A flor do inverno
14 A quebra da barreira invisível
Notas iniciais
O jardim era tão lindo quanto o interior da casa, a variação de espécies de flores dava um colorido magnifico ao lugar, Lin não imaginava ver algo assim estando onde está, mas a verdade era que a cada passo mais próxima aos demônios mais as lendas sobre estes se desmistificavam.
Aquele ambiente era calmo e receptivo, havia uma mesa farta e arrumada, rostos felizes e todos conversavam entre si, na verdade era uma cena comum, um café da manhã em família:
Lupus: Eles são minha família e amigos — disse enquanto se aproximava da princesa
Lin: Este lugar é lindo — sorriu
Lupus: Ali estão os pais do Dio, Eros e Dannica — Lin observou o casal para o qual Lupus apontou — meu pai Regis e meu irmão Lass ali na ponta da mesa — apontou para eles — e aqueles dois sentados na grama são Amy e Jin, meus amigos.
Os primeiros a virem cumprimentarem a jovem foram os pais de Dio, vendo os de perto Lin percebeu de onde vinha sua aparência exuberante; Eros era majestoso seus longos cabelos negros e olhos violeta lhe davam um ar altivo, em seu rosto havia a mesma seriedade que Lin já vira em Dio.
Dannica era belíssima, seus olhos eram como os de um gato, possuíam um verde claro incomum e seus cabelos eram cor de vinho, a mulher mantinha um sorriso gentil no rosto enquanto abraçava Lin.
Em seguida foi a vez do jovem casal Amy e Jin se aproximarem, ambos pareciam ter no máximo dezoito anos anos, porém já demonstravam muito amor um pelo outro em seus gestos.
Amy não fez cerimônia ao se aproximar de Lin e a abraçou de imediato, a jovem tinha uma energia contagiante e era muito bela; seus cabelos róseos e cheios passavam de sua sua cintura, seus olhos de um castanho vivo eram muito brilhantes.
Já Jin parecia mais retraído, o jovem de cabelos vermelhos e olhos dourados tinha um semblante constrangido no rosto, seu cumprimento foi um pequeno aceno.
Por fim Lin conheceu o irmão e o pai de Lupus; Lass era idêntico ao irmão, exceto por seus olhos azuis e cabelos prateados, o que para Lin era uma novidade, nos livros que já lera tais cores eram comuns em anjos não em demônios.
Regis se aproximou sorrindo, ele cumprimentou Lin com um abraço e ao encara-lo ela percebeu a incrível semelhança entre ele e o filho. Olhar para Regis era como olhar para Lupus, os mesmos olho rubros, os cabelos castanhos, porém um pouco mais velho e com um semblante mais gentil em seu rosto.
Depois de cumprimentar á todos Lin se sentiu um tanto quanto sem jeito, não sabia bem o que fazer ou onde se sentar, mas para sua sorte Amy percebeu seu constrangimento e foi logo conversando com ela e puxando-a para grama onde estava lanchando. Não demorou muito para que as duas percebessem que tinham gostos em comum, logo estavam tão a vontade uma com a outra que pareciam já se conhecer á anos:
Amy: Sabe eu já tive contato com alguns humanos, mas a maioria deles morrem de medo de nós, eles nunca se sentem muito a vontade, mas você não nos teme, não é? — disse curiosa
Lin: Não vou negar que no inicio eu tive receio — fitou a mesa onde estavam Lupus e os outros — mas agora eu os admiro
Amy: Nos admira ou admira meu amigo? — piscou enquanto insinuava que era Lupus o motivo da admiração
Lin: Oh, mas claro que não! — disse constrangida — eu estava falando sobre vocês todos e eu estou noiva...
Amy: Você não está noiva por opção, então eu acho que não deve se sentir culpada — disse confiante — se serve de incentivo, saiba que ele ficou muito preocupado quando você chegou aqui á beira da morte, sabe, ele não é de se alterar a toa.
Lin: Isso não significa nada, empatia é algo que podemos sentir por qualquer um — disse com pesar — ele deve ter é pena de mim, desde que nos conhecemos ele só fez me tirar de problemas.
Amy: Então você gosta mesmo dele!
Amy pronunciou a frase com um sorriso triunfante nos lábios, como se tivesse desvendado um grande mistério, Lin por outro lado se sentia lesada, não havia percebido que as palavras da garota haviam sido uma isca para tirar dela uma confissão.
Uma confissão que até então nem ela mesma conhecia, afinal desde quando nutria algum tipo de sentimento por Lupus? Quando isso havia começado?
Pensou estar confusa ou talvez se tratasse de uma simples atração, afinal ele é um demônio, sua aparência e atos são como uma armadilha ou não?
Amy: De repente você ficou tão séria, eu não deveria deveria ter falado disso, desculpe a invasão.
Lin: Não é por isso, fique tranquila, você me fez pensar em algumas coisas que até então eu ignorei — sorriu enquanto voltava de sua pequena reflexão pessoal.
As duas conversaram mais um pouco até Lin se levantar com intenção de retornar ao palácio, por ela ficaria ali sem ter hora pra ir embora, mas não poderia se dar a esse luxo e ainda tinha que encarar, talvez, um lorde furioso por sua ausência.
Meio contida a jovem seguiu para perto da mesa onde estavam os outros, sua intenção era pedir uma direção á seguir, se despedir e partir o mais breve possível, porém Lupus á interceptou:
Lupus: Você não vai sozinha, vou acompanhar você ou vai acabar perdida de novo.
Lin: Não se preocupe, por favor eu não quero incomodar — tentou impedi-lo, mas ai foi a vez de Regis se manifestar
Regis: Concordo com meu filho, você não deve andar por ai sozinha princesa — Lin não conseguiu esconder a surpresa ao ouvir a palavra princesa e isso não passou despercebido — entendo que queira esconder sua origem, mas aqui ninguém lhe quer mal. A verdade em algum momento á de vir a tona, mas não se preocupe até que o momento chegue seu segredo estará á salvo conosco.
Lin queria ter palavras para agradece-lo, não só por recebe-la em sua casa, mas pela forma como estava sendo tratada, era impressionante como os demônios que ela conhecera em tão pouco tempo conseguiam ser mais gentis e hospitaleiros que muitos humanos que ela conheceu por anos.
Antes de partir a jovem princesa fez questão de se despedir de todos e agradecer várias vezes por tudo que haviam feito por ela, mas ainda que agradece mil vezes, sentia que jamais conseguiria pagar tudo.
Por fim, depois de muito agradecer e com um sorriso nos lábios Lin se despediu de todos e agradeceu novamente pela gentileza e cuidados que tiveram consigo, em seguida foi na direção de Lupus que á aguardava para seguirem rumo á Canaban.
Ao sair porta a fora ela ficou encantada com Elyos, tudo era muito bonito e calmo por ali; haviam crianças brincando e uma enorme fonte de águas cristalinas bem no centro da vila, mais a frente havia um pequeno comércio e ao longe era possível ver o verde das vastas plantações nas colinas denotando a terra fértil que ali existia.
A arquitetura das casas eram diferentes, todas construídas como se pertencessem á nobres e o mesmo se aplicava ás suas vestes, indicando que não existia diferença social, uma visão bem diferente do que ela esperava e a expressão de surpresa em seu rosto á denunciou:
Lupus: Aqui não tem chamas brotando do chão e nem pessoas empaladas gritando por ajuda, desculpe — sorriu sarcástico enquanto caminhavam em direção á um enorme portão que ainda estava distante
Lin: Ora, não! — envergonhada sentiu as palavras tropeçarem em sua língua — perdoe-me se pareço estranhar tudo isso, mas os livros...
Lupus: Sei muito bem o conteúdo dos livros — a interrompeu- eles dizem algumas verdades e muitas mentiras sobre nós!
Lin: Desculpe por isso... Tudo aqui ainda é novidade para mim, não pense que estou fazendo algum tipo de julgamento, pelo contrário, você tem muita sorte de poder viver aqui.
Lupus ouviu as palavras da albina e permaneceu em silêncio, os dois continuaram caminhando até avistarem um enorme portão de ferro, não havia nenhuma cerca ou muro á sua volta, nada onde pudesse se fixar a não ser o chão.
Ao se aproximarem mais o portão rangeu e se abriu, os dois passaram por ele e avistaram a floresta, em seguida o portão se fechou como que por mágica, curiosa Lin olhou para trás, esperava ter um último vislumbre de Elyos, porém o portão o qual acabara de passar havia desaparecido e em seu lugar havia apenas uma árvore.
Dessa vez a princesa não se surpreendeu, afinal havia saído de uma outra dimensão, era obvio que sua entrada deveria permanecer inacessível aos humanos ou sabe-se lá quantas criaturas mais.
Castelo do rei Theodor — Canaban
Theodor tomava seu café tranquilamente no jardim enquanto lia atentamente o convite dourado em suas mãos, ele parecia estar de bom humor, bem diferente de Ronan que andava de um lado á outro e mantinha um semblante muito sério no rosto resultado de discussões anteriores:
Ronan: Pai será que da para largar este convite de lado e me responder o motivo de querer se casar com Cordélia?
Theodor: Ainda com esse assunto filho? Quantas vezes preciso lhe explicar sobre nossa posição social e obrigações? — sorriu como se aquilo fosse um assunto banal
Ronan: Ela não é o que você pensa! Por que não acredita em mim?
Theodor: Ela é a mulher mais amorosa que eu conheço, é gentil, bondosa e demonstrou gostar muito de você — sorriu — você sabe que um reino completo depende de um rei e uma rainha.
Ronan: Eu sei disso, mas essa mulher não é a certa, me ouça pai!
Theodor: Eu sei que ainda sente falta de sua mãe, mas medidas precisam ser tomadas. Agora será que poderia esquecer esse assunto? Temos coisas mais importantes para fazer e uma festa para ir, semana que vem é o noivado de Frederick e estou muito feliz por ele ter encontrado o amor.
Sorrindo o rei deixou o jardim e caminhou castelo á dentro ignorando completamente as palavras do filho, como se estivesse no melhor dia de sua vida.
Ronan massageou as têmporas enquanto tentava digerir a conversa inútil que tivera com o pai, ele não conseguia compreender como um guerreiro nato que outrora fora forte e responsável agora agia como um garoto apaixonado e desleixado.
O príncipe caminhou cabisbaixo pelos corredores do castelo até chegar ao hall do mesmo, lá se deparou com o enorme quadro de seus pais.
Ele encarou a pintura com pesar, observava os detalhes da moldura, o rosto de seus pais e o quanto era parecido com eles. Fisicamente Ronan lembrava muito o pai, os mesmos cabelos e olhos azuis, porém suas semelhanças terminavam ai, Theodor sempre fora rígido e muito severo principalmente com as decisões que envolviam o reino.
Já sua mãe Karina possuía cabelos arroxeados e olhos rubros, dela Ronan herdou a doçura, paciência e gentileza. A rainha era muito bondosa e acreditava na redenção das pessoas, para ela qualquer coisa poderia ser resolvida com um bom dialogo.
O jovem príncipe sentiu um aperto no coração ao se recordar da mãe, a morte dela fora á mais de cinco anos, porém essa dor ele nunca conseguiu tirar de seu coração. Ronan ainda encarava a pintura quando fora surpreendido por seu leal general e amigo de infância Harpe Noir:
Harpe: Bom dia majestade, trago boas notícias — fez uma reverência em cumprimento
Ronan: Quantas vezes preciso lhe dizer que comigo não são necessárias formalidades, somos amigos, quase irmãos — sorriu enquanto se livrava dos pensamentos tristes de antes — quais as novidades?
Harpe: Eu reuni os leais á você e seu pai, todos concordam com seu plano de invasão á mina — fez uma breve pausa — e eu também trouxe Arme Glenstid, a mais poderosa maga da academia violeta, ela o aguarda no jardim.
Ronan: Ótima notícia, poderia por favor buscar uma garrafa de vinho que está na mesa da cozinha e traze-la para o jardim? — Harpe assentiu positivamente
Ronan rumou para o jardim e logo pôde ver a maga, a principio quase desacreditou que aquela era ela mesma, pois a garota á sua frente parecia muito jovem, os olhos e cabelos roxos somados á baixa estatura e ao semblante quase infantil geraram certa dúvida, mesmo tendo ciência da fama da academia Violeta e de Arme, porém nunca imaginou que se tratasse de uma mulher tão jovem:
Ronan: Bom dia senhorita, me desculpe por lhe perguntar, mas você é mesmo a maga poderosa de que ouvi falar? — sorriu e fez um gesto para que a mesma se sentasse em uma cadeira próxima
Arme: Bom dia majestade, sou eu mesma — sorriu — eu só tenho dezoito anos, mas é que meus poderes se manifestaram quando eu ainda era muito pequena, desde então eu fui me aprimorando e hoje ocupo um cargo importante e que gosto muito.
Ambos sorriram e trocaram algumas palavras até que Harpe chegou trazendo consigo a garrafa de vinho para enfim tratarem do assunto que a levou até ali:
Ronan: Senhorita Arme, por favor se possível eu gostaria que mantivesse essa nossa conversa em total sigilo — Arme assentiu positivamente — eu lhe chamei aqui para que faça uma análise nessa garrafa de vinho, suspeito que ela está enfeitiçada.
Arme analisou por alguns instantes a garrafa, ela sentia algo de estranho nela, mas seja o que fosse estava bem oculto, ela então usou seu cetro e ao averiguar novamente conseguiu ver o que não era possível á olho nu:
Arme: Está enfeitiçada, a magia é oculta e muito poderosa — continuou analisando — é magia negra! — disse horrorizada, pois sabe que a magia negra é proibida e quem á utiliza são pessoas de má fé.
Ronan e Harpe se olharam, como se confirmassem entre si suas suspeitas:
Ronan: Como eu imaginava, Harpe vamos buscar todas as garrafas que foram enviadas ao meu pai como presente e traze-las aqui — fez uma pausa — Arme, você pode por favor me dizer o que o feitiço faz e se pode ser desfeito?
Arme: Me dê mais alguns minutos com esta e as outras garrafas que lhe direi com que feitiço estamos lidando e como podemos quebra-lo!
Em algum lugar na floresta de Canaban...
A caminhada seguia silenciosa, Lin revesava suas ações entre observar a floresta e Lupus, vez ou outra pensava em falar algo, mas desistia logo em seguida, a expressão no rosto do demônio era séria e indecifrável. Ela não sabia o que dizer e nem se deveria dizer, então ficou pensando consigo mesma os possíveis diálogos que poderia ter com ele.
Sem perceber a jovem acabou deixando escapar algumas risadas e palavras que só faziam sentido para ela, Lupus estranhou seu comportamento e a questionou:
Lupus: O que foi? — disse sério
Lin: Oh, não é nada, eu estava pensando alto aqui — mesmo sem graça por ter sido pega continuou — eu gostei muito da sua família, me lembrou a minha infância com meu pai, bem, eramos só nós dois, mas eu me sentia parte de uma grande família.
Lupus: Seu pai foi um bom rei.
Lin: Sobre isso, me desculpe por não ter te contado, mas eu tive medo de que alguém soubesse disso e acabasse atrapalhando tudo — disse chateada — você tem me ajudado desde o inicio e eu me sinto uma idiota por ter escondido isso de você.
Lupus: Não entendo o por quê, eu faria o mesmo em seu lugar, não se deve confiar em alguém a primeira vista, ainda mais em um demônio — ironizou a última frase
Lin pensou em dizer mais algumas palavras, mas Lupus cessou a caminhada abruptamente parando diante de uma árvore centenária que possuía um tronco imenso, seus longos galhos e cipós tocavam o solo formando uma enorme cortina ao ergue-las uma passagem foi revelada. Confusa Lin apenas aguardou o que viria a seguir; Lupus seguiu passagem á dentro e fez sinal para que ela o seguisse, de inicio a jovem estranhou, mas continuou seguindo em frente.
A principio a trilha estava escura e um tanto quanto pequena, mas após alguns segundos de caminhada ela foi enlarguecendo e se tornando mais clara, aos poucos o som de água corrente passou a se propagar pelo ambiente e um lindo lugar foi revelado.
Ao se deparar com a cena á frente Lin se recordou de seu primeiro encontro com Lupus e do lugar que ela apelidou de paraíso, pois ambos possuíam o mesmo aspecto místico; o aroma doce, as flores, árvores enormes cercando tudo, os raios de sol iluminando o lago e a sensação de bem estar lhe invadido os sentidos.
Lin não se conteve, não imaginava que veria outro lugar tão belo quanto o que vira no inicio de sua jornada, tão pouco que poderia existir outro além daquele:
Lin: É o paraíso! — seus olhos brilhavam enquanto observavam os detalhes do lugar
Lupus: Nós chamamos de pedaço de dimensão — Lin o encarou confusa — este lugar assim como aquele que você encontrou antes não pertence á nenhuma dimensão conhecida, ele fica exatamente entre elas e por isso os antigos lhe deram este nome, agora vamos em frente.
Lin: Olhe ali borboletas! — gritou enquanto corria para fora da trilha na direção das mesmas.
O demônio suspirou profundamente ao ver a jovem sair da trilha, de inicio pensou em impedi-la, mas ao observar a cena se sentiu incapaz, era algo um tanto quanto infantil correr de um lado á outro atrás de pequenas borboletas, mas além do belo sorriso no rosto da jovem, também havia a simplicidade em seu gesto.
Lupus pensou na triste condição que Lin tivera antes de estar ali junto á ele, justo ela que já havia sido privada de tantas coisas, não seria justo tirar dela aquele momento também.
Se sentindo derrotado, o demônio optou por se sentar em uma das inúmeras rochas que cercavam o lago e esperar. Ele sabia que logo Lin iria se cansar de correr ou as borboletas voariam para longe, enfim, só teria que aguardar até que um dos dois acontecesse.
Enquanto esperava Lupus se pegou pensando no rumo em que as coisas estavam tomando, justo ele que não gostava de manter tanto contato com humanos, agora acompanhava uma e de maneira clandestina.
Lin não era como os muitos humanos ruins que conhecera, pelo contrário, a jovem havia se mostrado mais humana e com mais caráter do que muitos homens considerados honestos.
Era uma sensação diferente a que sentia, não que nunca tivesse apreciado o bem em uma pessoa, mas Lin com certeza o fizera enxergar mais do que boas ações e isso o estava confundindo.
Absorto em seus pensamentos, Lupus quase não percebeu quando Lin correu em sua direção, a jovem sabia que o tempo era curto e que correr atrás de borboletas não havia sido algo muito sensato de sua parte, então decidiu se desculpar antes de seguirem em frente:
Lin: Foi estúpido e eu assumo isso, sei que não temos tempo, mas elas eram tão bonitas e olhe este lugar, é maravilhoso — disse ofegante
Lupus: É de fato um belo lugar — disse enquanto encarava o movimento lento das águas cristalinas do lago.
Lin: Eu gostaria de morar em um lugar bonito assim — encarou seu reflexo na água com certo pesar — sabe, eu só conheço minha mãe pelos quadros na parede, mas eu já sonhei com ela muitas vezes e ela estava em lugar assim — sorriu
Lupus: Minha mãe adorava caminhar pela floresta, mas um dia ela saiu e não retornou para casa.
Lin se surpreendeu ao ver Lupus falando sobre algo tão pessoal, mas a princesa tinha de fato curiosidade em saber sobre a mãe do demônio, enquanto esteve em sua casa não viu nem ouviu falar sobre ela, mas não imaginava que era por esse motivo:
Lupus: Quando um demônio morre, não importa onde esteja, todos os seus semelhantes sentem, é como se parte de nós morresse também, até mesmo quando um anjo morre nós os sentimos partir e eles á nós, irônico não?
Lin: Sinto muito por isso — disse com pesar
Lupus: Não Lin, ela não saiu de casa por que quis... Naquele dia ela só saiu pra passear como sempre fazia, mais ai depois de um tempo sentimos a energia dela ir diminuindo aos poucos, meu pai percebeu o perigo e seguiu o rastro para tentar encontra-la, mas antes de chegar até ela a energia desapareceu. Ela não morreu, simplesmente desapareceu sem deixar rastros e não tem um dia se quer que meu pai não saia por ai à procura dela.
Lin percebeu naquele momento que não era a única a carregar tristezas, se lembrou de como Regis á recebeu tão bem em sua casa e no entanto o mesmo carregava uma dor tão grande, dor essa que Lass também deveria sentir, que Lupus estava sentindo.
Ela tentou encontrar palavras que pudessem ao menos amenizar aquele sentimento ruim, mas não encontrou nenhuma, pois um nó se formou em sua garganta, era a primeira vez que ela o via daquela maneira, a nítida expressão de tristeza no rosto daquele que ela julgava não sentir dor:
Lin: Vamos encontra-la — os olhos rubros lhe encararam com certa confusão — se ela está desaparecida, então vamos procura-la e encontra-la!
Lupus: Não é assim tão fácil, faz muito tempo que ela desapareceu e a procuramos desde então, nunca se quer obtivemos uma pista de seu paradeiro.
Lin: Não importa eu vou ajudar nas buscas — disse decidida
Lupus a encarou um tanto quanto incrédulo, ele via nos olhos dela que estava realmente disposta á cumprir sua palavra, mas ao mesmo tempo em que aquilo lhe parecia nobre também lhe soava inocente demais, afinal, ninguém sabia o paradeiro de sua mãe, nem mesmo com a sabedoria de um demônio mais velho como seu pai puderam encontra-la, como poderia uma simples humana o fazer?
Lupus: Não se preocupe com isso — disse sério
Lin: Não posso, eu quero poder fazer algo por você como você tem feito por mim — o encarou séria — sei que você não se importa com essas coisas e sei que você não se envolveu nos meus problemas por que quis, mas eu não vou me sentir bem se não puder lhe ajudar de alguma forma.
Lupus levantou sem pressa da pedra onde estava sentado, suspirou pesadamente e voltou seu olhar para Lin, ele á observou por alguns instantes sem dizer nada e em seguida apenas passou a caminhar pela trilha rumo a Canaban como haviam combinado, porém Lin não se deu por satisfeita:
Lin: Não saia assim sem dizer nada — parou diante dele e o mesmo cessou seu caminhar — por favor, eu falo sério!
Lupus: O que quer que eu te diga? — suspirou profundamente — seu ato é nobre, mas você não sabe como são as coisas para nós.
Lin: Só quero que diga que aceita minha ajuda! — disse séria
Lupus: Você não entende, somos demônios Lin, as pessoas que caminham nesta terra nos temem ou desejam nossas forças para si. O paradeiro de minha mãe é uma incógnita, mas dentre as muitas possibilidades estão inclusas as mãos humanas.
Lin: Eu sei o que pensam sobre vocês — seu olhar era firme — mas isso não me importa e não vou ouvir de você um não, eu vou ajudar!
Lupus pensou em refuta-la, mas sabia que se o fizesse uma discussão se iniciaria e Lin acabaria vencendo por teimosia, pois se havia aprendido algo sobre ela era que quando colocava algo na cabeça era quase impossível faze-la desistir:
Lupus: Não da pra parar você, não é? — sorriu
Lin: Não! — disse satisfeita.
A partir dali os dois continuaram seu destino, mas agora conversavam mais e sorriam mais, estavam realmente fazendo companhia um para o outro, coisa que antes não acontecia. Talvez falar de coisas tão pessoais tenha fortalecido a confiança entre os dois ou talvez fosse a boa energia do pedaço de dimensão, quem sabe, nem eles mesmos saberiam dizer o que os impedia de se aproximarem mais.
Lin era a mais falante, como sempre, mas ao contrário de outrora Lupus prestava mais atenção nas palavras da mesma e as vezes até dizia algumas coisas divertidas, um lado do demônio que Lin estava adorando conhecer.
E foi assim conversando que os dois não notaram que a hora estava passando e quando se deram conta já estavam quase chegando ao palácio, Lin reconheceu o trecho e sabia que não demoraria á chegar. Aquilo que era bom e ao mesmo tempo ruim, bom por finalmente retornar e ruim por ter que se despedir de Lupus.
Em sua mente a princesa já imaginava uma despedida triste, não sabia se encontraria o demônio novamente e se caso acontecesse torcia para que não fosse numa situação ruim como haviam sido nas vezes anteriores, ela queria se despedir adequadamente e até mesmo queria poder convida-lo para ir visita-la, mas nem mesmo um lar possuía, então o que fazer? Talvez agrade-lo fosse o suficiente, se ele permitisse tal aproximação até poderia abraça-lo...
Lin sorriu consigo mesma ao se pegar imaginando tais coisas, a verdade era que estava se sentindo muito bem, estava feliz perto de Lupus, mais até do que deveria. Estava tão feliz que não percebeu o que se passava á sua volta e se assustou quando viu o sorriso no rosto do demônio desaparecer e o mesmo encarar com seriedade algo á sua frente.
Ao olhar na mesma direção Lin se surpreendeu ainda mais, pois mais a frente estava Lourenço e em seu rosto também não havia nenhum sorriso.
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