A eterna guerra contra si mesmo.
19 Amerília é linda.
Notas iniciais
Eren desviou da lança segundos antes da ponta penetrar sua carne, ele desviou para a esquerda num movimento ágil se pôs de pé acertando um soco no rosto do oponente que foi lançado para o outro lado da rua chocando-se contra o muro de uma residência. Caminhando lentamente até lá, ignorando a multidão que se aglomerava com cuidado dos estragos provocado pelos dois Eren viu Alector sair do meio dos destroços limpando a camiseta da poeira e da sujeira. Ao fundo era possível ouvir as sirenes da polícia e dos bombeiros.
— Liana não está morta? – perguntou Alector pulando na calçada andando em direção ao inimigo no meio da rua – você é o responsável por tudo o que está acontecendo agora? Acha mesmo que dá para acreditar numa mentira dessas?
Eren suspira em desânimo.
— Por que eu mentiria para um moribundo? Seus poderes, sua liberdade, sua autonomia de sua mente são graças a mim. Frequentar aquele consultório psiquiátricos por anos me serviu para reunir algumas mentes desesperadas que funcionariam bem como peões para chegarmos aonde chegamos.
A expressão de Alector se tornou sombria.
— Natasha e Diego se importam muito com você para chamá-los de peões.
Eren cruza os braços.
— Escute, posso aceitar o papel de vilão. Posso aceitar ser o monstro frio que sou, embora não me dê prazer de usar as pessoas isso foi algo que tive de fazer e faria novamente.
Eren abre os braços olhando para a faixa suja no braço direito.
— Não é que eu seja ruim, não há satisfação no sofrimento alheio para mim... só que não há empatia também. Incipere garantiu-me que eu me ligaria a Liana no momento certo, que nos uníssemos se eu fosse paciente e fizesse tudo ao meu alcance para atingir tal objetivo.
As viaturas da polícia começaram a chegar aos montes e as pessoas a volta começaram a apontar para os dois garotos conversando no meio da rua. Quando um policial se aproximou para uma abordagem sua cabeça foi decepada magicamente caindo ao lado do corpo no chafariz de sangue. Os colegas vendo a brutalidade sacaram as armas e começara a gritar ordens para os rapazes.
— E que porra você ia querer se ligar a Liana? Qual sua obsessão em fazer a união com ela?
— Somente com essa união é possível sermos um. É possível que nossos sentimentos sejam compartilhados e eu veja o que ela mais ama e o que realmente sente.
Alector balançou a cabeça na negativa.
— Ela está morta. Minha lança perfurou seu peito.
Nesse momento Eren não pode conter o sorrisinho.
***
Horas atrás.
Natasha, Diego e Alector haviam se reunido num cafeteria no centro da cidade por recomendação de Egoinis. Eles comiam, bebiam e conversavam sem desconfiar que toda a área estava sendo cercada por mais soldados de Liana. A general estava no outro quarteirão olhando as imagens pelo celular da vigilância que faziam dos três. Sentada num barzinho ela tomava uma caneca de chopp a frente de Eren.
— Então... o tal Egoinis oferece os aliados de bandeja e você traz duzentos alados para o meio da cidade em pleno horário comercial... quer um banho de sangue?
Liana abaixa o celular e o encara.
— Se me fosse possível vir sozinha eu viria, não quero mais arriscar a vida dos meus companheiros. Todos os alados que estão aqui fazem parte do meu reino e metade do que estavam no campus daquela faculdade. – ela morde o lábio – só que esse Alector detém de uma força descomunal. Atacar as cegas sem um plano é suicídio.
Eren tomou um gole do refrigerante.
— E qual é o plano?
— Vamos separar os três. Meus soldados vão enfrentar os outros dois e vou levar a luta contra Alector para perto da chácara onde estávamos. Lá há três blocos de energia codificados para uma prisão. Se não posso mata-lo num combate direto, me resta prendê-lo. E é isso que vou fazer, vou prendê-lo e tortura-lo por anos pelo que ele fez.
Eren a encarou em silêncio por tempo o bastante para força-la a perguntar:
— O que foi?
— Nada. Só me assusta em ver o quão você se importa com seus soldados.
— Não só com eles, mas com todos do meu reino. – ela hesita engolindo seco – você... talvez pudesse vir comigo.
— Hã?
— Ainda há muito que preciso... não sei, acho que você é estranho demais para eu deixa-lo aqui... sem... digo, eu... ah droga! Você comigo para meu reino quando terminarmos, ok?! Pode abandonar esse mundo medíocre e não quero ouvir reclamações.
Eren a viu ficar sem graça e isso o fez dar risadas.
— Quer levar um soco?
Ele ergue as mãos para cima num sinal de rendição.
— Não, está tudo bem. Ok. Eu vou contigo.
Ela pisca várias vezes não entendendo a aceitação do rapaz.
— Fácil assim?
— Para você me querer por perto deve ser por um motivo muito grande.
Liana hesitou. Não poderia contar a ele sobre o acidente de avião. Se Eren soubesse que foi ela quem causou a morte de seus pais e quase toda sua família a união talvez sofresse complicações e ela perdesse sua estrutura física nesse mundo. Não era o momento... talvez nunca fosse. Eren não precisava saber daquilo, não é?
— Aqui. – ele estende um colar de cordão metálico com uma pedrinha azul.
— Que porcaria é essa?
— Uma bijuteria. Paguei R$ 3,50 numa lojinha de importados.
Liana pega o presente.
— Será que não viu que eu não uso joias?
— Eu sei, mas não precisa pendurar no pescoço. Basta carregar junto do corpo o tempo todo... é uma pedrinha especial.
Liana faz sua melhor cara de cética, mas aceita o presente pondo no bolso da calça.
***
O plano era separar os três e conseguir levar a luta contra Alector para longe dali. Infelizmente os planos nunca saem conforme desejado porque o inimigo não tende a colaborar. Alector destruiu uma área de quatro quadras e incendiou boa parte do centro na luta contra Liana, por fim perfurou seu peito com a lança e retirou Eren de lá pela mera curiosidade de saber por que os colegas Natasha e Diego gostavam tanto dele.
Bom... até mesmo os planos simples de Alector não deram certo porque o inimigo não tende a colaborar.
***
— Liana está viva – rebateu Eren.
Os policiais berravam com as armas apontadas para os dois e Alector apenas ergueu o braço direito fazendo seus crânios afundarem seus cérebros liquefazendo o órgão numa hemorragia que os tombou de imediato. Ele fez isso sem tirar os olhos de Eren.
Era fato que suas técnicas não funcionavam no rapaz porque ele em teoria foi libertado por Incipere como Alector – por isso a história do garoto não deixava Alector com a paz da certeza de que o adversário estava mentindo.
— Então... se o que está dizendo é verdade... você fez tudo isso para se ligar a Liana?
— Eu gosto mais do sobrenome dela. Amerília é linda. Sim. Aguardei pacientemente por treze anos por esta oportunidade... algumas coisas não saíram como eu queria e o preço para essa união foi alto. Muito alto, mas é isso não é? Por um sonho, um objetivo, uma vingança pagamos qualquer preço.
— Vingança?
Eren acenou.
— Meu amor por Amerília é puro. Ela é a razão de eu não ter cedido a loucura durante todos esses anos, ela é o pilar que sustenta minha sanidade... ou deveria dizer que ela é o símbolo? Quero mostrar a Liana meu amor, mostrar como fomos feitos um para o outro.
Alector esboçou um sorriso irônico.
— Vai matá-la por que a ama?
— Matá-la? Não! Jamais. Um estranho como você nunca entenderia. Eu vou mostrar meus sentimentos mais ocultos... vou fazê-la ver quem realmente sou por detrás das máscaras. Não é isso que todos os humanos anseiam? Alguém para quem possam ser verdadeiros? Sem máscaras, sem fingimentos, sem julgamentos.
***
Egoinis tomou um gole de café e olhou para Yekken.
— Treze anos atrás enquanto eu meditava em minha solidão surgiu diante de mim um menino. Com as roupas chamuscadas, parte do corpo queimado e machucado parecia que eu via um boneco quebrado andando por conta da corda que ainda tinha em si.
— Uma criança? Treze anos atrás? – Yekken arregalou os olhos – Eren.
— Exato. – Egoinis arrumou os óculos. – seu olhar era vazio. Ele tinha andando por centenas de km e parecia poderia continuar andando por milhares ou milhões até cair morto.
— Ainda assim não explica como ele conseguiu passar pelas runas da sua prisão. Nada vivo pode penetrar ou sair de lá. É a cela mais bem feita já concebida por nós.
— Nada vivo... – Egoinis suspira em desânimo – Escute Yekken... quem construiu aquela prisão com certeza era um idiota. Vida e morte são coisas muito complexas para serem facilmente taxadas e interpretadas.
— O que quer dizer?
— O menino que surgiu diante de mim com certeza andava, respirava e se movia. Mas estava morto. Eu consegui penetrar em suas ligações de neurônios e acessar parte do cérebro e as imagens que vi foram... bom, algo que uma criança daquela idade nunca deveria ter visto. Para nós soldados é aceitável ver a carnificina da morte deteriorando a vida. Cortes, sangue, carne queimada. Morríamos por ódio ou dever o que torna a brutalidade do campo de batalha tolerável. Eren viu algo parecido e pelos motivos totalmente errados. Ele só sobreviveu a queda de avião porque seus pais instintivamente se jogaram para cima dele durante o acidente. E mesmo depois, nos destroços, o menino estava consciente para ver pessoas gritando em meio ao fogo que as consumia ou outras que berravam em meio ao sangue de ter uma parte do corpo decepada.
Ego olhou para o café preto na xícara.
— Podemos dizer que a mente dele morreu mediante ao trauma. O que ainda movia aquele corpo era nada mais do que... um vazio. As runas o deixaram passar por que Eren não estava vivo, não havia vida dentro daquele corpinho. Dentro de minha prisão eu pude estudá-lo por um dia inteiro e consegui identificar a codificação de tal estado. Tudo o que precisei fazer foi copiar e passar pela barreira.
Yekken ainda estava absorta.
— Se o que diz é verdade... como Eren se recuperou?
Egoinis abriu os braços.
— Olhe para mim, estou ficando velho. Como acha que isso aconteceu? Eu transferi meu fator de imortalidade para ele. Isso permitiu a mente reviver, mas com sérios danos. Digamos que... bom... o que voltou a vida não é nem de longe um humano comum. Um monstro frio, apático, o qual não consegue sentir qualquer empatia ou prazer por nada nesse mundo físico. E uma vez imortal, nem suicídio era opção. Perdido em um mundo cinza a agonia das memórias do acidente era a única dor que ele sentia. Até que...
Egoinis tira os óculos pondo sobre a mesa.
— Até que... o quê?
— Eu contei a ele sobre Incipere e sobre como Liana causou o acidente da morte de seus pais.
Fale com o autor