A eterna guerra contra si mesmo.
17 Liberdade em excesso é uma coisa ruim.
Egoinis estava deitado em sua cama segurando o celular em uma das mãos enquanto olhava para o teto branco de laje mergulhando no espaço em branco memórias sobre sua vida e como tinha chegado até onde chegou. Antes de tudo aquilo começar ele teve uma conversa fatal que decidira as vidas de muita gente.
***
Há um ditado que diz: “Não te compete julgar a realidade que não vive.” Se trocarmos em miúdos quer dizer que se você não vive determinado cenário ou situação não pode entender aqueles que viveram ou vivem. No nosso mundo, ou na sociedade atual por assim dizer, há um enxame de indivíduos julgando a realidade dos outros porque são livres para fazê-lo. As redes sociais são um símbolo da total liberdade que podemos dar as pessoas para manifestação de vontades.
— Isso é um erro. Liberdade em excesso é uma coisa ruim.
— O que quer dizer? – perguntou Egoinis.
— A liberdade extrema ou “pura” só é aplicável a uma pessoa apenas, um único homem será verdadeiramente livre se puder se isolar de todos. Quando há mais de um existe conflito. Agora unam bilhões e temos caos, divisão, violência, morte. É impossível para a sociedade chegar a um consenso unânime que nos leve para frente como raça. Creio que depois de ponderar bem sobre o assunto temo dizer que as generais estavam certas e você errado, Egoinis. A energia egoica que criou na raça humana só leva a uma contradição destrutiva: queremos ser livres e viver com outras pessoas.
O homem que um dia foi chamado de Egoinis levanta de sua cadeira e olha pela janela para o quintal da casa. Seu olhar era vago, imerso em muitos pensamentos ao mesmo tempo.
— Não... não estava errado. É possível a união unânime entre as pessoas, é possível viver como raça sem divisões imbecis como racismo, ideologia religiosa ou política. Infelizmente para conhecer essa união é necessário atravessar um inferno sem dimensões para que milhares, milhões compartilhem a mesma dor e então finalmente possam se compreender.
— Está dizendo que a verdadeira compreensão vem quando ambos lidam com o mesmo tipo de dor.
— Sim. Mesmo no meu mundo não existe algo assim. As generais só possuem empatia por seus compatriotas, mas a posição de liderança as isola da multidão exatamente como acontece com os políticos desse mundo. Elas não entendem os sentimentos daqueles que lideram. Meu desejo foi mostrar a elas sua falácia e começar uma revolução em vários mundos para que aqueles que sobrevivessem ao ego encontrassem o verdadeiro significado da vida.
— Crie o inferno para que ascendam ao céu?
Egoinis olha para a pessoa com quem conversava e disse:
— Para que possam se entender e juntos ascenderem ao céu. Vou ajudar em seu plano até certo ponto e depois irei trai-lo. Vou repetir... cem mil anos preso e isolado de outro ser humano me fizeram entender que minha filosofia está certa, mas eu ainda não estou preparado para ela. Talvez você esteja e se quer obter o que deseja eu vou te dizer como. Primeiro precisa pegar Incipere.
***
Egoinis ergue a mão com o celular. Tinha digitado uma mensagem de texto e colocado o número para onde enviar. Aquelas palavras seriam a traição que ele havia prometido e parece que finalmente havia chegado a hora. Só faltava apertar a tecla enviar...
E ele assim o fez.
***
Yekken é uma mulher de um metro e oitenta, pele negra como um chocolate suíço, olhos castanhos claros e cabelos longos hastafari. Com um corpo atlético e serenidade estonteante ela passava a clara imagem de uma líder, muito diferente da companheira sentada a sua frente com os braços cruzados e expressão emburrada.
— Você é uma imbecil mimada, entende?
As duas estavam num escritório na cobertura de um prédio de vinte andares no centro da cidade. Por motivos óbvios as generais não ficavam juntas em um mesmo local para não provocar um ataque surpresa do inimigo. Porém, em face das últimas informações Liana foi chamada para terem uma séria conversa.
Liana tinha vindo, sentado numa cadeira, cruzado os braços e mantinha a paciência em corda bambas ao ouvir os sermões de Yekken. Yekken é a mais antiga das três generais, escolhida por Miguel mil antes da própria Liana, por isso a general de cabelos azuis a respeitava e acatava – embora não conseguisse não ficar enfurecida por ser tratada como uma criança.
— Isso é sério? Você me chamou até aqui para me dar sermão sobre minha âncora? Eren está muito bem, obrigado. A compatibilidade está fluindo as mil maravilhas.
Liana não queria ter de contar que passou a desejar o rapaz em sua cama porque não queria criar alvoroço pela possibilidade da compatibilidade ser confundida com algum sentimento desnecessário.
— Você ao menos leu o dossiê que sua equipe de campo fez sobre ele?
— Isso é piada? – reclamou Liana – aquela porcaria tem umas quinhentas páginas de informação inútil. Escuta, a compatibilidade funcionou. Estou em forma física neste mundo e o sexo é bom. O que significa que estamos alinhados.
Yekken levou uma mão ao rosto.
— Liana... você é uma guerreira extraordinária, mas é uma porta quanto o assunto é informações.
— Do que está falando, Yekken. Qual é a urgência?
— Onde está Eren agora?
— Foi ver o amigo e depois a família. Ele está seguro, Egoinis não quer matá-lo.
Yekken suspirou pesadamente, ajeitou o vestido vermelho e sentou-se na beirada da mesa de reuniões.
— A prisão de Egoinis... ao chegar neste mundo eu fui vê-la. Ela ainda está lá, intacta e vazia. A jaula da desolação é uma prisão mística feita pelos próprios arcanjos. É uma esfera de runas transparente que não pode ser quebrada ou desfeita porque ela não é física como o cofre de Incipere. Nada vivo pode penetrar e nada vivo pode sair.
— Sim, sim... eu conheço a jaula. Não há como Ego ter saído de lá, mas concordamos que ele é muito inteligente e deve ter bolado uma maneira que nós não soubemos ser possível. Simples.
— Não é esse o ponto. Minha equipe de pesquisa fez um excelente trabalho juntando informações que pudessem ser úteis para entendermos o que pode ter acontecido. A prisão fica numa região de floresta que nós compramos e mantemos como reserva legal para manter qualquer um afastado de Egoinis. Matagal circundava a cela num raio de 50 km! Não tinha nada de humano naquelas terras... até certo dia.
Aquilo chamou a atenção de Liana.
— O que quer dizer?
Yekken franziu o cenho.
— Ah você não sabe? Pois deveria. Treze anos atrás naquela sua maldita perseguição ao Leteros a luta de vocês acabou lá.
A lembrança inundou a mente de Liana. Leteros, um rebelde, simpatizante das ideias de Egoinis havia conseguido roubar a programação de acesso a dimensões e poderia atravessá-las para percorrer os diferentes mundos humanos. Como o roubo acontecera no reino de Liana ela pessoalmente se encarregou de recuperar os dados e deter Leteros. A perseguição de gato e rato por várias dimensões terminou com uma batalha nos céus de um lugar qualquer.
Ou assim ela pensava.
— Quer dizer o lugar em que eu matei Leteros foi no céu sobre a floresta?
— Você realmente o matou?
Liana deu um salto ficando de pé.
— Eu o matei Yekken! Minha lança perfurou seu peito e ele caiu na floresta! Tenho certeza.
— Recuperou o corpo?
Liana hesitou.
— Nã... não tem como ele ter sobrevivido! Acha que Leteros sobreviveu e ajudou Egoinis a fugir?
— Não sei, realmente eu não sei. Tenho duzentos homens vasculhando aquela floresta. Treze anos se passaram nesse mundo o que significa que é possível encontrar o cadáver, mas você fez mais uma coisa naquele dia.
Liana travou.
— Como assim?
— Na luta de vocês, um avião que sobrevoava a área foi atingido... não foi?
— E daí? Meu pessoal cuidou disso.
— Centenas de pessoas morreram aquele dia.
Liana deu de ombros.
— E daí? Eu matei centenas há poucos dias.
Yekken a fitou, seriamente.
— Centenas morreram... e um sobreviveu a queda.
O choque transpassou a face de Liana de tal modo que seu âmago tremeu. Seus olhos se arregalaram e sua expressão congelou. Seus joelhos perderam a força e ela caiu sentada de volta na cadeira.
Yekken balançou a cabeça na negativa.
— A compatibilidade é um mistério. Uma união formada pelo destino. O destino não liga para lógica, ele não se importa.
Liana baixou a cabeça levando as duas mãos aos cabelos.
— Se Eren descobrir que você foi a responsável pela morte da família dele não sabemos se a compatibilidade continuará. Até matarmos Egoinis, não diga nada a ele e nem deixe que seus sentimentos causem essa desconfiança no garoto.
Ao fim da reunião Yekken pegou o celular para checar algumas notícias quando viu a mensagem de texto de um número desconhecido. Ao abri-la a general não pode conter a expressão de espanto.
— Egoinis...?
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