A filha de Camus!
19 Realidade!
Notas iniciais
Abri meus olhos, e demorei para consegui o foco através destes, meu corpo parecia mole, como se estivesse sido dopado, minha mente estava trabalhando mais devagar que o normal (mesmo para quem tinha acabado de despertar), mas ao olhar ao meu redor reconheci como meu quarto, eu sabia que deveria levantar logo, pois minha mãe viria trazer meu café da manhã. Projetei todo o meu tronco para frente, ficando assim sentada na cama, coloquei a mão no rosto e forcei a minha mente a trabalhar, à me lembrar do que eu deveria fazer hoje.
Num instante eu estava com preguiça de levantar, e no outro estava suando e com a respiração descompassada, virei de um lado para o outro desesperada a procura de alguma informação, mais tudo aqui me indicava que aquilo tudo não havia passado de um sonho, pois aquele era o meu quarto, o quarto onde eu havia crescido, onde minha mãe sempre me colocava para dormir, onde Hyoga nunca esteve.
Ainda em desespero coloquei a mão entre as pernas em uma procura louca, e um desejo infundado de que ali eu encontraria as respostas para tudo. Ao encostar minha mão naquele local percebi que usava um absorvente, eu congelei, não respirava mais, e nesse instante o trinco da porta de meu quarto foi aberto como uma resposta dos Deuses as minhas dúvidas, eu tinha certeza que dali viria todas as minhas respostas, seja quem fosse que entrasse.
Hyoga abriu a porta e antes mesmo de atravessa-lá seus olhos focaram nos meus, e este estancou, já minha reação não foi das melhores, um medo súbito se apoderou de mim e eu me encolhi toda me abraçando, como se meus braços pudessem me proteger do mundo. Ele vendo minha reação começou a se mover, entrou e fechou a porta, e foi se aproximando de mim, em seu belo rosto estava uma mascara indecifrável de seus pensamentos. Ele esticou a mão para me tocar e eu tremi de medo e me encolhi ainda mais, mesmo sendo ele eu me sentia suja, eu tinha nojo de mim mesma, meu estomago começou a embrulhar, eu virei para o lado e coloquei para fora algo que eu nem queria imaginar o que era.
Ele esperou que eu acabasse, que colocasse tudo para fora, seu rosto ainda naquela mesma mascara, e quando acabei ele veio em minha direção, pouco se importando com o chão cheio de vomito, ele iria me ajudar a levantar. Eu me desesperei novamente.
–Fique... longe... de mim. -as lágrimas em meu rosto eram de puro desespero e medo. E ele por um segundo pareceu ponderar suas ações, mas antes que eu concluísse esse pensamento ele me puxou pelo braço e me colocou no colo. Eu lutei, esperneie e gritei para que ele me soltasse, medo, angustia, nojo, desespero, todos aqueles sentimentos ruins se misturavam em mim.
Hyoga saiu comigo nos braços não dando a miníma atenção aos meus protestos, abriu a porta do meu quarto e me levou em direção ao banheiro social da casa, lá me colocou sentada no vaso, me olhou sério como quem diz a uma criança para ficar parada, e saiu de lá, eu ainda tremia e chorava copiosamente.
Toda a minha vida estava acabada, o que seria de mim agora, eu não tinha coragem de olha-ló nos olhos, eu não tinha coragem de me olhar, na verdade tudo o que eu sentia por mim era nojo e repulsa, olhei para o chuveiro e tive vontade de tomar um banho e esfregar meu corpo onde aquele maldito me tocou, mas tenho plena consciência que mesmo se esfregasse até minha alma, ainda não seria o suficiente, pois corpo e alma tinham sido maculados por aquele imundo.
Não havia mais uma razão na minha vida, eu tinha vergonha de ser o que eu agora era, em agonia olhei ao redor e vi a farmacinha, a abri, e lá encontrei uma cartela de remédios para dormir (minha mãe dava plantão e as vezes tinha problemas para regular o sono, então ela tomava um de vez em quando para ajudá-la a descansar), peguei os remédios e comecei a tirar de suas capsulas o mais rápido que podia não sei quantos tinham ali, só sei que no desespero joguei tudo de uma vez na boca e tentei engoli-los todos. Comecei a me engasgar, e foi nessa hora que ele entrou e olhou da minha mão com a cartela de remédios para mim, que ainda estava engasgada.
Em questão de segundos seu rosto impassivo se transformou em puro desespero, ele correu encostou suas costas nas minhas, arrodeou seus braços em minha cintura e com uma mão fechada em punho e a outra em palma aberta, encostou a mão em punho na boca do meu estomago, e deu uma batida com a palma aberta nesta, senti o impacto e a reação do meu corpo foi imediata, se havia sobrado algo no meu estomago antes, não havia mais, e novamente estava eu colocando tudo para fora. Ele havia me soltado e tinha escorregado pela parede e sentado no chão, me puxou para ficar de frente para ele e me olhou a procura de algum machucado.
–Colocou tudo para fora? -sua fala era de uma calma fria. Mas eu não queria reagir a ele, não me sentia envergonhada pelo que tentei fazer, nem frustrada, não sentia nada, ele me forçou a olhá-lo. -Alana você esta bem?
–Por... Eu só queria morrer, eu não quero mais me sentir assim... Eu tenho nojo de mim, eu...
–Ele não tocou em você Alana. -meu coração disparou loucamente, e todos os meus sentidos se focaram em Hyoga, eu não podia acreditar no que tinha ouvido. -Aquele maldito não encostou um dedo em você.
–Mas eu vi, eu senti, o sangue... -eu chorava ainda mais, e mesmo querendo acreditar nas palavras dele eu sabia que aquilo era impossível, ele só queria me consolar, provavelmente ver o que eu tinha acabado de fazer tinha sido demais para ele.
–Ele brincou com sua mente, e tenho certeza que ele lhe mostrou o que gostaria de fazer com você... -ao nosso redor tudo começou a ficar frio, e apesar de está acostumada com essa temperatura, me assustei por ele está se descontrolando, com a convivência eu percebi que isso só acontecia quando ele estava com muita raiva. -Mas pense Alana, ele deve ter te mostrado um lugar diferente quando brincava com sua mente, um quarto, uma casa, talvez uma praia ou...
–Uma masmorra... -ele me olhou sério, eu podia ver o ódio em seu olhar, mas ele respirou fundo, e começou a se controlar, me dando tempo para fazer o mesmo, e apesar de tudo que ele me disse eu ainda não conseguia acreditar.
–Mas e o sangue? -ele desviou o olhar e seu rosto ficou vermelho vivo.
–Você está menstruada, provavelmente sua mente fez o seu corpo reagir de forma inesperada. -ele pareceu tão envergonhado que com o alivio eu não tive como não rir, um riso de alivio se alastrou pelo meu corpo o fazendo estremecer, senti todo aquele peso e angustia saindo de mim..
Eu levantei e dei descarga no vaso, estava perdida com tanta informação, minha cabeça agora estava uma bagunça, fui novamente até ele e com um sorriso sem graça e peguei minha escova de dentes que havia caido (fora isso que ele havia ido buscar), e calmamente me dirigi a pia para começar a escová-los, eu não sabia o que fazer, quando acabei ele ainda estava sentado no chão do banheiro, e me estendeu a mão, eu a segurei e ele me puxou para o seu colo.
–Por que você não me disse logo quando acordei, eu fiquei sem chão... -eu iria novamente o abraçar, mas ele o fez, e eu me senti tão segura ali em seus braços.
–Me desculpe Alana, eu não sabia como reagir, nem o que lhe dizer, eu ainda estou com raiva por você ter saído e se colocado em um perigo tão grande. -ele me abraçou mais forte e escondeu o rosto na curvatura do meu pescoço, e eu pude sentir quando este começou a ficar molhado. -Eu achei que tinha realmente perdido você.
–Eu nunca pensei que você reagiria daquela forma, eu não percebi, eu não sabia o mal que estava te causando, eu só estava com raiva de você por te saído e me feito de idiota, eu não podia imaginar que o que ele tinha feito com você fosse algo tão grave. -ele chorava e me apertava, eu estava paralisada tentando absorver tudo o que estava acontecendo ali, era muita coisa para uma dia só, e olha que eu mal tinha acordado. -Eu pensei que você realmente queria está com ele, e só tinha desistido por ele ter feito algo a você.
–Você me deixou pensar que tinha sido estuprada, por ciume? -eu deveria está com raiva, e talvez até revoltada, mais tudo o que eu conseguia era sentir o alivio, tudo ainda me parecia um sonho, e tê-lo ali chorando não melhorava nada essa situação.
–Me perdoe, me perdoe! -ele levantou a cabeça e me olhou com os olhos marejados, seu rosto todo molhado, aquilo me fez reagir, e eu o abracei, eu não queria mais brigar, não queria mais fujir, tudo que eu queria e necessitava era está ali em seus braços. -Eu não sabia o que ele realmente tinha mostrado a você, eu só sabia que ele tinha brincado com sua cabeça.
–Eu não tenho que perdoar você, eu causei tudo isso. -eu me afastei dele e antes que ele me dissesse algo eu o beijei, foi apenas um selinho, mais isso o fez sorrir.
–Louca. -ele disse tão baixo que eu mal pude ouvir, mais bati em seu braço de leve e ambos rimos com isso, o clima tinha ficado enfim mais leve, mais suportável. Ele me puxou e me abraçou forte novamente.
–Me prometa que nunca mais fará nada parecido com o que fez a pouco, eu pensei que você fosse morrer.
–Era o que eu queria.
–Por que, você acha que eu a trataria diferente se ele tivesse realmente te tocado?
–Não, provavelmente você seria ainda mais cuidadoso comigo se algo assim acontecesse, mas eu não suportaria viver com algo assim. -eu agora apertava suas costas com força, tentando me livra daquela sensação. -Eu nunca me senti tão suja em minha vida, eu não conseguia encontrar um motivo para viver, eu só queria...
–NÃO, nunca diga isso, eu não sei o que faria se algo acontecesse com você pequena. -ele alisava minha cabeça.
Ainda ficamos assim por alguns minutos, até que eu disse que precisava de um banho. Enquanto eu tomava um banho ele me disse que prepararia algo para comermos. Minhas roupas ainda estavam no mesmo lugar, então escolhi um vestidinho de crochê que minha mãe havia feito para mim, e ele era perfeito para o calor infernal de João Pessoa.
Hyoga me explicou que eles tinham me trazido para casa com a ajuda de Mu, já que minha mãe era a melhor opção para cuidar de mim, eles sabiam que Jun não havia me tocado de forma alguma, Julian tinha lhes contado o que tinha acontecido e como Jun me atacou. Com a menção do nome de Jun meu corpo estremeceu, mais ele me tranquilizou dizendo que este nunca mais seria visto (não me deu detalhes do ocorrido, e sinceramente eu não queria saber), me disse também que Julian lutou para me proteger e que a armadura de Cisne o escolheu como seu cavaleiro e foi até ele o auxiliando na luta.
Ele fez um café da manhã cheio de frutas, mas nada de laranja nem abacaxi pois meu estomago estava mal, e apesar de já serem umas 14h eu não sentia tanta fome.

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