A flor do inverno

10 Reencontro


Notas iniciais
—Desculpem a demora — Desculpem qualquer erro de português

Ronan se aproximou de Lin para cumprimenta-la, porém quando olhou para seu rosto algo lhe chamou atenção, o jovem príncipe não conseguia entender o que era, não sabia explicar, tão pouco entendia aquela sensação.
Depois de alguns instantes em silêncio e percebendo o incomodo estampado no rosto de Lin, ele maneou negativamente a cabeça e falou com ela:

Ronan: Me perdoe se eu for indelicado senhorita, não é minha intenção lhe constranger, mas eu tenho a impressão de que te conheço de algum lugar, só não consigo me lembrar de onde.

Lin: Você é o príncipe, creio eu que deva ter me visto em alguma multidão — tentou dissipar o assunto, porém se sentia mal vendo a expressão confusa do amigo.

Ronan: Qual seu nome?

Lin: Meu nome é Lin — abaixou a cabeça tentando de alguma forma se esconder

Ronan permaneceu em silêncio, aquele nome o atingira como um raio, ele tentava organizar os pensamentos, mas não conseguiu. O nome era o mesmo, o rosto também, mas como aquilo era possível? Não, não poderia ser possível deveria se tratar de algum engano pensava ele, afinal a princesa estava morta á pelos menos dez anos, ele fora em seu velório:

Ronan: Não, esse nome é comum entre as pessoas de Ernas, como homenagem á princesa que faleceu — confuso o jovem andava de um lado á outro falando em voz baixa consigo mesmo — devo estar ficando louco, isso não é possível.

Lin pensou em continuar em silêncio, tinha medo de prejudicar os planos de Ronan, temia também pelas garotas e temia ainda mais a ira de Cordélia. Se Ronan soubesse da verdade como reagiria? O que viria a seguir?
Aquilo era uma tortura, a jovem princesa queria contar a verdade, porém temia as consequências desse ato, mas ao mesmo tempo tudo que ela mais queria era contar a verdade.

Á quanto tempo não era abraçada? Á quanto tempo não ouvia a palavra amigo, não conversava com algum conhecido? Por que ficar em silêncio, não foi isso que fez a vida toda? Ela não queria mais ficar só e talvez não tivesse outra oportunidade como aquela, então se atreveu e enfim se revelou:

Lin: Sou eu Ronan, eu não morri como fizeram todos acreditar — com os olhos cheios de lágrimas a jovem desabafou — estou viva, viva!

Lin não foi capaz de segurar suas lágrimas e correu para abraçar o amigo, ainda confuso Ronan demorou alguns segundos para assimilar os fatos, mas assim que o fez retribuiu o abraço da amiga de infância com fervor.
Depois do abraço vieram muitas perguntas, Lin se dispôs a responder todas, contou tudo o que havia acontecido consigo desde que Cordélia forjara sua morte, Ronan ouviu tudo com atenção e não conseguiu disfarçar sua indignação:

Ronan: Não consigo acreditar no que me disse, como aquela mulher pôde? Olhe aonde você veio parar — respirou fundo- Ernas está abandonada, morta, era pra você estar sentada no trono que lhe pertence por direito, seguindo com o legado de seu pai.

Lin: Eu sei, mas eu sempre estive sozinha lá, estive nas mãos dela e não pude fazer nada, ela tem aliados fortes e um exercito negro — respirou fundo — ela também tem muitos planos e seu pai está incluso neles, já ouvi ela falando seu nome muitas vezes.

Ronan: Abrirei os olhos de meu pai, ele tem deixado passar muita coisa, parece estar cego, quanto a Cordélia eu nunca me senti bem na presença dela, agora entendo o motivo, só não entendo os seus motivos, por que não posso contar sobre você ao meu pai? Ele ficaria muito feliz em saber que está viva.

Lin: Se você contar ao seu pai sobre mim, a noticia de que estou viva se espalharia, Cordélia viria atrás de mim, Frederick voltaria com sua palavra, não, por favor, não fale á ninguém por enquanto.

Ronan: Frederick voltaria com sua palavra? — questionou intrigado

Lin: Ele prometeu que libertaria as garotas caso eu aceite me casar com ele — suspirou com pesar — e eu vou aceitar

Ronan: Não faça isso! Ele é um homem sem caráter, isso foi uma mentira que ele lhe disse apenas para conseguir o que quer! Não posso permitir que faça isso — aflito tentava fazer Lin mudar de ideia

Lin: É a maneira mais fácil, e não me casarei enquanto ele não as libertar, confie em mim, me casando com ele eu estarei próxima, tentarei ser útil á vocês observando tudo e passando informações, não vê? Minha suposta morte me permite ser invisível.

Ronan: Inaceitável, isso é loucura, você já perdeu muito da sua vida, não merece passar por isso, muito menos ficar ao lado de uma pessoa imunda como essa! Se o que quer é ficar escondida, tudo bem, eu posso lhe conseguir um lugar seguro.

Lin: Por favor, eu sei que parece insensatez, mas eu preciso tentar — segurou a mão do amigo — não vou permitir que ele me toque, que exija algo de mim, não sei ainda o que farei, mas terei tempo para pensar e poderei ajuda-los.

Lourenço: Dê uma chance á ela Ronan — se manifestou — sei que ela é mais forte do que aparenta ser, vai conseguir.

Lin: A propósito, eu queria lhe pedir desculpas por mais cedo Lourenço, eu estava tomada pela raiva — disse envergonhada

Lourenço: Esqueça, você não sabia de minhas intenções, mas agora que sabe, prometa que vai ter cuidado. Ele acha que trabalho para ele, então na maior parte do tempo estarei cuidando de seus interesses, não estarei por perto sempre.

Ronan: Pelo que vejo minha opinião aqui de nada vale, então o que me resta é ser paciente e encontrar provas contra ele o mais rápido possível! — disse com firmeza

Lourenço: Ora não diga isso, você sempre foi muito sensato em seus atos, só estamos pedindo que seja insensato pelo menos uma vez, por um bem maior — confortou o amigo

Lin: Obrigada pelo voto de confiança e por poder ajudá-los nessa missão tão importante — abraçou Ronan e em seguida Lourenço — agora vamos continuar nosso caminho, não se esqueça que aqui dentro sou apenas mais uma das garotas e que já passamos tempo demais aqui — seguiu para dentro do palácio

Lourenço assentiu e depois de se despedir do amigo passou a caminhar rumo ao palácio, Ronan voltou a vestir seu capuz e antes que Lourenço alcançasse Lin questionou:

Ronan: Você sabia que ela era a princesa, não sabia? — o anjo maneou com a cabeça positivamente — por que não me disse nada?

Lourenço: Por que não era a hora, tudo acontece no seu tempo certo, exatamente quando tem que acontecer.

Ronan: As vezes eu me esqueço do que você é, e do quanto sabe mais desse mundo do que nós meros mortais, só me prometa que vai cuidar dela, acabei de reencontra-la, é como uma irmã para mim e quero ajuda-la a retomar sua coroa e seu reino. Agora devo retornar ao palácio para investigar o comandante Dryer, desconfio que ele esteja ajudando Frederick a acobertar o contrabando, então ainda tenho muito o que fazer, adeus amigo.

Com um aceno o jovem príncipe se despediu do amigo e este por sua vez caminhou em direção á Lin para finalmente chegarem aos aposentos do lorde.

Após se despedir de Lourenço, Lin adentrou o quarto com certa cautela, ela sabia que o lorde não estaria ali, mas aquele lugar lhe dava uma má sensação, mesmo sendo um dos quartos mais belos que já vira na vida. Como o restante do palácio ali era igualmente luxuoso e com os traços elegantes do lorde, até mesmo as cortinas pareciam fiadas á ouro, castiçais, enfim, um quarto digno de rei.
Lá uma garota a aguardava, seu nome era Briana, a jovem tinha pouco mais de vinte anos, estatura mediana, cabelos e olhos castanhos. A garota já havia deixado uma camisola sobre a cama e laços de cetim que serviam para enfeitar o cabelo, ela entregou em silêncio a camisola para Lin, a peça era única, suas rendas eram delicadas e o tecido quase transparente em um tom bem claro de rosa, as finas mangas da peça deixavam os ombros a mostra e seu cumprimento se arrastava pelo chão.

Em outra ocasião Lin simplesmente se recusaria á usar algo como aquilo, porém ela via o medo nos olhos da frágil garota á sua frente e sabia que caso recusasse, quem pagaria o castigo seria ela, então o vestiu de bom grado e com a ajuda da garota se arrumou para o lorde.
O silêncio de Briana era sepulcral, a garota mal olhava no rosto de Lin e aquilo a estava incomodando muito, elas não se conheciam e a julgar pelo comportamento da moça continuariam assim, então Lin decidiu quebrar o silêncio:

Lin: Seu nome é Briana, não é? — se lembrou da conversa com o lorde, onde ele mencionara o nome da garota — Prazer, me chamo Lin

Briana: Prazer, agora me dê licença, já terminei o que vim fazer — respondeu de forma ríspida e já se preparava para sair do quarto

Lin: Não sou sua inimiga, sei exatamente o que está passando

Briana: Sabe? — sorriu incrédula — o que você sabe? Mal chegou aqui! Nem me conhece!

Lin: Você tem todos os motivos para ter raiva, mas descontar em mim não vai mudar nada — sorriu — eu sei que está passando por que também já fui prisioneira, na verdade ainda sou, no entanto, peço apenas que seja paciente

Briana: Não ouse falar do que não sabe! Mas deixe estar, logo vai ver como são as coisas por aqui, logo perderá o interesse nas coisas, na vida!

Lin: Estive presa por dez anos — mostrou os pulsos marcados pelos grilhões que Cordélia fazia questão de colocar todos os dias — sei exatamente o que digo e o que você passa, repito, não sou sua inimiga!

Briana ficou surpresa ao ver as cicatrizes de Lin, não imaginava que ela soubesse o que era sofrer, pensava que se tratava apenas de outra azarada que assim como ela caíra nas mãos do lorde, e que só depois de estar ali é que saberia o que de fato era a dor.
Mas antes que a mesma pudesse dizer algo ou mesmo se desculpar por descontar suas frustrações em Lin, Frederick entrou no quarto.

Assim que o viu Briana o cumprimentou e seguiu apressada para a porta, sabia que ele queria ficar a sós com a nova garota da casa, já havia recebido ordens quanto á isso.
Para Lin a chegada dele significava o inicio de outro confronto, estava mais uma vez diante de seu carrasco, ela não sabia ao certo o que iria dizer ou mesmo como negociaria, porém estava disposta á lutar, havia assumido os riscos de sua decisão e iria até o fim com isso:

Frederick: Você está magnifica — olhou Lin dos pés a cabeça o que a deixou extremamente desconfortável — eu sabia que essa cor ficaria perfeita em você

Lin: Vamos direto ao assunto — se sentou a beira da cama e passou a segurar um travesseiro que ali estava na tentativa de se cobrir — eu tomei minha decisão

Frederick: Fico muito feliz com isso, deixe-me ficar mais próximo de você — caminhou até uma mesinha de canto onde havia licor e se serviu do mesmo, em seguida levou uma uma das cadeiras aveludadas que ali estavam e a colocou de frente para Lin se sentando em seguida para encara-la.

Lin: Eu vou aceitar sua proposta — o lorde sorriu enquanto bebericava um pouco de licor — mas só o farei quando libertar as garotas, antes disso não!

Frederick: Sou um homem de palavra — caminhou até a porta , do lado de fora estava um de seus guardas e depois de algumas palavras trocadas com o mesmo, o lorde voltou a se sentar — minha parte do acordo está cumprida, já ordenei que elas sejam libertadas, amanhã sairão daqui livres para fazer o que quiserem.

Lin: Simples assim? — perguntou desconfiada, precisava se assegurar que não era um truque

Frederick: Estou apenas cumprindo com minha palavra, mas você deve cumprir com a sua também — a encarou sério

Lin: Eu cumprirei, mas preciso saber, o que exatamente espera de mim? — perguntou receosa

Frederick: Que seja uma boa esposa e me ajude a organizar o nosso casamento — sorriu ao ver o espanto no rosto da moça á sua frente — tenho muito o que fazer, tenho alguns negócios pendentes, mas gostaria que fosse o mais breve possível.

Lin: Bem, creio eu que um mês, talvez dois, consigamos organizar, na verdade eu gostaria de organizar tudo, sempre foi meu sonho me casar e fazer tudo da forma correta — ainda receosa tomava cuidado com suas palavras para que fossem convincentes — pensei bem e sabe, não é de todo o mal, afinal serei uma lady.

Frederick: A mais bela lady desse reino, então eu deixo que você tome conta de tudo, fique a vontade para decidir como será a decoração e tudo o que precisar basta pedir á Nora, ela lhe atenderá.

Lin: Obrigada — um nó se formou em sua garganta, o prazo estava estipulado, um mês no máximo dois para saber se seria livre ou se continuaria presa.

Frederick: Para mim está ótimo — se levantou e para a surpresa de Lin o mesmo lhe beijou uma das mãos — espero que goste desse quarto, pois vai dormir aqui a partir de agora e antes que eu me esqueça — encarou Lin nos olhos — sei que nunca teve homem algum em sua vida, mas pare de olhar para mim como se eu fosse ataca-la, já lhe disse que não é do meu feitio, sem contar que você já é minha, me conformo em fazer tudo certo, pois sei que depois de casados será minha por completo.

Lin respirou fundo enquanto observava Frederick sair do quarto, tremeu com a possibilidade de ter aquele homem lhe tocando, mas ao mesmo tempo sentia o sabor da vitória em sua boca, se ele não á estava enganando o amanhecer seria belo, pois as garotas não mais estariam fadadas á prisão.
Era um sacrifício o que estava fazendo, mas não se importava com isso se fosse para um bem maior, saber que aquelas garotas estariam livres a deixava confortável.

Sem sono e sem ter o que fazer e conformada em ficar ali, Lin passou a caminhar pelo quarto do lorde, queria ocupar a mente com algo útil, então passou a procurar provas ou qualquer pista que denunciasse a má índole do mesmo, porém não encontrava nada relevante, apenas objetos pessoais, joias e roupas, nada que não se encontre em um quarto.

Ela já estava desistindo de vasculhar quando ouviu batidas na porta ao abri-la se deparou com Nora que acompanhada de uma criada entrou no quarto, de maneira rápida a criada deixou a bandeja de guloseimas e pães que trazia consigo no criado mudo próximo a cama se retirando em seguida, sem dizer nenhuma palavra.

Nora andava de um lado á outro e analisava Lin, a mulher a encarava seriamente e sua expressão não era nada amistosa:

Nora: Meus parabéns garota, você conseguiu — aplaudiu — eu nunca pensei que meu lorde fosse se casar, ainda mais com uma criaturinha tão pequena como você! Parece até um feitiço!

Lin: Claro, por que tudo que eu mais quero é estar aqui — disse irônica

Nora: Isso não importa agora, eu vim aqui apenas pra lhe dizer que você a partir de agora é noiva dele e portanto deve se comportar e se vestir como tal, amanhã serão trazidas roupas para você.
Também vim lhe avisar de seus privilégios; você tem livre acesso á casa e poderá visitar o reino se assim desejar, mas desde que esteja acompanhada por um de nossos guardas, escolha o que lhe agradar mais e ele sempre irá com você por onde for.
Se acostume com a criadagem, mas evite fazer amizade, não se esqueça que você não deve se misturar á plebe — fez uma pausa — e não pense que só por que será a futura dona desta casa que deixarei de vigiar você, eu não confio em você!


Sem se despedir ou mesmo saber a reação de Lin, Nora saiu do quarto com a mesma expressão de insatisfação com que havia chegado, Lin por outro lado nem se quer se importou com isso, na verdade ela havia se interessado por tudo que ela havia lhe falado.
E com um sorriso no rosto se serviu de pão e queijo, estava faminta, o dia havia sido longo e na festa não havia comido nada, mas aquele sorriso não era só pela boa refeição, era também pela oportunidade que tinha nas mãos, a oportunidade de estar dentro do território do inimigo, de vasculhar cada centímetro daquele lugar.

Enquanto comia Lin analisava sua situação, sabia que era uma faca de dois gumes, que o trunfo de estar no ninho do inimigo também significava o risco de ser pega por ele, então mais do que nunca deveria ser cautelosa em todas as suas ações, sendo assim decidiu que iria fazer o papel da noiva feliz, da moça que mencionara na conversa com o lorde, aquela moça que sonhava em ter um casamento bonito e conforme deve ser.


A madrugada já estava quase em seu fim e Lin ainda estava acordada, deitada na cama do lorde a jovem encarava o vazio, vez ou outra reparava nos detalhes da longa cortina branca do dossel que envolvia a cama e á todo instante fechava os olhos procurando pelo sono, porém toda vez que o fazia uma enxurrada de pensamentos e imagens surgia em sua mente; seu casamento, o reencontro com seu melhor amigo, a possibilidade de desmascarar Frederick, sua nova vida de lady, o futuro das garotas... Tudo indo e vindo de forma embaralhada em sua mente. Não demorou para que seus olhos finalmente ficassem pesados e o sono viesse lhe dominar, mas mas não se antes lhe proporcionar uma última visão; Lupus.

Notas finais
- Até o próximo cap e se gostar deixe um comentário, não dói nada e faz a autora muito feliz s2