A flor do inverno
2 A mais bela de todas
Notas iniciais
O sol despertava trazendo consigo mais uma manhã, porem em Ernas as manhãs eram cinzentas e sem vida, dez anos haviam se passado desde a morte do rei Vincent e o reino escureceu, as plantações morreram e muitas famílias ficaram sem ter de onde tirar seu sustento as que ainda tinham alguma coisa viviam com medo de serem saqueadas.
Cordélia não só deixou o reino desprovido de qualquer tipo de assistência como também passou a cobrar impostos altíssimos de todos, e por mais que os camponeses se esforçassem não conseguiam progredir e foram se enchendo de ódio pela sua rainha, por muitas vezes tentaram invadir o castelo, mas Cordélia mandava seus guardas negros e promovia um massacre, pouco a pouco os aldeões foram desistindo de lutar.
Enquanto os aldeões lutavam para sobreviver no reino, no castelo às coisas eram bem diferentes, Cordélia esbanjava riqueza e fazia questão de mostrar isso á quem viesse visitá-la, tudo no castelo desde a fachada enfeitada por um imenso jardim até as vestes dos guardas e das mucamas, não havia nada ali que Cordélia não tivesse escolhido á dedo.
E nesta manhã não seria diferente, Cordélia despertou de seu sono, vestiu um de seus deslumbrantes vestidos reais e se dirigiu ao seu passeio matinal pelo castelo seguida por sua fiel dama de companhia Relga.
A jovem de aparência delicada segue sua rainha para todos os lugares, e por vezes já fora confundida com alguém da realeza por conta de sua aparência; seus cabelos são cacheados, o rosto bem corado, corpo esguio e seus trajes são como os da da corte, mimos de sua rainha por ter sido escolhida como dama de companhia:
Relga: Como está nessa manhã minha rainha? Precisa de alguma coisa?
Cordélia: Muito bem Relga, você já cuidou dos afazeres de hoje?
Relga: Sim, já ordenei as cozinheiras que apressem o almoço, já enviei a resposta sobre o convite para o chá da Condessa Margareth e o príncipe Klaus deve chegar á qualquer momento para o banquete
Cordélia: Perfeito, agora vou voltar para meu quarto, peça a Lin que venha me ver imediatamente
Relga: Como desejar minha rainha — fez uma reverencia
Relga caminhou em direção aos fundos do castelo, passou pelas acomodações dos empregados, as masmorras e seguiu por uma trilha estreita e escura até avistar uma torre solitária bem afastada de tudo, a jovem observou a torre por um instante e se perguntou como alguém conseguia ficar ali por tanto tempo; na parede havia tanto musgo que quase parecia a pintura do lugar, a janela era um emaranhado de ferro com pequenas frestas e a porta era feita de ferro maciço.
A jovem caminhou até a porta e pegou uma chave comprida de metal que estava embaixo de um pequeno vaso de plantas, ela deu duas batidas na porta abrindo – a em seguida, lá avistou Lin sentada no que mais parecia um amontoado de feno, acorrentada e usando um vestido totalmente feito de retalhos:
Relga: Lin sou eu Relga, a rainha ordena que você vá vê-la – com a mesma chave que abriu a porta Relga abriu as correntes que prendiam as mãos e pés de Lin
Lin apenas assentiu com a cabeça e passou a caminhar depressa, ela sabia o quão severo poderia ser seu castigo caso demorasse á atender qualquer ordem de Cordélia, no caminho até os aposentos da rainha a jovem era totalmente ignorada pelas mucamas que cruzavam seu caminho, elas seguiam ordens expressas para nunca conversarem com ela, porem elas sempre cochichavam entre si quando á viam e especulavam o quanto ela era diferente.
A princesa não era mais uma garotinha, já estava para completar dezoito anos sua estatura era baixa, mas seu corpo havia se desenvolvido ganhando formas delicadas, seus cabelos prateados estavam mais longos, seus lábios mais rubros e o azul de seus olhos mais intenso, ela havia se tornado uma jovem belíssima, mesmo sofrendo todos os maus tratos e torturas que Cordélia pudesse inventar:
Lin: Com licença majestade, vim o mais rápido que pude – deu uma batida na porta e entrou fazendo à típica reverencia
Cordélia: Já era tempo, como está o preparo de meu vestido?
Lin: Já estou quase acabando, acho que amanhã já poderei entregá-lo a senhora.
Cordélia: Você me chama de senhora, mas eu ainda sou jovem e bela!
De fato Cordélia é muito bela, possui uma silhueta impecável e cheia de curvas, cabelos bem longos num tom de louro claro, quase cinza, lábios finos, olhos azuis e uma elegância quase natural:
Lin: Não foi minha intenção, uso esse termo, pois me refiro á você com respeito
Cordélia: Que bom que você sabe seu lugar! Aliás, os retalhos que sobrarem do meu vestido use para fazer alguma coisa pra você, seu aniversário é daqui á dois dias, que fique como presente
Lin: Obrigada minha rainha, já posso me retirar?
Cordélia: Sim, mas não vá direto para seu quarto, antes passe pela cozinha e ajude nos preparativos do almoço, pois teremos visitas
Lin: Como desejar minha rainha- Lin nem se quer perguntou de quem seria a visita, nunca participava de evento algum.
A princesa foi em direção á cozinha, no caminho ia observando os quadros na parede, eles estavam ali desde que ela se lembrava, a maioria ela mesma havia ajudado a escolher junto de seu pai, por um instante a jovem parou de caminhar e uma dor enorme atingiu seu peito, sua vida era extremamente infeliz e alem de ser tratada como escrava era também prisioneira.
Cordélia havia declarado a princesa como morta um ano após a morte de Vincent, todos no reino acreditavam que Lin havia morrido aos nove anos de idade infectada por uma doença sem cura e para que ninguém soubesse a verdade a jovem passou a ser trancada na torre mais afastada do castelo sem qualquer tipo de contato com o mundo além dos muros reais, as poucas pessoas que sabiam a verdade ou já estavam mortas ou velhas demais para que alguém acreditasse em tal história.
Lin ainda repensava sua triste condição de vida quando foi interrompida pelas vozes das cozinheiras que olhavam curiosas através da porta da cozinha para o pátio central do castelo, havia muitos guardas adentrando o portão, mas suas vestes estampavam um brasão diferente, o que significava que a visita havia chegado e se tratava de alguém da realeza, a partir daí começou uma correria desmedida, pois ainda faltavam os últimos detalhes da decoração do salão principal, desesperadas com a situação as cozinheiras correram para ajeitar tudo e Lin foi designada á levar e arrumar o arranjo de flores no centro da mesa.
Enquanto as empregadas se esforçavam para terminar tudo á tempo Cordélia caminhava elegantemente ao encontro dos visitantes:
Cordélia: Seja bem vindo ao meu reino príncipe Klaus – Cordélia estava deslumbrante, seu vestido era de um tom bem escuro de vermelho combinado com preto e pequenos detalhes em dourado, o corpete exaltava ainda mais a sua silhueta e Cordélia parecia excepcionalmente mais bela, como se sua pele estivesse ainda mais jovem.
Klaus havia agradado a rainha, não só por seus modos impecáveis, mas também por sua aparência; o jovem príncipe é dono de belos olhos verdes e um sorriso largo, os cabelos são negros e sua pele de um tom moreno bem claro, Cordélia preza a juventude mais que tudo e poderia ficar horas a fio observando a jovialidade do rapaz:
Klaus: É uma honra majestade, a senhora é ainda mais bela do que ouvi falar – ele beijou gentilmente a mão de Cordélia
Cordélia: Quanta gentileza de sua parte, venha, quero que você conheça o restante de meu castelo
A rainha e o príncipe conversavam sobre diversos assuntos enquanto caminhavam tranquilamente pelo imenso jardim do castelo, Cordélia tinha atenção de Klaus totalmente para si, ela se mostrava meiga e uma profunda conhecedora de flores, o rapaz nunca havia visto tantos tipos de flores em tão perfeita harmonia, estava maravilhado com tudo aquilo, porem sua atenção se desviou por alguns instantes quando ele avistou um pouco mais adiante uma jovem de cabelos prateados caminhando cabisbaixa levando consigo uma cesta de flores.
Ao perceber para onde o rapaz olhava Cordélia sentiu o rosto ferver de raiva e tratou de atrair novamente a atenção de Klaus para si:
Cordélia: Vamos até o salão principal, o almoço já deve estar para ser servido
Klaus: Oh sim, claro, acabei me distraindo com seu lindo jardim – Klaus se calou por um instante e em seguida voltou a falar – Quem era aquela camponesa de cabelos prateados? Parecia tão deprimida que mesmo á essa distancia pude notar
Cordélia: Na verdade ela é uma de minhas mucamas e bem rebelde por sinal! — mentiu — ela vive assim se fazendo de coitada para ver se engana alguém, mas bem, deixemos de falar da plebe, temos um banquete nos aguardando.
Ambos se dirigiram ao salão principal para o almoço, a mesa era farta e muito bem decorada, enquanto eram servidos, o príncipe e a rainha falavam sobre diversas coisas e entre os muitos assuntos discutidos por eles Klaus citou sua preocupação com Ernas, para não parecer relapsa quanto á isso Cordélia apelou para o sentimentalismo e a desculpa de que governar sozinha após perder alguém que se ama exige muito de si, e obviamente ela foi compreendida.
E assim o dia se passou, ao final da tarde o visitante voltou para seu reino, Cordélia ficou observando até que ele sumisse pela estrada e assim que percebeu que ele estava longe seu rosto se transfigurou e se transformou em nó de raiva, ela passou a caminhar á passos rápidos até seu quarto quebrando tudo que encontrava no caminho e esbravejando palavras que só faziam sentido para ela:
Cordélia: Maldita seja! Como ela pôde fazer isso comigo! Isso não vai ficar assim! — gritava
Relga: Majestade, o que houve? – Relga nunca havia visto Cordélia irada daquela maneira e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha
Cordélia: Traga Lin até mim, quero falar com ela á sós, agora!
Relga correu até a torre afastada e desesperada chamou por Lin que mesmo temendo o chamado repentino foi ao encontro de Cordélia:
Lin: Em que posso ser útil majestad... – antes que pudesse completar a frase recebeu um tapa em seu rosto
Cordélia: Quem você pensa que é? – Cordélia trancou a porta do quarto – Como você ousa pisar em minhas ordens e deixar que alguém te veja?
Lin: Mas eu não sei do que a senhora está falando – a jovem falou de maneira firme
Cordélia: Ah, não me diga que não sabe do que estou falando, Klaus viu você sua imunda! Você sabe o que isso significa? Sabe que terei de castigar você, não sabe?
Lin: Não, eu não fiz por mal, eu nem se quer o vi – neste instante Cordélia levou as mãos aos cabelos de Lin puxando – os e fazendo a jovem encará-la
Cordélia: Você nem se quer o viu, mas ele viu você, ele parou de prestar atenção em mim e passou a olhar para você, uma imunda, suja, sem qualquer qualidade. Eu sou a mais bela de todas, eu sou a soberana e a única á quem um príncipe deve olhar você entendeu? –Lin nunca havia visto Cordélia tão fora de si – Venha comigo, vou levar você para Sier
Cordélia passou pelo pátio e desceu as escadas pro subterrâneo em direção as masmorras do castelo arrastando Lin pelos cabelos, enquanto a mesma tentava sem sucesso se soltar das mãos de sua madrasta, ao chegarem aos portões escuros das masmorras foram recebidas por um homem alto e robusto cujos olhos dourados analisavam com furtividade as damas á sua frente:
Cordélia: Eu lhe trouxe um passatempo comandante Sier – Cordélia jogou Lin no chão como se fosse um saco de batatas
Sier: Majestade como me faz feliz a sua presença – curvou – se – o que a bastarda fez dessa vez?
Cordélia: Ela esqueceu seu lugar e como punição deve receber trinta chibatadas – Cordélia se virou para ir embora, mas antes olhou para trás e lançou um olhar sugestivo ao comandante — assim que terminar o castigo dela eu quero vê-lo em meus aposentos, precisamos tratar de assuntos importantes
Sier: Como queira majestade – Sier devolveu o olhar e segurou Lin pelas mãos com força – vamos bastarda!
Lin foi empurrada corredor á dentro em direção á última cela, gemidos e gritos abafados se propagavam no ar e a jovem tentava conter as lágrimas que insistiam em se formar em seus olhos. Ela já sabia o que viria a seguir, conhecia muito bem aquelas masmorras e sabia que ali só havia torturas e dor, mas principalmente, ela conhecia a crueldade e a perversidade de Sier:
Sier: Seja boazinha Lin, fique quietinha – ele acorrentava os pulsos de Lin de maneira que ela ficasse de pé e de costas para ele – se você fosse mais dócil não precisaria passar por nada disso, poderíamos nos divertir muito aqui e ninguém ficaria sabendo
Lin: Não ouse colocar suas mãos em mim, acabe logo com isso e me deixe em paz! – as palavras saíram ríspidas
Sier: Oh, mas que gatinha mais selvagem é realmente uma pena, você não me deixa escolha – sem pressa o comandante abaixou a parte de cima do velho vestido da jovem deixando — a nua da cintura pra cima – prometo fazer do seu inicio de noite algo muito prazeroso, pelo menos para um de nós dois.
Pela sombra distorcida na parede Lin viu a mão de Sier se erguendo e junto dela o açoite, então mais uma vez ela recebeu a visita de uma velha conhecida sua chamada dor.
Sier contava uma por uma de suas chibatadas colocando toda sua força nelas, Lin sentia sua pele rasgando e seu corpo se curvando de dor. Ao contar da vigésima nona chibatada a jovem já não tinha mais forças para gritar e nem se manter de pé, sua visão estava escurecendo, mas antes de perder totalmente a consciência a garota pôde ouvir a risada sem pudor de seu carrasco que se divertia com a cena.
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