A flor do inverno
18 Isca
Notas iniciais
Lin encarava Lupus ainda intrigada com suas palavras, ela já havia imaginado aquele momento muitas vezes, mas esperava outra reação vinda dele, talvez rejeição ou mesmo incredulidade. A questão era que Lin não sabia o que pensar, pois Lupus não havia dito nenhuma palavra, ele apenas sorria:
Lin: Então é assim que vai ser, vai rir de meus sentimentos? — disse alterada
Lupus: Ah, então você gosta mesmo de mim!
Desconcertada Lin se virou para não encarar Lupus, desta vez não havia meio de mudar o assunto ou tentar se explicar, ela havia admitido seus sentimentos mesmo sem perceber e não sabia o que fazer depois disso.
Lupus observou o constrangimento da princesa por alguns instantes antes de se aproximar da mesma e lhe tocar o ombro. Lin se surpreendeu ao perceber o demônio tão perto de si, mas não se afastou e para sua surpresa o mesmo lhe beijou.
Lin sentiu o ar lhe faltar por alguns instantes, mas logo fora tomada pela vontade e correspondeu ao beijo com doçura. Um beijo repentino e sem aviso prévio, mas que fora desejado por ambos e que dispensava quaisquer explicações, o único inimigo naquele momento era o tempo.
A princesa torceu os lábios ao perceber que não poderia fazer aquele momento perdurar, havia tantas coisas que queria perguntar e tantos beijos mais que gostaria de receber, mas já era quase hora da despedida.
O demônio se sentia bem por estar ali tão próximo de Lin, mas ao mesmo tempo uma ansiedade estranha lhe invadia. A verdade era que amar Lin e deixar que ela saiba, ao menos naquelas circunstâncias, era muito arriscado e ele temia por sua segurança, depois de te-la tão próxima de si, era difícil imagina-la naquele palácio sob os olhos vorazes de Frederick e era isso que o que ele mais temia.
Lupus evitava falar no lorde á todo custo, mas não o tirava de sua mente em nenhum momento, homens como Frederick sempre foram capazes de tudo e ele não queria pensar na possibilidade do mesmo fazendo mal á Lin e menos ainda no que seria capaz de fazer caso viesse a saber sobre, definitivamente não confiava mais em si mesmo, agora que seu amor estava exposto.
Os dois se abraçaram uma última vez antes de se despedirem, Lin se encolheu nos braços de Lupus e ele á manteve assim por alguns instantes até que ambos ouviram algo. Lin não conseguiu distinguir o que era, mas logo percebeu que seja o que fosse vinha de longe, mas Lupus sim sabia o que era e através de gestos pediu que ela fizesse silêncio.
O som que outrora parecia distante, foi ganhando força e antes que o casal pudesse ficar exposto, Lupus abriu suas asas e segurou Lin em seus braços levando-a para o céu junto de si. Lin contemplou por alguns instantes as asas negras de Lupus, era realmente fascinante para ela estar mais uma vez voando, ainda que não nas circunstâncias que gostaria.
Do alto os dois tiveram uma ampla visão da floresta e a proteção das copas das árvores, dessa maneira puderam observar toda a movimentação abaixo de si sem que fossem vistos. Abaixo deles vinha uma comitiva formada por várias carroças muito bem cobertas e escoltadas, havia pelos menos dez guardas ali, sendo dois deles sob o brasão do rei de Canaban. Na frente guiando todos vinha Frederick.
A comitiva seguiu rápida em direção ao palácio, eles passaram em frente ao portão principal, mas não entraram por ele, eles seguiram adiante entrando pela lateral do palácio que dava para a mansão que outrora fora o lar das garotas.
As carroças entraram depressa sendo escoltadas por parte dos guardas, alguns permaneceram junto do lorde na entrada, fazendo a vigília. Em questão de minutos elas foram esvaziadas.
Frederick e os guardas da coroa inspecionaram todas as carroças e pareceram negociar algo por gestos, por fim eles se despediram e as carroças vazias seguiram junto do lorde pela direção de onde vieram , já os guardas da coroa tomaram o rumo oposto, provavelmente retornando ao castelo do rei Theodor.
Lupus permaneceu no alto por alguns instantes antes de descer para o chão novamente, ele se certificou de que não havia mais ninguém em volta e trouxe Lin consigo:
Lupus: Seu noivo parece muito ocupado esta noite — disse sério enquanto colocava Lin no chão
Lin: Seja como for, o que quer que ele estivesse levando naquelas carroças, agora está na mansão — observou os portões do palácio curiosa
Lupus: E você não vai até lá para conferir — disse sério — será que você consegue se conter Lin?
Lin: Eu só vou tentar ajudar, talvez observar de longe
Lupus: Desta vez não, aquele lugar á essa hora deve estar abarrotado de guardas, se você se aproximar corre enorme risco de ser pega.
Lin: Direi á Lourenço então, ele deve saber o que fazer.
Lupus: Sim, mas diga á ele que fique em alerta, que tome cuidado com os passos que pretende dar.
Lin: Eu direi e também vou ficar em alerta! — disse confiante
Lupus: Só prometa que não irá se envolver nisso, tudo bem? — a encarou sério — você entende que ele vai guardar aquela mansão á sete chaves e que não será possível se aproximar?
Lin maneou a cabeça de forma positiva, dessa vez não iria se envolver, ainda se recordava dos momentos ruins de sua última aventura onde quase fora morta por ter sido curiosa e bancado a detetive:
Lin: Fique tranquilo, desta vez eu vou me manter longe do perigo — sorriu — falo sério!
Lupus: Eu espero que sim, agora temos que ir, você vai lá pra dentro e eu para o castelo do rei — Lin o encarou confusa — contarei á Ronan o que acabamos de ver, creio que ele saberá o que fazer.
A princesa sorriu ao saber as intenções de Lupus, os dois se despediram com mais um beijo e um longo abraço e depois seguiram seus caminhos, ambos felizes por estarem compartilhando o mesmo sentimento, por estarem se amando.
Lin passou pelos portões do palácio sorrindo, sua noite estava sendo maravilhosa, apesar da pequena aparição do lorde, era como ela havia desejado desde que aprendera sobre o amor; ela não desejava um príncipe ou quaisquer riquezas, seu sonho sempre fora se apaixonar e ser correspondida, exatamente como acontecera com seus pais.
A princesa seguiu para o jardim para encontrar Lourenço, o anjo já estava esperando por ela e suspirou aliviado ao perceber que a mesma estava bem, mesmo tendo permitido que Lin saísse, foi inevitável para ele não ficar com o pé atrás temendo por sua segurança.
Os dois se certificaram de que não havia nenhum guarda pelas redondezas e ao perceberem que não, Lin passou a falar sobre tudo o que descobriu; primeiro ela falou sobre Rey e sua infeliz maldição, depois contou ao anjo sobre a comitiva suspeita de Frederick:
Lourenço: Eu percebi que havia algo naquela moça, mas não imaginava tal coisa, vou fazer o possível para ajudar nisso! — fez uma breve pausa — e sobre o lorde, eu notei uma grande movimentação, mas não pude me aproximar para ver o que era — disse desconfiado — imagino que sejam mercadorias roubadas, mas a questão é; onde será que ele pretendia leva-las?
Lin: Talvez ele tenha trazido pra cá para estoca-las, o que não falta naquela mansão é espaço.
Lourenço: Não, ele não seria tão tolo assim, guardar aquelas mercadorias aqui seria um erro enorme, estariam muito expostas, eu tenho para mim que a intenção dele é mante-las aqui por pouco tempo. De qualquer forma, ele virá até mim, seja para dizer o que tem ali ou pedir para ajudar na vigia.
Lin: Espero que Ronan saiba o que fazer, eu não gostaria que Frederick atingisse seu objetivo, seja ele qual for.
Os dois trocaram mais algumas palavras e observaram por alguns minutos a movimentação pelo palácio, os guardas do lorde estavam por toda parte e a voz de Nora era ouvida á todo instante dando-lhes ordens.
Sem que fossem percebidos, Lourenço e Lin se separaram, seguiram caminhando em direções opostas, como se nunca tivessem estado naquele jardim ou tido aquela conversa, o anjo foi para perto da guarda e a princesa para a cozinha.
Depois da refeição Lin foi direto para o quarto do lorde, ela tomou um longo banho e ficou por ali mesmo lendo um livro qualquer sobre contos de fada, porém sua mente não estava ali, ela vagava entre o mundo dos humanos e dos demônios. A jovem não conseguia tirar Lupus da cabeça e sabia que até o sono lhe alcançar, sua mente não lhe permitiria pensar em outra coisa que não fosse ele.
Tarde da noite, castelo da rainha Cordélia — Ernas
Relga estava lutando contra seus próprios limites, a jovem havia passado praticamente o dia todo tentando abrir os grilhões que lhe prendiam com a ajuda do grampo de cabelo que havia encontrado, o que exigiu dela muito mais do que poderia suportar, a jovem estava exausta, porém não pretendia desistir, pois agora só restava o grilhão que prendia seu pé esquerdo.
A pressa era sua maior inimiga, mas a noite se fazia presente e ela sabia que o tempo para agir estava acabando, á qualquer instante uma das criadas lhe traria pão e água para o jantar era exatamente esse momento que ela estava aguardando.
Depois de mais de meia hora tentando e muito esforço, a jovem viu o último de seus grilhões finalmente se abrir.
Relga se viu livre e depois de algumas tentativas falhas conseguiu se colocar de pé e assim que conseguiu certa estabilidade pegou um velho castiçal quebrado que estava jogado no chão, sua intenção era usa-lo como arma.
Com o castiçal em mãos a jovem ficou em alerta, estava pronta para a chegada da criada e quando a mesma passasse pela velha porta metal, pretendia atingi-la na cabeça com o castiçal e fugir dali. Machucar alguém nunca esteve em seus planos, mas aquela era sua única opção para sair daquela prisão.
Depois de quase uma hora de espera, Relga ouviu passos se aproximando e ficou em alerta máximo, ela se posicionou de maneira que pudesse ficar escondida pela porta quando a mesma se abrisse, ela pretendia pegar a criada de surpresa e pelas costas.
Quando a porta finalmente se abriu, Relga segurou o castiçal com toda a força que conseguiu reunir e avançou sobre a pessoa que ali estava mesmo sem conseguir enxergar seu rosto devido a falta de luz.
Relga viu seu golpe ser parado em pleno ato e o som de algo caindo no chão, sem que pudesse entender como, o castiçal fora arrancado de suas mãos e de repente a jovem sentiu seu pescoço ser pressionado contra a parede e seus pés saírem do chão, tudo muito rápido deixando-a atordoada, só quando ouviu a voz fria de seu agressor é que fora entender o que havia lhe acontecido.
A jovem sentiu os pulmões arderem pela falta de ar e o coração bater tão forte e tão rápido que achava que iria morrer ali mesmo, ela havia reconhecido a voz e a silhueta da pessoa diante de si, não pertencia á uma criada, se quer pertencia á uma mulher, pelo contrário, diante dela estava Sier:
Sier: Olha só o que temos aqui — seu tom era de pura ironia — então quer dizer que a senhorita pretendia fugir de nós?
Relga: Maldito! — disse sem fôlego
Sier: Justo hoje que lhe trouxe algo mais saudável e você faz isso? — olhou para a bandeja com frutas e queijo que agora estava no chão devido ao confronto — você é bem ingrata traidora!
Relga: Por que não me mata de uma vez! — sua voz saiu tremula e de seus olhos escaparam algumas lágrimas
Sier: O que é isso? Não está feliz com nossa hospitalidade? — fingiu o ato de pensar por alguns segundos — já sei, vou levar você para um lugar mais confortável, o que acha?
Sorrindo o comandante libertou o pescoço de Relga e em seguida a pegou em seus braços saindo dali e indo em direção ao castelo, no caminho a jovem tentou de todas as formas se libertar do homem que á levava, mas o mesmo se quer deu atenção á suas agressões ou ofensas.
Relga conhecia bem o caminho que estavam fazendo, sabia que estava sendo levada para as masmorras subterrâneas do castelo, que seria presa novamente e isso á deixava ainda mais aflita, pois sabia que das masmorras não existia qualquer chance de fuga.
Ao entrarem pelo corredor escuro, Relga sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha, além da escuridão ali também havia o frio e o cheiro de podridão, os gemidos dos presos ecoavam por todos os lados, sussurros inaudíveis causados pelo imenso sofrimento e torturas diárias:
Sier: Sinta-se em casa — disse enquanto abria a cela e colocava os grilhões na garota — aqui é seu novo lar agora traidorazinha
Relga: Me mate logo! — gritou
Sier: E perder a oportunidade de te ver agonizar? Jamais! Agora seja boazinha e aguarde, logo virá uma criada para lhe trazer o que comer, não queremos que nossa convidada de honra morra de fome...
Início da manhã, palácio de lorde Frederick — Canaban
Lin despertou pouco depois que o sol e tentou iniciar sua rotina de forma tranquila, porém estava difícil para ela ignorar a movimentação á sua volta. Os guardas estavam por toda a parte, iam e vinham á todo instante, ao sair do quarto e dar uma volta pelos corredores do palácio ela percebeu que a segurança do mesmo havia sido triplicada.
A princesa sentia uma imensa vontade de bisbilhotar pelos cantos, talvez tentar ouvir alguma conversa, mas precisava se conter, não queria se meter em problemas ou gerar desconfiança, então para que não caísse em tentação decidiu ir para a biblioteca tentar ler alguma coisa para se distrair.
Por algumas horas Lin se deixou distrair pela história do livro que lia e quase se esqueceu de tudo á sua volta, só não o fez, pois começou a perceber um certo tumulto do lado de fora, não se tratava apenas da vigília dos guardas, havia algo á mais.
Lin abriu a porta da biblioteca e passou a acompanhar o que acontecia do lado de fora; a movimentação era estranha e rápida, a voz alterada de Nora se propagava pelos corredores do castelo, suas ordens eram claras e os guardas se apressavam em segui-las. Foi quando Malva seguiu para a cozinha gritando que Lin entendeu o que estava acontecendo:
Malva: O príncipe está aqui! — disse entusiasmada
Sem acreditar nas palavras de Malva, Lin foi conferir com os próprios olhos e para sua surpresa era mesmo Ronan que estava nas dependências do palácio e ele não estava só, Elesis o acompanhava junto de muitos guardas.
Lin os observou um pouco de longe antes de aproximar, ela viu Frederick os recebendo e este parecia não se importar com a presença do príncipe, o que Lin sabia que não era verdade, o príncipe não era bem vindo naquele palácio.
Sem esperar que algum criado fosse chama-la, Lin ajeitou seu vestido e foi de encontro aos visitantes, ao vê-la Frederick á apresentou para Ronan e Elesis que prontamente á cumprimentaram como se nunca à tivessem visto na vida, Lin entrou no jogo e fez o mesmo, agiu como se aquele fosse seu primeiro encontro com os dois.
Os quatro conversaram por algum tempo, mas logo Elesis e Lin saíram dali para um passeio no jardim, distante dos olhos do lorde a princesa pôde finalmente fazer perguntas à Elesis e entender o que estava acontecendo ali:
Lin: O que vocês fazem aqui? — disse preocupada
Elesis: Isso foi ideia do Ronan, ele apareceu em casa logo cedo, me disse que recebeu a visita de Lupus ontem a noite e que precisava vir aqui, ele pediu que eu o acompanhasse e eu aceitei — sorriu constrangida
Lin: Bom ver vocês dois juntos — sorriu e percebeu o constrangimento de Elesis ao tocar no assunto — mas isso não é arriscado?
Elesis: É arriscado, mas eu vou lhe explicar o que ele pretende...
Elesis explicou com detalhes os planos de Ronan e Lin ficou atenta á cada palavra, as duas trocaram muitas informações importantes e sem se preocuparem com os olhos dos guardas sobre si, a atenção dos mesmos estava focada no príncipe e em sua comitiva.
Não muito longe dali, no pátio central, Frederick caminhava ao lado de Ronan e os dois conversaram sobre assuntos diversos, estava preocupado com a presença do príncipe, pois se algo lhe parecesse fora do comum, com certeza teria que se explicar e isso não seria nada fácil.
Ronan fingia alheio total ao que acontecia á sua volta, estava calmo e fazendo de tudo para que Frederick acreditasse nisso, por isso manteve a conversa neutra, até rumar para um assunto mais sério, algo um tanto quanto confidencial que fez com que o interesse de Frederick na conversa despertasse:
Ronan: Eu não estou aqui á passeio dessa vez, estou aqui por outro motivo, vim alertá-lo sobre as coisas que andam acontecendo em Canaban — disse sério — temos recebido muitos relatos sobre saqueadores nas redondezas
Frederick: Saqueadores? — fingiu não saber sobre o assunto
Ronan: Sim, não sabemos ao certo quantos são ou de onde vieram, mas sabemos que são bem organizados e rápidos.
Frederick: Isso é terrível, o que pretende fazer quanto á isso? — seu interesse nesse assunto era real
Ronan: Fechamos todas as fronteiras por tempo indeterminado, vamos controlar toda mercadoria que chega e sai, todas terão que passar por uma revista — disse sério — avise aos seus trabalhadores que tomem cuidado no transporte das joias.
Frederick: Farei isso, temos que ter cuidado nesses tempos difíceis — sorriu confiante — há algo em que eu possa ajudar, como um dos lordes da coroa fico á inteira disposição dela.
Ronan: Vou me lembrar disso, mas por enquanto só peço que redobre a vigilância de sua propriedade e de suas minas, pois eu coloquei a guarda praticamente toda nas rondas e pela vila.
Frederick: Quanto á isso não se preocupe, tomarei os devidos cuidados — fez uma breve pausa — você fica para almoçar conosco? Me faria feliz se aceitasse o convite e assim podemos conversar um pouco mais.
Ronan sabia que sua presença ali não era bem vinda, mas precisava ganhar mais tempo, pois havia incumbido Harpe de investigar mais afundo toda a propriedade do lorde, então para que tudo desse certo, ele aceitou o convite.
O almoço seguiu de forma tranquila, mas vez ou outra um dos guardas vinha sutilmente á mesa pedir instruções ao lorde. Ninguém á mesa pareceu se importar com tal coisa, Lin e Elesis disfarçaram bem deixando para Ronan e seus aliados o trabalho de observarem tudo sem serem notados.
Após o almoço, Ronan permaneceu por mais algumas horas no palácio antes de seguir de volta para o castelo, Frederick esteve ao seu lado o tempo todo, sendo um bom anfitrião e coletando todo o tipo de informação que pôde.
Assim que viu o príncipe partir, o lorde se trancou em seu escritório junto de Nora e alguns guardas.
Lin manteve sua promessa e não tentou bisbilhotar, mas permaneceu no jardim lendo um livro, ali ela tinha uma visão privilegiada do hall do palácio e pôde ver quando um dos guardas saiu dali afoito, com tanta pressa que mal montara em seu cavalo e o mesmo já estava correndo dali.
Quando o sol se pôs foi a vez de Frederick sair, vestindo uma longa capa com capuz e sendo seguido por três de seus guardas, o lorde saiu do palácio apressado. Lourenço observou a saída do mesmo de longe, estava ajudando na vigília e dali não poderia sair para nada..
Madrugada, taverna dos Tuck's — Fronteira entre Canaban e Ernas
As madrugadas na fronteira entre Ernas e Canaban nunca foram tranquilas, principalmente na taverna dos Tuck's, os irmãos lenhadores conhecidos por suas mulheres fáceis e seu vinho em abundância. Ali a noite era dia, ninguém tinha sono ou hora para parar de beber.
Entre a bagunça que ali acontecia, num canto próximo á uma das janelas, estava um homem com a cabeça coberta por um capuz, era Dryer, o comandante do exército de Canaban.
O comandante observava as pessoas daquele local com certa indiferença, ele na verdade odiava estar ali, mas aquele era o único local onde não existia restrição ou qualquer tipo de vigilância, o local adequado para tratar dos assuntos que o trouxeram ali.
Logo uma outra figura trajando capa e capuz adentrou a taverna tomando cuidado em não ser visto, ao vê-lo Dryer fez sinal com a mão para que o mesmo viesse ao seu encontro:
Dryer: Quando Moniarth levou sua mensagem até mim, eu me assustei, não esperava ter esta reunião com você tão cedo, achei que já estivesse tudo pronto lorde Frederick, o que houve?
Frederick: Essa nossa pequena reunião foi necessária, nosso amado príncipe me fez uma visita reveladora — deu enfase a frase — não podemos mover a mercadoria por enquanto, ele colocou o exército nas saídas e fronteiras, me pergunto como nenhum está por aqui.
Dryer: Isso é um comércio, mesmo não sendo dos mais bem falados, mas ainda é um comércio — respirou fundo — quando ele mobilizou os guardas eu quis te alertar, temia que você fosse pego e nós perdêssemos nosso pequeno investimento.
Frederick: Fique tranquilo, ele próprio me colocou a par de tudo, o que nos da muita vantagem, se não tivéssemos tais informações, seríamos pegos e isso seria o fim de tudo.
Dryer: E tem quem diga que esse garoto será um bom rei, ele se quer é capaz de perceber o que acontece á sua volta — sorriu
Frederick: Por enquanto vamos manter as coisas como estão, depois que eu me casar, tentarei colher mais informações, saber por quanto tempo mais ele fechará as fronteiras e só então traçaremos outro curso.
Dryer: Como quiser, eu continuarei de olho nele e no pai, se bem que esse já não da trabalho tem muito tempo.
Frederick: Ele pertence á Cordélia e nós não mexemos com bruxas, vamos nos preocupar com nosso futuro, o seu está bem ali num barril de vinho que um de meus guardas trouxe.
Assim que entendeu o recado Dryer sorriu e os dois encerraram o assunto, antes de saírem do estabelecimento tomaram cuidado de perceber se alguém os reconhecera e assim que perceberam que não foram embora.
Dryer cavalgou para o castelo do rei com um sorriso de orelha a orelha, o barril de vinho que trazia consigo era muito pesado, o que fazia com que o cavalo andasse devagar, mas ele não se importava com isso, pelo contrário. Quando avistado pelos guardas da torre de vigília, os portões do castelo de abriram.
O comandante adentrou o recinto sem mais problemas, ninguém o questionara sobre o barril de vinho e nunca o fariam, respeitavam o homem que por ali passava como a autoridade que era.
Junto de seu barril, Dryer seguiu para a adega do castelo, não havia ninguém ali aquela hora da madrugada, então ele empurrou o barril para perto dos muitos outros que ali estavam, porém antes que pudesse terminar o que havia começado percebeu que não estava só:
Ronan: Muito ocupado Dryer?
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