A eterna guerra contra si mesmo.

18 Eu sou um grande mentiroso.


Notas iniciais
Perdão por erros de português.

Eren foi arremessado em alta velocidade chocando-se contra a lateral de um caminhão baú afundando parte da lataria quebrando o tanque que começara a vazar óleo diesel. Atordoado ele observa Alector caminhar lentamente em sua direção até para sobre a calçada do outro lado da rua. Nessa hora as pessoas na rua estavam assustadas e curiosas sobre o estrondo tentando ver melhor o que tinha atingido o caminhão.

— Como pensei... – disse Eren tentando sair das ferragens – isso vai demorar.

Alector ergue a mão na direção do adversário, o óleo no chão acende e a chama percorre o caminho direto a fonte explodindo o veículo. A força da explosão e o calor jogaram Eren para cima num arco perfeito de mais de um km o fazendo cair como um meteoro contra uma casa qualquer arrebentando toda a estrutura jogando escombros por vários metros.

Com as roupas queimadas e o cabelo fumacento Eren estava estirado numa pequena cratera com seus moldes enquanto olhava para o céu limpo daquela manhã. Em meio a destruição com canos de água quebrados, alguém gritando e os sons de sirenes ecoando ao fundo o rapaz não conseguia deixar o sentimento de nostalgia ir embora. Não conseguia se concentrar...

— Então – disse Alector em cima de um pedaço do que havia sobrado do muro da casa — você disse que vai proteger essa Amerília... seja lá quem for.

Eren continuava olhando o céu como se houvesse um filme passando por entre as nuvens. A luta contra Alector era algo programado, sabia que inevitavelmente o enfrentaria e por essa razão mesmo estava esperando sentir com que aquele embate valesse a pena.

— Sabe... se isso fosse uma história de filme ou uma daquelas séries baratas tudo indicaria que você é o mocinho e eu o vilão – falou Eren – seu desejo por proteger a raça humana, ou proteger o que os humanos produzem, chega a ser de longe o sentimento mais honesto que alguém poderia ter. Eu imagino alguém isolado em seu quarto jogando videogame ou assistindo séries, essa pessoa introvertida não gosta de multidões, não gosta de seres humanos por assim dizer. Ainda assim ele ou ela adora os games, as comidas congeladas os doces que os “estranhos” fora do quarto fazem e que pode desfrutar na segurança de sua toca. Já ouviu falar do dilema do porco espinho?

— Não.

— É de um historiador famoso da internet. As palestras dele são inspiradoras pois ele sintetiza história com a filosofia intrincada nela dando exemplos reais de casos que só poderíamos imaginar. Enfim, se eu fosse resumir o dilema do porco espinho é tipo um pequeno grupo deles e no frio são obrigados a se agrupar para se esquentar, mas ao fazer isso são feridos uns pelos outros o que os obriga a se afastar. No isolamento, são expostos a solidão e ao frio. Há uma nítida comparação com a raça humana uma vez que ao interagir com vários outros nos machucamos, magoamos e irritamos muitas vezes preferindo o frio e a solidão.

Alector pula do muro quebrado e caminha por entre os destroços até o buraco aguado onde Eren estava.

— Acha que isso define o ser humano?

Eren o encara.

— Não. As outras pessoas não nos magoam, nem nos machucam sentimentalmente ou sequer nos irritam. Nós fazemos isso conosco ao darmos poder a elas para realizar tais ações. Então nossa fraqueza começa de dentro e o egoísmo em esconder tal fraqueza leva a uma disputa desesperadora contra nossos semelhantes. Mergulhamos numa massa de medo, sofrimento e ódio que se perde sob uma bandeira de confiança hipócrita.

Alector manifesta uma lança dourada em sua mão direita.

— Se é verdade toda a história que me contou, então você realmente é um dos piores humanos que já nasceram nesse planeta. Não importa o quanto se debata ou reflita sobre o cenário, são suas atitudes que definem tudo.

***

Horas atrás.

Eren fora visitar a avó e a prima que tinham decidido sair da cidade como muitas pessoas depois das calamidades misteriosas que estava assolando o município e para a qual ninguém tinha uma resposta. A vinda do exército e de todas as redes de jornais mundiais faziam com que a cidade se tornasse um bule de ansiedade e medo. Quem podia ia embora, quem não ficava com medo de sair à rua.

Depois de sair da casa da família foi direto para a casa do amigo Gustavo. Depois de rico o amigo de Eren comprou a antiga casa do prefeito que cobria uma quadra inteira e tinha tudo o que o dinheiro desviado de verba pública poderia dar de luxo. Desde pilares de mármore, quadra, piscina até um pequeno elevador para o primeiro andar. Os empregados sempre foram instruídos que quando Eren chegasse deveria ser conduzido até Gustavo.

O mesmo se encontrava deitado em uma rede na imensa varanda com piso de porcelanato. O braço engessado e os hematomas no rosto ainda eram recentes a ponto de sorrir causar dor.

— Você está horrível. – disse Eren.

— Obrigado. Eu só quase morri naquela universidade. Achei que seus garotos iriam me proteger.

— Você está vivo, não está?

Gustavo apontou para a própria cara enfatizando que não era bem aquele tipo de proteção que esperava. Dizem que a verdade é só uma história bem contada. A dessa era que o amigo de Eren ficara rico com a publicação de um livro causando um estrondoso sucesso que justificará os zeros na conta bancária de Gustavo quando na verdade era um engodo.

No ensino médio Eren começara com os vídeos sobre relacionamento e reflexões sobre a vida usando uma máscara e conforme fora ganhada notoriedade propôs um acordo com Gustavo: ele tomaria seu lugar e ficaria como o responsável pelo canal do youtube tendo Eren apenas escrever o roteiro dos vídeos. O que os dois não sabiam era que a coisa ficaria tão grande a ponto de fundarem uma maldita religião.

Assim, usando o dinheiro da seita da Verdadeira Libertação fizeram uma publicidade estrondosa sobre o livro que Gustavo tinha escrito e forçaram um sucesso falso, pois todas as milhares de cópias foram compradas por eles mesmos através de contas falsas na internet.

— Cadê a pirralha?

— A essa hora deve estar na minha cozinha atacando as latas de sorvete que coloquei no frízer.

— Finalmente chegou a hora de vocês saírem do país.

Gustavo arregalou os olhos e acenou com a cabeça.

Eren adentrou na mansão passando pelos corredores até a ampla cozinha de aço inox que todo rico metido gosta de tirar fotos. E tomando o sorvete de flocos direto no pote estava uma menina loira de cabelos channel, uns sete ou oito anos e que usava um vestido amarelo para combinar com os cabelinhos pintados.

— Gustavo vai te tirar daqui ainda hoje.

Ela o encara engolindo um monte da massa açucarada.

— Chegou a hora é?

— Egoinis me avisou que vai revelar tudo para Yekken.

A menina pousa a colher sobre a bancada e apoia os bracinhos encarando Eren.

— Como se saiu com a mulher da sua vida?

— Somos dois monstros frios e egoístas que agem com um senso deturpado de vida. Ela é minha cara metade sem dúvidas. Como fez isso? Como conseguiu fazer com que fossemos compatíveis?

Ela deu de ombros.

— Eu já te disse o que eu sou e como as coisas funcionam comigo. Posso te dar tudo o que quiser, desde que pague o preço.

Eren fitou a menina. Quando Egoinis contou o que era Incipere... ou melhor, quem era Incipere o rapaz imaginou que tipo de conversa poderia ter com aquele ser. É claro que a imagem da arma mais mortal já concebida era bem... peculiar. Lembrando do dia em que a retirou daquela prisão e a acomodou junto com Gustavo para esconder das generais aladas ele atentou-se bem para as palavras da baixinha.

— Um desejo? – perguntou Eren – quer dizer que você pode realizar qualquer desejo de qualquer pessoa?

— O que Egoinis te contou sobre mim?

— Que eu poderia conquistar o que almejo, mas que se eu não estivesse preparado... iria me arrepender para sempre.

Ela cruzou os bracinhos ajeitando os cabelos até então negros e longos.

— Então no fim ele se arrependeu das escolhas que fez. Bom, eu o adverti. Grandes mudanças exigem um grande preço. Quando Ego veio a mim ele era um homem com uma ambição e um forte desejo por melhorar o mundo baseado em seus ideias... só que não estava preparado para pagar o preço para isso.

— E que preço foi esse? O que exatamente você faz?

— Qualquer coisa que vocês desejem eu dou. Não importa o quão irracional, surreal ou abissal seja o pedido... eu o transformo em realidade neste plano no momento certo. Não é instantâneo, leva tempo dependendo do pedido.

— E o preço?

— O pagamento é o equilíbrio. Se pedir por algo que afete a vida de muitas pessoas uma parcela considerável da sua vida será exigida.

— E se eu for imortal?

A menina sorriu.

— A vida não é tão simplória quanto o passar dos anos, menino.

Ser chamado de menino por uma criança era contraditório, mas Egoinis disse que Incipere era uma entidade de bilhões de anos.

— Egoinis pediu a chance de mudar as diretrizes de como o mundo dos humanos eram administrados, ele queria que a humanidade de outros planetas conseguisse se desenvolver muito mais rápido do que a velocidade natural e é claro, ele pediu para poder assistir isso. Eu dei isso.

— Egoinis perdeu a batalha contra as generais e passou cem mil anos preso. Não sei se o acordo de vocês foi muito bom.

Ela apontou para Eren.

— É aí que está. Para ter seu desejo realizado, ele teve de pagar um alto preço. Cem mil anos de isolamento para um humano despreparado é o inferno. Mas, o que ele pediu transformou a vida de milhões, bilhões em um inferno.

A menininha abriu os braços.

— Entendeu?

Eren ficou calado compreendendo lentamente o que ela propunha.

— E você? Também se deu mal pois foi presa junto.

Ela pisca várias vezes e depois sorri.

— Entendi. Você ainda não entendeu o que eu sou. Entenda: eu sempre vivencio o que desejo. Não há nada de “ruim” porque “ruim” é meramente um julgamento de uma mente fraca. Eu ficar presa por tanto tempo nunca me foi um martírio, foi um bom tempo para ficar comigo mesmo afinal eu tinha a certeza de que seria libertada. Esse é o truque, Eren. Sua mente aceitar que tudo a sua volta é algo bom. As experiências “ruins” não são ruins, são experiências. Apenas isso.

Essa ideia não conseguia ser aceita por Eren. Como a morte dos pais dele não poderia ser ruim?

— E as generais te querem presa por quê? Porque não te usaram?

— Por que eu concedo os desejos de todos sem distinção. Elas mergulharam num ambiente de caos pois não é possível controlar quem tem a liberdade para ter o que desejar. Elas me temem já que sou a ruína de toda a “ordem”.

Agora de volta a cozinha Eren compreendia a verdade sobre Incipere. Ela realmente conseguia realizar qualquer desejo não importa o quão absurdo ele parecesse. O problema sempre foi o preço. Egoinis disse que nunca se arrependeu do acordo que fez com essa garotinha, mas isso é mentira. Qual é o sentido de ter uma ambição se ao obtê-la você não usufrui, não gosta?

Incipere toma mais um pouco do sorvete e aponta para ele.

— Ainda assim devo reconhecer que você é um humano diferente de Egoinis. Mesmo ele fez o que fez por um propósito maior, acreditava realmente que estava beneficiando a raça humana. Só que você... veja quantas pessoas matou, manipulou e traiu pelo quê? Vingança.

— Esse foi o preço que você me pediu, lembra? Destrua todas as peças do plano, queime todos os degraus que usou para subir até seu objetivo. Se fizer isso você o concluirá.

— Então vá e conclua seu objetivo.

***

Usando o celular Eren fingiu ser Egoinis e fez com que todos os “soldados” se reunissem na represa do assentamento municipal, um local afastado da cidade no setor rural, lá porém, já estava concentrando boa parte do exército dos alados que haviam recebido uma dica “anônima” sobre a movimentação das tropas de Egoinis que se preparavam para um ataque.

No entanto Natasha, Diego e Alector deveriam ir a uma cafeteria no centro porque era hora de confrontar Liana e Yekken. Eles tinham de ir sozinhos já que Egoinis possuía um plano perfeito para ser executado para pôr um fim as generais restantes.

A dica anônima que falara sobre o exército na represa também havia informado sobre a presença dos três cientificando que um deles era o responsável pela derrota dos alados no campus da faculdade.

Liana não hesitou em ir.

***

— E então? – disse Alector com a lança na mão – manipulou aqueles que acreditavam em você, traiu todos só pelo quê? Nem sua vingança você conseguiu, já que eu matei Liana.

Eren olhou para Alector e sorriu.

— Traição, morte, manipulação... é verdade. Eu fiz tudo isso, mas o principal é que eu sou um grande mentiroso... mesmo essa adaga de ouro que está na sua cintura não é o que pensa.

— O quê?

Eren riu voltando a olhar para o céu.

— Ela não tem o poder para converter a escuridão na alma das pessoas em alguma habilidade extraordinária derivada da energia do ego. Não é Incipere. Se eu estiver certo, Incipere já está do outro lado do oceano tomando mais sorvete.

Alector ficou confuso. Puxou a adaga.

— Mentiroso. Egoinis usou isso em mim e nos outros.

— É só uma faca comum foleada em ouro que eu paguei caro para fazer. O básico de uma boa mentira Alector... é fazer com que ela pareça verdade. Foi Incipere quem converteu a escuridão de vocês em suas habilidades extraordinárias, mas eu fiz parecer que era a faca porque não queria que soubessem o que Incipere realmente é. Foi um saco durante anos recrutar pessoas diferentes e pedir para aquela pirralha me ajudar, mas valeu a pena. Incipere concordou em livrar vocês da energia egoica e transformá-la em alguma coisa que a mente de vocês pudesse concretizar como “força”.

Alector balançou a cabeça na negativa.

— Está tentando me enganar para que eu não te mate.

— Não. – Eren suspira pesadamente – você não conseguiria nem se quisesse. Nossa... agora que eu penso, quantas mentiras eu já contei? – ele riu de novo – você ainda acredita que foi Egoinis quem fez o que fez? Que piada. Aquele homem nunca participou diretamente disso... ele é só alguém carente que desenvolveu um sentimento melancólico depois de milhares de anos isolado. O desgraçado até se casou e teve filhos. Humpf! Que audácia desejar uma vida simples, mas para um professor de universidade até que ele se saiu bem.

Alector se aproxima de Eren pondo a ponta da lança em seu pescoço.

— Do que está falando?

— Que eu planejo, minto e mato por meu objetivo há treze anos.

— Que objetivo!?

— Poder proteger a mulher que amo. Amerília.

— Você está louco? Quem é ela?

— Você a conheceu, até lutou com ela. Uma linda mulher de cabelos azuis e um gênio forte: Liana Noviris Amerília.

Alector joga a lança fora e se abaixa pegando Eren pelos cabelos para encará-lo bem de perto.

— Ela está morta. Eu a matei algumas horas atrás.

O sorriso de Eren aumentou.

— Tem certeza? Como eu disse... eu sou um grande mentiroso.

***

Yekken veio sozinha ao endereço que recebera. Trazer algum guarda ou qualquer outro soldado seria inútil, a força dela seria suficiente para lidar com Egoinis. Ela estava igualmente preocupada era com as informações sobre os guerreiros do ego no centro da cidade. Por que três deles estariam lá enquanto o exército tinha se reunido tão longe? Quando soube que a batalha da represa havia terminado com uma vitória esmagadora dos alados a general se pegou totalmente confusa sobre o que estava acontecendo.

Liana teria de dar um jeito de enfrenta-los até ela averiguar esse encontro marcado com Egoinis. Nada daquilo fazia sentido.

Era uma bonita casa, de um andar com um muro branco e cinza e portões de metal brancos. A porta da frente estava encostada e a general avançou observando o gramado, alguns brinquedos d criança esparramados pela varanda. Ela seguiu em direção a entrada quando uma cabeça apareceu de repente.

— Ah! Finalmente chegou.

Por instinto ela levou a mão a espada.

A cabeça na porta veio junto com um corpo. Era um homem magro de camiseta cinza larga, calça de pano e chinelos havaianas. A cabeça com o cabelo ralo, a barba desgrenhada que desciam até o pomo de adão e os óculos quase de fundo de garrafa revelavam uma figura comum. A general teve de observar bem a fisionomia para ter certeza de que era...

— Egoinis?

— Yekken. Faz mesmo muito tempo. Vamos entre, acabei de fazer um café. Ah, e pode guardar essa espada, acredite. Não sou eu seu inimigo.

Ela guardou a espada, sentou-se numa mesa perfeitamente preparada com xícaras, um bule de café, pão de queijo e algumas rosquinhas. A sua frente o homem colocava o café nas xícaras falando causalmente sobre a louça requintada da esposa e como as duas filhas já tinham quebrado metade delas.

A mente de Yekken estava a mil. Ela tentou de todo modo achar uma armadilha, algum truque só que a simplicidade daquela reunião revelava nada além do que aquilo era: um café entre dois adultos no fim de tarde.

— Egoinis... o que é isso? O que aconteceu com você? Parece...

— Velho? – ele entregou a xícara cheia para ela – é... acontece quando se é mortal.

— Mortal? O quê? Como assim?

Ele bebericou um pouco do café e ajeitou os óculos.

— Será uma conversa longa, por isso aproveite o café. Ah e as rosquinhas estão ótimas, é de uma padaria ali na esquina. São divinas.

Yekken não tocou em nada esperando o homem falar.

— Então... o que quer saber primeiro?

A mente da general estava confusa, totalmente atônita. O inimigo que mais aterrorizou seu povo, que causou um grande desastre em toda raça humana... o ser que se tornou imortal ao usar o poder daquela garotinha diabólica... o homem que ela mais desejou matar na vida estava ali na sua frente bebendo café.

— Como... como escapou daquela prisão?

Egoinis franziu o cenho.

— Ah sim... bom, vamos pelo começo. Digamos que tudo começou quando uma criança apareceu diante de mim treze anos atrás naquela floresta.

Notas finais
"O dilema do Porco Espinho" é um livro escrito por Leandro Karnal. Recomendo muito! :D