A flor do inverno
20 A bruxa da barganha
Notas iniciais
O sol mal havia nascido e Dio já estava perambulando pelo comércio de Canaban, desde que soube do paradeiro de Rey, o demônio não conseguiu pensar em mais nada que não fosse procurar por ela, porém como Lupus havia dito, a maldição o impedia de vê-la.
Dio sentia um peso enorme em seus ombros, como se carregasse o peso do mundo em suas costas, o demônio se sentia muito triste e por mais que procurasse por todos os lados Rey não estava em lugar algum, não havia se quer resquícios de sua presença, mas ele não estava disposto á desistir de procurá-la e iria insistir naquilo, mesmo que lhe machucasse.
Longe dali, Lupus fitava a movimentação constante dos guardas de Frederick, ele estava diante dos portões do palácio do lorde procurando por Lourenço. Assim que o vira, o demônio chamou sua atenção e sem que fosse notado pelos guardas o anjo foi ao seu encontro um tanto quanto curioso, pois até então a visita de Lupus não era esperada:
Lupus: Tem um instante? — perguntou de forma séria
Lourenço: Sim, mas que seja longe desses portões.
Os dois caminharam para a floresta e longe dos olhos dos guardas Lupus passou a falar do assunto que o levara até ali:
Lupus: Creio que Lin já tenha lhe deixado a par da situação de Rey, não é?
Lourenço: Sim e temos pensado muito nisso, queremos ajudar — disse solidário
Lupus: Você é um deles, não sabe de nada que possa quebrar essa maldição?
Lourenço: Infelizmente não, o que sei deve ser o mesmo que você, a maldição só pode ser retirada por quem á lançou — disse frustrado
Lupus: Então vou recorrer á outras forças — respirou fundo
Lourenço: O que pretende fazer? — questionou preocupado
Lupus: A bruxa que dizem morar na floresta antiga — fitou o vazio — dizem que ela existe, preciso saber se as lendas á sua volta são verdadeiras.
Lourenço: Monick a bruxa da barganha? — Lupus assentiu de forma positiva — não creio em sua existência, mas supondo que seja real, você conhece as lendas... Sabe-se lá que tipo de coisa poderia querer de você — alertou
Lupus: É um risco a se correr, porém o risco maior continua sendo o Dio, ele pode fazer algo estúpido á qualquer momento — deu um longo suspiro — ele está procurando por Rey e eu sei que não vai parar até encontrá-la.
Lourenço: Eu faria o mesmo em seu lugar — pensou por alguns momentos — se importa se eu lhe acompanhar nessa busca?
Lupus: Eu não sei o que nos aguarda lá e por favor, não conte nada á Lin, não quero que ela se arrisque a ir conosco.
Lourenço: Não se preocupe, me dê alguns minutos, vou me livrar da guarda e retorno para partirmos.
O anjo retornou ao palácio e caminhou de forma sorrateira pelos corredores, ele foi direto para o quarto do lorde procurar por Lin, lá a encontrou distraída com um livro, então foi direto, porém omitiu algumas coisas dela:
Lourenço: Bom dia Lin, preciso que me faça um favor — sorriu
Lin: Bom dia, claro que sim, me diga qual.
Lourenço: Eu precisarei me ausentar do palácio, não sei lhe dizer por quanto tempo, mas para isso é preciso que você me acoberte, sei que não é algo nobre de minha parte lhe pedir tal coisa, porém é necessário.
Lin: Não se preocupe, eu ajudo você! — disse entusiasmada, a ideia de ser clandestina á deixava eufórica
Lourenço: Caso alguém pergunte, diga que me deu tarefas, está bem?
Lin: Sim, não se preocupe, mas por curiosidade, onde você vai? — sorriu
Lourenço: Digamos que tem algo requer a minha atenção e não sei por quanto tempo — sorriu
Uma parte de Lin ficou curiosa em saber onde o anjo poderia ir, mas a outra se contentava em ajuda-lo dali mesmo de dentro do palácio, sendo assim a ela não fez mais perguntas e ambos se despediram.
Lourenço seguiu pelo jardim e saiu das dependências do palácio, dessa vez pelos portões da frente, sem ter que se preocupar em dar explicações de ausência.
Já na floresta Lourenço encontrou Lupus e os dois seguiram por um trilha, eles caminharam por ela até saírem de Canaban, depois passaram pelo pântano esquecido e quase uma hora depois avistaram os troncos avermelhados da arvores da floresta antiga.
A floresta antiga é cercada de lendas, muitas delas começaram por conta da extravagância de cores presentes em sua fauna e flora; árvores centenárias de colorações incomuns, rios com águas arroxeadas e animais exóticos quase nunca vistos. Dizem os antigos que a floresta é lar de criaturas místicas, sobrenaturais e outras desconhecidas, alguns dizem até que pessoas desapareceram em suas entranhas, o que faz da floreta um lugar onde ninguém quer estar.
Sem perder tempo Lupus e Lourenço abriram suas asas e iniciaram sua busca, os dois passaram a sobrevoar a floresta e assim puderam ter uma visão melhor de tudo perceberam que aquela floresta era ainda maior e mais densa do que aparentava, o que com certeza dificultaria ainda mais a busca.
Depois de algumas horas sem encontrar nada, os dois se reuniram novamente próximos á uma clareira, eles discutiram entre si e visto que não havia vestígio de magia alguma pela floresta, chegaram á conclusão de que a existência da bruxa não passava de uma lenda.
Conformados com seu fracasso, os dois seguiram para fora da floresta, porém quando já estavam quase atravessando seus limites sentiram uma energia mágica muito forte, eles pararam por alguns segundos e olharam em volta procurando a origem de tal magia e foi então que notaram que ela vinha de um enorme carvalho com um tronco acinzentado e folhas roxas.
Os dois se aproximaram e notaram o quanto a árvore era ainda mais diferente das demais, seu tronco era disforme e haviam gravuras em uma língua desconhecida em sua estrutura, ao tentarem toca-lo sentiram uma barreira mágica e em seguida viram o tronco mudar de forma e nele surgir uma porta.
O anjo e o demônio se olharam desconfiados, desde que haviam entrado naquela floresta não haviam percebido energia alguma, ou seja, o dono de tal poder não queria ser encontrado, camuflando assim seu dom e só pessoas com muito poder são capazes de tal façanha.
A porta no tronco se abriu e uma jovem saíra dali; seus cabelos eram longos e ondulados num tom esverdeado assim como seus olhos, uma grossa tiara dourada adornava sua cabeça e um medalhão também dourado enfeitava seu pescoço, o vestido que usava era verde e repleto de flores diversas, como se estivesse vestindo a própria vegetação do lugar.
A garota possuía um ar muito jovial e um sorriso travesso nos lábios, ela encarou Lupus e Lourenço por algum tempo, caminhou em volta deles como se os analisasse,em seguida depois ela estendeu a mão em forma de cumprimento e se apresentou:
Monick: Olá, eu sou Monick, desculpem-me pela curiosidade, mas não é sempre que esta floresta recebe visitas.
Lourenço: Prazer, me chamo Lourenço — não escondeu sua surpresa ao vê-la
Lupus: Sou Lupus — respondeu desconfiado
Monick: Por favor entrem, vocês são bem vindos em minha casa.
A jovem indicou a porta atrás de si com as mãos, no início os dois relutaram, mas mesmo desconfiados aceitaram entrar. Monick esperou até que os dois adentrassem, em seguida ela olhou ao redor para se certificar de que ninguém os vira, assim que teve certeza ela de sua magia para fechar a porta, fazendo com que quem a visse de fora só enxergasse um tronco.
Lupus e Lourenço desceram por escadas feitas de madeira, nas paredes á sua volta haviam vasos verticais, cogumelos e flores de vários tamanhos, o lugar todo cheirava á flores e olhando de dentro notaram que o lugar era bem espaçoso muito diferente do que parecia por fora.
Quando os degraus acabaram eles chegaram ao covil da bruxa, ali havia vários móveis feitos de madeira, todos já mesclados á vegetação, ali também havia prateleiras com diversos frascos que se espalhavam pelos cantos do lugar, no centro de tudo havia uma enorme mesa de madeira, nela estavam vários livros, cristais e um caldeirão enorme.
Monick se sentou á mesa e gesticulou para que os dois jovens se sentassem nas cadeiras á sua frente:
Monick: Desculpem-me se os assustei, mas eu não posso permitir que qualquer um me encontre, por isso todo esse suspense — sorriu — em que posso lhes ajudar meus belos amigos?
Lupus: É verdade que você é capaz de quebrar maldições? — foi direto
Monick: Sim e não — sorriu — tudo depende do tipo de maldição.
Lourenço: Os caminhos que não se cruzam, conhece?
Monick: Sim, eu conheço é uma maldição muito forte
Lupus: Pode desfaze-la?
Monick: Creio que sim, mas não sinto a presença de maldição alguma em vocês — fez uma breve pausa — de quem se trata?
Lupus: De uma amiga, vou lhe explicar tudo...
Palácio de lorde Frederick — Canaban
Lin mais uma vez estava na biblioteca, seu novo hobbie á tirava do tédio e também lhe privava de más companhias, já que ninguém nunca entrava ali a não ser ela. Acompanhada por chá e biscoitos, a princesa pretendia passar o resto do dia na companhia dos livros.
Ela procurou por alguns instantes por uma capa e um título que lhe agradassem, assim que encontrou um se dirigiu a uma das grandes poltronas de veludo próximas a escrivaninha e tentou iniciar sua leitura, porém nesse momento a porta da biblioteca fora aberta por Nora.
Lin estranhou a presença da mulher ali, sabia que nada de bom poderia vir daquela inesperada visita, principalmente pela expressão nada amistosa no rosto da governanta:
Nora: Eu sabia que lhe encontraria aqui rodeada de papéis velhos! — sorriu irônica enquanto fechava a porta atrás de si
Lin: O que exatamente você quer? — disse ríspida enquanto se colocava de pé
Nora: Quero algumas respostas! — foi direta — para onde você enviou seu amante?
Lin: Amante? — disse incrédula
Nora: Vai se fazer de desentendida agora? Você pode enganar meu lorde, mas á mim você nunca enganou, eu quero respostas, para onde você o enviou? — disse irritada
Lin: Outra vez essa ladainha?
Nora: Para onde você enviou seu amante? — alterou a voz irritada — diga-me agora!
Lin encarou a mulher diante de si surpresa, num primeiro momento ela não entendeu a atitude raivosa de Nora consigo, porém não estava disposta á abaixar a cabeça para suas ofensas, na verdade ela já estava farta de ser destratada pela governanta e naquele momento começou a entender o motivo do ódio da mulher contra si:
Lin: Com quem você acha que está falando criada? — deu enfase a frase — esqueceu-se de seu lugar e de quem eu sou? Eu sou a futura dona desta casa, portanto você como a criada que é me deve respeito!
Nora: O que você disse? — perguntou incrédula
Lin: Está surda por acaso? — disse séria
Nora: Essa sua máscara de boa moça nunca me convenceu — desafiou enquanto andava de um lado á outro da biblioteca — você se finge de boa moça, mas conspira contra meu lorde pelas costas e o trai!
Lin: Conspirar? Traição? — sorriu de forma irônica — o quão desesperada você está para dizer tantas loucuras?
Nora: Eu vou tirar esse sorriso da tua cara, nunca permitirei que você seja uma Von Vignole, nunca! — disse enquanto apontava o dedo para a face de Lin — eu nunca permitirei que você seja a senhora desta casa!
Lin: Diga isso para o seu lorde, pois ele é quem está apaixonado por mim e saiba que eu posso até não me tornar a senhora desta casa — encarou a governanta bem nos olhos — mas você sabe bem no fundo que você também nunca será!
Nora: Sua...
Nora não completou a frase, por alguns instantes ela encarou Lin e chegou a levantar a mão para estapeá-la, mas se segurou e saiu dali seguindo diretamente para seus aposentos antes que acabasse perdendo o controle e fazendo alguma besteira.
Assim que a governanta deixou a biblioteca Lin relaxou o corpo e despencou sobre o sofá de veludo, a jovem suspirou aliviada e se perguntou mentalmente o que fora aquilo que acabara de acontecer e de onde havia tirado forças para confrontar Nora daquela maneira.
Nora caminhou á passos rápidos pelos corredores do palácio até chegar aos seus aposentos, assim que fechou a porta atrás de si, ela extravasou todo o ódio que estava sentindo quebrando tudo o que via pela frente, lágrimas frustradas escaparam de seus olhos e nem mesmo o espelho de sua penteadeira foi poupado, o que lhe rendeu um ferimento muito feio numa das mãos.
Entre gritos e lágrimas Nora acabou caindo no chão e ali permaneceu, ela encarou o vazio enquanto mantinha a mão ferida sob a barra de seu vestido, a raiva que outrora a havia dominado agora dava espaço a melancolia
A mulher se sentia desolada, mas não fora a petulância da Lin que lhe fizera perder as estribeiras e sim a verdade contida em algumas de suas palavras, verdades essas que ela guardava consigo á sete chaves e que a faziam pensar em sua atual condição. Por mais que a governanta mantivesse a postura de mulher inabalável, ela possuía muitas fraquezas, fraquezas essas que ela fazia de tudo para esconder, mas que vez ou outra a faziam perder a cabeça.
Nora permaneceu um bom tempo sozinha com seus medos e pensamentos, ela só voltou a si quando ouviu baterem na porta de seu quarto. Com grande esforço a governanta se colocou de pé, ajeitou os cabelos e tentou melhorar seu semblante para enfim abrir a porta:
Trevor: Senhora eu fiz o que me pediu.
O guarda tentou não demonstrar, mas fora inevitável não notar que Nora não estava bem, além do ferimento evidente em sua mão e a mancha de sangue em seu vestido também havia o quarto que estava totalmente bagunçado e com vestígios de coisas quebradas:
Nora: Alguém o viu? — tentou manter sua postura altiva e séria
Trevor: Eu fiz a compra diretamente com o proprietário, o local é bem distante das vilas, de difícil acesso como a senhora ordenou.
Nora: Excelente, agora está tudo pronto! — sorriu discretamente
Trevor: Sim minha senhora, a propósito, está tudo bem, precisa de algo? — a encarou desconfiado
Nora: Estou ótima, não se preocupe — mentiu
O guarda assentiu e sem mais perguntas voltou ao jardim para retomar seu posto na vigilância da mansão. Nora voltou para seu quarto e procurou por lá um pedaço de pano que pudesse fazer de atadura, a expressão de dor que outrora estava estampada em seu rosto, agora havia dado lugar á um enorme sorriso e isso se devia a notícia que Trevor havia lhe dado.
Lar da bruxa da barganha — Floresta antiga
Monick ouviu o relato de Lupus enquanto folheava as páginas de um livro de capa azul, ela se concentrou em uma página especifica e depois de ler algumas coisas enfim deu seu veredicto:
Monick: Eu posso desfazer a maldição, mas vocês estão dispostos á pagar o preço? — viu os dois lhe olharem confusos — não se preocupem, não é nada indiscreto ou monstruoso, mas eu só darei meu preço depois que o trabalho for feito, só assim eu posso cobrar.
Lupus e Lourenço se olharam desconfiados, não sabiam se poderiam confiar nas palavras da bruxa, mas afinal aquela era a bruxa da barganha, se vieram até ali, é por que estavam dispostos á negociar com ela:
Lupus: Do que você precisa para desfazer a maldição? — foi direto
Monick: Eu preciso de um objeto que pertença á ela e um que pertença á ele, mas ela já não é mais um anjo, então isso complica muito as coisas — disse séria
Lourenço: Como assim?
Monick: Ela nasceu como um ser da luz portanto seu destino foi selado nessa condição, para que a magia dê certo eu preciso de algo que tenha pertencido á ela sendo ainda um anjo.
Lupus: Droga! — sussurrou para si mesmo
Lourenço: Não existe outra maneira?
Monick: Não há outra forma, essa maldição nada mais é que deturpar o destino daquela que foi amaldiçoado — suspirou — sinto muito.
Lupus: Deve existir alguma coisa com ela, qualquer coisa, eu sei que sim! — disse confiante
Lourenço: Que seja, daremos um jeito, não viemos até aqui para desistir!
Monick: A história dela me comoveu e a atitude de vocês em ajuda-la mais ainda — sorriu — estarei aqui esperando o retorno de vocês, vou providenciar os preparativos para resolver isso o mais rápido possível!
Fim de tarde — Bosque próximo á vila da Canaban
Rey contemplava o por do sol á beira de um lago próximo á sua casa, a jovem vinha lutando contra si mesma desde que se encontrara com Lupus, ela tentava colocar seus pensamentos em ordem, mas sua mente criava inúmeras situações ruins, nutrindo pensamentos cada vez mais aflitos com relação a sua maldição e Dio.
Assim que o sol se pôs a jovem rumou para sua pequena casa no meio do bosque, porém ao se aproximar de seu jardim notou que a porta de sua casa estava aberta. Desconfiada, Rey procurou pelo chão por um galho com o qual pudesse se defender e com cautela entrou em sua casa, mas assim que o fez se espantou tanto com o que viu que derrubou o galho que segurava e ficou sem reação.
Ali diante dela estava um homem muito bonito, porém com uma expressão pouco amigável, seus olhos eram de um lilás vivo, sua pele muito alva e seus cabelos em tom de um cinza claro azulado, suas vestes eram muito elegantes, como se pertencesse a corte, ele carregava consigo duas espadas; uma de lamina grande e de cores vibrantes, vermelho e roxo, a outra de lamina mais fina e em tons mais claros como azul e branco:
Rey: Duel, o que está fazendo aqui?
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