A flor do inverno
3 Armadilha
Notas iniciais
Lin abriu os olhos lentamente e sentiu o gosto amargo de sujeira em sua boca; após o castigo Sier havia arrastado a garota até a torre solitária jogando-a no chão e a mesma acabou passando a noite ali mesmo caída de bruços. Um leve sorriso brotou nos lábios da jovem quando ela avistou um pouco mais a frente sua cama feita de feno, certamente não era a cama mais confortável do mundo, mas ainda assim era melhor que dormir no chão porem Sier nunca permitiria tal regalia, ele era o pior carrasco que alguém poderia ter e com a jovem princesa ele caprichava ainda mais em suas crueldades.
Lin teve muita dificuldade para se levantar à dor em suas costas era insuportável e só depois de muito esforço foi capaz de caminhar, ela seguiu em direção á um tonel enferrujado cheio d’água, se despiu e adentrou sem se importar com a temperatura gélida da mesma.
Enquanto se banhava Lin questionava sua condição de vida, olhava á sua volta e as únicas coisas que via eram velharias; um amontoado de feno e retalhos que ela chamava de cama, livros velhos ajeitados num canto, um castiçal quebrado sustentando uma vela quase no fim e uma mesinha pequena de madeira ruída pelo tempo, tudo praticamente se deteriorando, exceto os tecidos nobres e os itens de costura da rainha, mas por quê?
O que ela havia feito para merecer tal tratamento? Aquela torre solitária toda empoeirada, aquilo deveria ser seu lar? Aquilo deveria mesmo ser sua vida?
Lin fez um sinal negativo com a cabeça e decidiu que iria confrontar sua madrasta, aquela vida que levava não era justa, se é que se podia chamar aquilo de vida, a princesa não queria a coroa ou riqueza e sim uma vida digna um lugar para viver e não uma torre suja e esquecida como lar.
Mesmo determinada a acabar de uma vez por todas com sua vida de prisioneira Lin sentia medo do que poderia acontecer, ela melhor do que ninguém conhecia a maldade de Cordélia; a carne escancarada de suas costas ainda queimava e ela já conseguia imaginar as conseqüências severas da conversa que pretendia ter com sua madrasta, mas era tentar ou continuar sendo prisioneira.
Enquanto Lin tentava tomar a decisão mais importante de sua vida Cordélia se espreguiçava lentamente e se olhava em seu enorme espelho, ela analisava cada ponto de seu corpo através de sua camisola transparente e se sentia satisfeita com o que via, o tempo parecia não passar para ela seu corpo estava firme, sua pele lisa e sem marcas, o rosto livre de impurezas e expressões.
A beleza sempre foi tudo o que importa para ela e se pudesse ficaria ali por horas se admirando como já fizera outras vezes porem ela havia tido companhia durante a noite, uma companhia masculina que ela conhecia muito bem, seu fiel comandante:
Sier: Minha bela dama já está de pé? – sorriu maliciosamente enquanto admirava Cordélia da cabeça aos pés
Cordélia: Já está tarde e você ainda deitado, se vista logo, não quero que nos vejam!
Sier: E você liga? Que eu saiba você arranca a língua daqueles que falam o que não devem – abriu um sorriso largo e debochado enquanto vestia suas roupas
Cordélia: De fato, mas devo lembrá-lo de que nossas noites juntos devem ser mantidas em segredo ou você se esqueceu dos meus planos com o rei Theodor?
Sier: Não esqueci, mas às vezes bem que eu gostaria!
Cordélia: Você sabe que tenho uma reputação á zelar, não sabe? E sua esposinha, imagine só o que ela iria pensar se soubesse de nós dois – sorriu — vamos deixar esses nossos encontros noturnos somente entre nós como sempre fazemos.
Sier: Claro, mas antes de ir eu quero meu beijo – Cordélia se aproximou e o beijou logo em seguida o comandante se dirigiu a porta do quarto e saiu.
Assim que a porta se fechou a rainha caminhou em direção a sua estante e retirou um livro de capa azul em seguida a estante se moveu revelando atrás de si uma porta secreta que dava para um pequeno porão, nele havia duas prateleiras enormes; uma era repleta de pequenos frascos com líquidos de várias cores diferentes e ervas de todos os tipos, a outra continha materiais esotéricos e vários livros antigos, sendo um deles de capa negra.
Cordélia apanhou o livro de capa negra, um punhal dourado e uma taça de cristal, ela abriu o livro em uma página já marcada e fez um furo em seu dedo deixando o sangue cair dentro da taça dizendo:
Cordélia: Eu invoco a dama negra das trevas, eu invoco a dama negra da verdade, venha até mim chama da noite e me mostre o que eu quero ver – neste instante uma energia sinistra se manifestou e o que parecia ser uma simples fumaça negra ganhou a forma semelhante à de uma mulher de capuz negro e uma voz onipresente tomou conta do quarto:
“O que queres hoje Cordélia?”
Cordélia: Mostre – me o rei Theodor de Canaban – a sombra separou as mãos e entre elas surgiu um espelho oval que mostrou não só o rei como também seu reino, enquanto a rainha analisava as imagens que via a sombra passou a falar:
“Você deseja muitas coisas e se entedia facilmente delas Cordélia, eu já lhe disse que isso uma hora irá te consumir, você não pode ter tudo e todos, mas principalmente, você não pode colecionar amores ”
Cordélia: Mas eu sou bela e isso só me trás benefícios, desde pequena aprendi que com a beleza é possível ter tudo, mesmo que você seja pobre e sem qualquer tipo de educação se você tiver beleza pode ter tudo! Olhe para mim eu sou rainha e posso ter o homem que eu desejar!
“Todos os homens do mundo não parecem ser suficientes para você, eu enxergo sua alma e ela é gananciosa, orgulhosa e anseia por coisas impossíveis, você nunca está satisfeita com nada que tem, nem mesmo se preocupa com as almas que se perderam por terem lhe amado mais que a própria vida, cuidado, pois você pode provar do próprio veneno.
E eu devo lhe avisar que sua beleza não é única, á outra ainda mais bela que você cujo coração é puro e sem maldade”
Cordélia: Não brinque comigo! Diga – me o nome dessa infeliz para que eu possa ordenar sua morte! – as palavras saíram de forma agressiva.
“É aquela á quem você deveria tratar como parte de sua família“— o espelho mostrou o rosto de Lin
Cordélia: Então quer dizer que alem de tudo a bastardinha pensa que é mais bela do que eu? Pois ela não sabe o que á espera!
A rainha saiu do porão e voltou para seu quarto, procurou por um vestido e enquanto se vestia pensava no que poderia fazer com Lin; Cordélia queria mais que simples chicotadas ou torturas comuns, dessa vez a situação era diferente ela se sentia traída e de certa forma humilhada, não conseguia entender como a enteada que ela tanto torturou, privou de se vestir bem e até comer bem poderia ser mais bonita que ela, aquilo era inadmissível.
Cordélia pensou em todas as torturas que conhecia, mas nenhuma delas parecia o bastante para acabar com a sua raiva, nada parecia ser suficientemente cruel, a rainha já estava perdendo a cabeça e quando se preparava para arremessar um vidro de perfume contra a parede uma ideia lhe ocorreu e seu rosto distorcido de ódio deu lugar á um sorriso diabólico.
Sua ideia repentina lhe parecia tão perfeita e cruel que ela permaneceu ali sorrindo de forma doentia e se quer notou a presença de Relga que precisou chamá-la algumas vezes para que saísse de seu transe:
Relga: Majestade está me ouvindo? Majestade? A senhora está bem?
Cordélia: Oh sim, claro! Estou ótima e preciso que você vá buscar Lin, agora!
Relga fez o mesmo caminho de todos os dias até a torre solitária, Lin já á aguardava com o vestido de Cordélia nas mãos e juntava forças para a conversa definitiva que pretendia ter com sua madrasta, mas mesmo com toda a sua tentativa de se manter tranquila Lin ainda sentia medo e se perguntava como seria o resto de seu dia depois dessa conversa:
Lin: Bom dia minha rainha, eu lhe trouxe o seu vestido – fez uma reverencia – e eu gostaria de conversar algo com a senhora se me permitir
Cordélia: Eu também tenho algo a lhe falar, eu estive pensando e acho que você deve sair um pouco desse castelo! – Relga e Lin arregalaram seus olhos
Lin: O que a senhora disse?
Cordélia: Eu quero que você saia um pouco, pensei muito sobre o assunto e decidi que já está na hora de você sair um pouco – Cordélia quase riu da expressão de felicidade no rosto de Lin — vamos fazer assim, faça um passeio por comemoração ao seu aniversário, o que acha?
Lin: Tem certeza de suas palavras? A senhora nunca se quer permitiu que eu caminhasse pelo pátio fora do horário dos afazeres e agora diz isso?
Cordélia: Ora querida as pessoas mudam, quero que você seja feliz aceite esse passeio como presente de aniversário, mas você entende que não poderá sair sozinha e nem ficar muito tempo fora, não é?
Lin: Sim minha rainha, nem que fossem apenas alguns segundos lá fora, não sabe como estou feliz! – a jovem beijou a mão de sua madrasta
Cordélia: Que bom que está feliz, agora vá, termine seus afazeres!
Lin saiu do quarto de Cordélia sorrindo como nunca, ansiava por ver a floresta e tudo que havia alem do muro real, a jovem não conseguia acreditar no que acabara de acontecer consigo e não via à hora do dia terminar, tudo parecia perfeito e nada conseguiria estragar seu humor, nem mesmo o enorme pátio que estava indo varrer.
Enquanto Lin era só alegria, Relga ainda estava no quarto de Cordélia em choque, ela ainda não havia assimilado a conversa de Cordélia com Lin e a questionou incrédula:
Relga: Minha rainha você mudou de opinião sobre sua enteada?
Cordélia: Pelos céus Relga, é claro que não! Eu á odeio com todas as forças de meu ser! Será que depois de todos esses anos você ainda não me conhece?
Relga: É que agora pouco a senhora disse que... – Antes que pudesse terminar sua frase foi interrompida pela rainha
Cordélia: O que eu disse ou deixei de dizer não importa, aquilo só foi parte do meu plano e agora preciso concluir o restante dele, quero que você mande um de meus soldados até a tribo demoníaca e traga Lupus aqui
Relga: Seja qual for seu plano não inclua aquele caçador nele, toda vez que ele vem aqui não se dirige à senhora com respeito! – a expressão no rosto da moça era de preocupação — Eu li tudo sobre os demônios; eles são anjos caídos majestade, eles possuem asas negras e vivem entre os humanos para levá-los para o caminho do pecado, além disso, são traiçoeiros e muito poderosos!
Cordélia: E você acha que eu não sei de tudo isso? Eu conheço muito bem os demônios, eles me fascinam e me intrigam muito, isso tudo que você leu não é nem a metade do que eles são – depois de uma longa pausa a rainha voltou a falar – eu o quero aqui justamente por que sei que ele será capaz de realizar meu plano com maestria e faz tempo que eu não o vejo, será que continua tão bonito quanto antes?
Relga: Majestade eu ainda acho... – mais uma vez fora interrompida
Cordélia: Não ache nada, eu ordeno que o chamem aqui, quero vê-lo até o final da tarde de hoje! Vá logo e não me venha com seus sermões, pode deixar que com aquele caçador eu me entendo!
Com muita contradição Relga cumpriu as ordens de sua rainha, mas no fundo estava torcendo para que Lupus não viesse, a visita de um demônio não a agradava em nada e ela se perguntava que tipo de plano diabólico Cordélia estava criando para pedir favores á uma criatura das trevas...
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