: Eles são engraçados, acham que nos compram com seu ouro, que somos caçadores de recompensas por que vivemos disso, nos temem mais do que tudo e mesmo assim fingem estarem no poder, esses eventos são ridículos!

Dio: Mas vai ser divertidos, eles são tão inferiores que quando ingerem bebidas alcoólicas se comportam como palhaços de circo, não, animais irracionais! – gargalhou — eles me divertem muito, mas enfim, você vem comigo irmão?

Lupus: Sim, sei que você não me deixaria em paz se eu dissesse que não, então que escolha eu tenho?

Dio: Sábia decisão – abriu um largo sorriso e em seguida voltou a falar — aliás, você não estava envolvido num trabalho da rainha de um dos reinos dos humanos, Cordélia?

Lupus: Estava, mas a alma daquela mulher é sombria, ela criou uma farsa para tentar me usar, traçou um plano sem escrúpulos para tirar a vida de uma garota por simples capricho, o mais sórdido disso é que ela quis se fazer de vítima, mas a única vitima de toda essa história é a Lin, nunca vi uma alma tão atordoada e cheia de dor quanto à dela.
Mas Cordélia não perde por esperar, enviei um pequeno recado para ela, um recado que a fará surtar, não se surpreenda se vir algum cartaz de procura-se com meu rosto estampado por ai...

Dio: E quem em sã consciência caçaria um Haros? Nosso clã é um dos mais fortes e a não ser que ela conheça algum ser da luz, ainda assim, acho pouco provável que consiga alguma coisa.
Eles nos julgam pelos atos sombrios de antepassados e libertinos, acham que somos monstros capazes de tudo, mas são incapazes de assumir os próprios pecados, gostam de viver de aparências, rastejam no limbo e mesmo assim nós demônios é quem somos os perdidos... Tolos, jamais vou entendê-los...

No castelo Cordélia já comemorava sua vitória, a rainha parecia estar nas nuvens e cantarolava pelo quarto de um lado para o outro, depois de arriscar alguns passos de dança em frente ao espelho a rainha deitou-se em sua cama e passou a admirar as belíssimas pinturas a óleo que decoravam o teto de seu quarto até que sentiu algo lhe tocar o colo de leve.

Para sua surpresa era uma carta sem remetente, a rainha foi até a sacada, mas não havia nada ou ninguém á quem pudesse perguntar de onde aquilo havia vindo, curiosa com hipótese de ser algum admirador secreto ela abriu rapidamente o envelope e passou a ler seu conteúdo:

“Eu não sei o que aquela garota tem que lhe deixa tão insegura e transtornada á ponto de criar as mais perversas maldades por puro capricho, mas seja o que for saiba que eu fiz o que você queria! Ela está em liberdade, pronta para ser caçada, porem á essa altura ela já deve estar longe, então sugiro que você peça para o seu amante, começar a procurá-la o mais depressa possível.

Ps: você pensou mesmo que eu faria seus caprichos sórdidos apenas por ser o que sou? Desculpe por lhe desapontar Cordélia, espero que você não tenha ressentimentos, boa noite. Lupus”

Um grito de ódio ecoou pelo castelo enquanto Cordélia despedaçava a carta em suas mãos e quebrava tudo o que via pela frente, a ira havia tomado conta de si e lágrimas de ódio tomavam conta de sua face, todos os guardas ficaram em alerta e as mucamas estavam assustadas, Relga adentrou o quarto depressa segurando bandeja com um bule de chá:

Relga: Majestade o que houve? – se livrou da bandeja colocando-a no criado mudo

Cordélia: Ele me traiu! Traiu! Maldito seja! – dois guardas entraram no quarto afoitos, mas foram dispensados pela rainha aos gritos – saiam daqui! Se alguém além de Relga entrar aqui eu arranco-lhe a cabeça!

Relga: Acalme-se minha rainha! O que houve? — disse aflita

Cordélia: Lin esta viva e em liberdade! Ele á libertou, aquele maldito á libertou!

Relga: Tem certeza?

Cordélia: Sim! Eu mesma li a carta que aquele maldito me enviou, ele debochou de mim, deve estar rindo de minha cara neste momento, mas ele irá me pagar! Nem que eu tenha que dar meu reino como recompensa por sua cabeça!

Relga: Tome, beba essa xícara de chá, irá lhe fazer bem e você conseguira pensar com calma – as mãos da rainha tremiam de raiva e ela teve dificuldade para segurar a xícara – calma, você verá como logo tudo isso irá passar e você se sentirá muito melhor.

Cordélia: Maldita hora em que deixei aquela bastarda viver aqui, eu deveria ter acabado com a vida dela quando ela ainda era pequena – bebeu uma boa dose do chá – mas como eu poderia imaginar que isso iria acontecer, fui muito boazinha com ela!

Relga: Tenho certeza de que logo isso tudo acabará e todos nós vamos viver em paz

Cordélia: Só terei paz quando eliminar... – Cordélia sentiu tudo girar á sua volta – o que há comigo, sinto que meu corpo está ficando mole, Relga eu...

Cordélia não conseguia se mover seus braços e pernas não respondiam seus músculos não se moviam e sua voz havia se esvaído, confusa a rainha tentava de alguma maneira se comunicar com Relga:

Relga: Desista Cordélia, você não irá se mover e menos ainda falar eu coloquei um erva venenosa chamada belladonna no seu chá, ela pode matar uma pessoa dependendo da sua dosagem, mas não se preocupe, no seu chá tem o suficiente apenas para lhe deixar assim como está agora, impossibilitada de fazer qualquer coisa.

A partir de agora é assim que você irá ficar, mas não se preocupe com seu reino eu vou tomar conta dele, você me ensinou á forjar sua assinatura, se lembra? Por puro capricho você se recusou inúmeras vezes á assinar os próprios decretos, no entanto eu aprendi á cria-los e a assinar por você. Minha família serviu a realeza por gerações e eu tive a infelicidade de presenciar todas as suas barbaridades, mas com este reino e com a sua enteada você foi um monstro impiedoso e cruel, me alegro muito por saber que Lin está viva e que meu conceito sobre aquela criatura das trevas estava errado!

As coisas vão mudar oh vossa majestade, já chega de soberba, de futilidades, de destruir tudo e fazer maldades, seu reino de podridão termina aqui...

Notas finais
Gostou? Deixe seu comentário é importante para mim! Até o prox cap, bjos