A flor do inverno

7 Mascaras II - Celebrando a falsidade


Notas iniciais
- Este capitulo é especial para mim, pois é aqui que começa o despertar a Lin — Estão sentindo falta de um certo demônio ou dois? Ja ja eles estarão de volta... — Desculpem qualquer erro de português — Espero que gostem!

“Você agora é uma das garotas de lorde Frederick ”

Nora é a governanta do palácio de lorde Frederick e toma conta de praticamente todos os interesses do mesmo, ela não só tem passe livre por toda a propriedade como também poderes sobre os guardas que estão sempre próximos e prontos para obedecerem as suas ordens.

A governanta olhava para Lin como quem avaliava uma mercadoria, depois de alguns instantes em silencio a mesma subiu pela escada principal e fez sinal para que Lin a seguisse, atrás das duas vinham os dois guardas. Ao chegarem ao topo da escada seguiram para a direta onde havia uma aérea reservada, como um pequeno hall, ali havia mesa repleta de guloseimas, frutas e sucos variados:

Lin: Senhora por que estou aqui? Eu gostaria de falar com esse lorde e aquele homem, Lourenço, quem é ele? — sua expressão era de puro receio


Nora: Você conhecerá meu lorde no fim da noite e quanto á Lourenço ele é um dos guardas, faz pouco tempo que ele chegou aqui, mas tem se mostrado muito competente – fez uma pausa — agora por que você não come um pouco criança? Você parece faminta e cansada, tomou até chuva, acho que precisa se alimentar, vamos não se envergonhe!

A princípio Lin quis relutar, aquilo tudo lhe soava como uma armadilha, a sensação de perigo á estava perturbando, mas seu estomago não lhe permitiu pensar, com cautela a jovem princesa se serviu de um pouco de suco de laranja e um pedaço de bolo de coco e quase não conseguiu se controlar quando sentiu os doces sabores combinados lhe invadindo o paladar:

Nora: Como se chama querida? Quantos anos você tem?

Lin: Me nome é Lin e estou completando dezoito anos hoje


Nora: Oh, meus parabéns – sorriu, enquanto observava a pressa com que Lin devorava o pedaço de bolo em suas mãos — devagar querida, você ainda tem uma festa para ir, lá terão delicias ainda melhores que estas, termine este pedaço de bolo, vou leva-la ao dormitório para que possa se banhar e se vestir

Lin: Senhora, eu fui comprada para ser uma escrava? – as duvidas rondavam sua mente — se é este o caso não me poupe dos detalhes, não seria a primeira vez – limpando a boca a jovem olhou suplicante para a governanta.

Nora: Acalme-se, vou te levar para conhecer a mansão e lhe explico com detalhes como as coisas funcionam por aqui...

Lin, Nora e os dois guardas passaram a caminhar pelas dependências da mansão, a princesa analisava tudo o que via ali com curiosidade e certa desconfiança, estava claro que para a construção daquele lugar não haviam poupado despesas; longas cortinas de cetim se estendiam por praticamente por todo ambiente, vasos com flores enfeitavam pequenas mesas de canto, nas paredes em tons róseos inúmeros quadros de paisagens pintadas á óleo, no chão, vários tapetes persas e no teto pequenos lustres decorados que davam ainda mais sofisticação á todo aquele ambiente.

Depois de caminharem por tudo, Nora conduziu Lin para os fundos da mansão em direção á um extenso corredor, a jovem pensou que não haveria mais nada ali além de paredes e quadros, porem para sua surpresa Nora mexeu no último quadro que ficava no fim do corredor e após alguns segundos a parede se moveu revelando uma passagem secreta e esta por sua vez guardava ainda mais cômodos em suas dependências:

Nora: Bem vinda ao dormitório das meninas querida, a partir de agora você irá morar aqui – Nora abriu a porta e apontou para dentro com todo orgulho que possuía

O cômodo era enorme e abrigava pelo menos dez camas, além de espelhos, maquiagens de todos os tipos, vestidos e tecidos de todos os tamanhos, joias, enfim, um dormitório preparado para suprir todas as necessidades de uma mulher.

Ali também estavam oito garotas que aparentavam ter mais ou menos a idade de Lin, todas muito bonitas e diferentes uma das outras, elas estavam usando vestidos e joias belíssimas e terminavam de se arrumar cada uma em sua respectiva penteadeira:

Nora: As meninas que irão para a festa, por favor, saiam agora e se apresentem no salão principal, os convidados já estão chegando! – todas as garotas voltaram sua atenção para Nora e imediatamente saíram do quarto, algumas ainda terminavam de se arrumar, mas obedeceram as ordens sem questionar, em seguida Nora voltou a encarar Lin – querida você conseguiu compreender sua função aqui?
Você assim como as outras garotas foi comprada não para ser uma escrava, essa palavra é meio rude, mas sim para ser um enfeite, uma acompanhante – sorriu — aqui tratamos de tudo com muita organização e não falta nada á ninguém como você já deve ter notado, nosso lorde gosta de limpeza e elegância, você deve se adequar á isso, é primordial que você esteja sempre limpa e perfumada, pois ele pode lhe querer á qualquer momento do dia ou da noite.

Lin: Desculpe – me senhora, mas eu não compreendo, eu não entendo o que acontece aqui, enfeite?


Nora: Nós preferimos nos dirigir á vocês como enfeites ou acompanhantes, afinal você irá acompanha-lo em festas, jantares ou para algo mais intimo, mas não se preocupe ele é muito bonito, não será difícil para você.


Lin: Sinto muito senhora, mas eu não entendo o que me pede, não conheço este... – foi interrompida por Nora


Nora: Você realmente é ingênua ou só finge? Você acha que tem direito á alguma coisa por aqui? Não entendeu a sua função ainda?
Você foi comprada para ser a nova diversão dele, para enfeitar as festas dele e servi-lo em tudo que ele desejar, principalmente na cama, fui clara?!

Lin: Eu não sou um enfeite, menos ainda servirei seu mestre! – sua voz saiu com força e nem ela mesmo havia se dado conta do quanto estava alterada com tudo aquilo

Nora: E o que pretende fazer? Fugir? – encarou Lin com um sorriso irônico nos lábios – deixe – me te alertar que não é a primeira, muitas já tentaram e nenhuma nunca conseguiu, mas você está com sorte como hoje estou atarefada e estamos muito atrasadas para a festa irei direto ao ponto e mostrar á você o que acontece com as rebeldes por aqui!

Nora puxou Lin pelo braço e a levou em direção ao fim do corredor, lá se depararam com uma enorme porta de metal, Nora retirou uma chave dourada de seu generoso decote e a abriu, a cena que Lin viu a seguir fora tão chocante que ela sentiu náuseas; o chão estava repleto de sangue e o cheiro de algo em decomposição impregnava o lugar, vários tipos de instrumentos de tortura se encontravam ali, alguns completamente cobertos por sangue já seco.

O som de gotas caindo ecoava pelo ambiente e ao perceber de onde vinha o som Lin sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, ali no meio de toda aquela imundice havia duas garotas, ambas completamente nuas e suspensas por correntes, Lin não conseguia enxergar seus rostos com clareza, mas enxergava o sangue fresco pingando de seus corpos torturados:

Nora: Lorde Frederick é conhecido por seu comércio de joias, ele é um dos nobres mais respeitados desta corte, um homem de bom caráter que faz caridade e ajuda á todos.
Ele vive muito ocupado e atarefado, nossa missão aqui é entretê-lo, deixa-lo relaxado, tanto ele quanto os guardas que zelam por nós – fez um sinal para que um dos guardas liberta-se uma das garotas – leve Arieta daqui o castigo dela já terminou, se quiser se divertir com ela agora aproveite! – o homem abriu um largo sorriso, libertou a garota desfalecida das correntes e a jogou nas costas caminhando em seguida á um dos quartos:

Lin: O que ele vai fazer á ela? Ela precisa de cuidados, por favor, senhora... – Lin foi completamente ignorada em seu apelo

Nora: Ela aguenta, já está acostumada – fez uma pausa — sabe é realmente ruim ter que tomar esse tipo de atitude – gemidos de dor vindos de um dos quartos passaram a ecoar pelo ambiente — não ouse tentar uma fuga, não gostamos disso!
Não gostamos de rebeldia e nem de indisposição, você pertence ao meu lorde agora e não á nada que possa fazer para mudar isso, mas caso tente lhe trarei para este quarto e você logo mudará de ideia! Agora vá se banhar e se preparar, pois está acontecendo a celebração da união do comércio logo ali no palácio, essa festa é muito importante para o meu lorde e é de suma importância que você seja uma boa anfitriã esta noite!

Lin tentava digerir tudo aquilo, mas não conseguia, a jovem princesa arregalou os olhos e pensou estar ficando louca como aquilo era possível? Que espécie de pesadelo era aquele?

Que tipo de monstro era lorde Frederick? Anfitriã, festa, acompanhante...

Céus como aquilo soava errôneo aos seus ouvidos, a jovem olhava em volta na esperança de encontrar respostas ou esperança, mas só o que via era olhar quase sem vida de uma garota pendurada pelas mãos, torturada não só fisicamente, mas também psicologicamente:

Nora: Acorde garota! – Nora empurrava Lin em direção ao dormitório, lá a governanta á levou para uma das banheiras enquanto rasgava seu vestido deixando-a completamente nua – se lave depressa, quero você pronta em minutos, vou mandar trazerem seu vestido e tire essa expressão de susto do rosto, quero você sorrindo!

Lin entrou na banheira atônica, se sentindo impotente, ainda não acreditava em tudo aquilo, desejava acordar daquele sonho ruim, desaparecer dali ou simplesmente morrer, não conseguia chorar ou esboçar qualquer tipo de sentimento, estava chocada.
Um novo guarda entrou no quarto, mas este vestia negro e era ainda mais corpulento e sério que os outros dois que acompanhavam Nora, em sua face havia uma cicatriz que passava próxima ao nariz, ele trazia nas mãos um vestido azul, ele o jogou na direção de Lin e a mesma saiu da banheira se secando automaticamente por instinto.

Depois de vestida, a jovem princesa parou diante de um dos espelhos e quase que mecanicamente passou a se arrumar, durante o processo a mesma observava seu próprio reflexo sem se reconhecer, o vestido que usava era belíssimo, de cor azul em degrade com rosa claro, as mangas deixavam seus ombros á mostra e delineavam seu colo com leveza, no centro dele além de um pequeno pingente de esmeralda uma fenda repleta de pequenas flores feitas de cetim que se abria gradativamente dando ao vestido um ar delicado.

Lin usava brincos esmeraldas e seus sapatos eram de cristal... Mas nada daquilo pertencia á ela, nada daquilo era real, afinal o que ela estava fazendo?

Se arrumando para que? Uma festa?

Á poucos minutos atrás havia presenciado uma barbárie e agora iria festejar? Por acaso o sangue em suas veias havia se esvaído? Taparia seus olhos para tudo aquilo? Faria realmente a vontade daquela governanta infeliz?
Lin encarava seu reflexo como se o instigasse, o choque de poucos minutos atrás havia passado e aos poucos a jovem recobrava sua consciência e percebia a profundidade da situação em que se encontrava e pela primeira vez em sua vida guerreou contra si mesma, contra seus medos, seus receios e sua própria mente:


“ Mais uma vez estou presa, enjaulada, a mercê das vontades de outras pessoas, mais uma vez me vejo encurralada, insegura e com medo da dor, mas eu não me lembro de algum momento em minha vida depois de meus oito anos em que tive paz e sinceramente não sei se um dia chegarei a ter.

Eu quis desistir, á poucos minutos atrás quase cogitei suicídio, mas esta sou eu? Eu sou essa frágil criatura que passará a vida sendo explorada, humilhada e usada de todas as formas? Eu sou esta que está aqui agora, vestindo essas roupas nobres, indo celebrar uma mentira? Não! Eu não sou mais a escrava de uma rainha desumana, eu não sou o enfeite ou objeto de prazer de um monstro que oculta à face atrás das belezas de seu palácio, eu não quero minguar e me sufocar até morrer, não mais!

Antes de chegar aqui eu pensava que somente eu sofria, mas vejo que o mundo por trás dos muros do castelo é cruel, injusto e imundo! Essas garotas que aqui estão sofrem tanto quanto eu sofri e pelo sangue que corre em minhas veias eu não fecharei meus olhos diante disso e não medirei minhas forças para liberta-las, posso morrer esta noite, mas não permitirei que essa barbárie continue! Este homem, este monstro chamado Frederick, não vou perdoa-lo! “

Um sentimento de determinação tomou posse de seu ser, o sangue real havia despertado e parecia queimar em suas veias, todas as emoções oprimidas surgiram de uma vez, o desejo de se vingar estava a flor da pele e a jovem se preparava para gritar e extravasar sua raiva ali diante daquele espelho, porem sua atenção fora direcionada á Nora que estava de pé ao seu lado trajando um elegante vestido dourado cravejado por pedras preciosas:

Nora: Nossa, olhe só para você, nem parece àquela pobre coitada que chegou aqui vestindo trapos – apesar da ira Lin estava belíssima, o vestido havia lhe caído como uma luva, os cabelos presos no alto da cabeça com alguns fios soltos formavam uma cascata de cachos prateados e seus lábios estavam tingidos de rosa — Frederick ficará maravilhado – o nome do lorde ecoou na mente de Lin – apresse seu passo querida, vamos para o salão!

As duas saíram rapidamente da mansão e caminharam pelo jardim sendo escoltadas e protegidas da chuva pelos guardas de Nora até chegarem ao palácio para a tão falada celebração que acontecia ali:

Nora: Eu exijo que você seja gentil e educada com todos os que passarem por você – Lin ouvia as ordens em silencio, seu objetivo era encontrar lorde Frederick e nada mais – caso lhe perguntem você é uma de minhas damas de companhia, agora vamos.

O salão estava luxuosamente decorado, lustres de cristais iluminavam o ambiente, arranjos de flores enfeitavam as mesas repletas de guloseimas, quitutes e talheres de prata, criados trajados de maneira elegante andavam de um lado para o outro com suas bandejas em mãos enquanto músicos tocavam uma doce melodia e embalavam vários casais que dançavam alegremente pelo centro do salão.

Lin passou a caminhar pelo salão observando todas as pessoas á sua volta, á muito tempo não participava de uma celebração e havia se esquecido de como era tudo muito bonito, as roupas, a valsa, o sorriso estampando o rosto das pessoas...

Era realmente uma pena que tudo aquilo não passasse de uma grande mascara, a mascara distorcida e falsa de um homem que estava ali naquele meio, provavelmente sorrindo e se divertindo enquanto nos fundos de sua propriedade pessoas estavam perdendo sua liberdade e vida por um mero capricho do mesmo.

Depois de manear negativamente a cabeça a fim de limpar os pensamentos, Lin voltou a se concentrar em seu objetivo, a jovem ansiava por conhecer a face daquele que fora capaz de provocar-lhe a ira, mas estava mais difícil do que ela imaginava, havia tantos homens de tantas formas e idades diferentes, suas vestes eram tão finas e eles se portavam de maneira tão elegante, que para ela todos ali poderiam ser lordes.

Afinal, como seria a aparência de Frederick? Poderia muito bem ser um dos jovens elegantes que valsavam alegremente com suas damas pelo salão ou quem sabe um dos homens de semblante sério que bebericavam vinho enquanto falavam de negócios, talvez um dos velhos senhores sentados ao fundo...

Enquanto discutia consigo mesma Lin fora abordada pelos criados que lhe ofereceram vinho e quitutes, mas ela os recusara estava concentrada em sua busca, a jovem se mantinha imóvel próxima a uma pilastra de mármore cor marfim as beiradas do centro do salão. Ela estava literalmente fazendo uma vigila, porem para sua surpresa ela também fora notada pelos nobres ao seu redor que educadamente vieram cumprimenta-la e elogia-la por sua beleza.

Algumas pessoas chegaram a questionar sua descendência acreditando que se tratava de alguma condessa ou imperatriz de reinos vizinhos, mas Lin optara pela ocultação de sua verdadeira linhagem dizendo-se ser apenas uma dama de companhia:

Nora: Querida sorria, vá dançar ou coma alguma coisa, por que esta prostrada aqui? – se aproximou sorrateiramente sussurrando – Não se esqueça de que estamos festejando e que seu papel aqui é ser uma boa anfitriã, meu lorde gosta de mulheres alegres e espontâneas!

As palavras de Nora eram secas e soavam ameaçadoras, mas Lin já havia superado a fase de se amedrontar por qualquer coisa e na verdade estava feliz pela aproximação da governanta, pois quem mais além dela poderia leva-la á Frederick?

Um leve sorriso de desapontamento surgiu nos lábios da jovem princesa ao perceber que a solução para seu infortúnio estava diante de seu nariz, afinal Nora é muito mais do que a uma simples governanta, ela é a mulher de confiança do lorde e provavelmente estava monitorando tudo o que acontecia naquele salão a fim de reportar ao mesmo, além é claro de fazer o papel de boa anfitriã.

Por mais que odiasse admitir Lin naquele momento nada mais era do que um bibelô do lorde e estava na festa para, como diria Nora, enfeitar, sem contar que estava sendo vigiada, logo, ficar ali parada como um poste não era mesmo uma boa ideia.

Para interpretar seu papel com perfeição Lin decidiu dançar conforme a música e usar um lado seu que nunca havia precisado antes, o lado falso, a jovem respirou fundo, aceitou uma taça de vinho de um serviçal que ali passava e abriu um belo sorriso, a partir dali interpretaria seu papel de anfitriã e esperaria pelo momento em que finalmente conheceria a face de lorde Frederick.

Notas finais
- Não se esqueçam de comentar é importante para mim — Beijos e até o próximo cap